Amilaítas
Os amilaítas ou Banu Amila foram uma tribo árabe historicamente associada ao sul do Levante. As tradições genealógicas árabes classificaram-nos entre os árabes meridionais, atribuindo-lhes ascendência de Calã, e relacionaram-nos estreitamente aos judamitas e a outras tribos catanitas. Sua história mais antiga permanece obscura: fontes árabes preservaram tradições que os vinculavam aos amalequitas, ao Iraque e à Síria dos séculos anteriores ao domínio romano tardio, enquanto evidências epigráficas foram utilizadas para propor possíveis conexões com grupos mencionados na Mesopotâmia assíria e em Palmira. Nenhuma dessas identificações, contudo, permite estabelecer com segurança a origem ou a trajetória inicial da tribo.
Origens
Os amilaítas eram uma tribo árabe presente no sul do Levante antes do advento do islã. As tradições genealógicas árabes posteriores classificaram-nos entre os árabes meridionais e fizeram-nos descendentes de Calã. H. Lammens e W. Caskel consideram pouco confiáveis os relatos relativos ao passado mais remoto da tribo, que qualificam como antiga, e situam seu habitat pré-islâmico no noroeste da Península Arábica. Rihan, contudo, considera que os relatos tradicionais sobre o passado pré-islâmico dos amilaítas não podem ser completamente descartados, pois algumas de suas informações encontram possível apoio em evidências epigráficas e na reconstrução histórica. Ao abordar a história antiga da tribo, Rihan ressalta que ela permanece praticamente desconhecida e examina como sua possível menção mais antiga uma inscrição do rei assírio Tiglate-Pileser III, do século VIII a.C., conservada numa laje de Ninrude, na qual Amelatu aparece entre numerosos grupos submetidos pela Assíria. A inscrição inclui os Amelatu entre grupos que o texto identifica coletivamente como arameus das margens do Tigre, do Eufrates e do Surapi até as proximidades do golfo Pérsico. Rihan salienta, porém, que identificar esses Amelatu com os amilaítas é apenas uma hipótese especulativa e que a semelhança entre os nomes não basta para estabelecê-la. Observa que alguns dos grupos enumerados na inscrição possuem nomes que poderiam ter raízes árabes, embora os grupos mencionados tenham sido identificados por um especialista em história assíria sobretudo como arameus. Rihan considera possível que o próprio nome Amila tivesse origem aramaica, mas conclui que, sem novas evidências epigráficas ou arqueológicas, não é possível confirmar nem excluir a existência dos amilaítas já no século VIII a.C..
Período romano-bizantino
No século IV, os amilaítas provavelmente integravam a estrutura tribal vinculada à defesa da fronteira oriental do Império Romano. Shahîd inclui-os, ao lado dos judamitas e dos alcainitas, entre as antigas tribos do setor meridional do Oriente cuja presença pode ser reconstruída a partir das fontes árabes relativas às posteriores conquistas muçulmanas. O autor considera provável que esses grupos desempenhassem funções militares no sistema defensivo romano e sugere que sua associação pudesse remontar ao período nabateu. Rihan desenvolve essa reconstrução e considera que os amilaítas, sob domínio romano-bizantino, parecem ter se estabelecido numa nova região ao sul da Palestina e adquirido uma nova condição, funcionando como unidades militares entre os federados árabes e combatendo ao lado dos bizantinos na defesa do império. Situa amilaítas e judamitas no sul da província da Arábia e no território posteriormente denominado Palestina Tércia, atribuindo aos amilaítas uma área que se estendia de Aila ao sul até o mar Morto ao norte. A função dessas tribos consistia em auxiliar as tropas imperiais na proteção da região contra incursões de beduínos hostis. Rihan caracteriza esses grupos como seminômades, culturalmente mais próximos da sociedade tribal da Península Arábica do que das populações sedentárias da Síria e distintos destas tanto pela língua quanto pelo modo de vida, embora em sua maioria tivessem adotado o cristianismo monofisista.
Conquistas muçulmanas
Nas vésperas das conquistas muçulmanas, os amilaítas aparecem em diferentes episódios de confronto e aproximação com os muçulmanos. Shahîd menciona uma notícia de Albaladuri segundo a qual amilaítas participaram, juntamente com lacmitas e judamitas, de uma incursão contra Anre ibne Alás em Date Assalacil. Outra tradição, atribuída a Aluaquidi, inclui a tribo entre as forças que teriam sido reunidas por Heráclio para enfrentar os muçulmanos por ocasião da Expedição de Tabuque, em 630. Gil também registra que, segundo Aluaquidi, chegaram a Medina notícias de grandes concentrações do exército bizantino apoiadas por lacmitas, judamitas, gassânidas e amilaítas, enquanto Heráclio se encontrava nas proximidades de Hómece. Rihan interpreta esses episódios no contexto da restauração da autoridade bizantina sobre o sul do Levante depois da retirada persa. Segundo o autor, as fontes árabes são confusas e ambíguas quanto ao papel desempenhado pelas tribos árabes da Síria durante as conquistas e raramente fornecem informações diretas e detalhadas. Em sua reconstrução, Maomé encontrou os amilaítas e outras tribos árabes sírias em três ocasiões e regiões diferentes: inicialmente, a pressão militar muçulmana encontrou forte resistência; depois, foram realizadas incursões rápidas, com pouco êxito; por fim, Maomé recorreu à negociação e à diplomacia, estabelecendo acordos que ampliaram sua influência e seu prestígio na região. Durante a primeira fase, os amilaítas permaneceram hostis aos muçulmanos e, segundo Rihan, todas as fontes os apresentam combatendo ao lado dos bizantinos. O primeiro encontro militar teria ocorrido provavelmente na Batalha de Muta, em 629, na região de Balca, a leste da porção meridional do mar Morto, habitada sobretudo por amilaítas, lacmitas e judamitas. Para Rihan, a restauração da autoridade bizantina depois de quase duas décadas de ocupação persa havia permitido que essas tribos retomassem sua função de guardiãs da fronteira meridional.
