Flauta doce
A flauta doce (português brasileiro) ou flauta de bisel (português europeu) é o termo para designar um grupo de instrumentos de sopro pertencente à família das madeiras. Mas todos eles são instrumentos compostos por um tubo com nove orifícios, sendo oito na parte frontal e um na parte traseira para o polegar. Em modelos antigos, os dois últimos orifícios destinados ao dedo mínimo eram pareados. Dependendo da mão que está posicionada na parte superior e inferior, um dos orifícios era vedado com cera, resultando no uso efetivo de apenas oito dos nove orifícios. Hoje em dia, as flautas doces possuem pés móveis, e em geral são projetadas para uma usabilidade voltada a destros.
O instrumento mais antigo classificado como uma flauta, totalmente preservado, foi descoberto em um fosso de uma residência em Dordrecht, na Holanda, e atualmente está abrigado no Gemeentemuseum em Haia. Uma recente descoberta, publicada pela Universidade de Tuebingen, destaca o que pode ser considerado o instrumento mais antigo feito por um homem de Neandertal na Alemanha. Trata-se de uma flauta de osso com aproximadamente 42.000 anos. Embora haja evidências suficientes para confirmar a presença da flauta doce na Europa nas últimas décadas do século XIV, foi durante o século XV que o instrumento se consolidou, aparecendo de forma inequívoca em listas de compras de instrumentos, em representações visuais (pinturas, afrescos, tapeçarias) e em descrições presentes em diversos documentos. Em muitas dessas flautas os dois orifícios finais destinados ao dedo mínimo eram emparelhados; dependendo de qual mão ocupava a posição superior ou inferior, um deles era vedado com cera, resultando na utilização efetiva de apenas oito dos nove orifícios. Poderia apresentar um formato interno cilíndrico ou cônico invertido. No segundo caso, o estreitamento do tubo começava a partir do primeiro orifício (a cabeça permanecia cilíndrica), atingia o ponto mais estreito na altura do último orifício e, em seguida, o tubo se alargava novamente, formando uma pequena campana. Em ambas as configurações, o diâmetro interno era relativamente grande, e a parede interna não muito espessa, proporcionando uma sonoridade ampla e encorpada, com notas graves bem ressonantes. A tessitura abrangia uma oitava mais uma sexta ou sétima.
Idade Média: 1300 a 1500
Vários membros da família das flautas foram predominantes nos séculos XIV e XV. Primeiramente, a subfamília das flautas de canal ou ducto (Flutes with duct or duct flutes em inglês), que incluía as flauta pastoril, outras flautas de canal tocadas com uma ou duas mãos e que tinham um número variado de furos para os dedos, e a flauta doce, que definimos como um tipo especializado de flauta de canal com furos para sete dedos e o polegar. Em segundo lugar, a subfamília das flautas transversais, que incluía a flauta convencional, bem como um tipo militar de orifício mais estreito chamado pífaro, embora os dois instrumentos nem sempre sejam claramente diferenciados. Em terceiro lugar, as flautas de pan, feitas a partir de uma série de tubos soprados na extremidade de diferentes comprimentos unidos.
Introdução do Instrumento
Não seria surpreendente supor que a flauta doce tenha chegado ao Brasil nos primeiros anos da colonização, considerando que, no início do século XVI, esse instrumento já era conhecido e utilizado na música sacra e profana em toda a Europa. A presença de instrumentos europeus por todo o mundo pode ser considerada de certa forma natural, dado que a Era das Descobertas envolveu fortemente a exportação de um modelo cultural, principalmente no âmbito religioso. Embora essa transposição muitas vezes resulte em manifestações bastante semelhantes à matriz europeia, não é incomum que as circunstâncias exijam a necessidade de improvisação e adaptação. Nesse contexto, os portugueses parecem ter desempenhado um papel particularmente hábil nessa capacidade de adaptação.
Os Jesuítas
Os primeiros registros concretos da presença da flauta doce em território brasileiro estão vinculados à atividade missionária dos jesuítas. Esses religiosos desembarcaram no Brasil em 1549, integrando a comitiva liderada pelo primeiro governador, Tomé de Sousa (1503-1579). Inicialmente, o grupo era composto por seis membros: os padres Manuel da Nóbrega (líder do grupo), Leonardo Nunes, Antônio Pires, João de Azpilcueta Navarro, além dos irmãos Vicente Rodrigues e Diogo Jácome. Eles chegaram na Bahia e, progressivamente, estabeleceram-se ao longo da costa litorânea e do interior do país. No ambiente hostil que era o Brasil, a música emergiu como uma eficaz oportunidade de aproximação. Ela não apenas se apresentou como um meio para a integração, uma linguagem capaz de unir realidades culturais distantes, mas também desempenhou um papel vital na sociedade que estava se estabelecendo. Ao servir às crenças, aos temores, à fé e ao conforto de todos, de maneira transcendental, a música assumiu uma posição fundamental nesse contexto.
