Kibutz
O kibutz [quibúts] é uma comunidade agrária coletiva israelita inicialmente utópica, sem uso de meios de produção privativos, uma coletividade comunitária voluntária baseada nos princípios do sionismo trabalhista. Comunidade para proteção da crescente onda de antissemitismo na Europa na época.
As condições de vida do Império Russo na virada do século XIX para o século XX eram ruins para todos os súditos, mas ainda piores para os judeus. Causar a emigração de um terço dos judeus, o batismo de outro terço e a morte por inanição do terço restante era um objetivo oficial do Império.[carece de fontes]? Com a exceção de uma minoria de ricos, os judeus eram obrigados a viver na região fronteiriça chamada de cherta osedlosti (ou região de assentamento); e, mesmo dentro dessa, não podiam morar em cidades grandes como Kiev, ou tampouco em vilarejos com menos de 500 habitantes. Para aqueles que se aventuravam a chegar à capital Moscou, a polícia local estabeleceu recompensa para a captura de um judeu com valor equivalente à da captura de dois ladrões. (Dubrow, Vol III) O número de judeus convocados para o exército do tzar era desproporcionalmente alto. Enquanto em outros países todos os militares eram tidos como dignos de honrarias, esses soldados judeus eram vítimas de profunda discriminação. Por exemplo, ainda que o serviço militar os levasse para longe da cherta osedlosti ou até mesmo para o extremo oriente russo, esses soldados eram obrigados a retornar para a região de assentamento quando em dispensa. Além disso, durante a Guerra Russo-Japonesa, vários juízes ucranianos aproveitaram-se da ausência dos soldados judeus para livrar-se de suas famílias, baseando-se em uma lei que permitia a expulsão de famílias judias sem um chefe homem que lhes garantisse o sustento. Essa última agressão foi de fato tão extremada que o governo russo opôs-se a ela; mas os termos da reprimenda do general Vyacheslav Plehve a seus subordinados eram claramente discriminatórios: "as famílias dos judeus convocados devem ser deixadas onde estão "até o fim da guerra" (ibidem)"
Os pogrom surgiram novamente na Rússia nos primeiros anos do século XX. Em 1903 em Kishinev as massas campesinas eram incitadas a agir contra os judeus depois de um massacre que ficou conhecido como o primeiro pogrom de Kishinev. Revoltas aconteceram de novo logo após a derrota da Rússia na Guerra Russo-Japonesa e na Revolução de 1905. A ocorrência de novos pogrom inspiraram a emigração de outra leva de judeus russos. Na década de 1880, a maioria dos emigrantes ia para os Estados Unidos e a minoria, para a Palestina. Era a geração que incluiria os fundadores dos kibutzim Como os membros da Primeira Aliá que vieram antes deles, a maioria dos membros da Segunda Aliá queria ser fazendeiro na Palestina. Aqueles que viriam a fundar os kibutzim dirigiram-se em primeiro lugar a um dos vilarejos antigos dos Biluim, Rishon LeZion, em busca de trabalho. Os fundadores do primeiro kibutz ficaram moralmente arrasados com o que viram entre os colonos judeus do vilarejo "com seus supervisores judeus, trabalhadores camponeses árabes e guardas beduínos." Viram as novas vilas e recordaram-se dos lugares que haviam deixado no leste europeu. Ao invés do começo de uma comunidade judaica pura, sentiram que haviam visto a recriação da estrutura socioeconômica judaica dos Assentamentos, onde os judeus trabalhavam em empregos limpos, enquanto outros grupos étnicos faziam o trabalho sujo. (Gavron, 19)
O fim do Império Otomano, logo após a I Guerra Mundial, e o início do Mandato Britânico da Palestina foram bons para os yishuv e os kibutzim. As autoridades otomanas tinham tornado a imigração para a Palestina difícil para os judeus, pois faziam com que a compra de terras fosse problemática. Isso afetava os muçulmanos e cristãos, para além dos judeus. Os otomanos eram também péssimos administradores. Apesar da mudança de governo na Palestina, os kibutzim e toda a yishuv cresceu como resultado do aumento do antissemitismo na Europa. Em contraste com a previsão antissionista que os judeus tinham feito antes da I Guerra Mundial, a disseminação de ideias liberais não era irreversível e a posição de judeus em muitas sociedades da Europa Central e do Leste realmente se deteriorou. Os judeus sofreram severamente na Guerra Polonesa-Soviética e na Guerra Civil Russa. Apesar de as mortes serem pouca coisa se comparadas com o derramamento de sangue da I Guerra Mundial que se seguiu, os pogrom de 1918-1920 realmente fariam os pogrom dos anos 1880 e 1900 parecerem de pequena monta.
