História de Roma
A história de Roma remonta a 753 a.C., com a fundação de um pequeno povoado na península Itálica. Embora a fundação tenha ocorrido no século VIII a.C., o mais antigo registro escrito é o estabelecido pelo historiador Marco Terêncio Varrão durante o reino de Augusto, cerca de 500 anos após o fato. Com o tempo, Roma tornou-se o centro de uma vasta civilização que dominou a região mediterrânica durante séculos, e que seria derrubada por algumas tribos germânicas, dando início à era historiográfica da Idade Média. Tornou-se a sede da Igreja Católica e, por pressão das circunstâncias políticas, seria obrigada a ceder parte de si, no seu interior, para formar um Estado independente, a Cidade do Vaticano. Continuou, no entanto, a desempenhar um papel importante na política global, tal como o fez na história e cultura dos povos europeus durante milênios.
Roma Antiga foi uma civilização que se desenvolveu a partir da cidade-Estado de Roma, fundada na península Itálica durante o século VIII a.C. Durante os seus doze séculos de existência, a civilização romana transitou da monarquia para uma república oligárquica até se tornar um vasto império que dominou a Europa Ocidental e ao redor de todo o mar Mediterrâneo através da conquista e assimilação cultural. No entanto, um rol de factores sócio-políticos iria agravando o seu declínio, e o império seria dividido em dois. A metade ocidental, onde estavam incluídas a Hispânia, a Gália e a Itália, entrou em colapso definitivo no século V e deu origem a vários reinos independentes; a metade oriental, governada a partir de Constantinopla passou a ser referida como Império Bizantino a partir de 476, data tradicional da queda de Roma e aproveitada pela historiografia para demarcar o início da Idade Média.
Origem
A etimologia do nome da cidade é incerta, e são várias as teorias que nos chegam desde a Antiguidade. A menos provável indica-nos que derivaria da palavra grega Ρώμη (Róme), que significa "bravura", "coragem". A mais provável é a ligação com a raiz *rum-, "seios", com possível referência a uma loba (em latim, lupa) que teria adotado os gémeos Rómulo e Remo que, segundo se pensa, seriam descendentes dos povos de Lavínio. Rómulo mataria o seu irmão e fundaria Roma. Nas últimas décadas, os progressos na língua etrusca e na arqueologia na Itália reduziram as probabilidades destas teorias, introduzindo novas hipóteses possíveis. Sabe-se, atualmente, que o etrusco era falado desde a região que se tornaria mais tarde na província romana de Récia, nos Alpes, até à Etrúria, incluindo o Lácio e toda a região para Sul, até Cápua. As tribos itálicas entraram no Lácio a partir de uma região montanhosa no centro da península Itálica, vindos da costa oriental. Apesar das circunstâncias da fundação de Roma, a sua população original era, por certo, uma combinação da civilização etrusca e povos itálicos, com uma provável predominância de etruscos. Gradualmente, a infiltração itálica aumentaria, ao ponto de predominar sobre os Etruscos; i.e., as populações etruscas seriam assimiladas pelas itálicas, dentro e fora de Roma.
Primeiros povos itálicos
Roma cresceu com a sedentarização dos povos no monte Palatino até outras colinas a oito milhas do mar Tirreno, na margem sul do rio Tibre. Outra destas colinas, o Quirinal, terá sido, provavelmente, um entreposto para outro povo itálico, os Sabinos. Nesta zona, o Tibre esboça uma curva em forma de "Z" contendo uma ilha que permite a sua travessia. Assim, Roma estava no cruzamento entre o vale do rio e os comerciantes que viajavam de norte a sul pelo lado ocidental da península. A data tradicional da fundação (21 de abril de 753 a.C.) foi convencionada bem mais tarde, no final da República por Públio Terêncio Varrão, atribuindo uma duração de 35 anos a cada uma das sete gerações correspondentes aos sete mitológicos reis. Foram, no entanto, descobertas peças arqueológicas que indicam que a área de Roma poderá já ter estado habitada tão cedo quanto 1 400 a.C.. Estas descobertas arqueológicas também confirmaram que no século VIII a.C., na área da futura Roma, houve duas povoações fortificadas, os Rumi, no monte Palatino, e os Titientes, no Quirinal, e, mais a norte, os Luceres, que viviam nos bosques. Eram estas apenas três das numerosas comunidades itálicas que existiram no primeiro milénio a.C. na região do Lácio, uma planície na península Itálica. No entanto, desconhecem-se as origens destes povos, embora se admita que possam descender dos indo-europeus que migraram do Norte dos Alpes na segunda metade do segundo milénio a.C., ou de uma eventual mistura destes povos com outros povos mediterrânicos, talvez do Norte de África.
