Língua aramaica nabateia
O Aramaico nabateu é a variedade extinta do aramaico usada em inscrições pelos árabes nabateus da margem oriental do rio Jordão, do Negueve e da Península do Sinai. Em comparação com outras variedades do aramaico, destaca-se pela presença de numerosos empréstimos lexicais e gramaticais do árabe ou de outras línguas norte-arábicas antigas.
Origem e classificação linguística
Com o colapso do Império Aquemênida (década de 330 a.C.), o aramaico perdeu importância como língua franca do Oriente Próximo. O grego coiné passou então a coexistir com ele. A cultura escrita anteriormente unificada fragmentou-se em escolas locais, e os antigos vernáculos passaram a adquirir maior relevância como línguas escritas. O aramaico nabateu foi uma dessas variedades locais. A língua das inscrições nabateias, atestada a partir do século II a.C., é próxima do aramaico imperial do Império Aquemênida, mas apresenta desenvolvimentos locais. Entre as poucas inovações em relação ao aramaico imperial, o uso do marcador de objeto yt é uma característica do aramaico ocidental, embora a forma mais antiga ʔyt já ocorra no aramaico antigo. Como o aramaico nabateu também não participa das inovações típicas do aramaico oriental, ele é comumente classificado como pertencente ao ramo ocidental.
Atestação
Evidências de textos nabateus podem ser encontradas nas inscrições funerárias e dedicatórias das cidades de Petra, Bostra e Hegra. Muitas inscrições mais curtas foram encontradas no sul da Península do Sinai, bem como em outras áreas que em determinado momento estiveram sob domínio dos reis nabateus. Vários textos nabateus escritos em papiro foram descobertos em Naal Hever. A inscrição nabateia mais antiga foi encontrada em Elusa, no Negueve. A inscrição menciona “Aretas, rei dos nabateus”, interpretado por Joseph Naveh como Aretas I, um governante árabe junto ao qual o sumo sacerdote judeu Jasão teria buscado refúgio em Petra em 169 a.C.. Essa inscrição carece de algumas características nabateias e se assemelha ao aramaico imperial uniforme e à escrita judaica. Por esse motivo, alguns estudiosos propõem que a mais antiga inscrição verdadeiramente nabateia seja uma encontrada em Petra, na Jordânia, datável do final do Período Helenístico, nos anos de 96 ou 95 a.C..
Declínio
Desde o período de sua atestação mais antiga, o aramaico nabateu destaca-se pelo uso de empréstimos lexicais e gramaticais do árabe ou das línguas norte-arábicas antigas, refletindo um contato intenso com essas línguas. Uma inscrição nabateia do século I ou II, proveniente de Eine Avedate, contém inclusive três versos de poesia árabe, cujo significado é objeto de debate. A partir do século III, a escrita nabateia passou a ser cada vez mais utilizada para redigir textos em língua árabe. Exemplos notáveis incluem o epitáfio misto aramaico–árabe de Racoxe, filha de Abdemanoto (JSNab 17), e a inteiramente árabe inscrição de Namara. Segundo Jean Cantineau, esse processo marcou o início do fim do uso generalizado do aramaico nabateu, que acabou sendo substituído pelo árabe. Durante essa transição, “o nabateu parece ter-se esvaziado pouco a pouco dos elementos aramaicos que possuía, substituindo-os sucessivamente por empréstimos árabes”. Embora amplamente reconhecida, essa teoria é contestada. Michael Patrick O'Connor questionou os supostos empréstimos árabes identificados por Cantineau, afirmando que eles se restringem em grande parte a termos técnicos. Mais recentemente, Aaron Butts argumentou que o uso do aramaico nas inscrições funerárias de Hegra, no norte da Arábia Saudita, reflete uma aprendizagem imperfeita por falantes nativos de uma língua norte-arábica.
Decifração, documentação e descrição
A existência de milhares de grafites nabateus no deserto do Sinai, originalmente designados como “sinaíticos”, é conhecida há muito tempo. Com base na decifração anterior de Jean-Jacques Barthélemy de escritas aparentadas — como a palmirena, a fenícia e o aramaico imperial representado na Estela de Carpentras —, Eduard Friedrich Ferdinand Beer publicou em 1840 sua leitura da escrita nabateia. Textos de extensão variada continuaram a ser descobertos e publicados por estudiosos europeus ao longo dos séculos XIX e XX. Esse período também assistiu à publicação da gramática do aramaico nabateu de Cantineau e de seu léxico com textos exemplares. Descobertas importantes posteriores incluem os documentos jurídicos escritos em papiro encontrados na Caverna das Cartas de Naal Hever na década de 1960. Outras publicações relevantes são a edição de 1993 das inscrições funerárias de Hegra por J. Healey e a coleção de textos bilíngues aramaico nabateu–grego publicada por G. Petrantoni em 2021. Novas inscrições continuam a ser publicadas com grande frequência.
