Mulheres no Islã
As mulheres no Islão são guiadas pelas leis primárias islâmicas, nomeadamente o Alcorão, assim como pelas demais leis secundárias.
Imagem: Jonas de Carvalho · BY-SA · Openverse
Existem quatro fontes de influência no Islã sobre as mulheres muçulmanas. As duas primeiras, o Alcorão e os Hádice, são consideradas principais fontes, enquanto as outras duas são fontes secundárias e derivadas que diferem entre várias seitas muçulmanas e escolas da jurisprudência islâmica. As fontes secundárias de influência incluem o ijma (consenso), as qiyas (analogias) e, em outras formas como as fatwas e o ijtihad. A igualdade espiritual entre mulheres e homens é detalhada na sura al-Aḥzab: "Quanto aos muçulmanos e às muçulmanas, aos fiéis e às fiéis, aos consagrados e às consagradas, aos verazes e às verazes, aos perseverantes e às perseverantes, aos humildes e às humildes, aos caritativos e às caritativas, aos jejuadores e às jejuadoras, aos recatados e às recatadas, aos que se recordam muito de Deus e às que se recordam d'Ele, saibam que Deus lhes tem destinado a indulgência e uma magnífica recompensa." (Alcorão 33:35)
No Alcorão
An-Nisa - "A Mulher" - é a quarta sura do Alcorão, com 176 versos, revelada em Medina.Trata essencialmente dos direitos e obrigações das mulheres. O verso 34 é frequentemente citado nas discussões sobre gênero e crítica feminista do Islão. Eis a tradução em língua portuguesa, conforme Helmi Nasr, na sua edição do Alcorão com a colaboração da Liga Islâmica Mundial em Meca. Na tradução clássica, o termo árabe “daraba” foi muitas vezes interpretado como “batei-lhes”. Estudos contemporâneos destacam que o significado é mais amplo e não implica necessariamente violência física. Dependendo do contexto, pode significar afastar-se, tomar medidas corretivas simbólicas ou educativas, sempre de forma proporcional, sem humilhar ou ferir.
Nos Hádices
Os hádices são uma coleção de episódios sobre a vida de Maomé, a seguir ao Alcorão em importância. Foram transmitidos através de uma cadeia oral, e mais tarde compilados várias gerações após a morte do profeta (séculos VIII e IX) por vários dos seus seguidores. São classificados pelos religiosos muçulmanos e juristas pela sua fiabilidade, sendo as coleções mais consideradas as Sahih al-Bukhari e Sahih Muslim . Em Sahih al-Bukhari encontra-se, por exemplo, o episódio do encontro de Maomé com um grupo de mulheres:
As mulheres muçulmanas sempre desempenharam um papel na difusão do conhecimento religioso. Aixa, esposa de Maomé, foi uma importante fonte dos ahadith. Ele teria dito a seus seguidores que receberiam metade da sua religião dela. Em uma pesquisa de 2013, a Organização para a Cooperação Islâmica concluiu que muitas nações islâmicas restringem o acesso feminino à educação. Em dados da UNICEF, 17 das 24 nações com nível de escolaridade primária abaixo de 60% são nações islâmicas; mais da metade da população adulta é analfabeta em muitos países islâmicos, e a proporção atinge a casa dos 70% quando referente às mulheres. Outros especialistas afirmam que as nações islâmicas possuem os mais altos sinais de separação de gêneros na educação. Um estudo do Fórum Econômico Mundial de 2012 alega que 17 nações islâmicas estão listadas entre as piores do mundo em políticas sociais, entre estas: Argélia, Jordânia, Líbano, Turquia, Egito, Omã, Arábia Saudita, Irão e Marrocos.
Na visão do Islã, não há diferenciação entre as relações de um homem e de uma mulher para com Alá; ambos os sexos recebem iguais graças ou punições por sua conduta. As mulheres muçulmanas devem observar os cinco pilares do Islã, incluindo orar cinco vezes por dia, jejuar durante o mês do Ramadã e, como qualquer muçulmano que seja fisicamente e financeiramente capaz - fazer pelo menos uma vez na vida, a peregrinação à Meca. No entanto, as mulheres não podem orar, jejuar ou tocar o Alcorão durante a menstruação ou durante um período após o parto. Durante esses tempos, elas são consideradas ritualmente impuras. Além disso, as mulheres que estão grávidas ou amamentando estão isentas do jejum durante o Ramadão, mas elas devem compensar os dias que perderam mais tarde. A participação das mulheres nas mesquitas tem variado historicamente e entre diferentes comunidades islâmicas. De acordo com alguns hadiths, as mulheres podem frequentar a mesquitas, embora durante a menstruação não possam realizar orações formais. Atualmente, mulheres e homens realizam seus cultos em áreas separadas, o que pode incluir diferentes andares, divisórias ou posições específicas no mesmo espaço, dependendo da tradição local e da interpretação da lei islâmica.
