Fórum Romano
Fórum Romano ou Foro Romano localizado no centro de Roma, é um fórum rectangular, circundado pelas ruínas de várias construções públicas de grande importância cultural. O Fórum Romano refere-se apenas à parte central do vale entre o Monte Capitolino, o Monte Palatino e o Monte Quirinal, perto da qual — não muito longe do porto fluvial no Tibre — ocorriam, desde a Antiguidade, as atividades comerciais do Fórum Boário e do Fórum Holitório. O principal centro comercial da Roma Imperial, este espaço era popularmente conhecido como Fórum Magno ou, simplesmente, Fórum.
Contrariamente aos fóruns posteriormente construídos em Roma, os quais se basearam na praça pública grega, designada de plateia (πλατεῖα), o Fórum Romano desenvolveu-se gradualmente, regularmente e paulatinamente ao longo de vários séculos. Isto foi possível através das ordens impostas por Sula, Júlio César e Augusto que tentaram com relativo sucesso, o desenvolvimento progressivo deste espaço. Até ao período imperial, os enormes edifícios públicos que se aglomeraram ao redor da praça central tinham reduzido a área aberta para um retângulo com cerca de 130 por 50 metros.[nota 1] O fórum foi construído de noroeste para sudeste e estende-se desde o sopé do monte Capitolino até ao Vélio. A praça das basílicas construída no período imperial — como a Basílica Emília a norte (Tabernas Novas; Tabernae Novae) e a Basílica Júlia a sul — definem as longas extremidades da praça central. O fórum abraça esta praça, os edifícios em frente e uma área adicional (Fórum Adjacente) que se estende de sudeste ao Arco de Tito.
Origem
O vale do Fórum, pantanoso e inóspito, foi utilizado entre o século X e o VII a.C. como necrópole das primeiras aldeias instaladas nas colinas circundantes. Segundo o historiador Tácito, a planície do Fórum, bem como a colina próxima do Capitólio, foram acrescentadas à Roma Quadrada (Palatino) de Rómulo por Tito Tácio. Tito Lívio e outros autores antigos contam que, logo após a fundação de Roma, uma grande batalha foi travada na área do futuro fórum romano entre romanos e sabinos: a Batalha do Lago Cúrcio. A causa do conflito foi a traição da virgem vestal, Tarpeia, filha do comandante da vizinha fortaleza romana Espúrio Tarpeio, que, subornada com ouro por Tito Tácio, permitiu a entrada na cidadela fortificada no Capitólio de um grupo de homens armados por engano. A ocupação sabina da fortaleza levou os dois exércitos a se alinharem no sopé das duas colinas (Palatino e Monte Capitolino, exatamente onde mais tarde seria construído o fórum romano), enquanto os líderes de ambos os lados incitavam os seus soldados a lutar: Mécio Cúrcio pelos sabinos e Hóstio Hostílio pelos romanos. O campo de batalha era cercado por muitas colinas, não oferecendo aos dois exércitos caminhos de fuga suficientes nem zonas limitadas para perseguir o inimigo "em rota".
Período Pré-Romano
No Fórum, originalmente entre Palatino e o Monte Capitolino, perto do Vélia, foram encontrados vasos que demonstraram que os humanos ocuparam essas áreas na Idade Final do Bronze (1200–975 a.C.). No início da Idade do Ferro a área do futuro Fórum, perto do local do Templo de Antonino e Faustina, foi utilizada como necrópole (século X a.C.), possivelmente pelas comunidades dos montes Palatino e Capitolino. A maioria dos enterros consistiam em cremações do mesmo tipo que também podem ser encontradas noutros locais do Lácio. A urna que continha as cinzas do falecido era colocada dentro de um grande jarro de barro, junto com os bens funerários, e depois enterrada numa cavidade escavada no solo e coberta com uma pedra angular. Houve também um pequeno número de enterros de inumação. Com base nas evidências atuais, é provável que os sepultamentos no Fórum tenham cessado no final do século IX a.C. e que a Necrópole Esquilina os tenha substituído. No século VIII a.C., o vale pantanoso foi colonizado e a necrópole parcialmente abandonada, reservada apenas às crianças que ainda podiam ser enterradas dentro da cidade. Os adultos eram agora enterrados no Esquilino, fora da zona urbana. No início do século VI, a arcaica necrópole foi definitivamente abandonada.
