Josef Stalin
Josef Stalin foi um revolucionário comunista e político soviético de origem georgiana. Governou a União Soviética (URSS) de meados da década de 1920 até sua morte, servindo como Secretário-Geral do Partido Comunista de 1922 a 1952, e como primeiro-ministro de seu país de 1941 a 1953. Inicialmente presidindo um estado unipartidário que governava por um sistema de liderança coletiva, consolidou o poder tornando-se o ditador ou autocrata da União Soviética na década de 1930. Ideologicamente ligado à interpretação leninista do marxismo, ajudou a formalizar essas ideias como marxismo-leninismo, enquanto suas próprias políticas ficaram conhecidas como stalinismo.
Infância e educação: 1878–1899
Josef Stalin[nota 2] nasceu na cidade de Gori, na província russa de Tíflis (atual Geórgia), em 18 de dezembro de 1878.[nota 3] Era filho de Besarion Jughashvili e Ekaterine "Keke" Geladze, que se casaram em maio de 1872 e perderam dois filhos na infância antes de ele nascer. Eles eram georgianos e Stalin cresceu falando a língua local. Gori era parte do Império Russo e o lar de uma mistura de comunidades georgianas, armênias, russas e judias. Stalin foi batizado em 29 de dezembro. Foi apelidado de "Soso", um diminutivo de "Ioseb". Besarion era um sapateiro que trabalhava na oficina de outro homem; inicialmente teve sucesso financeiro, mas logo entrou em declínio e a família se viu vivendo na pobreza. O pai tornou-se um alcoólatra e batia no filho e na esposa; esta por sua vez "o surrava impiedosamente". Ekaterine e Stalin deixaram a casa em 1883, e começaram uma vida errante, passando por nove diferentes quartos alugados em dez anos. Ambos mudaram-se em 1886 para a casa de um amigo da família, o padre Christopher Charkviani. Ela trabalhava como faxineira e lavadora de roupas para famílias locais; estava determinada a mandar o filho para a escola, algo que ninguém da família havia conseguido antes. No final de 1888, com 10 anos, Stalin foi matriculado na Escola da Igreja de Gori. Isso normalmente era reservado aos filhos do clero, embora Charkviani garantiu que o menino recebesse uma vaga. Stalin se destacou academicamente, exibindo talentos em aulas de pintura e teatro, escrevendo sua própria poesia e cantando como corista. Entrou em muitas lutas, e um amigo de infância notou que ele "era o melhor, mas também o mais mal comportado aluno" da turma. Enfrentou vários problemas graves de saúde; em 1884 contraiu varíola e ficou com cicatrizes na face. Aos 12 anos foi gravemente ferido após ser atingido por uma fáeton, o que foi a provável causa de uma incapacidade no braço esquerdo por toda a vida.
Partido Operário Social-Democrata Russo: 1899–1904
Em outubro de 1899, Stalin começou a trabalhar como meteorologista em um observatório de Tíflis. Ele atraiu um grupo de apoiadores através de suas aulas de teoria socialista e coorganizou uma reunião secreta de operários para o Dia do Trabalhador de 1900, na qual encorajou com sucesso muitos dos homens a entrar em greve. A essa altura, a polícia secreta do império — a Okhrana — estava ciente de suas atividades no meio revolucionário da cidade. Tentaram prendê-lo em março de 1901, mas ele escapou e se escondeu, vivendo das doações de amigos e simpatizantes. Permanecendo oculto, ajudou a planejar uma manifestação para o primeiro de maio de 1901, na qual 3 mil manifestantes entraram em confronto com as autoridades. Continuou evitando a prisão usando pseudônimos e dormindo em diferentes apartamentos. Em novembro daquele ano, foi eleito para o Comitê de Tíflis do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), um partido marxista fundado em 1898.
