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José da Silva Pais

José da Silva Pais foi um militar, cartógrafo, engenheiro, arquiteto, urbanista e administrador colonial português.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 20/07/2026
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Família

Silva Pais nasceu na freguesia de Nossa Senhora das Mercês, em Lisboa, no dia 6 de outubro de 1679, sendo batizado no dia 25 de outubro, filho de Clara Maria da Silva, lisboeta, e Roque Gomes Pais, natural de Viana do Castelo. Seus avós paternos foram Antônio Gomes da Silva e Antônia de Vilas Boas, e os maternos, Sebastião Ribeiro de Teive e Francisca da Silva. Pouco se sabe sobre sua família. Eram plebeus mas tinham uma situação econômica confortável. Seu pai foi proprietário do Engenho Boa Vista na Capitania de Itamaracá, e seu avô paterno foi um piloto dos navios da carreira do Brasil. O avô materno em 1638 contratou com o Conselho da Fazenda "o fornecimento de trigo de boa qualidade para o apresto das naus da Índia", e em 1646 arrendou as saboarias de sabão branco de Lisboa por 3 mil cruzados pelo prazo de 27 anos. O pai foi assassinado a tiros no Engenho Boa Vista em 1687, a mando de Leão Falcão de Melo. Uma devassa foi aberta para investigar o crime, concluindo que o motivo foi vingança: "e ele o confessava em sua vida que se quatorze vezes ressuscitara tantas o tornara a matar, sendo a causa umas dívidas que tiveram sobre a compra do dito Engenho pelo querer o dito Leão Falcão por ter sido de seus sogros e não querer que o morto o comprasse".

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Carreira em Portugal

Estudou no colégio dos jesuítas de Lisboa e depois recebeu uma sólida formação na Aula de Fortificação e Arquitetura Militar de Lisboa, formando-se engenheiro militar em 1701. Provavelmente foi aluno de Manuel de Azevedo Fortes, engenheiro-mor do Reino, mas de qualquer modo manteve estreito contato com ele. Em 1701 já era capitão, sendo um dos primeiros a se voluntariar quando o rei D. Pedro II ordenou que a frota fosse preparada para um eventual envolvimento do país na Guerra da Sucessão Espanhola, alistando-se em 12 de fevereiro e inspecionando os navios ancorados no Tejo. Seguindo para a praça de Olivença, nas funções de ajudante-engenheiro, foi encarregado de reforçar as fortificações, ali permanecendo até 1702. Em meados deste ano Portugal entrou na Guerra. Em 1703 atuou em Abrantes para determinar o local conveniente para construir-se uma ponte ligando a província da Beira ao Alentejo.

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Trabalho no Brasil

Rio de Janeiro

Sendo o governador do Rio de Janeiro, Gomes Freire de Andrade, transferido para Minas Gerais, em 4 de janeiro de 1734 Silva Pais foi nomeado governador interino, sendo ao mesmo tempo promovido, por bons serviços prestados, ao posto de brigadeiro de infantaria, com um soldo de 616 réis. Para Charles Dorenkott Jr., "a partir de um passado familiar obscuro, foi capaz, através de seu preparo especializado e educação militar, de alavancar não apenas sua fortuna pessoal mas também beneficiar seu país. A habilidade e engenhosidade que demonstrou desde cedo, especialmente durante a Guerra de Sucessão Espanhola, sem dúvida chamaram a atenção da Corte, e assim estava armado o cenário para seu futuro progresso a uma posição de eminência no império ultramarino. Sua indicação como governador do Rio de Janeiro não foi apenas um feliz acidente. Antes, foi a culminação de longos anos de experiência nos assuntos militares".

Campanha do Prata

Em 1736 recebeu a incumbência de cuidar das fortificações do porto e da vila de Santos. Seu principal trabalho neste local seria terminar a fortaleza que havia sido projetada por João de Castro e João Martins Claros e que estava apenas nos alicerces. Deu início à obra, mas a execução logo foi delegada a outros porque em 12 de março de 1736 chegaram ordens de Lisboa para que partisse para o sul, a fim de intervir no conflito com os espanhóis. Sua missão envolvia levar tropas e navios para socorrer a Colônia do Sacramento, que estava sitiada, retomar Montevidéu e fundar núcleos de povoamento com colonos entre Sacramento e Laguna, em Santa Catarina. Partiu do Rio em junho, encarregado do comando de terra, sendo assessorado por Antônio Ribeiro, no posto de segundo coronel, e Luís de Abreu Prego. A frota era composta de cinco navios e 600 soldados, além de duas naus menores de suprimentos. Tinha instruções de fazer escala em Santa Catarina para recolher soldados e esperar o reforço de mais dois navios, e prosseguiu viagem em agosto, mas no caminho seus navios foram dispersos e danificados por duas tempestades.

Rio Grande do Sul

Devido às condições adversas no Prata, recebeu ordem de rumar para a Barra do Rio Grande, no atual Rio Grande do Sul, para assumir a Comandância Militar do Rio Grande de São Pedro, levando um capitão, um alferes, um tambor, 42 dragões e 38 soldados. Chegou em 15 de fevereiro de 1737, lá encontrando o coronel Cristóvão Pereira de Abreu, que já tinha erguido um fortim no local e comandava uma guarnição de 160 homens, além de ter reunido um bom rebanho de gado e cavalos. Silva Pais tratou logo de organizar a defesa e em 19 de fevereiro de 1737 fundou o Presídio (colônia militar) do Rio Grande, que foi a primeira povoação portuguesa oficial num território que por força do Tratado de Tordesilhas legalmente pertencia à Espanha, e logo seria organizada como a primeira capital da futura Capitania. Ali projetou e construiu o Forte Jesus, Maria, José e estabeleceu as instalações necessárias para defender as novas áreas incorporadas por Portugal. O trabalho foi difícil, pois o frio do inverno era inclemente e dispunha de poucos recursos e poucos soldados, incluindo um pequeno batalhão de indígenas recrutados em Laguna. A própria geografia da área não era favorável à colonização, sendo uma extensa praia arenosa com ventos constantes, sem uma baía que servisse de porto abrigado e sem floresta que fornecesse madeira, e o Rio Grande, que ligava o mar com a Lagoa dos Patos, não tinha capacidade de receber grandes navios e ficava intransitável durante maré baixa e tempestades.