Reino Romano
De acordo com a tradição histórica romana, os primórdios do Fórum estão relacionados à aliança entre Rômulo, o primeiro rei de Roma a controlar o Monte Palatino, e o seu rival, Tito Tácio, que ocupou o Monte Capitolino. Uma aliança formada depois de interrompida a batalha do Lago Cúrcio, pelas preces e gritos das mulheres sabinas. Como o vale ficava entre os dois assentamentos, era o local designado para o encontro dos dois povos. Dado que a área do Fórum no início incluía poças lamacentas, a área mais facilmente acessível era a parte norte do vale, designada como Comício. Foi aqui no Vulcanal que, segundo a história, as duas partes depuseram as armas e formaram uma aliança. O Fórum ficava fora dos muros da fortaleza sabina original, onde se entrava pela Porta de Saturno. Estas muralhas foram destruídas quando as duas colinas foram unidas. A praça do fórum foi construída pela primeira vez em 616 a.C. ou pouco depois, coberta simplesmente com argila. A partir desta altura, o fórum deixa de ser uma zona periférica das aldeias (etimologicamente, fórum significa “fora”) mas passa a ser o lugar central das aldeias vizinhas. A datação arqueológica corresponde às primeiras obras de desenvolvimento em grande escala sob os Tarquínios, reis etruscos (ver também língua etrusca) de Roma, que ali se estabeleceram de -616 a -509. Tarquínio, o Velho, mandou escavar um sistema de drenagem de águas em direção ao Tibre, a Cloaca Máxima, que permitiu secar os pântanos e limpar a zona..
República Romana
Durante o período republicano, o Comício continuou a ser o principal local de toda a vida judicial e política da cidade. No entanto, para criar um local de encontro mais abrangente, o Senado começou a expandir a área aberta entre o Comício e o Templo de Vesta, comprando casas privadas existentes e removendo-as para uso público. Foram construídos projetos de vários cônsules repavimentados e construídos tanto no Comício quanto na praça central adjacente que formaria o Fórum. O século V a.C. testemunhou os primeiros templos do Fórum com datas de construção conhecidas: o Templo de Saturno (497 a.C.) e o Templo de Castor e Pólux (484 a.C.). A própria palavra forum aparece pela primeira vez, já no período republicano, a mediados do século V a.C. na Lei das XII Tábuas para se referir ao fórum de Roma como o lugar onde se realizavam os litígios e a principal área pública da cidade. O Templo da Concórdia foi acrescentado no século seguinte, possivelmente pelo soldado e estadista Marco Fúrio Camilo e simboliza o fim da lutas de classes entre patrícios e plebeus. A escolha do fórum como local para competências relativas a interesses socioeconómicos demonstra a sua crescente importância em termos políticos - começa a politização do fórum. Mencione-se ainda plataforma da Rostra dos grandes oradores - originalmente voltada para o norte, em direção à Câmara do Senado, para a assembleia de políticos e elites - colocava o orador de costas para as pessoas reunidas no Fórum. Diz-se que um tribuno conhecido como Caio Licínio (cônsul em 361 a.C.) foi o primeiro a distanciar-se da elite em direção ao Fórum, ato simbolicamente repetido dois séculos depois por Caio Graco.
Império Romano
Após a morte de Júlio César e o fim da guerra civil subsequente, Augusto terminou o trabalho do seu tio-avô, dando ao Fórum a sua forma final. Isso incluiu a extremidade sudeste da praça onde construiu o Templo de César e o Arco de Augusto (ambos em 29 a.C.). O Templo de César foi colocado entre a pira funerária de César e a Régia. A localização do Templo e a reconstrução das estruturas adjacentes proporcionaram uma maior organização semelhante ao Fórum de César. Em ambos os lados do templo erguem-se arcos triunfais que servem de entradas monumentais para quem acede ao fórum pela Via Sacra ou pelo Vico de Vesta. O fórum adota então a sua forma final, a de um quadrilátero fechado nos quatro lados, rodeado em dois lados por pórticos (os das basílicas Júlia e Emília) e fechado nos outros dois por um templo. O pavimento recentemente colocado acabou com os sistemas de corredores cesarianos do século I a.C.: os jogos já não se realizavam no fórum. Para fazer valer a almejada dignidade da praça, Augusto chegou a instruir os edis a não tolerarem mais no fórum ou nas suas imediações quem não estivesse vestido com a toga. A reivindicação representativa do novo design quadrilátero não devia ser degradada pelas roupas do quotidiano. O Fórum também testemunhou o assassinato de um imperador romano em 69 d.C.: Galba que tinha saído do palácio para se encontrar com os rebeldes, mas estava tão fraco que teve de ser carregado numa liteira, depois foi imediatamente recebido pela guarda pretoriana do seu rival Otão, perto do Lago Cúrcio no Fórum, onde foi morto, num período de guerra civil e no ano dos quatro imperadores.
