Haiku
Haiku é uma forma curta de poesia japonesa. É tradicionalmente caracterizada por três aspectos:A essência do haiku é o "corte" (kiru). Isto é geralmente representado pela justaposição de duas imagens ou ideias e um kireji entre elas, um tipo de marca de pontuação verbal que sinaliza o momento da separação e destaca a maneira pela qual os elementos justapostos são relacionados. O haiku tradicional consiste de 17 on, em três frases de 5, 7 e 5 on respectivamente, embora existam autores críticos com a distribuição de sílabas como Vicente Haya ou Jaime Lorente.Um kigo, normalmente gerado de um saijiki, uma lista extensiva e definitiva de tais palavras.
Em comparação com os versos ocidentais geralmente caracterizados por uma métrica silábica, o verso japonês conta as unidades de som conhecidas como "on" ou mora. O haiku tradicional consiste de 17 on, em três frases de cinco, sete e cinco on respectivamente. Entre os poemas contemporâneos teikei (定型 forma fixa), o haiku continua a usar o padrão 5-7-5 enquanto o haiku jiyuritsu (自由律 forma livre) não usa. Um dos exemplos abaixo ilustra que os mestres do haiku tradicional nem sempre se restringem ao padrão 5-7-5. Embora a palavra "on" seja traduzida às vezes como "sílaba", um "on" é contado para uma sílaba curta, dois para uma vogal alongada ou ditongo e uma para uma sílaba terminada em n. Assim, a palavra "haibun," é contada como duas sílabas no português e é contada como quatro on no japonês (ha-i-bu-n), enquanto a própria palavra "on", que os falantes de português veriam como uma sílaba única, compreende dois on: a vogal curta o e o som n̩. Isto é ilustrado pelo exemplo do Issa haiku abaixo, que contém 17 on mas apenas 15 sílabas.
Um haiku tradicionalmente contém um kigo, uma palavra ou frase definida que simboliza ou implica a estação do poema, que é tirada de um saijiki, uma lista extensiva e definida de tais palavras. Os kigo são geralmente na forma de metonímia e pode ser difícil para aqueles sem referências culturais japonesas captar a ideia. Os exemplos abaixo de Bashō incluem "kawazu", "sapo" implicando primavera, e "shigure", um banho de chuva no final do outono ou começo do inverno. Os kigo nem sempre são incluídos em haikus não japoneses ou por escritores modernos da "forma livre" do haiku japonês.
No haiku japonês, um kireji, ou palavra de corte, normalmente aparece no final de uma das três frases do verso. Um kireji preenche um papel um tanto semelhante a uma caesura na poesia clássica ocidental ou a uma volta em sonetos. Dependendo de qual palavra de corte é escolhida, e sua posição dentro do verso, ele pode cortar brevemente a corrente de pensamento, sugerindo um paralelo entre as frases antecedente e posterior, ou pode fornecer um fim digno, concluindo o verso com um sentido de encerramento. A qualidade estética fundamental tanto do hokku quanto do haiku é a autossuficiência, independente do contexto, e será considerado como uma obra completa. O kireji empresta o apoio estrutural do verso, permitindo-o permanecer como um poema independente. O uso do kireji distingue o haiku e o hokku do segundo verso e subsequentes do renku que, embora eles possam empregar uma disjunção semântica e sintética, mesmo ao ponto de ocasionalmente terminar uma frase com um shūjoshi (終助詞 partícula de fim de sentença), geralmente não recorre ao kireji.
O mais conhecido haiku japonês é a "velha lagoa" de Matsuo Bashō': 古池や蛙飛び込む水の音 ふるいけやかわずとびこむみずのおと furu ike ya kawazu tobikomu mizu no oto Uma tradução alternativa, que preserva a contagem de sílabas no inglês ao custo de tomar uma liberdade maior com o sentido: 初しぐれ猿も小蓑をほしげ也 はつしぐれさるもこみのをほしげなり hatsu shigure saru mo komino o hoshige nari Este haikai de Bashō ilustra que ele nem sempre se restringia ao padrão de 5-7-5 on. Ele contém 18 on no padrão 6-7-5 ("ō" ou "おう" é tratado como dois on. 富士の風や扇にのせて江戸土産 ふじのかぜやおうぎにのせてえどみやげ Fuji no kaze ya ōgi ni nosete Edo miyage Este haikai de Issa ilustra que os 17 on japoneses nem sempre se igualam às sílabas em português ("nan" conta como dois on e "nonda" como três) 江戸の雨何石呑んだ時鳥 えどのあめなんごくのんだほととぎす Edo no ame nan goku nonda hototogisu
Haiga é um estilo de pintura japonesa sobre a estética do haikai e geralmente inclui um haiku. Atualmente, os artistas de haiga combinam o haiku com pinturas, fotografias e outras formas de arte. A escultura de haikus famosos em pedra natural para tornar os poemas monumentos conhecidos como kuhi (句碑) foi uma prática popular por muitos séculos. A cidade de Matsuyama possui mais de duzentos kuhi.
