Guerra Civil Síria
A Guerra Civil na Síria foi um conflito interno na Síria, que começou como uma série de grandes protestos populares em 26 de janeiro de 2011 e progrediu para uma violenta revolta armada em 15 de março de 2011, influenciados por outros protestos simultâneos no mundo árabe. Enquanto a oposição alegou que seu objetivo era destituir o presidente Bashar al-Assad do poder e posteriormente instalar uma nova liderança mais democrática no país, o regime baathista dizia que estava apenas combatendo terroristas armados que visavam desestabilizar o país. Com o passar do tempo, a guerra deixou de ser uma simples "luta por poder" e passou também a abranger aspectos de natureza sectária e religiosa, com diversas facções que formam a oposição combatendo tanto o governo quanto umas às outras. Assim, o conflito acabou espalhando-se para a região, atingindo também países como Iraque e o Líbano, atiçando, especialmente, a rivalidade entre xiitas e sunitas. Em 8 de dezembro de 2024, após treze anos de guerra, Bashar al-Assad fugiu de Damasco, encerrando cinquenta e três anos de governo da Família Assad.
No momento da revolta, a Síria se encontrava sob estado de emergência desde 1962, sendo assim suspensas as garantias constitucionais que protegiam a população síria. Então o regime instalou um estado policial, suprimindo qualquer manifestação pública que fosse contra o governo. Durante esses anos, revoltas de cunho islâmico foram fortemente reprimidos, causando centenas de mortes, como no massacre de Hama. O governo sírio justificou o estado de emergência, dizendo que a Síria estava em estado de guerra com Israel. Desde 1963, após um golpe de estado, a Síria é governada pelo Partido Baath. Apesar das mudanças de poder no golpe de estado de 1966 e no golpe de 1970, o Partido Baath continua mantendo-se como a única autoridade na Síria, através do unipartidarismo. No último golpe de estado, Hafez al-Assad tomou o poder como presidente, liderando o país por 30 anos e proibindo a criação de partidos de oposição e a participação de qualquer candidato de oposição em uma eleição.
Influenciados pela chamada Primavera Árabe, as primeiras grandes manifestações antigoverno na Síria começaram entre janeiro e março de 2011, acontecendo principalmente nas cidades de Damasco, Alepo e no sul de Daraa, município este onde seriam registrados os primeiros confrontos violentos entre forças de segurança do país e manifestantes. Os protestos contra o regime de Bashar al-Assad se intensificaram em abril, forçando as autoridades sírias a enviar tropas do Exército e outras forças de segurança para as ruas do país. Água e eletricidade se tornaram escassas nas cidades sitiadas como Daraa, onde as forças do governo supostamente confiscavam os suprimentos da população. Uma situação similar foi relatada na cidade de Homs. Em maio, o Exército Sírio também iniciou o cerco as cidades de Baniyas, Hama, Talkalakh, Lataquia e Al-Midan, além de vários distritos de Damasco e dezenas de outras cidades pelo país que também foram ocupadas por manifestantes da oposição.
Ao fim de julho de 2013, militantes da oposição tentaram reagir frente a uma série de derrotas, focando esforços nas regiões ao norte do país, na província da Zona Rural de Damasco (que circunda a capital Damasco) e também na região de Alepo, lançando vários contra-ataques contra posições e províncias ainda controladas por tropas do regime. Em uma dessas ofensivas, os rebeldes capturaram, no fim de julho, a estratégica cidade de Khan al-Assal. Durante esta batalha, foi denunciado a morte de 220 pessoas, a maioria soldados que tinham acabado de se render. As execuções foram condenadas Conselho Nacional Sírio. Ainda na área de Alepo, mais próximo a fronteira com a Turquia, combatentes da oposição conquistaram o estratégico aeroporto militar de Menagh, após um cerco de dez meses. Apesar das recentes vitórias do governo no distrito de Homs, os rebeldes também fizeram progressos, iniciando uma nova ofensiva na província de Lataquia, tomando vários vilarejos e flanqueando o município de Qardaha, cidade natal da família Assad.
Repressão e primeiros enfrentamentos
Em resposta a maior intensidade dos protestos, o governo sírio mandou várias unidades do Exército e das Forças Armadas do país para por fim as manifestações e várias cidades foram cercadas e bombardeadas causando muitas mortes. Homs, uma das maiores cidades do país e a maior sob controle da oposição, foi atacada e bombardeada por aviões e artilharia. A comunidade internacional e ativistas dos direitos humanos denunciaram a matança indiscriminada de civis e pediram o fim da violência. A Liga Árabe fez então uma proposta de paz que foi veementemente negado pelo governo central que alegou que estava lutando contra terroristas e não sufocando protestos.