Revolução de 1905 e suas consequências: 1905–1912
Em janeiro de 1905, tropas do governo massacraram manifestantes em São Petersburgo. A agitação logo se espalhou pelo Império Russo no que veio a ser conhecido como a Revolução de 1905. A Geórgia foi uma das regiões particularmente afetadas. Stalin estava em Baku em fevereiro, quando eclodiu a violência étnica entre armênios e azeris; pelo menos 2 mil foram mortos. Criticou publicamente os "pogroms contra judeus e armênios" como parte das tentativas do czar Nicolau II de "fortalecer seu desprezível trono". Formou um Esquadrão de Combate Bolchevique que usou para tentar manter separadas as facções étnicas de Baku em guerra, também aproveitando-se da agitação para roubar equipamentos de impressão. Em meio à crescente violência em toda a Geórgia, formou outros Esquadrões de Batalha, com os mencheviques fazendo o mesmo. Os Esquadrões de Stalin desarmaram a polícia e as tropas locais, invadiram arsenais do governo e captaram recursos por meio de esquemas de proteção em grandes empresas e minas locais. Eles lançaram ataques contra as tropas cossacas do governo e os czaristas Centenas Negras, coordenando algumas operações com a milícia menchevique.
No Comitê Central e na redação do Pravda: 1912–1917
Enquanto Stalin estava no exílio, o primeiro Comitê Central Bolchevique foi eleito na Conferência de Praga. Logo depois, Lenin e Grigori Zinoviev decidiram convidá-lo para integrar o grupo. Ainda em Vologda, ele aceitou, permanecendo membro do Comitê Central pelo resto da vida. Lenin acreditava que Stalin, por ser georgiano, ajudaria a garantir apoio aos bolcheviques entre as minorias étnicas do Império. Em fevereiro de 1912, voltou a fugir para São Petersburgo, encarregado de transformar o semanário bolchevique Zvezda ("Estrela") em um diário, o Pravda ("A Verdade"). O novo jornal foi lançado em abril de 1912, embora o papel de Stalin como editor tenha sido mantido em segredo.
Revolução Russa: 1917
Enquanto estava no exílio, a Rússia entrou na Primeira Guerra Mundial e, em outubro de 1916, Stalin e outros bolcheviques exilados foram recrutados para o exército russo, partindo para Monastyrskoe. Chegaram a Krasnoiarsk em fevereiro de 1917, onde um legista o julgou inadequado para o serviço militar devido a seu braço aleijado. Foi obrigado a servir mais quatro meses em seu exílio, e solicitou com sucesso que servisse na cidade vizinha de Achinsk. Estava na cidade quando a Revolução de Fevereiro aconteceu; revoltas eclodiram em Petrogrado — como São Petersburgo havia sido renomeada — e o czar Nicolau II abdicou para escapar de ser violentamente derrubado. O Império Russo tornou-se uma república de facto, liderada por um Governo Provisório dominado por liberais. Em clima de comemoração, viajou de trem para Petrogrado em março. Lá, ele e o bolchevique Lev Kamenev assumiram o controle do Pravda, e Stalin foi nomeado representante bolchevique no Comitê Executivo do Soviete de Petrogrado, um influente conselho dos trabalhadores da cidade. Em abril, Stalin ficou em terceiro lugar nas eleições bolcheviques para o Comitê Central do partido; Lenin ficou em primeiro e Zinoviev em segundo. Isso refletia sua elevada posição dentro do partido na época.
