Jorge II da Grã-Bretanha
Jorge II, da Casa de Hanôver, foi Rei da Grã-Bretanha e Irlanda de 1727 até à sua morte. Foi ainda príncipe-eleitor de Hanôver e duque de Brunsvique-Luneburgo.
Jorge nasceu na cidade de Hanôver, na Alemanha, filho de Jorge Luís, Príncipe-Herdeiro de Brunsvique-Luneburgo (depois rei Jorge I da Grã-Bretanha) e da sua esposa, a duquesa Sofia Doroteia de Celle. Ambos os pais de Jorge cometeram adultério e, em 1694, o casamento foi dissolvido sob o pretexto de que Sofia tinha abandonado o marido. A duquesa foi presa na Casa Ahlden e foi-lhe negado o acesso aos seus dois filhos, Jorge e a irmã Sofia Doroteia de Hanôver, que provavelmente nunca mais voltaram a ver a mãe. Jorge falou apenas francês, a língua da diplomacia e da corte, até aos quatro anos de idade, quando um dos seus tutores, Johann Hilmar Holstein, lhe começou a ensinar alemão. Além de alemão e francês, também aprendeu inglês e italiano, ao ponto de falar as quatro línguas fluentemente. Estudou geologia, história militar e tácticas de batalha com especial dedicação. A prima em segundo-grau de Jorge, a rainha Ana, herdou os tronos unificados de Inglaterra, Escócia e Irlanda em 1702. Nenhum dos seus filhos sobreviveu à infância e, através do Decreto de Estabelecimento de 1701, o Parlamento Inglês nomeou os parentes protestantes mais próximos de Ana, a avó de Jorge, Sofia, e os seus descendentes, como herdeiros de Ana na Inglaterra e na Irlanda. Consequentemente, após a sua avó e seu pai, Jorge estava em terceiro lugar na linha de sucessão em ambos os reinos. Em 1705 recebeu a cidadania britânica através do Decreto de Naturalização de Sofia e, em 1706, foi condecorado como Cavaleiro da Ordem da Jarreteira e recebeu os títulos de Marquês de Cambridge, Conde de Milford Haven, Visconde Northallerton e Barão de Tewkesbury na nobreza inglesa. Inglaterra e Escócia uniram-se em 1707, criando assim o Reino da Grã-Bretanha e aceitaram de forma unânime a sucessão que foi ditada pelo Decreto de Estabelecimento.
O pai de Jorge não queria que o filho contraísse um casamento sem amor tal como lhe tinha acontecido. Queria dar-lhe a oportunidade de conhecer a noiva antes de se estabelecer algum compromisso oficial. Em 1702 iniciaram-se negociações para o casamento com a princesa Edviges Sofia da Suécia, duquesa-viúva e regente de Holstein-Gottorp que nunca foram concluídas. Em junho de 1705, utilizando o nome falso de "Monsieur de Busch", Jorge visitou a corte de Ansbach anonimamente na sua residência de verão em Triesdorf para investigar outra perspectiva de casamento: Carolina de Brandemburgo-Ansbach, a antiga pupila da sua tia, a rainha Sofia Carlota da Prússia. O enviado inglês a Hanôver, Edmund Poley, referiu que Jorge ficou tão impressionado com "o bom carácter dela que não conseguia pensar em mais ninguém". No final de julho foi concluído o contracto de casamento. A 22 de agosto ou 2 de setembro (de acordo com o novo calendário), Carolina chegou a Hanôver para o seu casamento, que se realizou nessa mesma noite na capela de Harrenhausen.
Desavença com o Rei
Jorge e o pai partiram para Inglaterra da Haia a 16/27 de setembro e chegaram a Greenwich dois dias depois. No dia seguinte, entraram formalmente em Londres numa procissão cerimonial. Jorge recebeu o título de Príncipe de Gales. Carolina foi com o marido e as suas filhas para Inglaterra enquanto Frederico ficou em Hanôver para ser criado por tutores privados. Londres era diferente de tudo o que Jorge tinha visto até então: era cinquenta vezes maior do que Hanôver (Hanôver tinha cerca de 1800 casas enquanto Londres tinha mais de cem mil) e estima-se que na multidão estivesse meio milhão de espectadores. Jorge procurou popularidade com expressões volúveis de elogio dos Ingleses e afirmou que não tinha uma gota de sangue que não fosse inglesa.