Tentativas de cessar-fogo e novos embates
Em 10 de fevereiro de 2012 foi reportado um ataque contra o prédio da inteligência militar síria em Alepo, sendo que 28 pessoas morreram no atentado e outras 235 ficaram feridas. O Exército Sírio Livre, através do coronel Arif Hamood, assumiu responsabilidade do ataque ao canal France 24, dizendo que eles usaram tiros de morteiro e de lança-granadas-foguete ao invés de carros bomba como havia sido reportado no início. Contudo, outro líder da oposição armada, Riad al-Asaad, negou participação destes no ataque e falou em conspiração feita pelo governo de Assad que teria atacado ele mesmo o prédio para culpar a oposição de assassinato. Um jornalista holandês do canal NOS as explicações da oposição para o ataque como improváveis, já que estes já haviam alertado a todos que a inteligência do exército sírio seria alvo de ataques, já que eles seriam alguns dos principais responsáveis pela repressão política no país.
Escalada da violência e declarada guerra civil
Logo após o massacre em Houla e o subsequente ultimato rebelde ao governo sírio, o cessar-fogo praticamente entrou em colapso no fim de maio de 2012, com forças do Exército Livre da Síria (ESL) lançando vários ataques contra tropas do governo. Em 1 de junho, o presidente Bashar al-Assad alertou que o país iria "esmagar" a revolta rapidamente, depois de o exército rebelde anunciar que estavam retomando as "operações defensivas". Assad então voltou à televisão e declarou que a Síria estava em completo "estado de guerra". Em 2 de junho, 57 soldados foram mortos na Síria, o maior número de perdas sofridas pelo governo em um só dia naquele ponto do conflito. Entre 5 e 13 de junho, o Exército Sírio combateu e derrotou as milícias antigoverno na cidade de Lataquia, onde foram usados tanques e helicópteros para liquidar as forças opositoras.
Ofensivas rebeldes
Em 10 de outubro, forças rebeldes assumiram o controle de Maarat al-Numan, um local estratégico em Idlib, que contém estradas importantes que fazem ligação entre as cidades de Damasco e Alepo. No fim do mês, fortes bombardeios de aviões do governo sírio forçaram o recuo das forças rebeldes. Apesar do retrocesso, pesados combates continuavam pelo distrito com o número de mortos crescendo em ambos os lados. Neste meio tempo, as forças armadas da Síria iniciaram sua maior ofensiva militar para tomar por completo a cidade de Homs, um dos principais redutos da oposição. A ofensiva acabou terminando em outro impasse estratégico com nenhum dos lados conseguindo dar o golpe decisivo no outro.
Guerra de atrito
No inicio de fevereiro, combates violentos continuaram a imperar no norte do país e na capital. Forças rebeldes, formadas por islamitas, tomaram a cidade de Al-Thawrah, na província de Raqqa, perto de uma das maiores usinas hidrelétricas do país. No dia seguinte, forças da oposição tomaram a base aérea de Jarrah, que fica a 60 km de Alepo. Em 14 de fevereiro, foi a vez da cidade de Shadadeh cair em mãos das milícias da Jabhat al-Nusra, perto da fronteira com o Iraque. O governo central sírio respondeu com pesadas ofensivas na região centro-norte da Síria. Ao menos 30 rebeldes e mais de 100 soldados do governo teriam morrido nos ataques. Em 14 de fevereiro, rebeldes anti-Assad afirmaram ter matado, em solo sírio, um alto comandante da Guarda Revolucionária iraniana. O governo de Teerã é um dos principais aliados do ditador sírio.
Ofensivas do governo sírio
Entre janeiro e março de 2013, uma série de atentados à bomba, muitos atribuídos a organização Jabhat al-Nusra, aconteceram por todo o território sírio. Em 21 de março, em mais um desses ataques, cerca de 41 pessoas foram mortas numa explosão em uma mesquita sunita na capital Damasco. Entre os mortos, encontrava-se o xeique Mohammed al-Buti, que era conhecido por seus discursos pró-Assad. O atentado, classificado como terrorista, recebeu condenações de dentro e fora do país. Em março, rebeldes da Brigada do Amanhecer Islâmico tomaram a cidade de Dael no sul da Síria, estratégica por estar em uma rodovia de transporte de armamento que liga Damasco a Dara'a. Em abril, os combates se intensificaram nos grandes centros urbanos do país, como na capital Damasco, onde 70 pessoas morreram em violentos tiroteios no dia 20. Os rebeldes então tomaram de assalto a cidade de Da'el e também avançaram em Daraa. O governo respondeu com contraofensivas em Uádi Aldeife, na província de Idlib, e também em Alepo e Homs. No sul, as forças armadas do regime avançaram no vilarejo de Abel e também reconquistaram a cidade de Saqraja, flanqueando o município de Al-Qusair, uma importante cidade na fronteira libanesa, que estava em mãos de combatentes da oposição. Em 21 de abril, a cidade de Yodeda al Fadl, situada na periferia de Damasco, foi tomada por militares sírios numa operação que supostamente terminou com mais de 500 pessoas mortas (a maioria vítimas de bombardeios aéreos). E em meados de abril, o governo tomou a cidade de Otaiba, cortando uma importante rota de suprimentos dos rebeldes.
