Guerrilha do Araguaia
Guerrilha do Araguaia foi um movimento guerrilheiro existente na região amazônica brasileira, ao longo do rio Araguaia, entre fins da década de 1960 e a primeira metade da década de 1970. Criada pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), tinha por objetivo fomentar uma revolução socialista, a ser iniciada no campo, baseada nas experiências vitoriosas da Revolução Cubana e da Revolução Chinesa.
O PCdoB chega ao Araguaia
Nos anos 60 do século XX, a região ao longo do qual corre o rio Araguaia era habitada por brasileiros em sua maioria vindos de outras regiões, principalmente do nordeste do país. Eram homens atrás de terras para o cultivo, garimpeiros atrás de pedras preciosas, caçadores atrás de peles de animais, migrantes procurando todo tipo de trabalho e riqueza que aquelas áreas virgens pudessem oferecer. Famílias inteiras, fugindo da seca nordestina, trabalhavam em fazendas por menos de um salário mínimo. Muitos plantavam mandioca e castanha-do-pará, a maioria analfabetos e explorados pelos poucos proprietários de terra, grileiros do lugar. Era o local ideal, segundo o PCdoB, para o início de uma revolta popular. A mesma avaliação, depois de descoberta a guerrilha, foi feita pelo Cenimar, o Centro de Informações da Marinha, que informava em relatório que a população da região vivia na miséria, sob o domínio de latifundiários e autoridades municipais corruptas.:92
A descoberta da guerrilha
No início de 1972 o governo descobriu a existência da guerrilha e soube disso por informantes diferentes, sem que se possa precisar qual foi o primeiro.:413 Em novembro de 1971, dois guerrilheiros, Pedro Albuquerque e sua mulher, fugiram da área, desistindo da campanha. Em janeiro de 1972 ele foi preso em Fortaleza, no Ceará, e o CIE conseguiu o fio da meada que levava à guerrilha.:414 (Pedro, porém, sustentou ao longo dos anos que seus torturadores já conheciam a estrutura no Araguaia). A outra informação veio de São Paulo. A mulher do guerrilheiro Lúcio Petit da Silva, um dos irmãos Petit, contraiu hepatite e tuberculose na selva. Saiu do Araguaia em fins de 1971 grávida e com um problema por curetagem mal feita, sendo levada até Goiânia para tratamento. Deveria voltar mas fugiu do hospital e desembarcou em São Paulo atrás da família.
Operação Papagaio
Em 21 de abril de 1972, os militares começaram a entrar na região, entre Marabá e Xambioá, primeiro com uma pequena equipe de cinco homens, um grupo de batedores do CIEx chefiado pelo major Lício Maciel - que trazia consigo como prisioneiro Pedro Albuquerque:102 - e logo em seguida com um batalhão de 400 homens acantonado em cada cidade. Bases foram sendo instaladas no interior e em agosto o total chegava a 1500 homens. Mascarando suas intenções reais, a notícia espalhada era que se tratava de uma manobra do IV Exército, cuja sede ficava em Recife, a 1600 km dali. Dentro dessa massa de soldados da infantaria regular, estavam homens do CIEx e paraquedistas, cuja missão era destruir a guerrilha. Era o início da primeira das três fases da campanha militar, a Operação Papagaio,:414-415 com três pequenas operações de coleta de informação e levantamento da área em seu bojo antes da chegada do grosso da tropa: "Peixe", "Ouriço" e "Olho Vivo".
Operação Sucuri
A retirada das tropas deu nos caboclos e camponeses a impressão de que os "paulistas" tinham vencido a guerra. Um bate-pau que ajudou os militares, encontrado casualmente na mata por três guerrilheiros, foi assassinado a tiros. :424 João Coioió, o matador de Lúcia Petit, juntou a família e desapareceu da região.:423 Outros fingiram-se de ineptos. Com o fim do segredo entre a população do Araguaia sobre quem eram os "paulistas", a guerrilha lançou-se à propaganda, distribuindo folhetos com mensagens socialistas e até fazendo chegar cartas a jornais. Segundo um caboclo, "eles falavam em comunismo, mas ninguém sabia o que era aquilo".:429 No primeiro semestre de 1973, a guerrilha reorganizou-se. Depósitos de mantimentos e munições foram espalhados em refúgios pela floresta. Recrutaram mais dois combatentes entre os moradores da região e formaram treze grupos clandestinos de apoio, num total de 39 pessoas. Mataram três colaboradores dos militares, um deles um jagunço da região e atacaram um posto da PM na estrada Transamazônica. Cercaram a base, atearam fogo no telhado de palha, renderam os cinco soldados da guarnição e fugiram levando as fardas, seis fuzis e um revólver.:431 Em agosto, a direção da guerrilha "justiçou" (fuzilou), após julgamento na selva, um dos militantes por fraqueza ideológica e adultério.:56 Eram até então um total de 56 homens e mulheres, dos quais seis camponeses. Faltavam roupas, calçados e munição e não houve mais reforços porque o PCdoB já havia sido desbaratado em seis estados. As armas continuavam insuficientes, mas o moral estava alto. A proximidade do período chuvoso no Araguaia, que impedia a movimentação de grandes veículos, lhes dava a suposição de que o exército só voltaria no começo de 1974.