Consolidação do poder: 1917–1918
Em 26 de outubro, Lenin declarou-se presidente de um novo governo, o Conselho do Comissariado do Povo ("Sovnarkom"). Stalin apoiou a decisão do presidente de não formar uma coalizão com os mencheviques e o Partido Socialista Revolucionário, apesar de formarem um governo de coalizão com os Socialistas Revolucionários de Esquerda. Stalin tornou-se parte de um quarteto informal que liderava o governo, ao lado de Lenin, Trótski e Sverdlov; destes, Sverdlov esteve regularmente ausente e morreu em março de 1919. O escritório de Stalin ficava próximo ao de Lenin, no Instituto Smolny, e ele e Trótski eram os únicos indivíduos autorizados a acessar o escritório do presidente sem autorização. Embora não tão bem conhecido como Lenin ou Trótski, a importância de Stalin entre os bolcheviques cresceu. Coassinou os decretos do líder soviético encerrando jornais hostis e, com Sverdlov, presidiu as sessões do comitê que redigia uma constituição para a nova República Socialista Federativa Soviética da Rússia. Apoiou fortemente a formação do serviço de segurança da Tcheka e o subsequente Terror Vermelho que ela iniciou; notando que a violência estatal havia se mostrado uma ferramenta eficaz para as potências capitalistas, acreditava que isso seria o mesmo para o governo soviético. Ao contrário dos bolcheviques mais antigos como Kamenev e Nikolai Bukharin, Stalin nunca expressou preocupação com o rápido crescimento e expansão da Tcheka e do Terror.
Comando militar: 1918–1921
Depois que os bolcheviques tomaram o poder, exércitos da direita e da esquerda política se uniram contra eles, gerando a Guerra Civil Russa. Para garantir o acesso ao suprimento cada vez menor de alimentos, em maio de 1918, o Sovnarkom enviou Stalin a Tsarítsin para se encarregar da aquisição de alimentos no sul da Rússia. Ansioso para se mostrar como comandante, uma vez lá assumiu o controle das operações militares regionais. Fez amizade com duas figuras militares, Kliment Vorochilov e Semion Budionny, que formariam o núcleo de sua base de apoio militar e político. Acreditando que a vitória era assegurada pela superioridade numérica, enviou inúmeras tropas do Exército Vermelho para a batalha contra os exércitos Brancos antibolcheviques na região, resultando em grandes perdas; Lenin estava preocupado com essa tática cara. Em Tsarítsin, comandou a filial local da Tcheka para executar supostos contrarrevolucionários, às vezes sem julgamento, e — em contravenção às ordens do governo — expurgou agências militares e de coleta de alimentos de especialistas de classe média, alguns dos quais também executou. Seu uso da violência e do terror de Estado foi em maior escala do que a maioria dos líderes bolcheviques aprovou; por exemplo, ordenou que várias aldeias fossem incendiadas para garantir o cumprimento de seu programa de aquisição de alimentos.
Últimos anos de Lenin: 1921–1923
O governo soviético procurou trazer os estados vizinhos para seu domínio; em fevereiro de 1921, invadiram a Geórgia governada por mencheviques, enquanto em abril, Stalin ordenou que o Exército Vermelho no Turquestão reafirmasse o controle estatal russo. Como Comissário do Povo para as Nacionalidades, acreditava que cada grupo nacional e étnico deveria ter o direito de se expressar, facilitado por meio de "repúblicas autônomas" dentro do Estado russo, nas quais poderiam supervisionar vários assuntos regionais. Ao adotar essa visão, alguns marxistas o acusaram de se dobrar demais ao nacionalismo burguês, enquanto outros o acusavam de permanecer muito russocêntrico ao tentar manter essas nações dentro do Estado russo.
Sucedendo Lenin: 1924–1927
Lenin morreu em janeiro de 1924. Stalin assistiu ao funeral e foi um dos que carregaram o caixão; contra os desejos da viúva do falecido, o Politburo embalsamou seu cadáver e o colocou dentro de um mausoléu na Praça Vermelha de Moscou. Ele foi incorporado a um crescente culto à personalidade dedicado ao líder falecido, com Petrogrado sendo renomeado "Leningrado" naquele ano. Para reforçar sua imagem como um devotado leninista, Stalin deu nove palestras na Universidade Sverdlov sobre os "Fundamentos do Leninismo", posteriormente publicado em forma de livro. No seguinte XIII Congresso Comunista da Rússia, o "Testamento de Lenin" foi lido por altos funcionários. Envergonhado por seu conteúdo, Stalin ofereceu sua renúncia ao cargo de secretário-geral; esse ato de humildade o salvou e ele foi mantido na posição.
