Heráldica
Heráldica ou armaria é um sistema de identificação visual e simbolismo criado na Europa no século XII, baseado nos brasões de armas ou escudos. O termo também designa a arte de elaborar os brasões e a ciência que estuda suas regras, formas, tradições, simbolismos e significados históricos, políticos, culturais e sociais.
Origens
As origens da heráldica se perdem no tempo e são hoje bastante controversas, mas um panorama evolutivo geral foi bem estabelecido. Desde a pré-história a humanidade dedicou-se a criar imagens simbólicas, que transmitissem informações através de formas plásticas. Isso se revela no mundo da arte, e também na heráldica. Primeiro, acredita-se, surgiram sinais simples, mais tarde evoluindo para composições complexas, abstratas ou figurativas, ou mesclando elementos de ambas. O uso desses elementos na Antiguidade foi amplamente disseminado. Escudos de guerreiros, estandartes processionais e emblemas encontrados no Egito, na Pérsia, na Grécia e Roma, entre outros lugares, costumavam apresentar desenhos identificadores. O falcão de Hórus, protetor dos faraós, o leão de Judá, identificador da tribo hebraica, e a águia de Roma, representando o poder imperial, são exemplos famosos, mas pouco se sabe sobre as regras de aplicação dessas decorações e seus significados precisos. Da mesma forma, povos indígenas de várias partes do mundo, bem como culturas muito antigas e sofisticadas como a japonesa e a árabe, desenvolveram sistemas de simbolismo visual que de muitas maneiras são comparáveis à heráldica europeia, tanto nas formas de codificação da linguagem como no uso e na ampla difusão, mas produzindo emblemas e signos que para os ocidentais parecem decididamente exóticos e não familiares.
Consolidação
Os primeiros brasões conhecidos aparecem em selos entre as décadas de 1120 e 1130, mas segundo Steen Clemmensen há indícios de que algumas poucas famílias francesas e inglesas já usassem armas pelo menos uma ou duas gerações antes. Um dos mais antigos documentados está na tumba de Godofredo V, Conde de Anjou, que carrega um escudo de campo azul com leões rampantes, que teria sido concedido por Henrique I em 1128, mas a pintura foi executada na década de 1170. Em Portugal estão entre os primeiros exemplos os escudos da linhagem dos Sousões encontrados no Claustro de Dom Dinis do Mosteiro de Alcobaça. A maioria das imagens dos primeiros brasões pessoais parece ter sido escolhida por motivo puramente ornamental, mas alguns surgiram como identificadores de territórios e só mais tarde foram adotados por famílias, ou foram ilustrações do significado de nomes (armas falantes), como por exemplo o da família Candavène, condes de Saint-Pol-en-Ternoise, que desde 1125 cunhou moedas com a figura de um feixe de espigas de aveia (avène), mais tarde incorporado ao seu brasão.
Legislação
A heráldica tornou-se um elemento típico da cultura europeia, e enquanto a monarquia foi a forma de governo predominante, adquiriu grande importância política e social para a realeza e a nobreza, que tentaram restringir o uso de brasões à aristocracia e colocá-los sob a dependência de um controle e outorga régia por carta-patente, passando a desenvolver uma retórica legalista e elitista alegando que possuir um brasão era a confirmação simbólica da qualidade de nobre. Não admira, desta forma, que em diversos países se criasse legislação para proteger e controlar a concessão e exibição pública de armas. Assim começaram a aparecer os reis de armas, arautos ou heraldos, altos funcionários régios que se responsabilizavam pelo registro dos brasões em listas ou catálogos oficiais e pelo desenho de novas armas. O termo heráldica provém dos próprios heraldos, que na Idade Média desempenhavam também, entre outras, as funções de diplomata e mestre de cerimônias.
Heráldica e status
Em tempos recentes uma série de estudos vêm se preocupando em documentar o antigo e amplo uso de brasões em âmbitos não aristocráticos, contribuindo para desmistificar a ideia de que a heráldica era uma prática exclusiva da nobreza e invariavelmente associada à vaidade e a privilégios de classe, e dando-lhe mais respeitabilidade acadêmica e mesmo junto á opinião pública. Segundo Nicolas Vernot, "agora os pesquisadores podem demonstrar interesse por brasões sem serem tachados de esnobes ou reacionários". Contudo, é inegável que apesar do extenso e ininterrupto uso de brasões pelos plebeus, por instituições civis e religiosas, e por entidades territoriais como cidades e países, a heráldica acabou por ser associada fortemente à aristocracia, em particular devido à ação interventora do Estado e à grande proliferação de tratados argumentando em favor dessa prerrogativa, colocando-se como defensores da lei, do poder régio e de uma ordem social divinamente estabelecida.
Contemporaneidade
No século XIX, com o florescimento do interesse romântico pelas antiguidades, pela genealogia, pela Idade Média e os passados nacionais, a heráldica ganhou um novo impulso, e uma série de tratadistas deixou obras importantes, com destaque para a reedição crítica e ampliação da obra monumental de Johann Siebmacher empreendida a partir de 1854, mas paradoxalmente surgiu um movimento revisionista tentando "corrigir" a tradição heráldica do período moderno, julgando-a negativamente e preferindo reverter aos padrões medievais, considerados mais "puros", e exercendo um impacto decisivo sobre a visão contemporânea dos seus sistemas e regras. Por influência deste movimento, muitos Estados reformularam seus brasões, e muitos brasões municipais foram alterados à força. Ao mesmo tempo, a demanda por publicações e manuais didáticos e históricos aumentava entre o grande público, foram fundadas várias associações, e os congressos e seminários especializados se multiplicaram. Apesar de todo esse entusiasmo, a penetração da heráldica nos ambientes universitários ainda era insignificante.