A flauta doce possui um extenso repertório, e quase todas as melodias podem ser adaptadas de algum modo para este instrumento, devido a sua afinação e técnica muito propícias. O repertório para flauta doce é necessariamente barroco, medieval e folclórico, embora ela fique bem em muitos outros gêneros musicais. Antonio Lucio Vivaldi (1678 - 1741) compôs muitos concertos para flauta doce, como o RV 441 em dó menor para flauta doce contralto, o RV 85 em sol menor (adaptável à flauta doce), e o RV 443 em dó maior para flauta doce sopranino. Outros virtuoses para a flauta doce foram Jacob van Eyck (1590? - 1657), com o seu método Der Flüyten Lust-hof, em dois volumes, e Giuseppe Sammartini (1700? - 1775), que compôs diversas sonatas para este instrumento. Além desses, temos ainda a Danserye, de Tielman Susato (1510? - 1570?), uma série de melodias renascentistas que se adequavam muito bem aos instrumentos daquela época, e também a diversas variedades de flautas doces.
A flauta doce não possui chaves ou outros mecanismos, sendo manuseada diretamente com os dedos. Assim, ela tem a vantagem de empregar com facilidade ornamentos, que tanto foram usados durante o período Barroco: glissandos, mordentes, grupetos e arpejos. Na flauta doce, entretanto, são mais comuns e frequentes os trinados e apojaturas. Como a flauta doce é dependente de articulações com a língua, pode-se utilizar uma variedade delas para embelezar a melodia durante o tocar. O instrumento também é propício ao legato.
Afinações
Atualmente, a maioria das flautas doce são afinada em lá = 440Hz, como o padrão para ao demais instrumentos modernos. Este padrão foi adotado oficialmente em 1955 como a norma ISO 16. Entretendo há diferentes afinações e temperamentos musicais, sobretudo nos instrumentos históricos.
Digitação
Os dois principais esquemas de digitação que encontramos nos instrumentos são: O Germânico, desenvolvido pelo alemão Peter Harlan (1898 — 1966). E o chamado Barroco, ou inglês, desenvolvido por Arnold Dolmetsch (1911 — 1997) que é, atualmente, o modelo padrão. Diferente do que o nome sugere, o sistema de digitação chamado de Barroco não é, de fato, barroco. Foi desenvolvido na primeira metade do século XIX para atender necessidades modernas. Buscando uma digitação que funcionasse bem no temperamento padrão, o temperamento igual, Harlan desenvolveu esta digitação para fabricação e disseminação de seus instrumentos. Existe uma quantidade considerável de desinformação em circulação no que diz respeito aos sistemas de digitação para flauta doce. A maioria dos flautistas doce de nível médio e até profissionais tende a afirmar que existem dois sistemas de digitação para flauta doce, o barroco e o alemão, sendo que o primeiro é o correto e o outro é errado. Como na maioria das sabedorias populares, há mais do que um grão de verdade nessa afirmação, mas ela não pode ser aceita simplificadamente, pois é tanto incompleta quanto parcialmente incorreta em sua forma atual. Existem, na verdade, quase tantas digitações quanto modelos de flauta. O mais comum, nas flautas originais, era que cada fabrincante tivesse seu proprio modelo de digitação (que ia junto com sua flauta). Alguns dos exemplos mais importantes são as digitações de Sebastian Virdung (1511), Martin Agricola (1528), Silvestro Ganassi (1535), Philibert Jambe de Fer (1556), Aurelio Virgiliano (1600), Mersenne (1636), Gerbrandt van Blankenburgh - Jacob van Eyck (1646), Bartolomeo Bismantova (1677), Robert Carr (1685), Freilhon-Poncein (1700), Jacques-Martin Hotteterre (1707), Joseph Friedrich Bernhard Caspar Majer (1732), Thomas Stanesby Jr. (1732). Digitações utilizadas por diversos construtores diferentes entre os séculos XVI e XVIII. Na tabela a seguir consta a comparação dos dois sistemas mais utilizados hoje e o sistema histórico de Hotteterre:
A flauta doce, em inglês, é denominada recorder (lembrar), supostamente por lembrar o canto dos pássaros. Em francês é chamada flute à béc, e em espanhol (embora se use flauta dulce na América Latina) flauta de pico, que significam flauta de bico (boquilha). Em alemão, por sua vez, a flauta doce é denominada blockflöte (flauta de bloco), em razão do bloco de cedro-rosa na boquilha do instrumento. Em Portugal, o termo flauta de bisel se refere à aresta que gera o som da flauta doce. Finalmente, no Brasil, o nome flauta doce veio do italiano flauto dolce, por causa do som melodioso do instrumento, e para o diferenciar da flauta transversal.