Desculaquização, coletivização e industrialização: 1927–1931
Estamos de 50 a 100 anos atrás dos países adiantados. Temos que cobrir essa lacuna em 10 anos. Ou fazemos isto ou seremos aniquilados. É isto o que nossas obrigações perante os trabalhadores e camponeses da URSS nos ditam. Na segunda metade da década de 1920, a União Soviética ainda se encontrava atrasada em relação ao desenvolvimento industrial dos países ocidentais, e o governo temia o ataque do Japão, França, Reino Unido, Polônia e Romênia. Muitos comunistas, inclusive do Komsomol, OGPU e do Exército Vermelho, estavam ansiosos para se livrar da NEP e sua abertura a elementos de mercado; tinham preocupações sobre aqueles que lucravam com a política: camponeses ricos conhecidos como "cúlaques" e donos de pequenos negócios, os "NEPman". Além disso, havia um déficit de grãos: em 1927, a produção atingiu apenas 70% do volume colhido no ano anterior. Neste ponto, Stalin voltou-se contra a NEP, assumindo uma posição considerada mais à "esquerda" até mesmo do que a de Trótski ou Zinoviev.
Período de crises: 1932–1939
Dentro da União Soviética, havia um descontentamento cívico generalizado contra o governo de Stalin. A agitação social, antes restrita em grande parte no campo, era cada vez mais evidente nas áreas urbanas, o levando a flexibilizar algumas de suas políticas econômicas em 1932. Em maio, introduziu um sistema de mercados kolkhoz onde os camponeses podiam comercializar seus excedentes. Ao mesmo tempo, as sanções penais tornaram-se mais severas; um decreto de agosto de 1932 transformou o roubo de um punhado de grãos em crime capital. O segundo plano quinquenal reduziu as cotas de produção em relação ao primeiro, concentrando-se mais na melhoria das condições de vida por meio de habitação e produção de bens de consumo. Como seu antecessor, este plano foi repetidamente alterado para atender a situações em mudança; houve, por exemplo, uma ênfase crescente na produção de armamentos depois que Adolf Hitler se tornou o chanceler alemão em 1933.
Pacto com a Alemanha Nazista: 1939–1941
Como marxista-leninista, Stalin esperava um conflito inevitável entre potências capitalistas concorrentes; depois que a Alemanha Nazista anexou a Áustria e parte da Checoslováquia em 1938, reconheceu que uma guerra estava se aproximando. Procurou manter a neutralidade soviética, esperando que uma guerra alemã contra a França e a Grã-Bretanha levasse ao domínio soviético na Europa. Militarmente, os soviéticos também enfrentaram uma ameaça no leste, com tropas russas entrando em conflito com os japoneses expansionistas no final da década de 1930. O líder bolchevique iniciou uma formação militar, com o Exército Vermelho mais do que duplicando entre janeiro de 1939 e junho de 1941, embora na pressa da expansão muitos de seus oficiais tenham sido mal treinados. Entre 1940 e 1941, também expurgou os militares, deixando-o com uma grave escassez de oficiais treinados quando a guerra eclodiu.
Invasão alemã: 1941–1942
Em junho de 1941, a Alemanha invadiu a União Soviética, iniciando a guerra na Frente Oriental. Embora as agências de inteligência o alertassem repetidamente sobre as intenções da Alemanha, Stalin foi pego de surpresa. Formou um Comitê de Defesa do Estado, que chefiou como Comandante Supremo, bem como um Comando Supremo (Stavka) militar, com Gueorgui Júkov como Chefe de Gabinete. A tática alemã de blitzkrieg foi em princípio altamente eficaz; a força aérea soviética nas fronteiras ocidentais foi destruída em dois dias. A Wehrmacht alemã avançou profundamente no território soviético; logo, a Ucrânia, a Bielorrússia e os estados bálticos estavam sob ocupação inimiga e Leningrado estava sitiada; refugiados soviéticos estavam inundando Moscou e as cidades vizinhas. Em julho, a Luftwaffe bombardeou Moscou, e em outubro a Wehrmacht estava reunida para um ataque total à capital. Foram feitos planos para que o governo soviético evacuasse para Kuibyshev, embora Stalin tenha decidido permanecer na capital, acreditando que sua fuga prejudicaria o moral das tropas. O avanço alemão em Moscou foi interrompido após dois meses de batalha em condições climáticas cada vez mais severas.
