Júlio Pomar
Júlio Artur da Silva Pomar foi um artista plástico/pintor português. Pertenceu à 3.ª geração de pintores modernistas portugueses, sendo autor de uma obra multifacetada, centrada na pintura, desenho, cerâmica e gravura, com importantes desenvolvimentos nos domínios da tridimensão ou da escrita. Os primeiros anos da sua carreira estão ligados à resistência contra o regime do Estado Novo e à afirmação do movimento neorrealista em Portugal, marcando a especificidade deste no contexto europeu. Teve uma ação artística e cívica intensa ao longo das décadas de 1940 e 1950 e é consensualmente considerado o mais destacado dos cultores do neorrealismo nacional.
Primeiros anos
Júlio Pomar nasceu a 10 de Janeiro de 1926, em Lisboa. Era filho de Ascânio Gastão Potier Pomar e de Caetana Maria Elisa da Silva, sendo sobrinho-neto da poetisa e espiritista Emília Pomar de Sousa Machado. Com poucos meses de idade ficou órfão de pai. Frequentou a Escola António Arroio e com 16 anos fez a sua primeira exposição, num quarto alugado na Rua das Flores, tendo a sua pintura "Os Saltimbancos" sido comprada por Almada Negreiros. Em 1942, inscreveu-se na Escola de Belas-Artes de Lisboa. Nesse mesmo ano, em associação com ex-colegas da António Arroio, aluga um quarto na Rua das Flores onde instala ateliê e que servirá de improvisado local para uma exposição de grupo, a primeira em que participa (com Fernando Azevedo, Pedro Oom, Marcelino Vespeira e José Maria Gomes Pereira). A mostra é visitada por personalidades de relevo do mundo das artes entre as quais António Dacosta, Diogo de Macedo, Reinaldo dos Santos e Almada Negreiros (que lhe adquire uma pintura, hoje desaparecida, Saltimbancos).
Entre Paris e Lisboa, 1963-2013
Em Junho de 1963 fixa residência em Paris, com atelier na Rue Molitor, n.º 39 (16.º arrondissement), onde foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian entre 1964 e 1966. A mudança representa o afastamento definitivo da ação cívica que marcou o arranque da sua carreira; irá regressar a Portugal apenas de forma esporádica e só vinte anos mais tarde adquire uma casa em Lisboa para aí instalar um segundo ateliê. Expõe individualmente em Lisboa (Galeria do Diário de Notícias, 1962, 1963) e em Paris (Galerie Lacloche, 1964, 1965), cidades onde irá expor com regularidade ao longo dos anos e construir uma carreira estável. Em 1967 realiza as primeiras assemblages com materiais encontrados e no ano seguinte inicia duas séries paralelas, uma das quais acerca das convulsões de Maio de 1968. Expõe de novo em Lisboa e, a partir de 1969, dá início à colaboração regular com a na Galeria 111 de Manuel de Brito, que passa representá-lo em Portugal.
Décadas de 1940 e 1950
A obra de Júlio Pomar dá os primeiros passos no início da década de 1940. Datam de 1942 os trabalhos expostos na Rua das Flores e, de 1944, duas pinturas reveladoras de uma maturidade invulgarmente precoce e de abertura às linguagens da modernidade: Pintura e Café. Mas é no ano imediato que cria Gadanheiro, o "primeiro quadro-manifesto" do neorrealismo português. Este será "o mais conseguido de uma série de quatro óleos, quase todos de grande formato, portadores de uma ambição pictural e política desmesuradamente heroica para a experiência do pintor", e que marcam um momento decisivo de viragem na sua obra. Realizado durante a IX Missão Estética de Férias, Évora, Gadanheiro seria depois exposto na Sociedade Nacional de Belas Artes. Pomar efetua um desvio temático e formal, evocando um simples trabalhador rural através de um sistema de representação de pendor realista capaz de dar forma aos seus novos objetivos. "A concretização do projeto revolucionário sustenta-se aí numa firme estrutura compositiva diagonal e numa construção de profundidades espaciais, na paisagem estudada com T. Benton, que ampliam ameaçadoramente o movimento da figura do camponês brandindo a foice como uma alavanca que mudaria o mundo".
Décadas de 1960 a 2000
Maria da Fonte, 1957, realizada depois de revisitar Goya e Columbano, revela esse desvio. Aqui, o desenho já não contorna as formas de modo tão enfático e associa-se à cor e à dinâmica compositiva na clara afirmação de "forças internamente digladiantes" . Maria da Fonte abre caminho para as séries que o ocupam até meados da década de 1960, como as Tauromaquias e as Courses (corridas de cavalos), onde a diluição das formas se acentua por via de uma "continuada fúria de fazer", levando a que as figuras quase percam o seu sentido descritivo. Em simultâneo veremos emergir uma pulsão diversa, que se concretiza em esculturas que expõe, por exemplo, na II Exposição de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian.
Celebrado por muitos como "o pintor mais imediatamente talentoso da sua geração e o mais brilhante dos cultores do neorrealismo de 45", Júlio Pomar está referenciado em todas as exposições e publicações onde se faz o balanço da arte em Portugal desde a segunda guerra mundial. A sua posição de destaque no contexto das décadas de 1940 e 1950 é consensual, mas a afirmação da sua obra não se circunscreve a esse período inicial. Pomar tem sido invariavelmente incluído nas maiores exposições onde se faz o balanço da arte moderna portuguesa, entre as quais podem destacar-se: Art Portugais: Peinture et Sculpture du Naturalisme à nos Jours, Centro Cultural da Fundação Calouste Gulbenkian, Paris, 1968; Portuguese Art Since 1910, Royal Academy of Arts, Londres, 1978. Na exposição Os Anos 40 na Arte Portuguesa (Fundação Calouste Gulbenkian, 1982), o artista é mencionado nos capítulos dedicados ao neorrealismo e às Exposições Gerais de Artes Plásticas; o seu Almoço do Trolha é alvo de um estudo específico. No catálogo da exposição Arte Portuguesa nos anos 50, comissariada por Rui Mário Gonçalves (Biblioteca Municipal de Beja; SNBA, Lisboa, 1992-1993), são reproduzidas diversas pinturas e apresentados excertos de um texto de sua autoria de 1953. Pomar aparece de novo de forma destacada na exposição 50 Anos de Arte Portuguesa (Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2007) e Anos 70, Atravessar Fronteiras (Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian, 2009), ambas da responsabilidade de Raquel Henriques da Silva.
Inaugurado em Abril de 2013, o Atelier-Museu Júlio Pomar foi criado para conservar e divulgar a obra de Júlio Pomar (Lisboa, 1926-2018), através de exposições temporárias, eventos, conferências e atividades educativas. Localizado entre o Bairro Alto e a Madragoa, dois dos mais populares bairros da cidade, o edifício do museu foi concebido pelo arquiteto Álvaro Siza (Matosinhos, 1933), Prémio Pritzker 1992. As reservas do museu contam com cerca de 1,500 obras de Júlio Pomar e de outros artistas que lhe foram próximos.