De renga a renku e haiku
Hokku é a estrofe de abertura de um poema ortodoxo colaborativo, ou renga, e de seu derivado posterior, o renku (ou haikai no renga). Na época de Matsuo Bashō (1644–1694), o hokku havia começado a aparecer como um poema independente e foi também incorporado no haibun (uma combinação de prosa e hokku), e haiga (uma combinação de pintura com hokku). No final do século XIX, Masaoka Shiki (1867–1902) renomeou o hokku independente como haiku. Este último termo é agora geralmente aplicado retrospectivamente a todos os hokkus que aparecem independentemente do renku ou do renga, independente de quando eles foram escritos, sendo que o uso do termo hokku para descrever um poema independente é considerado obsoleto.
Bashō
No século XVII, surgiram dois mestres que elevaram o haikai e lhe deram uma nova popularidade. Eles eram Matsuo Bashō (1644–1694) e Ueshima Onitsura [ja] (1661–1738). Hokku é o primeiro verso do haikai ou renku colaborativo, mas sua posição como o verso de abertura tornou-o o mais importante, definindo o tom para toda a composição. Mesmo o hokku tendo aparecido às vezes individualmente, eles eram sempre entendidos no contexto do renku. A escola de Bashō promoveu o hokku independente ao incluir muitos deles em suas antologias, assim dando origem ao que hoje é chamado de "haiku". Bashō também usou seu hokku como pontos de torque dentro de seus esboços de prosa curta e diários de viagem mais longos. Este subgênero do haikai é conhecido como haibun. Sua obra mais conhecida, Oku no Hosomichi, ou Estradas Estreitas para o Interior, é considerada como um dos clássicos da literatura japonesa e foi traduzido para outras línguas.
Buson
O próximo estilo famoso de haikai a surgir foi o de Yosa Buson (1716–1783) e outros como Kitō, chamado de estilo Tenmei após a Era Tenmei (1781–1789) no qual ele foi criado. Buson é reconhecido como um dos maiores mestres do haiga (uma forma de arte na qual a pintura é combinada com o haiku ou a prosa haikai). Sua afeição pela pintura pode ser vista no estilo pictórico de seu haikai.
Issa
Nenhum novo estilo popular surgiu após Buson. No entanto, uma abordagem muito individualista, e ao mesmo tempo humanista, de escrever haikai foi demonstrado pelo poeta Kobayashi Issa (1763–1827), cuja infância miserável, pobreza, vida triste e devoção à seita Terra Pura do budismo são evidentes em sua poesia. Issa tornou o gênero acessível a um público maior.
Shiki
Masaoka Shiki (1867–1902) foi um reformista e modernizador. Um escritor prolífico, apesar de cronicamente doente durante uma parte significante de sua vida. Shiki não gostava dos escritores de haikai 'estereotipados' do século XIX que eram conhecidos pelo termo depreciativo tsukinami, que significa 'mensal', após as reuniões de haikai mensais ou quinzenais no final do século XVIII (neste período do haikai, ele passou a ser conhecido como 'banal' e 'vulgar'). Shiki também criticou Bashō. Como o mundo intelectual japonês na época, Shiki foi fortemente influenciado pela cultura ocidental. Ele era a favor do estilo pictórico de Buson e particularmente do conceito europeu de pintura plein-air, o qual ele adaptou para criar um estilo de haikai como um tipo de esboço da natureza em palavras, uam abordagem chamada de shasei (写生), literalmente 'esboço da vida'. Ele popularizou suas opiniões em colunas de verso e ensaios em jornais.
Haibun
Haibun é uma combinação de prosa e haiku, geralmente autobiográfica ou escrita na forma de jornal de viagem.
O primeiro ocidental conhecido a ter escrito haikai foi o holandês Hendrik Doeff (1764–1837), que era o comissionário holandês no posto comercial de Dejima, em Nagasaki, durante os primeiros anos do século XIX. Um de seus haikais foi: Embora houvesse mais tentativas fora do Japão de imitar o "hokku" no início do século XX, havia pouco entendimento de seus princípios. Os primeiros estudiosos ocidentais como Basil Hall Chamberlain (1850–1935) e William George Aston eram em sua maioria desconsiderados de valor poético de hokku. Um dos primeiros defensores do hokku em língua inglesa foi o poeta japonês Yone Noguchi. Em "Uma Proposta aos Poetas Americanos", publicado na revista Reader em fevereiro de 1904, Noguchi deu um breve resumo do hokku e alguns de seus próprios esforços em inglês, encerrando com a exortação "Rezem, vocês tentam o hokku japonês, meus poetas americanos!". Por volta da mesma época, o poeta Sadakichi Hartmann estava publicando o hokku em língua inglesa, bem como outras formas japonesas tanto em inglês e francês.
