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Guerra Boshin

A Guerra Boshin , também conhecida no plural como Guerras Boshin ou simplesmente Batalha de Boshin, foi uma guerra civil no Japão, travada de 1868 a 1869, entre forças leais ao governo do Xogunato Tokugawa e aqueles que eram favoráveis à restauração do poder imperial sob o imperador Meiji (r. 1867–1912). A guerra teve como uma de suas causas a declaração de Meiji de que iria decretar a abolição do xogunato de mais de 200 anos e imporia o comando direto da corte imperial. Movimentos militares das forças imperiais e atos de violência feitos por partidários de Meiji em Edo levaram o xogum Tokugawa Yoshinobu (r. 1866–1867) a lançar um ataque para controlar a corte em Quioto.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 27/07/2026
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Antecedentes políticos

Descontentamento contra o xogunato

Nos dois séculos anteriores a 1854, o Japão havia limitado severamente o comércio com nações estrangeiras (sobretudo as europeias), à exceção da Coreia (através da ilha de Tsushima), da Dinastia Qing (através das ilhas Léquias), e do Império Colonial Holandês (através de portos comerciais em Dejima).[nota 2] Em 1854, Comodoro Perry abriu o Japão ao comércio global sob a ameaça implícita do uso da força militar, iniciando período de rápido desenvolvimento no comércio exterior e na ocidentalização do país. Em grande parte devido aos termos humilhantes dos Tratados Desiguais, impostos por Comodoro Perry, o xogunato enfrentou o descontentamento interno que se materializou no movimento radical xenofóbico Sonnō jōi (尊王攘夷, lit. "Reverenciar o Imperador, expulsar os bárbaros").

Assistência militar estrangeira

Apesar do incidente de Kagoshima, o domínio de Satsuma se aproximou dos britânicos e buscava a modernização das tropas e marinha com o apoio deles. O negociante escocês Thomas Glover vendeu navios de guerra e armas às províncias sulistas.[nota 3] Conselheiros militares anglo-americanos, geralmente ex-oficiais, podem ter se envolvido diretamente nesse esforço militar.[nota 4] O embaixador britânico Harry Parkes apoiou forças antixogunais no esforço de formar governo imperial unificado e legítimo no Japão. Durante o período, líderes japoneses do sul como Saigo Takamori de Satsuma, ou Ito Hirobumi e Inoue Kaoru de Chōshū cultivaram conexões pessoais com diplomatas britânicos, notavelmente com Ernest Mason Satow.[nota 5]

Golpe de Estado

Seguindo um golpe interno, a revolta renovada de Chōshū e a intenção anunciada do xogunato de mandar uma expedição para acabar com a revolta, Chōshū formou aliança secreta com Satsuma (Aliança Satcho). No fim de 1866, xogum Iemochi (r. 1858–1866) e Komei morreram, respetivamente sucedidos por Yoshinobu (r. 1866–1867) e Meiji (r. 1867–1912). Os eventos, nas palavras de Marius Jansen, "criaram uma trégua inevitável". Em 9 de novembro de 1867, ordem secreta enviada a Satsuma e Chōshū em nome de Meiji ordenava o "massacre dos traidores leais a Yoshinobu."[nota 8] Mas antes disso, seguindo sugestão do daimiô de Tosa, Yoshinobu abdicou, aceitando solicitar uma assembleia geral de daimiôs para criar um novo governo. O Xogunato Tokugawa havia terminado.

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Conflitos abertos

Em 27 de janeiro, as forças do xogunato atacaram as de Chōshū e Satsuma, enfrentando-se perto de Toba e Fushimi, na entrada de Quioto. Alguns membros do exército de quinze mil homens do xogunato haviam sido treinados por conselheiros militares franceses, mas a maioria permanecia como uma força samurai medieval. Enquanto isso, as forças de Chōshū e de Satsuma tinham uma desvantagem numérica de três para um, mas eram totalmente modernizadas. Após um início inconclusivo,[nota 11] no segundo dia, o imperador deu seu galhardete oficial às tropas de defesa, e nomeou como comandante em chefe um de seus parentes, Komatsu Akihito, fazendo das forças um exército imperial (官軍, cangum) oficial.[nota 12] Entretanto, convencido por conselheiros da corte e vários daimiôs locais, o príncipe Arisugawa Taruhito, fiel ao xogum, começou a apoiar a corte imperial. Outros debandaram para o lado imperial, incluindo o daimiôs de Iodo e Tsu, que trocaram de lado em 5 e 6 de fevereiro respectivamente, mudando a situação militar a favor do lado imperial.