Período Omíada
Para o início do período islâmico, Rihan identifica evidências mais concretas da distribuição dos amilaítas no Junde da Jordânia. Na região de Maabe, um poema de Adi ibne Arricá situa os curraítas, um clã amilaíta, nas áreas de Cutude, Garbe e Saçã. Rihan considera certo que integrantes desse clã viviam ou possuíam pastagens na região de Maabe durante o período omíada, numa área em que o próprio poema menciona a presença de casas; embora se incline a considerá-los uma comunidade sedentária, ressalta que essa conclusão permanece especulativa e necessita de confirmação adicional. Há evidências mais seguras da presença amilaíta na região de Bete-Seã, particularmente dos xalitas, clã ao qual pertencia o poeta Adi ibne Arricá. Rihan apoia essa localização num poema satírico de Arrai Anumairi, que afirma que Adi provinha das aldeias de Bete-Seã. Embora a passagem tivesse intenção depreciativa, procurando apresentá-lo como estranho à vida cortesã de Damasco, Rihan considera que não há razão para duvidar da informação sobre seu lugar de origem. Outras fontes são compatíveis com essa indicação: Alisfaani afirma que Adi não era beduíno, mas provinha de uma comunidade sedentária e possuía uma casa em Damasco, enquanto Ibne Açaquir registra que ele foi à cidade para louvar o califa Alualide. Como a data de nascimento do poeta foi estimada em torno de 650, Rihan conclui que, cerca de duas décadas depois das conquistas, ao menos alguns ramos dos amilaítas haviam se deslocado para o norte e se estabelecido nas proximidades de Bete-Seã e Tiberíades, percorrendo uma distância considerável desde a região de Muta, ao sul do mar Morto, onde a tribo estava localizada antes da conquista.
Período Abássida
Shahîd inclui a Alta Galileia e o sul do atual Líbano entre as regiões posteriormente associadas aos amilaítas e observa que a tribo deu seu nome à parte meridional desse território, Jabal Amil. Gil também inclui os amilaítas entre as tribos árabes meridionais presentes na Palestina durante o período islâmico e considera que parecem ter vivido principalmente no Junde da Jordânia. Rihan situa a convergência entre a história da tribo e a da região que posteriormente recebeu seu nome apenas no final do período omíada ou início do abássida. Como as fontes omíadas confirmam a presença amilaíta somente até Bete-Seã, ao sul do maciço, não considera demonstrado que a tribo já estivesse estabelecida no próprio Jabal Amil naquele período. Admite, contudo, como possibilidade que alguns clãs tenham começado a se deslocar para as aldeias da montanha no final do domínio omíada, pois a maior parte do território posteriormente reconhecido como Jabal Amil pertencia ao Junde da Jordânia e suas aldeias ofereciam condições favoráveis ao assentamento e à agricultura. Com o estabelecimento do Califado Abássida, a situação dos amilaítas modificou-se substancialmente. Rihan considera muito provável que Amila tenha deixado de atuar como unidade nas esferas política e militar, embora isso não significasse o desaparecimento da tribo enquanto grupo. Muitas de suas famílias de elite migraram para Alandalus e o norte da África ou se transferiram para Damasco. Os amilaítas documentados no período abássida eram predominantemente civis, entre eles juízes, historiadores, mestres construtores, religiosos, transmissores e estudiosos de hádice, e estabeleceram-se como notáveis locais sobretudo em Damasco, no Junde da Jordânia e em partes do Junde da Palestina. Foi, contudo, uma pequena região do Junde da Jordânia que passou a receber, a partir do terceiro século da Hégira, o nome de Jabal Amil. Rihan ressalta que, nessa época, a designação amilaíta ainda se referia à tribo, e não à região, circunstância que interpreta como provável indicação de que Amila continuava ativa e unida enquanto tribo. O Kitab al-Buldan de Aliacubi, composto no terceiro século da Hégira, é considerado por Rihan provavelmente a fonte mais antiga a associar explicitamente a tribo ao maciço, ao afirmar que os habitantes de Jabal Aljalil eram gente de Amila. A tribo, entretanto, não estava confinada à montanha nem sequer ao Junde da Jordânia: alguns de seus clãs continuavam presentes mais ao sul, no Junde da Palestina, onde se misturavam com judamitas, lacmitas e quindaítas. Rihan conclui, portanto, que no terceiro século da Hégira os amilaítas estavam presentes em pelo menos esses dois jundes e ainda não se encontravam exclusivamente concentrados em Jabal Amil.