Blyth
R.H. Blyth foi um inglês que viveu no Japão. Ele produziu uma série de obras sobre zen, haikai, senryū e sobre outras formas de literatura japonesa e asiática. Em 1949, com a publicação no Japão do primeiro volume de 'Haiku, a obra de quatro volumes de Blyth, os haikais foram introduzidos ao mundo pós-guerra dos falantes de inglês. Esta série de quatro volumes (1949-52) descrevia o haikai do período pré-moderno até Shiki. A History of Haiku (História do Haiku) (1964) de Blyth, em dois volumes, é considerado como um estudo clássico de haikai. Atualmente Blyth é conhecido como o principal intérprete do haikai para falantes de inglês. Suas obras estimularam a escrita do haikai em inglês.
Yasuda
O estudioso e tradutor nipoamericano Kenneth Yasuda publicou The Japanese Haiku: Its Essential Nature, History, and Possibilities in English, with Selected Examples em 1957. O livro inclui traduções do japonês e poemas originais de sua autoria em inglês, que haviam anteriormente aparecido em seu livro intitulado A Pepper-Pod: Classic Japanese Poems together with Original Haiku.Nesse livros, Yasuda apresentou uma teoria crítica sobre o haikai, à qual ele adicionou comentários sobre poesia haikai por poetas e críticos do início do século XX. Suas traduções aplicam uma contagem de sílaba 5-7-5 em inglês, com a primeira e terceira linha rimando. Yasuda considerava que o haikai traduzido para o inglês deveria utilizar todos os recursos poéticos da língua. A teoria de Yasuda também inclui o conceito de um "momento haikai" baseado na experiência pessoa, e fornece a motivação para escrever um haikai. Sua noção do momento haikai influenciou outros escritores de haikai na América de Norte, muito embora a noção não seja amplamente promovida no haikai japonês.
No início do século XXI, havia uma comunidade próspera de poetas haikai no mundo, principalmente comunicando através de sociedades e jornais nacionais e regionais no Japão, nos países falantes de inglês (incluindo Índia), no norte da Europa (principalmente Suécia, Alemanha, França, Bélgica e Holanda), no sudeste europeu e Europa central (principalmente Croácia, Eslovênia, Sérvia, Bulgária, Polônia e Romênia) e na Rússia. Os jornais de haikai publicados no sudeste europeu incluem Letni časi (Eslovênia), Vrabac (Croácia), Haiku Novine (Sérvia), e Albatros (Romênia). O presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, é um famoso haijin e conhecido como “Haiku Herman”. Ele publicou um livro de haiku em abril de 2010. No início do século XX, o vencedor do Nobel Rabindranath Tagore compôs haikai em Bengali. Ele também traduziu alguns do japonês. Em gujarati, Jhinabhai Desai 'Sneharashmi' popularizou o haiku e permaneceu como um popular escritor de haikai. Em fevereiro de 2008, o Festival Mundial de Haiku ocorreu em Bangalore, reunindo haijin (俳人, poetas haiku) de toda a Índia e Bangladesh, bem como Europa e Estados Unidos. No sul da Ásia, alguns outros poetas também escrevem haikai de tempos em tempos, incluindo o poeta paquistanês Omer Tarin, que também é ativo no movimento pelo desarmamento nuclear e alguns de seus ‘Hiroshima Haiku’ foram lidos em várias conferências de paz no Japão e no Reino Unido.
Segundo Goga (1988), o primeiro autor brasileiro de Haikai foi Afrânio Peixoto, em 1919, através de seu livro Trovas Populares Brasileiras, onde prefaciou suas impressões a respeito do poema japonês: Quem o popularizou, porém, foi Guilherme de Almeida, com sua própria interpretação da rígida estrutura de métrica, rimas e título. Publicou o artigo de revista Os Meus Haicais em 1937 e a coleção Poesia Vária em 1947, apesar dela não ser exclusivamente de haikais. No esquema proposto por Almeida, o primeiro verso rima com o terceiro, e o segundo verso possui uma rima interna (A 2ª sílaba rima com a 7ª sílaba). A forma de haikai de Guilherme de Almeida ainda tem muitos praticantes no Brasil. Outra corrente do haikai brasileiro é a tradicionalista, promovida inicialmente por imigrantes ou descendentes de imigrantes japoneses, como H. Masuda Goga e Teruko Oda. Esta corrente define haikai como um poema escrito em linguagem simples, sem rima, estruturado em três versos que somem dezessete sílabas poéticas; cinco sílabas no primeiro verso, sete no segundo e cinco no terceiro.