Domínio etrusco
Após 650 a.C., os Etruscos tornaram-se dominantes na península Itálica, expandindo-se para o centro-norte da região. Alguns historiadores modernos consideram que a este movimento estava associado o desejo de dominar Roma e talvez toda a região do Lácio, embora o assunto seja controverso. A tradição romana apenas nos informa que a cidade foi governada por sete reis de 753 a.C. a 509 a.C., iniciando-se com o mítico Rómulo que, juntamente com o seu irmão, Remo, teriam fundado Roma. Sobre os últimos três reis, especialmente Tarquínio Prisco e Tarquínio, o Soberbo, informa-nos ainda que estes seriam de origem etrusca — segundo fontes literárias antigas, Prisco seria filho de um refugiado grego e de uma mãe etrusca — e cujos nomes se referem a Tarquinia.
República Romana
No virar para o século V a.C., Roma uniu-se às cidades latinas como medida defensiva das incursões dos Sabinos. Vencedora da Batalha do Lago Regilo, em 493 a.C., Roma estabeleceu novamente a supremacia sobre as regiões latinas que perdera com a queda da monarquia. Após séries de lutas, a supremacia veio a consolidar-se em 393 a.C., com a subjugação dos Volscos (volsci) e dos Équos (aequi). No ano anterior, já teriam resolvido a ameaça dos vizinhos Veios, conquistando-os. A potência etrusca estava agora confinada exclusivamente à sua própria região, e Roma tornara-se na cidade dominante do Lácio. No entanto, em 387 a.C., Roma seria saqueada pelos Gauleses liderados por Breno, que já tinha sido bem-sucedido na invasão da Etrúria. Esta ameaça seria rapidamente resolvida pelo cônsul Marco Fúrio Camilo, que derrotou Breno em Túsculo pouco depois.
Império Romano
No final da república, a cidade de Roma ostentava já a imponência de uma verdadeira capital de um império que dominava a totalidade do Mediterrâneo. Era, na altura, a maior cidade do mundo e provavelmente a mais populosa cidade já construída até o século XIX. Estimativas dos picos populacionais variam entre menos de 500 000 e mais de 3,5 milhões, embora valores mais populares pelos historiadores variem entre 1 milhão e 2 milhões. A grandeza da cidade aumentou com as intervenções de Augusto, que completou os projectos de César e iniciou os seus próprios, como o Fórum de Augusto, e o Ara Pacis ("Altar da Paz"), em celebração do período de paz vivido na altura (Pax Romana), redefinindo também a organização administrativa da cidade em 14 regiões. Os sucessores de Augusto tentaram prosseguir essa linha edificadora deixando as suas próprias contribuições na cidade. O grande incêndio de Roma, durante o reinado de Nero, iria destruir grande parte da cidade mas, por sua vez, iria permitir e impulsionar uma nova vaga do desenvolvimento edificador.
As invasões bárbaras e o domínio bizantino
Em 476, o último imperador do Ocidente, Rómulo Augusto, que vinha sendo manipulado (como a maioria dos imperadores neste período) pelo pai, o general Flávio Orestes, foi deposto pelas tropas bárbaras lideradas por Odoacro e exilado no Castelo do Ovo, em Nápoles. A Queda do Império Romano do Ocidente teria, no entanto, pouco impacto em Roma. Odoacro, e mais tarde os Ostrogodos, continuariam a governar a Itália a partir de Ravena. Entretanto, o senado, apesar de desprovido da sua grande influência há muito tempo, continuaria a dirigir Roma, com o papa provindo geralmente de uma família senatorial. Esta situação manter-se-ia até as forças do Império Romano do Oriente, encabeçadas por Belisário a mando de Justiniano, capturarem a cidade em 536.
O Sacro Império
A 25 de abril de 799, enquanto o novo papa, Leão III, conduzia a tradicional procissão de Latrão em direcção à Igreja de São Lourenço em Lucina, ao longo da Via Lata , o trecho urbano da Via Flamínia (actual Via del Corso), dois nobres (seguidores do predecessor, Adriano), a quem não agradavam as fraquezas do papa em relação a Carlos Magno, atacaram o comboio processional deixando o papa gravemente ferido. Leão fugiu ao encontro do rei dos francos e, em novembro de 800, o rei entrou em Roma liderando um forte exército e um grande número de bispos francos. Carlos Magno organizou então um tribunal judicial para decidirem se Leão deveria continuar o Papado, ou se as reivindicações dos conjuradores seriam válidas ou não. No entanto, este tribunal fazia parte de uma cadeia de eventos minuciosamente planeados que iriam surpreender o mundo: O papa, naturalmente absolvido, e os conspiradores exilados, iria coroar Carlos Magno como Imperador Romano do Ocidente na Basílica de São Pedro, a 25 de dezembro de 800. Esta atitude cessou definitivamente a lealdade de Roma para com a sua "metade", Constantinopla, criando um império rival que, após uma série de conquistas por Carlos Magno, englobava agora a maioria dos territórios ocidentais cristãos.