Oposição política
Expulso do palácio e ignorado pelo seu próprio pai, durante os anos que se seguiram, Jorge foi identificado como opositor das políticas de Jorge I, que incluíam medidas para aumentar a liberdade religiosa na Grã-Bretanha e aumentar os territórios alemães de Hanôver a custo da Suécia. A sua nova residência em Londres, a Casa Leicester, tornou-se um ponto de encontro frequente dos opositores políticos do seu pai, incluindo sir Robert Walpole e o Visconde Townshend, que tinha deixado o governo em 1717. O rei voltou a visitar Hanôver entre maio e novembro de 1719. Em vez de nomear Jorge para guardar o trono, estabeleceu um conselho de regência. Em 1720, Walpole encorajou o rei e o seu filho para uma reconciliação em nome da unidade pública, algo a que ambos consentiram, mas sem grande vontade. Walpole e Townshend regressaram aos seus cargos políticos e ao ministério. Jorge não demorou a ficar desiludido com os termos da reconciliação. As suas três filhas, que estavam sob o cuidado do rei, não puderam ficar com os pais e o príncipe continuava a não poder exercer o papel de regente quando o rei estava fora do país. Jorge começou a acreditar que Walpole o tinha enganado na reaproximação para poder voltar a exercer uma posição de poder. Nos anos que se seguiram, o príncipe e a princesa viveram tranquilamente, evitando actividades políticas demasiado públicas. Tiveram mais três filhos: Guilherme, Maria e Luísa, que foram criados entre a Casa Leicester e o Chalé Richmond, a residência de verão de Jorge.
Jorge I morreu a 11/22 de junho de 1727 durante uma das suas visitas a Hanôver e Jorge II sucedeu-o como rei e príncipe-eleitor aos 43 anos de idade. O novo rei decidiu não viajar até à Germânia para assistir ao funeral do pai, uma atitude que não foi criticada, mas sim elogiada pelos ingleses que a viram como uma prova do carinho que o rei tinha pela Inglaterra. Decidiu não cumprir o testamento do pai uma vez que tentava dividir a sucessão de Hanôver entre os futuros netos de Jorge II em vez de garantir todos os domínios (britânicos e germânicos) numa única pessoa. Tanto os ministros britânicos como os de Hanôver consideraram que o testamento não cumpria a lei, uma vez que Jorge I não tinha poder legal para determinar a sucessão pessoalmente. Os críticos desconfiaram que Jorge escondeu o testamento para evitar pagar os legados do pai. Jorge II foi coroado na Abadia de Westminster a 11/22 de outubro de 1727. O compositor George Frideric Handel foi contratado para escrever quatro hinos novos para a coroação, incluindo Zadok the Priest.
A relação de Jorge II com o seu filho e herdeiro aparente, Frederico, Príncipe de Gales, piorou durante a década de 1730. Frederico tinha sido deixado na Germânia quando os seus pais foram para Inglaterra e não os viu durante catorze anos. Em 1728, foi levado para Inglaterra e lentamente tornou-se a figura central da oposição política. Quando Jorge visitou Hanôver durante os verões de 1729, 1732 e 1732, deixou a sua esposa e não o filho na liderança do conselho de regência da Grã-Bretanha. Entretanto, a rivalidade entre Jorge II e o seu cunhado Frederico Guilherme I da Prússia conduziu a tensões na fronteira da Prússia com Hanôver que acabaram por culminar na mobilização de tropas nesta zona e em rumores de que os dois reis se enfrentariam num duelo. As negociações de casamento entre o príncipe de Gales e a filha de Frederico Guilherme, Guilhermina, arrastaram-se durante vários anos uma vez que nenhum dos lados desejava fazer concessões para o outro e a ideia acabou por ser abandonada. Em vez de Guilhermina, Frederico casou-se com a princesa Augusta de Saxe-Gota em 1736.