No período Otomano, a principal preocupação dos Kibutzim era a violência criminal e não a violência política. Dado o pequeno número de judeus no país naquela época, a hostilidade árabe era residual, situação que se alterou após a Declaração de Balfour. Esta originou uma nova onda de judeus em direcção à Palestina, o que desequilibrou o balanço demográfico da região originando protestos sangrentos antijudaicos em Jerusalém em 1921 e em Hebron em 1929. No final dos anos 1930, a violência árabe-judaica tornou-se permanente, levando a que esse período fosse chamado de "Época do Grande Levante" na historiografia palestina. Durante o Grande Levante, os kibutzim começaram a assumir um papel militar mais previdente do que tinham anteriormente. Armas foram compradas ou fabricadas e mais membros de kibutz executavam manobras e exercícios militares para além de praticarem tiro. Yigal Allon, um soldado israelense e político explicou o papel dos kibutzim nas atividades militares da yishuv.
Os kibutzim em um Israel independente
O estabelecimento de Israel e uma onda de refugiados judeus vindos da Europa e do mundo muçulmano apresentaram desafios e oportunidades para os kibutzim. A onda de imigrantes deu aos kibutzim uma oportunidade de se expandirem através de novos membros e com mão de obra barata, mas também significava que os kibutzim ashkenazi teriam que se adaptar aos judeus cujas raízes eram muito diferentes das suas.
Ideologia do movimento kibutz
Os membros da Primeira Aliá eram religiosos, mas os membros da Segunda Aliá, dos quais os fundadores de Degania eram uma pequena subseção, não eram. Apesar de que estavam se assentando na terra da Bíblia, esses jovens eram o tipo que frequentava a sinagoga. Em suas mentes, o judaísmo ortodoxo era um empecilho ao povo judeu. O espiritualismo dos pioneiros do movimento kibutz consistiam de sentimentos místicos sobre trabalho judaico, articulados por sionistas como Berl Katznelson, que disse, "onde quer que o trabalhador judeu vai, a divina presença vai com ele." (Segev, 55) Em adição à redenção da nação judaica através do trabalho, também havia um elemento de redenção de Eretz Yisrael, Palestina, na ideologia do kibutz. Na literatura antissionista que circulava pela Europa Oriental, Palestina foi ridicularizada como "dos gepeigerte land"—"o país que morreu". Os membros do kibutz tinham prazer em trazer a terra de volta à vida plantando árvores, drenando pântanos e incontáveis outras atividades que fizeram com que a terra ficasse mais fértil. Quando solicitando doações, os kibutzim e outras atividades de assentamento sionistas apresentavam a si mesmas como "fazendo o deserto florescer".
Vida dos Kibutzikim
O princípio de igualdade era levado extremamente a sério até o final da década de 1970. Os Kibutzniks, individualmente, não possuíam animais, ferramentas ou mesmo roupas. As prendas e os proveitos recebidos do exterior eram entregues à Tesouraria da Comunidade. Se um membro do Kibutz recebesse uma prenda numa qualquer ida ao exterior, como por exemplo a visita a um familiar dentista ou um passeio custeado por um parente, haveria uma discussão nos encontros ao serão acerca da propriedade da prenda ou do acto de aceitá-la. A chegada de crianças a um kibutz recém-criado apresentava alguns problemas. Se tudo era partilhado igualmente pelos Kibutzniks, quem ficaria responsável pelas crianças? A resposta a esta questão era dada atribuindo a responsabilidade das crianças a todos, ao ponto das mães amamentarem crianças que não eram suas. Em geral, a chegada de crianças aos kibutzim era uma experiência inesquecível.
Aspectos psicológicos
Na era independente de Israel, os kibutzim atraíram o interesse de sociólogos e psicólogos que tentavam responder à pergunta: Quais eram o efeitos de uma vida sendo criado à parte de seus pais? Dois pesquisadores que escreveram sobre a vida psicológica nos kibutzim foram Melford E. Spiro (1958) e Bruno Bettelheim (1969). Ambos concluíram que uma criação no kibutz levava os indivíduos a terem maior dificuldade em manter compromissos emocionais fortes mais para a frente, como se apaixonar ou formar uma amizade duradoura. Por outro lado, aparentemente eles acham mais fácil ter um grande número de amigos sem grande envolvimento emocional e uma vida social mais ativa.