Comuna de Roma
Por esta altura, a entretanto renovada Igreja Romana estava novamente a atrair peregrinos e prelados de toda as partes do mundo cristão, trazendo os seus dinheiros consigo: apesar da população reduzida (ca. 30 000), Roma transformava-se de novo numa cidade dependente dos consumidores, desta vez dirigida pela burocracia governamental. Entretanto, as outras cidades da península Itálica, dirigidas fundamentalmente por novas famílias que se iam sobrepondo à velha aristocracia, iam aumentando a sua autonomia formando uma nova classe de empreendedores, comerciantes e mercantes. Logo após o saque de Roma pelos Normandos, em 1084, a reconstrução da cidade foi suportada por famílias poderosas, como os Frangipane e os Pierleoni, cujo financiamento provinha do comércio e bancos, mais do que das terras. Inspirado pelas cidades vizinhas, como Tivoli e Viterbo, também o povo romano começou a considerar para a cidade o estatuto de comuna e, consequentemente, numa maior autonomia face à autoridade papal.
Cativeiro babilónico
O sucessor do Celestino V foi um enérgico romano da família Caetani, o papa Bonifácio VIII, que teria sido envolvido por hereditariedade nas disputas familiares com os tradicionais rivais da sua família, os Colonna. Não obstante, essa quezilha não o desviou na sua luta para reassegurar a supremacia universal da Santa Sé. Em 1300, Bonifácio VIII celebrou o primeiro Jubileu e fundou a primeira Universidade de Roma. O Jubileu seria, como se provou, um passo importante para Roma, já que aumentaria o seu prestígio internacional; consequentemente, a economia da cidade assistiria a um impulso, devido ao fluxo de peregrinos. Bonifácio morreu em 1303, pouco depois da humilhação do Atentado de Anagni (Schiaffo di Anagni, "Bofetada de Anagni") que assinalou o governo do Papado pelo rei de França, marcando um novo período de declínio para Roma.
O regresso do papa a Roma
Apesar do declínio e da ausência do papa, Roma não perderia o prestígio espiritual: em 1341 o famoso poeta Francesco Petrarca deslocou-se a Roma para ser distinguido como poeta no monte Capitolino. Entretanto, a nobreza e a classe pobre alinhavam-se para exigir o retorno do papa. De entre os vários embaixadores que neste período se deslocaram a Avinhão, destaca-se a figura simultaneamente bizarra e eloquente de Cola di Rienzo. À medida que aumentava o seu poder sobre a população, a 30 de maio de 1347 conquistou o Capitólio encabeçando a população, entusiasta. Embora de curta duração, o período da sua liderança sobre a população de Roma revelou-se um dos mais importantes momentos da história medieval da cidade; Cola esforçou-se por espalhar a aura rejuvenescedora do conceito comum de uma eventual independência italiana, no centro de um sonho confuso politicamente à semelhança do prestígio da Roma Antiga. Mais tarde, assumindo o poder de forma ditatorial, assumiu o título de "tribuno", numa clara referência à magistratura da plebe da era republicana. Di Rienzo considerava também o seu estatuto equivalente ao do Imperador Romano-Germânico. A 1 de agosto de 1347, conferiu a cidadania romana a todas as cidades italianas e preparou a eleição de um imperador romano para a Itália. Como medida de contenção, o papa declarava Di Rienzo como herético, criminoso e pagão, manipulando a opinião pública ao ponto de esta se começar a distanciar. A 15 de dezembro, Di Renzo foi obrigado a fugir.
O Renascimento em Roma
Durante o pontificado do papa Nicolau V (p. 19 de março de 1447), o Renascimento entrava em Roma na mesma altura em que a cidade se tornava no centro do humanismo. Nicolau V foi o primeiro papa a incluir na corte romana académicos e artistas, como Lorenzo Valla e Vespasiano da Bisticci. A 4 de setembro de 1449, Nicolau anunciou um Jubileu para o ano seguinte cuja consequência seria um novo influxo de peregrinos de toda a Europa. A multidão seria tanta que, em dezembro, na ponte Santo Ângelo, morreriam cerca de 200 pessoas "atropeladas" ou afogadas no rio Tibre. Nesse mesmo ano, reapareceu a peste na cidade, e Nicolau V fugiu de Roma. Apesar da atitude condenável, Nicolau V conseguiu estabilizar o poder temporal do Papado, isolando-o da interferência do imperador. Desta forma, a coroação e casamento do imperador Frederico II, a 16 de março de 1452, não passou, portanto, de uma cerimónia civil. O Papado controlava agora Roma firmemente. A tentativa de Stefano Porcari, que almejava a restauração da república, foi implacavelmente suprimida em janeiro de 1453. Porcari seria enforcado juntamente com os seus ajudantes, Francesco Gabadeo, Pierto de Monterotondo, Battista Sciarra e Angiolo Ronconi. Não obstante, a reputação do papa seria questionada quando, ao início da execução, Nicolau V se apresentou demasiado bêbado para confirmar as graças que havia garantido a Sciarra e Ronconi.