Operação Marajoara
Em 7 de outubro de 1973 a tropa voltou ao Araguaia. Um efetivo menor, cerca de 400 homens, disfarçados e sem uniforme mas com grande quantidade de armamento, que eram deixados em vários povoados da área ocupada pelos guerrilheiros. Alguns deles chegavam escondidos em caixotes ocos dentro de caminhões de transporte de madeira. Para os locais, eram funcionários da "Agropecuária Araguaia" e da "Mineração Aripuanã". :436 Chegaram prendendo moradores. Lavradores e pequenos comerciantes foram levados para prisões em Xambioá e Marabá. Alguns colocados em buracos abertos em clareiras com grade em cima. Em Tabocão, onde havia dezessete homens, foram todos presos e relatos de tortura começavam a aparecer: "Moço, tinha nego lá que tava azul que nem carne roxa.":437 Antes das refeições os presos eram colocados em fila, nus, e obrigados a cantar "É um tal de soca-soca, é um tal de pula-pula"; quem errasse a letra, apanhava. Um camponês, de quem se suspeitava saber informações dos guerrilheiros, foi colocado num pau de arara em cima de um formigueiro, com o corpo lambuzado de açúcar e comido pelas formigas até confessar o que sabia.
Operação Limpeza
No início de 1975, com a guerrilha já exterminada, as Forças Armadas deram início a uma operação de ocultação de todos os fatos acontecidos no Araguaia, diante da política de sigilo absoluto determinada pelo governo, agora do general Ernesto Geisel. Chamada de Operação Limpeza, o objetivo era apagar os rastros da luta e dos corpos deixados para trás, enterrados pela selva. Aproximadamente 60 guerrilheiros haviam sido mortos, cerca de ⅔ deles assassinados após captura e tortura. Documentos foram queimados, acampamentos desmontados e os corpos retirados de suas covas, muitas delas rasas, e queimados. Suely Kanayama, a "Chica", morta em fins de 1974 num confronto com militares em que levou mais de cem tiros, tinha sido enterrada na base da Bacaba (hoje Vila Santana). Seu corpo foi desenterrado, enfiado num saco plástico, embarcado num helicóptero junto com outros e levado até o alto da Serra das Andorinhas – que passou a ser conhecida também como Serra dos Martírios após o episódio – onde foi queimado entre pneus velhos encharcados de gasolina. A operação durou cerca de dez dias, com corpos sendo desenterrados e transportados nos helicópteros. Por causa do cheiro da decomposição, os pilotos usavam máscaras contra gases e lenços encharcados de perfume. Relatos também indicam o transporte em barcos de sacos contendo restos para a região conhecida como "inflamável", a parte mais funda do rio Tocantins, perto de Marabá.
Assunto tabu mesmo entre os militares, os fatos relativos à guerrilha foram envoltos num véu de silêncio por muitos anos e mesmo hoje, quando vários livros foram escritos sobre o episódio, inclusive por militares, mas nenhum deles endossado por fontes governamentais, a versão oficial do conflito pelas Forças Armadas e pelo extinto regime militar é desconhecida. Alguns livros e reportagens tiveram acesso a documentos oficiais descobertos, mas as Forças Armadas nunca se pronunciaram oficialmente sobre eles. Nos anos posteriores, mesmo ainda durante a ditadura militar, parentes e organizações de direitos humanos começaram a busca pelos desaparecidos. Já em 1980, familiares dos mortos percorriam a região do Araguaia em busca de informações. Em 1982, no governo João Figueiredo, 22 parentes de guerrilheiros instauraram um processo contra a União, pedindo que a Justiça exigisse do Exército documentos comprobatórios das mortes para que fossem providenciados atestados de óbito. Em 1991, por conta própria, parentes começaram escavações no Cemitério de Xambioá, o que resultou no encontro e posterior identificação – em 1996 – dos ossos da guerrilheira Lúcia Petit, a primeira ossada de guerrilheiro identificada por DNA. No mesmo ano da identificação dos restos de Lúcia, uma nova ossada foi achada em Xambioá. Em 2009, foi identificada com sendo do guerrilheiro Bergson Gurjão Farias, morto em 1972 durante a primeira fase de operações, a Operação Papagaio. São os dois únicos casos de recuperação de ossos e identificação positiva até hoje.