Contra-ataque soviético: 1942–1945
Em novembro de 1942, os soviéticos começaram a repelir a campanha alemã no sul e, embora tenham sofrido 2,5 milhões de baixas nesse esforço, isso lhes permitiu que assumissem a ofensiva durante a maior parte do restante da guerra na Frente Oriental. As forças nazistas tentaram um ataque de cerco em Kursk, que foi repelido com sucesso pelo adversário. No final de 1943, os soviéticos retomaram metade do território ocupado pelos alemães entre 1941 e 1942. A produção industrial militar nacional também aumentou substancialmente entre o final de 1941 e o início de 1943, depois que Stalin mudou as fábricas para o leste da frente de batalha, em segurança de invasões e ataques aéreos alemães.
Vitória: 1945
Em abril de 1945, o Exército Vermelho capturou Berlim e Hitler cometeu suicídio; a Alemanha rendeu-se no mês seguinte. Stalin queria que o führer fosse capturado vivo; ele levou seus restos mortais a Moscou para impedir que se tornassem uma relíquia para simpatizantes nazistas. Quando o Exército Vermelho conquistou o território alemão, descobriram os campos de extermínio que o governo nazista havia administrado. Muitos soldados soviéticos envolveram-se em saques, pilhagem e estupro, tanto na Alemanha quanto em partes da Europa Oriental. O líder soviético recusou-se a punir os agressores. Após receber uma queixa do comunista iugoslavo Milovan Đilas sobre esses acontecimentos, perguntou como, após experimentar os traumas de guerra, um soldado poderia "reagir normalmente? E o que há de tão terrível em se divertir com uma mulher, depois de tantos horrores?".
Reconstrução e fome: 1945–1947
De acordo com Robert Service, após a guerra Stalin estava no "ápice de sua carreira". Dentro da União Soviética, ele era fortemente considerado a personificação da vitória e do patriotismo. Seus exércitos controlavam a Europa Central e Oriental até o rio Elba. Em junho de 1945, adotou o título de Generalíssimo e ficou no topo do Mausoléu de Lenin para assistir a um desfile de comemoração liderado por Júkov na Praça Vermelha. Em um banquete oferecido aos comandantes do exército, descreveu o povo russo como "uma nação notável" e a "força dirigente" dentro da União Soviética, a primeira vez que endossou inequivocamente os russos em detrimento de outras nacionalidades soviéticas. Em 1946, o estado publicou suas Obras Selecionadas. No ano seguinte, foi lançada a segunda edição de sua biografia oficial, que o elogiava em maior medida do que a edição anterior. Era citado no Pravda diariamente e fotos dele permaneceram difundidas nas paredes de locais de trabalho e residências.
Política da Guerra Fria: 1947–1950
Após a Segunda Guerra Mundial, o Império Britânico entrou em declínio, deixando os EUA e a URSS como as potências mundiais dominantes. As tensões entre esses ex-Aliados aumentaram, resultando na Guerra Fria. Embora Stalin tenha descrito publicamente os governos britânico e americano como agressivos, achava improvável que uma guerra com eles fosse iminente, acreditando que várias décadas de paz eram possíveis. No entanto, ele intensificou secretamente a pesquisa soviética em armas nucleares, com a intenção de criar uma bomba atômica. Ainda assim, previu a indesejabilidade de um conflito nuclear, dizendo em 1949 que "armas atômicas dificilmente podem ser usadas sem significar o fim do mundo". Ele pessoalmente teve um grande interesse no desenvolvimento da arma. Em agosto de 1949, a bomba foi testada com sucesso nos desertos fora de Semipalatinsk, no Cazaquistão. Também iniciou uma nova formação militar; o exército soviético foi expandido de 2,9 milhões de soldados, como estava em 1949, para 5,8 milhões em 1953.