A escrita nabateia caracteriza-se por um estilo cursivo. Isso é ainda mais evidente nos poucos textos conhecidos escritos com tinta, que utilizam uma forma mais desenvolvida da escrita. O alfabeto nabateu propriamente dito desenvolveu-se a partir do alfabeto aramaico imperial. Ele tornou-se o precursor do alfabeto árabe, que se desenvolveu a partir de variantes cursivas da escrita nabateia no século V. Durante muito tempo, os estudiosos dividiram-se quanto às origens do alfabeto árabe. Uma escola de pensamento (hoje marginal) deriva o alfabeto árabe do alfabeto siríaco, que também teve origem no aramaico imperial. A segunda corrente, liderada por Theodor Nöldeke, atribui a origem do alfabeto árabe à escrita nabateia. Essa tese foi confirmada por John Healey em seus estudos sobre os alfabetos siríaco e árabe.
Segundo Cantineau, o aramaico nabateu possuía os seguintes sons consonantais: Em outros dialetos contemporâneos do aramaico, [f], [θ], [x], [v], [ð] e [ɣ] são alofones pós-vocálicos de /p/, /t/, /k/, /b/, /d/ e /g/, respectivamente; contudo, segundo Cantineau, não é possível estabelecer se isso também se aplica ao nabateu. As sibilantes surdas /s/ e /ʃ/ por vezes se confundem na escrita. O fonema /s/ também alterna com /ɬ/, o qual era grafado com o mesmo sinal que /ʃ/ (uma prática que remonta ao período do aramaico antigo). Cantineau afirma que o valor fonético desse som é incerto e sugere que possa ter sido palatalizado; a realização como fricativa lateral é defendida em estudos posteriores. As evidências quanto à preservação das fricativas uvulares /χ/ e /ʁ/ ou à sua fusão com as faríngeas /ħ/ e /ʕ/, como ocorre em variedades posteriores do aramaico, são inconclusivas.[a] Como a escrita nabateia não indica vogais breves, as únicas informações sobre os fonemas vocálicos provêm de nomes em transcrições estrangeiras. No entanto, esses nomes são geralmente de origem árabe e, portanto, pouco informam sobre o aramaico nabateu. O ā longo do proto-aramaico é por vezes grafado com uma mater lectionis w, como em ʔināš > ʔnwš ‘ser humano’, θamānā > tmwnʔ ‘oito (masc.)’. Isso pode indicar uma mudança de pronúncia para um ō arredondado.
Pronomes
Os pronomes pessoais independentes da terceira pessoa atestados são o masculino singular hw (raramente hwʔ), o feminino singular hy e o masculino plural hm. Esses pronomes também funcionam como demonstrativos. Os documentos jurídicos encontrados na região do Mar Morto também atestam o pronome de primeira pessoa do singular ʔnh e o de segunda pessoa do masculino singular ʔnt. O pronome sufixado de primeira pessoa do plural é -nʔ. Diferentemente de muitos outros dialetos do aramaico, que apresentam simplesmente -(a)n, o nabateu preserva aqui a vogal final -ā, indicada pela mater lectionis ʔ. O pronome sufixado da terceira pessoa do masculino singular é normalmente -h. Após vogais longas e ditongos (ambos marcados por matres lectionis), emprega-se -hy, como em ʔbwhy ‘seu pai’, ywmwhy ‘seus dias’. Em grafites tardios, essa distribuição deixa de ser regular, e também aparecem outros sufixos, -hw e -w. O pronome sufixado da terceira pessoa do feminino singular é sempre -h, e o da terceira pessoa do plural (usado tanto para masculino quanto para feminino) é -hm.
Verbos
Como em outras línguas semíticas, o aramaico nabateu atesta diversos temas verbais (básicos e derivados). Com base na comparação com outras variedades do aramaico, é provável que os verbos ativos pudessem ocorrer nos temas G (tema básico), D (tema intensivo, caracterizado por vogais diferentes e geminação da segunda radical) ou C (tema causativo, caracterizado por vogais diferentes e por um prefixo). Em razão das limitações do alfabeto nabateu, os temas G e D não são distinguidos na escrita: cf. ʕbd ‘ele fez’ (tema G), qrb ‘ele se aproximou’ (tema D). A conjugação sufixal (ver abaixo) do tema C é marcada por um prefixo h-, como em hqym ‘ele ergueu’, ou por ʔ-, como em ʔqymw ‘eles ergueram’; a conjugação prefixal não pode ser distinguida na escrita do tema G ou D.