O saque de Roma e a Contrarreforma
Em 1527, a política ambígua seguida pelo segundo papa da família Mécic, o Papa Clemente VII, resultou num dramático saque da cidade pelas tropas imperiais de Carlos V do Sacro Império, que devastou a cidade durante dias. Muitos dos cidadãos foram assassinados ou procuraram abrigar-se fora das muralhas. O próprio papa aprisionou-se no Castel Sant'Angelo. O saque marcava, assim, o fim da era de maior esplendor da Roma moderna. O Jubileu de 1525 resultou numa farsa, com as reivindicações de Martinho Lutero a instaurar o criticismo e o despeito pela ganância do papa em relação a toda a Europa. O prestígio de Roma seria confrontado com o desmembramento das igrejas da Alemanha e Inglaterra. Ainda assim, o papa Paulo III (1534 - 1549) esforçou-se por apaziguar a situação convocando o Concílio de Trento, embora fosse, ironicamente, o mais nepotista dos papas. Paulo III chegou mesmo a separar Parma e Piacenza dos Estados Pontifícios para criar um ducado independente para o seu próprio filho, Pedro Luís Farnésio. Continuou, no entanto, o patrocínio pela arte, assistindo ao Juízo Final de Michelangelo, pedindo-lhe para renovar o Capitólio e assistir na construção da nova Basílica de São Pedro. Após o choque inicial do saque de Roma, convocou também o brilhante arquitecto Giuliano da Sangallo, o Jovem para fortificar as muralhas da "Cidade Leonina".
Unificação italiana
O governo pelo papado foi interrompido pela breve República Romana (1798), instituída segundo influência da Revolução Francesa. Outra República Romana surgia em 1849, no seguimento das revoluções de 1848. Duas das figuras mais influentes da unificação italiana, Giuseppe Mazzini e Giuseppe Garibaldi, lutaram ao lado da república. O regresso do Pio IX a Roma, com a ajuda das tropas francesas, marcou a exclusão de Roma do processo de unificação da segunda guerra da independência italiana e da Expedição dos Mil, após as quais toda a península Itálica, à excepção de Roma e do Véneto, seriam unificadas sob a Casa de Saboia. Em 1870, com o início da Guerra Franco-Prussiana, o imperador francês Napoleão III deixou de assegurar a protecção dos Estados Pontifícios. Pouco depois, o governo italiano declarava guerra aos estados. O exército italiano entrou em Roma a 20 de setembro, abrindo uma brecha na muralha, a Porta Pia, após um bombardeamento de três horas. Roma e todo o Lácio seriam anexados ao Reino de Itália.
Na actualidade
A Roma actual não só reflecte a estratificação das várias épocas ao longo da sua história, mas constitui também um metrópole contemporânea. O vasto centro histórico contém áreas que data desde a Roma Antiga, época medieval, vários palácios e tesouros artísticos do Renascimento, muitas fontes, igrejas e palácios do Barroco, bem como tantos outros exemplos de Art Nouveau, neoclassicismo, modernismo, racionalismo e quaisquer outros estilos artísticos dos séculos XIX e XX (com efeito, a cidade é considerada uma enciclopédia e um museu vivo dos últimos 3000 anos de história da arte ocidental). O centro histórico coincide praticamente com os limites das muralhas da Roma imperial. Algumas áreas foram reorganizadas após a unificação (1880–1910 - Roma Umbertina), e foram realizados alguns acrescentos e adaptações durante o período fascista, como a tão discutida Via dei Fori Imperiali, da Via della Conciliazione, em frente ao Vaticano (para cuja construção foi destruída uma grande parte do velho Borgo), a instituição de novos Quartieri (dos quais a EUR, San Basilio, Garbatella, Cinecittà, Trullo, Quarticciolo e, na costa, a restruturação da Óstia) e a inclusão da vilas fronteiriças (Labaro, Osteria del Curato, Quarto Miglio, Capannelle, Pisana, Torrevecchia, Ottavia, Casalotti). Estas expansões foram necessárias para albergar o aumento exponencial da população, consequência da centralização do Estado italiano.