O Islão adverte as mulheres a vestirem-se com modéstia, cobrindo o corpo de forma adequada diante de homens que não sejam parentes próximos (como marido, pai ou familiares diretos) ou crianças pequenas. Contudo Alcorão não é específico quanto ao estilo das roupas e acessórias usados pelas mulheres. A vestimenta feminina tem sido modificada ao longo dos séculos e varia entre as diferentes regiões do mundo islâmico. Em alguns países, o uso do hijab é obrigatório, enquanto em outros, como o Irã e a Arábia Saudita, todas as mulheres devem cobrir a cabeça em público, embora o estilo e o tipo de cobertura possam diferir de acordo com a legislação e os costumes locais. Entre as vestimentas islâmicas mais conhecidas estão o hijab (cobertura da cabeça e pescoço) e o nicabe (cobertura do rosto), embora o Alcorão não mencione especificamente o uso de véus De acordo com Jawad Syed, em muitos países de maioria muçulmana, as mulheres continuam a segregação de gênero e restrições à sua mobilidade, frequentemente justificadas pelo conceito de modéstia islâmica. Na prática, essas medidas podem limitar a participação feminina na vida pública, incluindo no mercado de trabalho. Comparadas com outras sociedades, estas culturas tendem a dividir mais intensamente as esferas de atividade entre homens e mulheres..
O casamento no Islão é considerado um dever religioso e uma forma de organização familiar, com ênfase na responsabilidade mútua e no cuidado da família. O Alcorão assinala que Deus criou homens e mulheres para serem companheiros e parceiros na vida, com o objetivo de formar famílias e criar filhos. Além disso, o casamento é visto como um meio de preservar a castidade. e promover estabilidade social. Embora o divórcio seja permitido em certas circunstâncias, o Alcorão e a Suna enfatizam que deve ser considerado apenas como último recurso. O relacionamento entre marido e esposa é caracterizado como complementar. O marido tem a responsabilidade de sustentar e proteger a família, enquanto a esposa cuida da organização do lar e da educação das crianças. Embora os papéis sejam diferentes, marido e esposa são iguais perante Alá em termos de responsabilidade moral e espiritual, e o Alcorão incentiva-os a manter um vínculo baseado no amor e piedade, convivendo em tranquilidade. Os direitos e deveres de cada cônjuge são proporcionais às responsabilidades assumidas, refletindo uma divisão complementar de funções.
A endogamia é praticada em diversas comunidades muçulmanas há milhares de anos, sobretudo na forma de casamentos consanguíneos, em que os cônjuges compartilham um avô ou outro antepassado próximo. Os tipos mais comuns são os casamentos entre primos em primeiro grau, seguidos pelos de primos em segundo grau. Essa prática é mais frequente em regiões como o Oriente Médio, Norte da África e Ásia Central. Estima-se que cerca de um terço dos casamentos na Arábia Saudita, Irã e Paquistão sejam entre primos de primeiro grau, enquanto os casamentos endogâmicos consanguíneos totais podem chegar a 65–80% em algumas populações dessas regiões. A endogamia aumenta a probabilidade de depressão de consanguinidade, um fenômeno que reduz a diversidade genética da população. Os descendentes de casamentos consanguíneos apresentam um risco maior de desenvolver certas doenças genéticas.
Alguns estudiosos clássicos do Islã, como Atabari, apoiaram a liderança de mulheres. Nos primórdios da história do Islã, mulheres desempenhavam um papel nos assuntos políticos. No entanto, essa prática não foi uniformemente aplicada em todas as sociedades de maioria muçulmana. Um hádice no Sahih Bukhari relatado por Abu Bacra (não confundir com o califa Abacar) relata que Maomé teria afirmado: " Nunca terá sucesso uma Nação que faz de uma mulher sua Rainha". Esse relato foi interpretado por alguns estudiosos como uma restrição à liderança feminina em cargos de chefia de estado, embora haja divergência quanto à sua aplicação. Alguns juristas consideram que a proibição se aplica especificamente ao cargo de califa ou chefe de estado, enquanto outros sustentam que mulheres podem assumir posições de liderança em contextos restritos a mulheres ou em organizações específicas. Em 1988, o Paquistão se tornou o primeiro Estado de maioria islâmica a eleger uma primeira-ministra. Nas décadas seguintes, outros países de maioria islâmica,como Indonésia, Paquistão, Bangladesh, Turquia e Quirguistão, também tiveram mulheres em cargos executivos. No entanto, a presença feminina na política nem sempre se traduziu em avanços significativos nos direitos das mulheres, e desafios relacionados à igualdade de género permanecem em muitas dessas sociedades.