O conflito sírio é interpretado como parte de uma "guerra por procuração" entre Estados sunitas, como a Arábia Saudita, Turquia e Catar, apoiando a oposição de maioria sunita, e outros países como Irã e o movimento político xiita do Hezbollah no Líbano, que apoiam o governo alauita sírio.
Apoio a oposição
O governo da Turquia é o que fornece maior apoio direto aos dissidentes sírios, sendo uma grande porcentagem dos mais de 2 milhões de refugiados gerados pelo conflito encontraram refúgio no território turco. Muitos opositores sírios usaram a cidade de Istambul como centro para comandar a luta pela mudança de regime no seu país, e a Turquia também refugiou o líder do Exército Livre da Síria, o coronel Riad al-Asaad. O principal apoio material e financeiro dispensado à oposição vem de Estados sunitas no Oriente Médio, principalmente o Catar, a Turquia e a Arábia Saudita, que enviavam enormes quantidades de armas, munição e outros mantimentos aos rebeldes. Nenhum desses países, contudo, chegou a enviar tropas terrestres para lutar na Síria, apesar de alguns conflitos bélicos na fronteira turca. Militantes islâmicos jihadistas, vários ligados a al-Qaeda, vindos de diversos países (normalmente de maioria sunita), também foram a Síria para lutar pela oposição.
Apoio ao governo Assad
O regime do presidente Bashar al-Assad, por sua vez, recebe vasto apoio vindo de países e organizações xiitas, como o Irã e o Hezbollah, respectivamente. O líder supremo iraniano, Ali Khamenei, abertamente anunciou apoio ao governo sírio. O jornal britânico The Guardian reportou que o Irã apoiava Assad com equipamentos, informações e treinamento. Em 25 de maio de 2013, em um discurso, o líder da milícia Hezbollah, Hassan Nasrallah, afirmou que a organização estava "comprometida em ajudar Assad a se manter no poder". Segundo fontes ocidentais, mais de 5 mil combatentes do grupo estão atualmente na Síria lutando ao lado das forças do governo. A Rússia é a maior aliada do regime sírio no conflito. Em janeiro de 2012, a Human Rights Watch criticou o governo russo por "repetir os mesmos erros dos países ocidentais" ao apoiar "disfarçadamente" o lado que simpatiza. Um dos principais interesses da Rússia no conflito é a manutenção da base naval no porto de Tartus, que Moscou considera essencial para a manutenção da influência do país no mediterrâneo. Em apoio ao regime sírio, o governo russo teria enviado enormes quantidades de armas pequenas e pesadas e até helicópteros de combate para suprir as forças do ditador Bashar al-Assad. Os russos também dariam apoio técnico, logístico e financeiro ao regime.
Em 23 de janeiro de 2012, a Síria anunciou que rejeitava proposta da Liga Árabe para que Al-Assad se afaste do cargo e que seja criado um governo de unidade nacional dentro de dois meses. No dia seguinte, um ministro sírio chama o relatório referente ao documento emitido, no qual a Liga Árabe pediu a renúncia do presidente Bashar al-Assad, de "conspiração". No relatório, feito entre 24 de dezembro de 2011 a 18 de janeiro de 2012 foi reportado que "não há nenhum tipo de repressão letal organizada pelo governo sírio contra manifestantes pacíficos". Em vez disso, o relatório denuncia as muitas gangues armadas como responsáveis pela morte de centenas de civis e de mais de mil soldados do exército sírio, em atentados organizados e letais (explosões de ônibus de transporte de civis, ataques a bomba contra trens carregados de óleo diesel, ataques a bomba contra ônibus de transporte de policiais e ataques a bomba contra pontes e oleodutos). Esta conclusão foi amplamente criticada dentro e fora do mundo árabe. O Conselho Nacional sírio considerou o relatório sobre o trabalho dos observadores como "um passo atrás nos esforços da Liga e não reflete a realidade vista pelos observadores no terreno". Segundo o governo sírio, os ataques no país são cometidos por terroristas. Porém, observadores internacionais e analistas voltaram a denunciar a matança indiscriminada de civis por parte das forças do governo.