Cultura popular
Nas décadas recentes a heráldica voltou a se popularizar junto ao cidadão comum, ocorrendo uma forte onda de revivalismo e a multiplicação exponencial de novos brasões, entrando com força na cultura de massa. Na esteira deste fenômeno, muitas vezes não são observadas as regras tradicionais, que têm uma significativa complexidade, ou sequer essas regras são conhecidas pelo público leigo, que tem adotado brasões desenhados de todas as formas imagináveis. Têm contribuído para isso uma poderosa voga em torno de assuntos medievais que recupera imagens, lendas e mitos sobre cavaleiros, donzelas, feiticeiros, dragões, emblemas, espadas e castelos, e produções imensamente populares como as séries de ficção O Senhor dos Anéis, Harry Potter e Game of Thrones, onde a heráldica ocupa um papel de relevo na narrativa e também no marketing das franquias, além de ser um recurso visual importante para a criação de uma atmosfera arcaizante convincente em enredos fantásticos, místicos ou pseudo-históricos. Segundo Mat Hardy, alguns dos brasões criados para Game of Thrones provavelmente são hoje os mais conhecidos em todo o mundo.
Brasonamento
A descrição dos brasões se faz através de um jargão técnico conhecido como brasonamento, que usa um estilo, uma sintaxe e um vocabulário peculiares. A primeira coisa que é descrita num escudo é o esmalte (cor) do campo; seguem-se a posição e esmaltes das diferentes figuras existentes no escudo. Estas figuras ou cargas são descritas de cima para baixo, e da direita (dextra) para a esquerda (sinistra). Na verdade, a dextra (do latim dextra, -æ, "direita") refere-se ao lado esquerdo do escudo, e a sinistra (do latim sinistra, -æ, "esquerda") ao lado direito, tal como este é visto pelo observador. A razão porque isto sucede prende-se com o fato de a descrição se referir ao ponto de vista do portador do escudo, e não do seu observador.
Escudo e lisonja
O foco da heráldica moderna é o brasão, ou cota de armas, cujo elemento central é o escudo. É no escudo que se apresentam os principais símbolos identificadores da pessoa, família ou instituição. Também é ele que carrega modificações derivadas de diferentes graus de parentesco, aumentos ou honras adicionais recebidas, e partições derivadas de herança de outras famílias ou casamentos. Em geral, a forma do escudo empregado numa cota de armas é irrelevante, porque essas formas se modificaram através dos séculos acompanhando a evolução das correntes estéticas dominantes e os usos locais. Mas é claro que há ocasiões em que um brasão especifica um formato particular de escudo. Estas especificações ocorrem principalmente fora do contexto europeu, como na cota de armas de Nunavut e na antiga República de Bophuthatswana, com o exemplo ainda mais insólito da Dakota do Norte, enquanto o Estado de Connecticut especifica um escudo "rococó". — a maioria fora do contexto europeu, mas não todos: constam dos registros públicos escoceses um escudo oval, da Lanarkshire Master Plumbers' and Domestic Engineers' (Employers') Association, e um escudo quadrado, da organização Anglo Leasing.
Elmo e timbre
A palavra timbre é usada para se referir a toda uma categoria de adornos heráldicos. O uso técnico do termo heráldico timbre refere-se a apenas um componente de todo um conjunto. O timbre jaz no topo de um elmo que, por sua vez, apoia-se sobre a parte mais importante do conjunto: o escudo. O timbre moderno evoluiu da figura tridimensional colocada sobre os elmos dos cavaleiros como meios adicionais de identificação. Na maioria das tradições heráldicas as mulheres não ostentam timbres, embora esta tradição venha sendo relaxada em algumas jurisdições heráldicas, e a cota de Lady Marion Fraser, apresentada numa lisonja, tinha um elmo, um timbre e um mote.
Motes
O mote, lema ou divisa armorial é a frase ou conjunto de palavras que descreve a motivação ou intenção da pessoa ou corporação detentora das armas. Não é ignorada a possibilidade de formar um trocadilho com o nome da família, como no lema de Thomas Nevile — "Ne vile velis" —. Motes geralmente são modificados à vontade e não são parte integrante do patrimônio heráldico. Motes podem ser encontrados tipicamente em um pergaminho sob o escudo, chamado listel. Na heráldica escocesa, em que o mote é garantido como parte do brasão, ele costuma ser mostrado em um listel acima do timbre, e não pode ser modificado à vontade. Um mote pode ser escrito em qualquer idioma.
Suportes e outras insígnias
Suportes ou tenentes são figuras de humanos ou animais, ou, muito raramente, de objetos inanimados, normalmente colocados de cada lado de uma cota de armas, como se a estivessem suportando. Em muitas tradições, o uso de suportes passou a seguir padrões estritos, que o limitavam a certas classes sociais. No continente europeu, costuma haver menos restrições ao uso de suportes. No Reino Unido, apenas os pares do reino, uns poucos baronetes, os membros sênior de ordens de cavalaria e algumas corporações têm o direito de usar suportes. Estes frequentemente têm um significado local ou uma ligação histórica com o detentor da cota de armas. Se o detentor das armas tiver o título de barão, cavaleiro hereditário ou maior, ele pode ostentar um coronel de nobreza em seu escudo. Enquanto no Reino Unido ele aparece entre o escudo e o elmo, na heráldica continental costuma estar aboletado acima do timbre.
Diferenciação e brisuras
Como as armas passam de pais para filhos, e a maioria dos casais têm mais de um filho, em algumas tradições regionais considerou-se necessário distinguir as armas dos irmãos e outros familiares das armas originais, passadas de primogênito a primogênito, através do acréscimo de diferentes marcas nos brasões, as brisuras.