Últimos anos: 1950–1953
Em seus últimos anos, Stalin estava com a saúde debilitada. Ele tirava férias cada vez mais longas; em 1950 e novamente em 1951, passou quase cinco meses de férias em sua dacha abecásia. Ele, no entanto, desconfiava de seus médicos; em janeiro de 1952, fez com que um fosse preso depois que sugeriram que deveria se aposentar para melhorar sua saúde. Em setembro, vários médicos do Kremlin foram presos por supostamente conspirar para matar políticos importantes no que foi conhecido como complô dos médicos; a maioria dos acusados eram judeus. Ele instruiu que os médicos presos fossem torturados para garantir a confissão. O julgamento de Slánský aconteceu na Checoslováquia, em novembro, quando 13 figuras importantes do Partido Comunista, 11 deles judeus, foram acusados e condenados por fazerem parte de uma vasta conspiração sionista-americana para subverter os governos do Bloco do Leste. Naquele mesmo mês, ocorreu na Ucrânia um julgamento amplamente divulgado de acusados de sabotagem industrial por parte de judeus. Em 1951, teve início o complô mingrélio, um expurgo da facção georgiana do Partido Comunista, que resultou em mais de 11 mil deportações.
Em 1.º de março de 1953, a equipe de Stalin o encontrou semiconsciente no chão do quarto de sua dacha em Kuntsevo. Ele sofreu uma hemorragia cerebral. Foi colocado em um sofá e lá permaneceu por três dias. Ele foi alimentado à mão com uma colher, recebeu vários remédios e injeções, e sanguessugas foram inseridas nele. Svetlana e Vasily foram chamados à dacha em 2 de março; o último estava bêbado e gritou furiosamente com os médicos, que o mandaram para casa. Stalin morreu em 5 de março. De acordo com Svetlana, foi "uma morte difícil e terrível". Uma autópsia revelou que ele havia morrido de hemorragia cerebral e que também sofreu graves danos nas artérias cerebrais devido à aterosclerose. É possível ter sido assassinado. Beria foi suspeito de homicídio, embora nenhuma prova concreta tenha aparecido. A morte foi anunciada em 6 de março. O corpo foi embalsamado e depois colocado em exibição na Casa dos Sindicatos de Moscou por três dias. As multidões eram tantas que uma aglomeração matou cerca de 100 pessoas.O funeral incluiu o sepultamento do corpo no Mausoléu de Lenin, na Praça Vermelha, em 9 de março; centenas de milhares compareceram. Naquele mês, houve um aumento nas prisões por "agitação antissoviética", quando aqueles que celebravam a morte de Stalin chamaram a atenção da polícia. O governo chinês instituiu um período de luto oficial pela morte do líder soviético.
Stalin afirmava ter abraçado o marxismo aos quinze anos, e este serviu como filosofia orientadora ao longo de sua vida adulta; de acordo com Kotkin, ele tinha "convicções marxistas zelosas", enquanto Montefiore sugeria que o marxismo tinha um valor "quase religioso" para Stalin. Embora nunca tenha se tornado um nacionalista georgiano, durante sua juventude elementos do pensamento nacionalista local se misturaram ao marxismo em sua perspectiva. O historiador Alfred J. Rieber observou que havia sido criado em "uma sociedade onde a rebelião estava profundamente enraizada no folclore e nos rituais populares". Stalin acreditava na necessidade de adaptar o marxismo às novas circunstâncias; em 1917, ele declarou que "há um marxismo dogmático e um marxismo criador. Eu me situo no terreno do segundo". Volkogonov acreditava que o marxismo de Stalin foi moldado por sua "mentalidade dogmática", sugerindo que isso havia sido incutido no líder soviético durante sua educação em instituições religiosas. Segundo o estudioso Robert Service, as "poucas inovações de Stalin na ideologia foram desenvolvimentos brutos e duvidosos do marxismo". Alguns deles derivaram de conveniência política, em vez de qualquer compromisso intelectual sincero; ele costumava recorrer à ideologia post hoc para justificar suas decisões. Stalin se referia a si como um praktik, o que significa que ele era mais um revolucionário prático do que um teórico.