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Rendição de Edo

Em fevereiro, com ajuda do embaixador francês Léon Roches, um plano estava sendo elaborado para conter o avanço imperial em Odawara, o último ponto estratégico de entrada para Edo, mas Yoshinobu se opôs a esse plano. Chocado, Léon abdicou de sua posição. No início de março, sob a influência do ministro britânico Harry Parkes, nações estrangeiras assinaram um rigoroso acordo de neutralidade, em que elas não poderiam intervir nem fornecer suprimentos militares para nenhum dos dois lados até que o conflito terminasse. Saigo Takamori comandou as forças imperiais ao norte e a leste pelo Japão, ganhando a Batalha de Koshu-Katsunuma. Finalmente cercou Edo em maio, resultando na rendição incondicional da cidade após uma negociação de Katsu Kaishu, o ministro do exército do xogum. Alguns grupos continuaram resistindo depois da rendição, mas foram derrotados na Batalha de Ueno. Enquanto isso, o líder da marinha do xogum, Enomoto Takeaki, recusou-se a render os navios e, em 20 de agosto, escapou com os remanescentes (oito navios de guerra: Kaiten, Banryū, Chiyodagata, Chogei, Kaiyo Maru, Kanrin Maru, Micao e o Xinsocu), e com dois mil oficiais da marinha, na esperança de iniciar um contra ataque com a ajuda dos daimiôs nortenhos. Foi acompanhado por um grupo de conselheiros militares franceses, dentre eles Jules Brunet, que havia formalmente abandonado a marinha francesa para acompanhar os rebeldes.

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Resistência da Coalizão do Norte

Após a rendição de Yoshinobu,[nota 14] a maior parte do Japão aceitou a autoridade imperial, mas um grupo leal ao xogunato no norte, apoiado pelo clã Aizu, continuou a resistir. Em maio, vários daimiôs nortenhos formaram uma aliança para lutar contra tropas imperiais, a Coalizão do Norte (奥羽越列藩同盟, Oku uetsu reppan dōmei) era composta pelos domínios de Sendai, Yonezawa, Aizu, Xonai e Nagaoka, e tinha um total de 50 mil homens. Um príncipe imperial, Kitashirakawa Yoshihisa, havia fugido para o norte com partidários do xogunato Tokugawa e foi feito chefe nominal da Coalizão do Norte, com o objetivo de posteriormente nomeá-lo "imperador Tobu". A frota de Enomoto juntou-se ao porto de Sendai em 26 de agosto. Apesar da coalizão ser numerosa, era mal equipada e dependia de métodos de luta tradicionais. Armamentos modernos eram escassos, e esforços de última hora foram feitos para construir canhões feitos de madeira e reforçados com cordas, que atiravam projéteis de pedra. Tais canhões, instalados em estruturas defensivas, podiam somente atirar quatro ou cinco projéteis antes de explodir.[nota 15] Apesar disso, a Coalizão do Norte contava com a ajuda do negociador de armas alemão Henry Schnell, que possuía uma relação de proximidade com o clã Aizu e chegou a vender 780 rifles para Kajiwara Heima.

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A campanha de Hokkaido

Criação da República de Ezo

Após a derrota em Honxu, Enomoto Takeaki recuou para Hokkaido com o remanescente da marinha e do grupo de conselheiros franceses. Juntos, organizaram um governo, com o objetivo de estabelecer uma nação independente dedicada ao desenvolvimento de Hokkaido. Estabeleceram formalmente, em 25 de dezembro, a República de Ezo, a única já formada no país até hoje. Enomoto foi eleito presidente com ampla maioria. A república tentou estabelecer relações com várias delegações estrangeiras presentes em Hakodate (entre elas as dos Estados Unidos, França e Rússia), mas não conseguiu ganhar muito reconhecimento nem apoio internacional. Enomoto ofereceu ceder o território ao xogum Tokugawa, sob o comando imperial, mas sua proposta foi recusada pelo Conselho de Governança Imperial.[nota 16]

Perdas finais e rendição

A marinha imperial chegou a enseada de Miyako em 20 de março de 1869. Porém, conseguindo antecipar a chegada dos navios imperiais, os rebeldes organizaram ousado plano para tomar o navio Kotetsu. Três navios de guerra foram mandados num ataque surpresa, na chamada Batalha da Baía Miyako, que acabou em derrota para os Tokugawa devido ao clima ruim, problemas nos motores dos navios e uso decisivo da metralhadora Gatling pelas tropas imperiais nos grupos de samurais que invadiam.[nota 17] Forças imperiais logo consolidaram seu comando no continente japonês, e em abril, mandaram uma frota e infantaria de sete mil homens para Ezo, dando continuidade à Batalha de Hakodate. As forças imperiais rapidamente prosseguiram e venceram a Batalha Naval da Baía de Hakodate, a primeira batalha em larga escala de duas marinhas modernas japonesas, enquanto as forças de Goryokaku foram cercadas com um remanescente de 800 homens. Vendo que a situação tornara-se desesperadora, os conselheiros franceses fugiram para um navio francês atracado no porto de Hakodate, o Coetlogon, que estava sob o comando de Dupetit Thouars, de onde foram mandados para Yokohama e para França. Os japoneses pediram que os conselheiros franceses fossem julgados na França; mas, devido o apoio popular francês às suas ações, não foram punidos.

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Armamento da Guerra Boshin

As tropas de Chōshū e Satsuma eram bastante modernizadas e possuíam canhões Armstrong, rifles Minié e uma Gatling. As do xogunato estavam levemente atrasadas em termos de equipamento, mesmo com o treinamento e formação dos Denshūtai na missão militar francesa.