O kibutz e o desenvolvimento das crianças
Apesar de relatos de jornalistas individuais ou repórteres, existe uma grande estrutura de pesquisa empírica lidando com o desenvolvimento das crianças nos kibutzim. Esse tipo de pesquisa tem sido crítica em relação à maneira que as crianças são criadas em um Kibutz. Em um estudo de 1977, Fox comparou os efeitos da separação vivida por crianças de kibutz quando removidas de suas mães, comparado com a remoção de seus metapelet (aqueles que cuidam das crianças em Kibutzim israelenses são chamados de metapelet). Descobriu que a criança demonstrava perturbação na separação em ambas as situações, mas quando reunidas crianças eram significativamente mais ligadas às suas mães do que ao metapelet. As crianças protestavam em relação a uma separação subsequente de suas mães quando o metapelet era reapresentado a elas. Contudo, as crianças dos kibutzim tinham em comum grande ligação com seus pais se comparado com aquelas que eram mandadas para os internatos, porque em um kibutz a criança passa três horas todos os dias com seus pais.
A economia do kibutz
Os kibutzim em seus primeiros dias tentaram ser auto-suficientes em todos os produtos agrícolas, dos ovos aos laticínios, das frutas às carnes. Durante a experiência, os kibutzniks descobriram que a auto-suficiência era impossível. Os kibutzniks também não eram auto-suficientes em se tratando de investimento de capital. Na fundação de um kibutz, quando ele seria aberto em uma terra pertencente ao Fundo Nacional Judaico; para expansão, a maior parte dos kibutzim eram dependentes de subsídios de caridade ou do Estado de Israel. A maioria dos subsídios tomaram forma de empréstimos com baixas taxas de juros ou água com desconto. Em Israel, quando as taxas de juros estavam rotineiramente na casa dos 30 por cento até aos anos 1990 e onde a água é cara, esses presentes vinham certamente de bom tamanho.
Declínio do movimento kibutz
Os kibutzim foram gradualmente e estavelmente se tornando menos coletivistas nos últimos vinte anos. Ao invés do princípio de "de cada um de acordo com sua habilidade, para cada um de acordo com sua necessidade", os kibutzim adotaram "de cada um de acordo com suas preferências, para cada um de acordo com suas necessidades". As primeiras mudanças a serem feitas foram nos utensílios e no refeitório. Quando a eletricidade era "gratuita", os kibutzniks não tinham incentivo para poupar energia. As pessoas deixavam o ar-condicionado ligado constantemente. Nos anos 1980, os kibutzim começaram a medir o uso de energia. Tendo os kibutzniks que pagar pelo uso de energia, requeria que eles de fato tivessem dinheiro pessoal. Assim houve o retorno de contas pessoais.
Perspectiva
O final da década de 1980 e começo da de 1990 foram uma época má para o movimento kibutz uma vez que a população de kibutz envelheceu e diminuiu, apesar de que ainda houvesse áreas vibrantes no movimento. Naquela época, diversos novos kibutzim foram fundados no Arava, no extremo sul de Israel, próximo a Eilat. Um kibutz de Arava de destaque é o Kibutz Samar, apesar deste kibutz em particular ter sido fundado em 1976. O Kibutz Samar não se intitulava um kibutz anarquista, mas, na prática, era isso que era. Ao invés de membros serem designados para as várias tarefas, os membros trabalham onde eles sentem que são necessários, sem nenhuma seleção formal. O Kibutz Samar ainda possui um caixa aberta. O Kibutz Samar mantém uma confiança entre membros que é raramente vista em outros kibutzim.
Legado
Em sua história da Palestina sob o Mandato Britânico, One Palestine, Complete, o pós-sionista Tom Segev escreveu do movimento kibutz: A visão de Segev pode ser cínica, mas é correto em dizer que a história de Tel Aviv, na qual, coincidentemente, foi fundada no mesmo ano que Degania, poderia ser muito mais representativo da experiência do yishuv que das histórias dos kibutzim. Os kibutzim foram criticados por falharem em viver de acordo com seus princípios. A maioria dos kibutzim não são autossuficientes e têm que empregar não membros do kibutz como trabalhadores do campo (ou mais tarde trabalhadores de indústria). O que foi particularmente controverso foi o emprego de mão de obra árabe enquanto excluía deles a possibilidade de unirem-se ao kibutz como membros plenos.