Contra a vontade de Walpole, mas para grande alegria de Jorge, a Grã-Bretanha voltou novamente a entrar em guerra quando rebentou a Guerra da Orelha de Jenkins contra Espanha em 1739. A guerra da Grã-Bretanha com a Espanha tornou-se uma parte da Guerra de Sucessão Austríaca quando rebentou uma grande guerra europeia após a morte do sacro-imperador Carlos VI em 1740. A disputa tinha como objectivo colocar a filha de Carlos, Maria Teresa no trono austríaco. Jorge passou o verão de 1740 e 1741 em Hanôver, onde podia intervir mais directamente nos assuntos diplomáticos europeus como príncipe-eleitor. O príncipe Frederico esteve em campanha activa em favor da oposição durante as eleições gerais britânicas em 1741 e Walpole não conseguiu garantir uma maioria estável. Walpole tentou comprar o príncipe com a promessa de aumentar o seu rendimento e ofereceu-se para pagar as suas dívidas, mas Frederico recusou a proposta. Com o seu apoio desgastado, Walpole reformou-se em 1742, depois de passar mais de vinte anos no seu cargo. Foi substituído por Spencer Compton, Lorde Wilmington, que Jorge tinha considerado primeiro para o cargo de primeiro-ministro em 1727. Contudo, Lorde Wilmington era uma pessoa representativa. O verdadeiro poder estava nas mãos de outros, nomeadamente Lorde Carteret, o ministro preferido do rei a seguir a Walpole. Quando Wilmington morreu em 1743, Henry Pelham passou a ocupar o seu lugar na liderança do governo.
Nas eleições de 1747, o Príncipe de Gales voltou a fazer campanha activamente pela oposição, mas o partido de Pelham venceu facilmente. Tal como o seu pai tinha feito antes, o príncipe recebia figuras da oposição em sua casa na Praça Leicester. Quando Frederico morreu inesperadamente em 1751, o seu filho mais velho, príncipe Jorge, tornou-se herdeiro aparente. O rei lamentou a morte do filho juntamente com a Viúva Princesa de Gales e chorou com ela. Como Jorge apenas se tornaria maior de idade em 1756, um novo Decreto de Regência Britânico nomeou-a regente com a ajuda de um conselho liderado pelo Duque de Cumberland, caso Jorge II morresse antes. O rei também fez um novo testamento que nomeava o Duque de Cumberland como o único regente em Hanôver. Após a morte da sua filha Luísa no final do ano, Jorge lamentou-se: "Este tem sido um ano fatal para a minha família. Perdi o meu filho mais velho - mas fico contente por isso (...) Agora [a Luísa] morreu. Sei que não gostava dos meus filhos quando eles eram mais novos: Detestava vê-los a correr para dentro do meu quarto; mas agora adoro-os tanto como a maioria dos pais."
Guerra dos Sete Anos
Em 1754 Pelham morreu, sendo sucedido pelo seu irmão mais velho, o Duque de Newcastle. A hostilidade entre França e a Grã-Bretanha, principalmente por causa da colonização da América do Norte, continuou. Temendo uma invasão francesa em Hanôver, Jorge aliou-se à Prússia, inimiga da Áustria. A Rússia e a França aliaram-se com a sua antiga inimiga, a Áustria. A invasão francesa da ilha mediterrânica de Minorca, controlada pelos britânicos, levou ao rebentar da Guerra dos Sete Anos em 1756. O público ficou inquieto com as derrotas britânicas no início do conflito, o que levou à demissão do duque de Newcastle e à nomeação do Duque de Devonshire como primeiro-ministro e William Pitt como Secretário de Estado do Departamento do Sul. Em abril do ano seguinte, Jorge dispensou Pitt numa tentativa de construir uma administração mais a seu gosto. Nos três meses seguintes as tentativas para criar um ministério estável falharam. Em junho, James Waldegrave, 2.º Conde Waldegrave, deteve o poder durante apenas quatro dias. No início de julho, voltou a chamar Pitt e o Duque de Newcastle regressou como primeiro-ministro. Como secretário de Estado, Pitt guiou as políticas relacionadas com a guerra. A Grã-Bretanha, Hanôver, a Prússia e os seus aliados Hesse-Cassel e Brunsvique-Volfembutel opunham-se a outras potências europeias, incluindo a França, Áustria, Rússia, Suécia e Saxónia. A guerra envolveu também vários países fora da Europa como a América do Norte e a Índia, onde o domínio britânico tinha aumentado devido às vitórias de Robert Clive sobre as forças francesas e os seus aliados nas batalhas de Arcot e de Plassey.
Morte
Em outubro de 1760, Jorge II estava cego de um olho e ouvia mal. Na manhã de 25 de outubro, levantou-se às seis da manhã como era costume, bebeu uma caneca de chocolate quente e sentou-se sozinho no seu banco mais próximo. Alguns minutos depois, o seu criado-de-quarto ouviu um grande estrondo. Quando entrou no quarto viu o rei estendido no chão. O rei foi levado para a cama e foi chamada a princesa Amélia, mas morreu antes dela conseguir chegar. Com quase 77 anos de idade, Jorge tinha vivido mais do que qualquer dos seus predecessores ingleses. A autópsia realizada ao seu corpo revelou que o ventrículo direito do seu coração tinha rebentado devido a um aneurisma aórtico incipiente.