Período Medieval
No século V a fachada da Rostra foi ampliada para nordeste (em direção à Casa do Senado onde se reuniam ali os políticos e elites): a parte nova foi construída com tijolo bruto, e esta também foi decorada com rostro (aríete existente nos navios de guerra da época), preenchendo alguns buracos ainda observáveis. Uma epígrafe,CIL VI, 32005 de uma única linha, relata a construção pelo prefeito urbano, Giúnio Valentino, sob os imperadores Leão I e Procópio Antémio (cerca de 470), por ocasião de uma vitória naval contra os Vândalos, de onde a estrutura leva o nome Rostra vândala. O Fórum foi acompanhando o destino da cidade, que perdera a sua antiga importância; muito do que chegou até aos dias de hoje deve-se ao reaproveitamento que os cristãos fizeram de antigas construções pagãs, como é o caso da Basílica dos Santos Cosme e Damião, a igreja mais antiga do Fórum.
Renascimento
O Fórum Romano sofreu algumas das suas maiores espoliações durante o Renascimento italiano, particularmente na década entre 1540 e 1550, quando o Papa Paulo III explorou intensamente o sitio em busca de material para construir a nova Basílica de São Pedro. Alguns anos antes, em 1536, o Sacro Imperador Romano Carlos V edificou um triunfo em Roma após regressar da Conquista de Túnis no Norte de África. Com o intuito de preparar o Fórum para a procissão destinada a simular a pompa do antigo triunfo romano, as autoridades papais empreenderam demolições abrangentes das muitas estruturas medievais no local, para revelar e melhor exibir os monumentos antigos. Isto exigiu a limpeza de cerca de 200 casas e de várias igrejas, a escavação de uma nova "Via Sacra" para passar sob os arcos de Tito e Septímio Severo, e a escavação dos monumentos mais proeminentes para expor os seus alicerces.
Edifícios religiosos
O Templo de Saturno foi um dos edifícios mais importantes do Fórum Romano. Pouco se sabe sobre quando o templo foi construído, pois acredita-se que o templo original tenha sido queimado pelos gauleses no início do século IV a.C.. Acredita-se que tenha sido reconstruído por Munácio Planco em 42 a.C. As oito colunas restantes são tudo o que resta do ilustre templo. Apesar de a sua data exata de conclusão não ser conhecida, destaca-se como um dos edifícios mais antigos do Fórum. O templo original terá sido construído em adoração ao deus Júpiter, mas foi substituído por Saturno; os historiadores não sabem ao certo o porquê. O edifício não era utilizado apenas para práticas religiosas; o templo também funcionava como um banco para a sociedade romana.
Edifícios seculares
O Comício era o local da assembleia legislativa romana (Comitia). Originalmente, é provável que se tratasse de uma simples praça aberta e, mais tarde, adquiriu a forma circular. Após inúmeras reconstruções e a transferência das assembleias para o Fórum, não existem mais indícios da sua antiga importância. A Rostra era a plataforma do orador no Comício. As proas de navio (do latim rostra) capturadas em batalha contra os volscos foram aqui colocadas e deram o nome à plataforma. O marco miliário dourado junto à Rostra, o Milliarium Aureum, era uma coluna de bronze erguida sob Augusto com os nomes e as distâncias de todas as capitais de província.
A escavação de Carlo Fea, que começou a limpar os escombros do Arco de Septímio Severo em 1803, marcou o início da limpeza do Fórum. As escavações foram oficialmente iniciadas em 1898 pelo governo italiano sob o Ministro da Instrução Pública, Dr. Baccelli. A restauração de 1898 teve três objetivos principais: restaurar as partes fragmentadas das colunas, bases e cornijas nos seus locais originais no Fórum, alcançar o nível mais baixo possível do Fórum sem danificar as estruturas existentes e identificar estruturas já meio escavadas, junto com a casa do Senado e a Basílica Emília. Essas escavações financiadas pelo estado foram lideradas pelo Dr. Giacomo Boni até á sua morte em 1925, tendo ficando por um breve período estagnadas durante a Primeira Guerra Mundial. Em 2008, o clima extremo e chuvas fortes provocaram danos estruturais à moderna cobertura de concreto que segurava o mármore "Black Stone" sobre o Lápis Niger em Roma. As escavações no Fórum continuam, com descobertas de arqueólogos trabalhando no local desde 2009 levando a questões sobre a idade exata de Roma. Uma dessas descobertas recentes inclui uma parede de tufo perto do Lápis Niger usada para canalizar água de aquíferos próximos. Ao redor da parede, restos de cerâmica e restos de comida permitiram que os arqueólogos datassem a provável construção da parede no século VIII ou IX a.C., mais de um século antes da tradicional data da fundação de Roma.