Substantivos e preposições
Os substantivos distinguem dois gêneros, masculino e feminino; dois números, singular e plural; e três estados, absoluto, construto e enfático. Substantivos femininos podem ser marcados por um sufixo feminino (-h, -w, -y) ou não apresentar marcação. O masculino é sempre não marcado. Diversas terminações expressam a combinação de número e estado. O sufixo feminino -h é substituído por -t no estado construto, que expressa posse por um substantivo seguinte ou por um pronome sufixado. O sufixo -t também é acrescentado no estado construto após os sufixos femininos -w e -y. Em outras palavras, o construto é idêntico ao estado absoluto no singular. Um conjunto de terminações de plural consiste em absoluto -yn (raramente -n) e construto -y (que se transforma em -w- antes do sufixo -hy), usados para substantivos masculinos e alguns femininos. Para outros substantivos femininos, a forma do plural construto é escrita da mesma maneira que o singular construto (embora o plural provavelmente fosse marcado por uma vogal longa ā, como em -āt-, ausente no singular; isso não é expresso na escrita); com base em outras variedades do aramaico, o sufixo absoluto esperado para esses substantivos é -n, mas ele não é atestado. Por fim, o estado enfático, que expressa definitude, é formado pela adição do sufixo -ʔ ao estado construto. O paradigma completo é, portanto, o seguinte (formas exemplificadas com mlk ‘rei’ e mlkh ‘rainha’; nem todas as formas são de fato atestadas):
Das duas conjugações verbais finitas, a conjugação sufixal pode expressar o tempo passado, como em dnh kprʔ dy ʕbd ... ‘este é o túmulo que … fez’, e o modo optativo, como em wlʕnw dwšrʔ wmnwtw wqyšh ... ‘e que Duxara e Manate e Caixá amaldiçoem …’. A conjugação prefixal expressa o tempo futuro, como em wmn ybʕʔ ... ‘e quem quiserá / quiser …’, e pode ser usada modalmente como subjuntivo, como em ... dy tʕbd bh ... ‘… para que ela faça disso …’, como condicional, como em hn yhwʔ ... bḥgrʔ ‘se … estiver em Hegra’, ou como optativo, à semelhança da conjugação sufixal, como em wylʕn dwšrʔ wmnwtw ... ‘e que Duxara e Manate amaldiçoem …’. Embora o objeto direto pronominal de um verbo raramente seja expresso por um pronome sufixado diretamente ao verbo, ele normalmente é anexado ao marcador de objeto yt que o segue. Se uma frase inclui um verbo, a ordem das palavras normal é verbo–sujeito–objeto(s), como em lʕnw (V) dwšrʔ wmnwtw wqyšh (S) kl mn dy ... (O) ‘que Duxara e Manate e Caixá amaldiçoem todo aquele que …’. Se uma frase não inclui verbo, ela é copulativa. Nesse caso, consiste em dois sintagmas nominais que funcionam como sujeito e predicado, como em dnh (S) kprʔ ... (P) ‘este é o túmulo …’. As orações podem ser coordenadas pela conjunção w- ‘e, mas’. A maioria das orações subordinadas é introduzida pela partícula dy. As orações condicionais são introduzidas por hn ‘se’.
A maior parte do vocabulário básico nabateu foi herdada de estágios mais antigos do aramaico. Exemplos dessas palavras herdadas incluem ʔb ‘pai’, ʔm ‘mãe’, br ‘filho’, brt ‘filha’, dkr ‘macho’ e nqbh ‘fêmea’. Os empréstimos lexicais, contudo, também são comuns. Os empréstimos do árabe e do árabe norte-antigo receberam atenção especial. Palavras como ʔṣdq ‘herdeiro’ e kpr ‘túmulo’ podem ter sido tomadas do dadanítico. Entre os vocábulos considerados empréstimos do árabe estão ḥlyqh ‘costume’ (árabe ḫalīqah), lʕn ‘amaldiçoar’ (árabe laʕana) e ʕyr ‘outro que não’ (árabe ġayr). Os contatos do reino nabateu com estados helenísticos e com Roma também levaram ao empréstimo de certos termos do grego antigo, como ʔsrtg ‘general’ (grego stratēgós). Alguns desses termos derivam, em última instância, do latim, como qysr ‘César’. De estágios anteriores do aramaico, o nabateu herdou ainda alguns empréstimos do acádio: os empréstimos atestados são ʔpkl (um tipo de sacerdote; acádio apcalu, em última instância do sumério abgal) e šyzb ‘salvar’ (acádio šūzubu).