Stalin, de forma brutal, engenhosa, incansável, construiu uma ditadura pessoal dentro da ditadura bolchevique. Depois, iniciou e levou a cabo uma reconstrução socialista sangrenta de todo o antigo império, comandou uma vitória na maior guerra da história da humanidade e levou a União Soviética ao epicentro das questões globais. Mais do que a de qualquer outra figura histórica, até mesmo Gandhi ou Churchill, uma biografia de Stalin […] acaba por se aproximar de uma história do mundo. De etnia georgiana, Stalin cresceu falando a língua nativa e só começou a aprender russo aos oito ou nove anos. Ele permaneceu orgulhoso de sua identidade georgiana e ao longo de sua vida manteve um forte sotaque da região ao falar russo. De acordo com Montefiore, apesar de sua afinidade pela Rússia e pelos russos, ele permaneceu profundamente georgiano em seu estilo de vida e personalidade. Os colegas o descreveram como "asiático", e ele disse a um jornalista japonês: "não sou um homem europeu, mas sim um asiático, um georgiano russificado". Service também observou que ele "nunca seria russo", não poderia se passar por um e nunca tentou fingir que era. Montefiore era da opinião de que, "depois de 1917, [Stalin] se tornou quadrinacional: georgiano por nacionalidade, russo por lealdade, internacionalista por ideologia, soviético por cidadania".
Personalidade
Trótski e várias outras figuras soviéticas promoveram a ideia de que Stalin era uma mediocridade. Essa ideia ganhou ampla aceitação fora da União Soviética durante sua vida, contudo era enganosa. Segundo o historiador Montefiore, "fica claro por testemunhas hostis e amigáveis que Stalin sempre foi excepcional, desde a infância". Tinha uma mente complexa, grande autocontrole e uma excelente memória. Era um trabalhador esforçado e exibia um grande desejo de aprender; quando no poder, examinou muitos detalhes da vida soviética, de roteiros de filmes a planos arquitetônicos e equipamentos militares. De acordo com Volkogonov, "a vida privada de Stalin e a vida profissional eram uma e a mesma"; ele não tirou dias de folga das atividades políticas.
Relacionamentos e família
A amizade era importante para Stalin, e ele a usava para ganhar e manter o poder. Kotkin observou que ele "geralmente gravitava em torno de pessoas como ele: alpinistas sociais da intelligentsia de origem humilde". Deu apelidos aos seus favoritos, por exemplo, referindo-se a Yezhov como "minha amora". Stalin era sociável e gostava de brincar. De acordo com Montefiore, as amizades dele "serpenteavam entre amor, admiração e ciúme venenoso". Enquanto chefe da União Soviética, manteve contato com muitos de seus velhos amigos na Geórgia, enviando-lhes cartas e presentes em dinheiro. De acordo com Montefiore, em sua juventude Stalin "raramente parece ter ficado sem namorada". Ele era sexualmente promíscuo, embora raramente falava sobre sua vida sexual. Também observou que os tipos favoritos do georgiano eram "adolescentes jovens e maleáveis ou camponesas voluptuosas", que o apoiariam e não o desafiariam. De acordo com Service, ele "considerava as mulheres como uma fonte de gratificação sexual e conforto doméstico". Stalin se casou duas vezes e teve vários filhos.