Jorge doou a biblioteca real ao Museu Britânico em 1757, quatro anos depois da abertura do museu. O rei não se interessava pela leitura, nem pelas artes e pela ciência e preferia passar o seu tempo livre a caçar a cavalo ou a jogar às cartas. Em 1737, abriu a Universidade Jorge Augusto em Gotinga, a primeira universidade do eleitorado de Hanôver, e visitou-a em 1748. A universidade deu o nome de 359 Georgia a um asteróide em 1902 em sua honra. Foi chanceler da Trinity College, em Dublin, entre 1716 e 1727 e, em 1754, deu autorização para a criação, em Nova Iorque, do King's College, que, mais tarde, veio a se tornar a Universidade Columbia. O estado da Geórgia, fundado por carta real em 1732, recebeu o nome em sua honra. Durante o reinado de Jorge II, os interesses britânicos expandiram-se por todo o mundo, o desafio Jacobita para a dinastia de Hanôver acabou e o poder dos ministros no Parlamento britânico ficou bem estabelecido. Apesar de tudo, nas memórias de contemporâneos como Lorde Hervey e Horace Walpole, Jorge é retratado como um palhaço fraco, controlado pela esposa e pelos ministros. As biografias escritas sobre Jorge durante o século XIX e inícios do século XX basearam-se sobretudo nesses relatos tendenciosos. Desde o último quarto do século XX, a análise das correspondências que sobreviveram da época, indicou que Jorge não era tão pouco competente como se pensava anteriormente. Nas cartas dos ministros encontram-se notas pertinentes feitas por Jorge que mostram que ele se interessava e entendia a política estrangeira em particular. Muitas vezes conseguiu impedir a contratação de ministros de quem não gostava ou colocá-los em posições menos importantes. Contudo, esta nova avaliação académica de Jorge não foi suficiente para eliminar a percepção popular dele como um "rei ligeiramente lunático". A sua avareza, por exemplo, pode ter sido exposta ao ridículo, mas os seus biógrafos deixaram a observação de que a avareza era melhor do que a extravagância. Lorde Charlemont desculpou o mau feitio de Jorge, afirmando que os seus sentimentos sinceros eram melhores do que se fossem enganadores. "O seu feitio era quente e impetuoso, mas ele era bom e sincero. Tinha pouco talento para o talento real da dissimulação, sempre foi aquilo que parecia ser. Podia ofender, mas nunca enganava". Lorde Waldegrave escreveu: "Estou perfeitamente convencido de que, a partir de agora, quando o tempo fizer esmorecer aqueles espectros e culpas que mancham o melhor dos caracteres, e dos quais ninguém está verdadeiramente livre, o rei será nomeado como um daqueles reis patriotas sob cujo governo as pessoas desfrutaram da maior felicidade". Jorge pode não ter tido um papel importante na história, mas foi influente em certas ocasiões e manteve o governo constitucional. Elizabeth Montagu disse sobre Jorge que: "Com ele, as nossas leis e liberdades estavam asseguradas, tinha grande confiança no seu povo e o respeito dos governos estrangeiros; e uma certa firmeza de carácter que o tornavam bastante influente nestes tempos difíceis (...) O seu carácter não será o tema de poesias épicas, mas vai ficar bem nas páginas sóbrias da história."
Títulos e estilos
Seu título completo como rei era "Jorge Segundo, pela Graça de Deus, Rei da Grã-Bretanha, França e Irlanda, Defensor da Fé, Duque de Brunsvique-Luneburgo, Arquitesoureiro e Príncipe-Eleitor do Sacro Império Romano-Germânico".
Brasões
Quando Jorge se tornou Príncipe de Gales em 1714, ele recebeu o brasão real de armas sem o escudo interior eleitoral no quartel hanoveriano, diferenciado por um lambel argento de três pés. O brasão incluía uma coroa de um único arco e os suportes com um lambel similar nos ombros. Como rei, ele usava o brasão de seu pai sem nenhuma diferença.
Jorge II casou-se com a princesa Carolina de Brandemburgo-Ansbach, de quem teve os seguintes filhos:


