Héracles
Héracles, nascido Alceu ou Alcides, foi um divino herói na mitologia grega, filho de Zeus e Alcmena, e filho adotivo de Anfitrião. Ele era um descendente de Perseu, outro filho de Zeus.
Muitas histórias populares foram contadas sobre a sua vida, sendo as mais famosas os doze Trabalhos de Hércules; poetas alexandrinos da era helenística levaram a sua mitologia a uma atmosfera de elevada poesia e tragédia. A sua figura, que inicialmente se inspirou em motivos do Próximo Oriente, tais como a luta com o leão, tornou-se amplamente conhecida. Héracles foi o maior dos heróis ctónicos helénicos, mas, ao contrário de outros heróis gregos, nenhum túmulo foi identificado como sendo seu. Héracles era tanto herói como deus, como Píndaro diz heros theos; no mesmo festival, sacrifícios eram feitos a ele, primeiro como herói, com uma libação ctónica, e depois como deus, sobre um altar: assim, ele encarna a aproximação grega mais próxima de um "semideus". O cerne da história de Héracles foi identificado por Walter Burkert como tendo origem na cultura de caçadores do Neolítico e em tradições de travessias xamânicas para o mundo dos mortos. É possível que os mitos que envolvem Héracles se tenham baseado na vida de uma pessoa real ou de várias pessoas cujas realizações foram exageradas com o tempo.
Herói ou deus
O papel de Héracles como um herói civilizador, cuja morte podia ser tema de narrativa mítica, foi aceito no Panteão Olímpico durante os tempos Clássicos. Isto criou uma estranheza no encontro com Odisseu no episódio da Odisseia XI, chamado a Nekuia, onde Odisseu encontra Héracles no Hades: E logo em seguida avistei o poderoso Héracles— Quero dizer, a sua sombra: pois ele próprio delicia-se nos grandes banquetes dos deuses imortais nas alturas... Ao seu redor, gritos dos mortos ressoavam como gritos de aves dispersando-se à esquerda e à direita em horror enquanto ele avançava como a noite... Críticos antigos estavam cientes do problema do aparte que interrompe a descrição vívida e completa, na qual Héracles reconhece Odisseu e o saúda, e alguns críticos modernos negam que o início do verso, "Quero dizer, a sua sombra...", fizesse parte da composição original: "uma vez que as pessoas souberam da admissão de Héracles no Olimpo, não tolerariam a sua presença no mundo dos mortos", assinala Friedrich Solmsen, observando que os versos interpolados representam um compromisso entre representações conflituosas de Héracles.
Os antigos gregos celebravam o festival da Heracleia, que comemorava a morte de Héracles, no segundo dia do mês de Metageitnion (que caía no final de julho ou início de agosto). O que se acredita ser um templo egípcio de Héracles no Oásis de Bahariya data de 21 a.C. Uma reavaliação das descrições de Ptolomeu sobre a ilha de Malta tentou ligar o sítio de Ras ir-Raħeb a um templo dedicado a Héracles, mas os argumentos não são conclusivos. Diversas cidades antigas foram chamadas Heracleia em sua honra. Uma ilha muito pequena perto da ilha de Lemnos era chamada Neai (Νέαι), de νέω, que significa "eu mergulho/nado", porque Héracles nadou até lá. Segundo as lendas gregas, o Herculano na Itália foi fundado por ele. Diversas poleis mantinham dois santuários separados para Héracles, um reconhecendo-o como deus, o outro apenas como herói. Sacrifícios eram feitos a ele como herói e como deus dentro do mesmo festival. Esta ambiguidade ajudou a criar o culto de Héracles, especialmente quando historiadores (por exemplo, Heródoto) e artistas encorajavam a adoração, tais como os pintores durante o tempo de Pisístrato, que frequentemente apresentavam Héracles a entrar no Olimpo nas suas obras.
Héracles usou a sua astúcia em diversas ocasiões em que a sua força não era suficiente, tal como quando limpou as estrebarias do rei Áugias da Élide, ao lutar contra o gigante Anteu, ou ao enganar Atlas para que este pegasse o céu de volta sobre os ombros. Juntamente com Hermes, ele era o patrono e protetor dos ginásios e das palestras. Os seus atributos iconográficos são a pele de leão e a clava. Estas qualidades não o impediram de ser considerado uma figura brincalhona que usava jogos para relaxar dos seus trabalhos e brincava muito com crianças. Ao conquistar perigosas forças arcaicas, diz-se que ele "tornou o mundo seguro para a humanidade" e que foi o seu benfeitor. Héracles era um indivíduo extremamente apaixonado e emotivo, capaz de realizar grandes feitos pelos seus amigos (como lutar contra Tánatos em favor do Príncipe Admeto, que tinha acolhido Héracles com hospitalidade, ou restaurar o seu amigo Tíndaro no trono de Esparta após ele ter sido derrubado) e de ser um inimigo terrível que infligia vinganças horríveis sobre aqueles que o cruzavam, como Áugias, Neleu e Laomedonte descobriram para seu próprio prejuízo. Havia também uma frieza no seu caráter, demonstrada pela representação que Sófocles fez do herói em As Traquínias. Héracles ameaçou o seu casamento ao desejar trazer duas mulheres sob o mesmo teto; uma delas era a sua esposa Dejanira.