O historiador Robert Conquest afirmou que Stalin talvez tenha "determinado o curso do século XX" mais do que qualquer outro indivíduo. Biógrafos como Service e Volkogonov o consideram um político notável e excepcional; Montefiore o rotulou como "aquela combinação rara: ao mesmo tempo 'intelectual' e assassino", um homem que foi "o político supremo" e "o mais esquivo e fascinante dos titãs do século XX". Segundo o historiador Kevin McDermott, as interpretações sobre Stalin vão desde "o bajulador e adulador ao vitriólico e condenatório". Para a maioria dos ocidentais e russos anticomunistas, ele é visto de maneira esmagadoramente negativa como um assassino em massa; para um número significativo de russos e georgianos, é considerado um grande político e construtor do Estado. Stalin fortaleceu e estabilizou a União Soviética. Service sugeriu que o país poderia ter entrado em colapso muito antes de 1991 sem ele. Em menos de três décadas, transformou o país em uma grande potência industrial mundial, que poderia "reivindicar conquistas impressionantes" em termos de urbanização, força militar, educação e orgulho soviético. Sob seu governo, a expectativa de vida média soviética cresceu devido às melhores condições de vida, nutrição e cuidados médicos; as taxas de mortalidade também diminuíram. Embora milhões de cidadãos soviéticos o desprezassem, o apoio a ele foi generalizado por toda a sociedade soviética. Sua necessidade de desenvolvimento econômico para a União Soviética foi questionada, argumentando-se que suas políticas de 1928 em diante podem ter sido apenas um fator limitante.
Estimativas do número de vítimas
Com um número excessivo de mortes ocorrendo sob seu governo, Stalin foi rotulado como "uma das figuras mais notórias da história". Essas mortes ocorreram como resultado da coletivização, fome, campanhas de terror, doenças, guerra e taxas de mortalidade no Gulag. Como a maioria das mortes em excesso não foram diretas, o número exato de vítimas do stalinismo é difícil de calcular devido à falta de consenso entre os estudiosos sobre quais mortes podem ser atribuídas ao regime. Os registros oficiais revelam 799 455 execuções documentadas na União Soviética entre 1921 e 1953; 681 692 delas foram realizadas entre 1937 e 1938, os anos do Grande Expurgo. De acordo com o economista Michael Ellman, a melhor estimativa moderna para o número de mortes por repressão durante o Grande Expurgo é de 950 mil a 1,2 milhão, o que inclui execuções, mortes em detenção ou logo após a libertação. Além disso, embora os dados de arquivo mostrem que 1 053 829 morreram no Gulag entre 1934 e 1953, o consenso histórico atual é que, dos 18 milhões de pessoas que passaram pelo sistema de campos de trabalho de 1930 a 1953, entre 1,5 e 1,7 milhão morreram como resultado de seu encarceramento. Ellman e o historiador e pesquisador de arquivos Stephen G. Wheatcroft atribuem cerca de 3 milhões de mortes ao regime stalinista, incluindo execuções e mortes por negligência criminosa. Wheatcroft e o historiador R. W. Davies estimam as mortes por fome entre 5,5 e 6,5 milhões, enquanto o estudioso Steven Rosefielde apresenta um número de 8,7 milhões. O historiador Timothy Snyder em 2011 resumiu dados modernos feitos após a abertura dos arquivos soviéticos na década de 1990 e afirma que o regime stalinista foi responsável por 9 milhões de mortes, sendo 6 milhões delas deliberadas. Ele afirma ainda que a estimativa é muito inferior às de 20 milhões ou mais que foram feitas antes do acesso aos arquivos.
Na União Soviética e seus estados sucessores
Pouco depois de sua morte, a União Soviética passou por um período de desestalinização. Malenkov denunciou o culto à personalidade de Stalin, que foi criticado posteriormente no Pravda. Em 1956, Khrushchov deu seu "Discurso Secreto", intitulado "Sobre o Culto da Personalidade e suas Consequências", a uma sessão fechada do XX Congresso do Partido. Lá, o novo líder soviético denunciou Stalin por sua repressão em massa e pelo culto à personalidade. Ele repetiu essas denúncias no XXII Congresso do Partido em outubro de 1962. Em outubro de 1961, o corpo foi retirado do mausoléu e enterrado na Necrópole da Muralha do Kremlin em Moscou, local marcado apenas por um simples busto. Stalingrado foi renomeado para Volgogrado.