Volta ao Rio de Janeiro

Em março de 1738 já estava no Rio de Janeiro, e em maio estava em Santos compondo um relatório sobre seu governo em Rio Grande. Em 11 de agosto o rei D. João V instruiu Freire de Andrade para que transferisse Silva Pais para a Ilha de Santa Catarina, com a missão de governá-la, fortificá-la e defendê-la dos constantes assédios de naus inglesas, francesas e holandesas. No mesmo dia, por carta régia, o território de Santa Catarina era desmembrado da Capitania de São Paulo e subordinado à Capitania do Rio de Janeiro. Não partiu de imediato, ocupando-se por mais algum tempo em seus projetos anteriores de construção e melhoria de fortificações e no sistema de abastecimento de água, além de promover a fundação da Irmandade da Caridade do Santíssimo Sacramento de Nossa Senhora da Candelária, assumindo o priorado e dotando-a de um generoso legado. Também enviou colonos e suprimentos de comida, materiais e dinheiro para o Rio Grande.

Santa Catarina

Só tomou posse do governo da ilha de Santa Catarina em 7 de março de 1739, devendo prestar contas a Freire de Andrade, seu superior imediato. Tradicionalmente se considera que a carta régia de 1738 criou a Capitania de Santa Catarina, mas o caráter jurídico dessa nova ordenação não é claro na documentação da época, que só menciona um "governo", e o termo "Capitania" só começa a ser usado a partir da década de 1760. No tempo do governo de Silva Pais, sua jurisdição se circunscrevia apenas à ilha, mas a administração colonial não era muito rígida na delimitação das fronteiras administrativas. Na prática, a atuação de Silva Pais se estendeu a algumas áreas adjacentes no continente, e parece ter exercido também alguma influência indireta sobre o governo do Rio Grande e mesmo da Colônia de Sacramento neste período, quando esses locais ainda careciam de uma unidade política-estatal estruturada. Até então uma simples praça militar, a transformação da ilha de Santa Catarina em uma governadoria provocou mudanças profundas na vida política, social e econômica da região e em suas relações com outros espaços coloniais, e confirmou sua posição como um importante centro de apoio para a atuação política e militar portuguesa no sul.

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Últimos anos

Sua atuação no Rio Grande do Sul e Santa Catarina foi reconhecida pelo rei e foi elogiado repetidas vezes por Freire de Andrade. Ao retornar para Portugal em fevereiro de 1749, foi promovido a sargento-mor de batalha (hoje equivalente a general) e teve seu salário aumentado. Solicitou ainda uma mercê do rei, sugerindo que lhe fosse concedido o cargo de escrivão da Câmara do Rio, e se não fosse possível, o de escrivão do ouvidor das Minas Gerais, ou então o direito de recolher um quarto do imposto do gado que passasse do Rio Grande a Minas Gerais por vinte anos, ou a prebenda de São Payo de Oliveira de Frades. Embora o pedido tivesse recebido um parecer preliminar favorável, nenhum dos benefícios requeridos foi concedido, e somente depois de sua morte seus herdeiros foram beneficiados. Seus últimos anos de vida são mal conhecidos, mas da escassa documentação sobrevivente, sabe-se que foi requisitado várias vezes pelo Conselho Ultramarino para dar opinião sobre construções e fortificações no Brasil, e aparentemente revisou a correspondência enviada pelos governadores de Santa Catarina, sendo requisitado a dar pareceres por Manuel Escudeiro Ferreira de Sousa e José de Melo Manuel. Discordou dos planos do último de transferir a Vila do Desterro para outro local, e sua opinião foi acatada. Por duas vezes foi-lhe oferecido o governo da Ilha de Fernando de Noronha, mas não aceitou.

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Legado

Seu testamento arrola o acervo de sua expressiva biblioteca, composta por 437 volumes, além de jornais, listas militares e documentos avulsos. Continha livros sobre as artes da guerra, engenharia militar, geometria, trigonometria, história, medicina, cirurgia e filosofia, biografias de príncipes, dicionários de línguas, obras de Horácio, Cícero, Júlio César, Marco Aurélio, de literatos famosos espanhóis e portugueses, como Camões, Fernão Mendes Pinto e Francisco Rodrigues Lobo, e dois tomos de resoluções régias. A biblioteca continha ainda 68 livros sobre religião e devoção, incluindo uma coleção de 15 volumes de sermões do Padre Vieira. Boa parte do acervo foi preservado e está sob a guarda da Biblioteca Rio-Grandense, em Rio Grande, depositado na Sala Silva Pais. Muitas dessas obras hoje são raridades. Deixou substancioso material escrito, entre cartas, despachos, ordens, instruções e relatórios, que oferecem uma ampla e detalhada visão de suas ideias, seu trabalho, seu contexto político e social, e dos mecanismos da administração colonial. Um retrato seu de corpo inteiro foi pintado para honrar seu cargo de prior da Irmandade da Candelária, e um monumento foi erguido em Rio Grande, criado por Humberto Carpinelli entre 1937 e 1939.

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