Descrição física
De acordo com o filósofo grego Dicearco, Héracles tinha uma constituição atarrancada, musculada, era escuro (μέλανα), de nariz aquilino, com olhos de cor castanho-âmbar e cabelos compridos. Pseudo-Apolodoro acrescenta que "o seu corpo media quatro côvados, e ele soltava um clarão de fogo dos seus olhos", enquanto o poeta Píndaro o descreve como "de estatura baixa, mas de alma destemida". Na arte, ele é geralmente mostrado com cabelos curtos e encaracolados, um pescoço grosso, uma testa inferior proeminente, ombros largos e braços, peito e pernas fortemente desenvolvidos, como no Hércules Farnese.
Nascimento e infância
Um fator determinante nas conhecidas tragédias em redor de Héracles é o ódio que a deusa Hera, esposa de Zeus, tinha por ele. Héracles era o filho do caso de Zeus com a mulher mortal Alcmena. Quando Zeus desejou Alcmena, decidiu fazer com que uma noite durasse o equivalente a três, ordenando a Hélio, o deus do sol, que não nascesse por três dias, para assim ter mais tempo com Alcmena. Zeus teve relações com ela após disfarçar-se do seu marido, Anfitrião (que se havia refugiado em Tebas após matar por acidente o rei Electrião de Micenas, e que saíra para vingar os filhos de Ptérela a pedido de Alcmena). Anfitrião regressou mais tarde na mesma noite, e Alcmena ficou grávida do seu filho ao mesmo tempo, um caso de superfecundação heteropaternal, em que uma mulher carrega gémeos de pais diferentes. Deste modo, a própria existência de Héracles provava pelo menos um dos muitos casos ilícitos de Zeus, e Hera frequentemente conspirava contra os descendentes mortais de Zeus como vingança pelas infidelidades do marido. O seu irmão gémeo mortal, filho de Anfitrião, foi Íficles, pai do auriga de Héracles, Iolau.
Ao crescer, Héracles cada vez mais sobressaiu-se pela enorme força e coragem. Sua primeira façanha heroica deu-se quando se dirigiu à Beócia, região próxima de Tebas, onde perseguiu e matou apenas com as mãos um enorme leão que devorava os rebanhos de Anfitrião e de Téspio, na região de Citerão. A caçada durou cinquenta dias consecutivos, durante os quais Héracles foi hóspede de Téspio, que aproveitou para fazer com que toda noite uma das suas cinquenta filhas se deitasse com o herói, de maneira a criar uma aguerrida descendência. Muitos dos netos de Téspio, conhecidos como Tespíadas, foram conduzidos por Héracles até a Sardenha, onde se estabeleceram como colonos. Ao regressar a Tebas após esta caçada, Héracles encontrou os enviados do rei Ergino, de Orcômeno, que vinham recolher um tributo que os tebanos lhe pagavam regularmente. Após derrotá-los e insultá-los, Héracles obrigou os mínios de Orcómeno a pagar um tributo duas vezes maior que o que haviam imposto a Tebas. Neste combate, morreu Anfitrião, que lutou corajosamente ao lado do filho.
Os trabalhos de Héracles
Por ter livrado a cidade de Tebas do tributo aos mínios, o rei Creonte, filho de Meneceu, ofereceu a Héracles sua filha mais velha, a bela Mégara, que lhe deu vários filhos. Anos depois, num acesso de loucura provocado por Hera, Héracles matou os filhos tidos com Mégara. Após recuperar a sanidade, Héracles foi consultar o Oráculo de Delfos sobre o meio de se redimir desse crime e poder continuar com uma vida normal. O oráculo ordenou-lhe que servisse, durante doze anos, a seu primo Euristeu, rei de Micenas e de Tirinto. Pondo-se Héracles ao seu serviço, o rei, simpatizante de Hera, impôs-lhe, com a oculta intenção de o eliminar, doze perigosíssimos trabalhos, dos quais o herói saiu vitorioso:
Outras façanhas
Após esses trabalhos, Héracles entregou-se a muitos outros, por sua livre vontade, na defesa dos oprimidos:
Disputou com Aqueloo a posse de Dejanira, filha de Eneu, rei da Etólia. Como a princesa a Héracles preferia, Aqueloo, furioso, transformou-se em serpente, e investiu contra ele; repelido, transformou-se em touro, e de novo arremeteu; mas o herói enfrentou-o, pela segunda vez, quebrando-lhe os chifres, e desposou Dejanira. Em seguida, tendo de atravessar o rio Eveno, pediu ao centauro Nesso que conduzisse Dejanira ao ombro, enquanto ele faria a travessia a nado. No meio do caminho, tendo Nesso se recordado de uma injúria que outrora Héracles lhe dirigira, resolveu, por vingança, raptar-lhe a esposa, passando com esse intuito, a galopar rio acima. O herói, tendo percebido as suas intenções, aguardou que ele alcançasse terra firme, e então atravessou-lhe o coração com uma das flechas envenenadas. Nesso tombou, e, ao expirar, deu a Dejanira a sua túnica manchada do sangue envenenado, convencendo-a de que seria, para ela, um precioso talismã, com a virtude de restituir-lhe o esposo, se este viesse em qualquer tempo, a abandoná-la.