Armas individuais

Diversos tipos de armas, das mais às menos modernas, foram importadas de vários países, entre eles França, Alemanha, Países Baixos, Grã-Bretanha e Estados Unidos, e coexistiram com armamentos mais tradicionais como a tanegashima. O daimiô de Nagaoka, aliado do xogum, possuía duas Gatlings e milhares de rifles modernos. Mesmo com a tentativa do xogunato de adquirir armamentos mais modernos, as armas tanegashima foram muito utilizadas.[nota 19] As forças imperiais utilizavam principalmente os rifles minié, que eram mais modernos, precisos e letais do que a maioria das armas do xogunato. Sabe-se as tropas do domínio de Chōshū possuíam fuzis snider e que os utilizaram contra os Shōgitai na Batalha de Ueno em julho de 1868.

Artilharia

Na artilharia, canhões de madeira que podiam atirar somente de três a quatro tiros antes de explodir coexistiram com os mais modernos canhões Armstrong da época. Os dois lados do conflito utilizaram canhões que foram fabricados no Japão, com a ajuda de conselheiros portugueses, já que o Japão produzia seus próprios canhões desde 1575.

Navios de Guerra

Alguns navios de guerra modernos, como o Kotetsu, foram utilizados junto com navios de guerra tradicionais. Inicialmente, o xogunato tinha uma frota de navios relativamente forte, e também desejava realizar o pedido do navio CSS Stonewall, mais tarde rebatizado de Kotetsu. Ainda assim, o navio teve sua entrega bloqueada por poderes estrangeiros devido a um acordo de neutralidade assinado após o início do conflito e, o navio acabou sendo remetido à facção imperial pouco depois da Batalha de Toba-Fushimi.

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Pós-guerra

Após a vitória, o novo governo prosseguiu em unificar o país sobre um único, poderoso e legítimo governo imperial. O poder político e militar dos vários feudos foi progressivamente eliminado, estes transformaram-se em províncias, cujos governadores foram nomeados pelo imperador. Uma das principais reformas foi a abolição do título de samurai, o que permitiu a muitos deles assumir cargos administrativos, mas fez com que muitos outros ficassem pobres.[nota 20] Os domínios do sul (Satsuma, Chōshū e Tosa), que tiveram um papel decisivo na vitória, ocuparam a maior parte dos cargos-chave no governo por várias décadas após o conflito, uma situação algumas vezes chamada de "oligarquia Meiji" e formalizada com a instituição do Genrō.[nota 21] Ainda em 1869, o Santuário Yasukuni foi construído em Tóquio foi construído em honra às vitimas da guerra. Líderes partidários do antigo xogum foram presos, e por pouco escaparam da execução. A clemência originou-se da insistência de Saigo Takamori e Iwakura Tomomi em poupá-los, e da influência causada pelo conselho de Parks, o enviado britânico. Recomendou com ímpeto a Saigo, como foi registrado por Ernest Satow, "essa severidade em direção os partidários de Queiqui [Yoshinobu], especialmente em relação a punições pessoais, iria prejudicar a reputação do novo governo na opinião dos poderes europeus". Após dois ou três anos aprisionados, a maioria foi chamada para servir o novo governo, e vários tiveram carreiras brilhantes. No caso de Enomoto Takeaki, ex-líder das forças pró-xogunato, serviu como um enviado à Rússia e à China e, de 1889 a 1890, como ministro da educação.

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Visões modernas do conflito

Em publicações mais atuais, a restauração Meiji é frequentemente descrita como uma "revolução pacífica" que levou à repentina modernização do Japão. Mas os fatos da Guerra Boshin claramente mostram que o conflito foi violento: aproximadamente 120 000 homens foram mobilizados de 3500 a 8200 baixas ocorreram durante confrontos abertos, porém a maior parte ocorreu durante ataques terroristas. Descrições posteriores da guerra tendem a ser altamente romantizadas, mostrando o lado do xogunato lutando com métodos e armamentos tradicionais, contra um lado imperial já totalmente modernizado. E embora as técnicas e armamentos tradicionais tenham sido usados, ambos os lados empregaram algumas das técnicas e armamentos mais modernos da época, incluindo o couraçado, a metralhadora Gatling, e técnicas de luta aprendidas com conselheiros ocidentais. Tais descrições incluem várias dramatizações, que se difundem em vários gêneros. Jiro Asada escreveu um romance de quatro volumes sobre o acontecimento, Mibu Gishi-den. Uma adaptação cinematográfica do trabalho de Asada, dirigida por Yojiro Takita, é conhecida como A Última Espada. Um jidaigeki[nota 24] de dez horas feito à televisão baseado no mesmo romance é estrelado por Ken Watanabe. Um filme de 2001, Goryokaku, é outro judaigeki destacando a resistência em Hokkaido. O famoso anime Rurouni Kenshin passa-se dez anos após a Guerra Boshin. O anime desenrola-se em torno dos efeitos da guerra, que terminou com o regime Tokugawa e iniciou a Era Meiji.

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Fontes consultadas

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