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Filosofia da história

Filosofia da história é o estudo do processo histórico e de seu desenvolvimento. Também remete à reflexão sobre o conhecimento histórico, assim como às possibilidades e os modos de obtê-lo. Ela se preocupa com questionamentos básicos a respeito da história e de sua epistemologia. É comum atribuir ao século XVIII o nascimento da filosofia da história, a partir dos escritos de filósofos como Giambattista Vico, Johann Gottfried von Herder, e Voltaire, sendo o último o primeiro a usar esse termo. Apesar disso, elementos da filosofia da história, presentes em reflexões sobre o tempo, existem desde a Antiguidade e o Medievo. Também vale ressaltar que a filosofia da história não se restringe à Europa Ocidental. Filosofias da história se desenvolveram no mundo muçulmano e na Índia. Ainda que não seja uma regra, as filosofias da história elaboradas desde o século XVIII até meados do século XIX se preocuparam com uma história universal de cunho metafísico, ou seja, procuravam um sentido para o curso da humanidade. Com a disciplinarização das áreas do conhecimento ocorridas no século XIX, principalmente a partir do positivismo lógico, o valor universal dessas filosofias passa a ser questionado. Isso dá lugar a novas questões, agora, mais relacionadas à natureza e ao processo de obtenção do conhecimento histórico. Os eventos históricos do século XX, como as Guerras Mundiais, o processo de descolonização, a intensificação do consumo de bens e o giro linguístico, vão tecer um panorama controverso da própria história, diversificando ainda mais o posicionamento de historiadores, filósofos e críticos literários a respeito da filosofia da história.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 27/07/2026
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Surgimento

Algumas das questões da filosofia da história são tão antigas quanto as primeiras historiografias gregas de Heródoto ou Tucídides, que consolidaram uma associação da historiografia à musa Clio. Outras, como acerca da natureza e ordem do tempo, até mesmo antecedem o termo "filosofia da história", cunhado em 1765 por Voltaire no livro A filosofia da história. Porém, o surgimento da filosofia da história está associado a alguns filósofos alemães que trataram de certas questões históricas como uma matéria independente das outras áreas da filosofia. Nesse meio alemão, foram centrais Johann Gottfried von Herder e seu livro Também uma filosofia da história (1774), Immanuel Kant e Ideia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita (1783), sendo a consolidação definitiva da área as obras de Friedrich Hegel. Dessa forma, a filosofia da história surge como o estudo do processo histórico, de seu desenvolvimento, da reflexão sobre o conhecimento histórico, bem como das possibilidades e modos de obtê-lo. Ela se preocupa com os questionamentos básicos a respeito da história e com a formação do conhecimento histórico. Alguns pontos de partida que orbitam os estudos desse tipo são: o que é a história; o que a história estuda; a possibilidade de conhecer o passado; a existência de algum sentido na História; qual o papel do historiador dentro da escrita da história. Na segunda metade do século XVIII, para pensadores como Voltaire, filosofar sobre a história significava ter um posicionamento filosófico por parte do historiador, que deveria descobrir as finalidades ocultas nos eventos históricos. Principalmente a partir do século XIX, a filosofia da história começa a se preocupar com questões que remetem à construção do conhecimento histórico e com a subjetividade do historiador, ou seja, como e porquê o historiador afirma o que afirma a respeito da história. Robin George Collingwood, ao revisar a história da filosofia da história em A ideia de História (1946) afirma que esse tipo de reflexão filosófica só é possível se for feita juntamente com o próprio conhecimento histórico, respeitando a autoridade do historiador para solucionar as questões a respeito da história.

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Divisão

A filosofia da história e seu objeto de estudo são temas bastante controversos, pois dependem diretamente da definição de história que se emprega. A história pode ser entendida como o conjunto da experiência humana no passado ou enquanto a escrita a respeito dos feitos e ações dos homens do passado. Tendo essa ambiguidade do termo em mente, em 1967, William Walsh, influenciado pelo criticismo e pela divisão entre filosofia da natureza e filosofia da ciência, propõe uma divisão da filosofia da história em especulativa e analítica. A filosofia especulativa da história é, geralmente, associada ao período moderno, indo até o século XIX, e inclui autores como Giambattista Vico, Johann Gottfried von Herder, Voltaire, Immanuel Kant, Friedrich Hegel e Jacques Bossuet. Essa divisão tem como critério que todos esses autores tratavam a história de forma metafísica, ou seja, buscavam a explicação da história em realidades que transcendiam a experiência sensorial como, por exemplo, atribuir uma causa divina à história. Já a filosofia analítica da história consiste em um estudo dependente das ciências históricas, particularmente da historiografia, na medida em que têm por objeto o estatuto dessas ciências, seus métodos, a atividade que lhes é própria e seus conceitos e postulados básicos. Desde pelo menos a Analytical Philosophy of History (1965) de Arthur Danto, a filosofia analítica da história frequentemente aplica métodos e ferramentas da filosofia analítica aos problemas particulares que surgem na busca pelo conhecimento e pela explicação histórica. Ainda se pode entender essa divisão entre filosofia especulativa da história e filosofia analítica da história de dois modos. No primeiro elas seriam conceitos históricos, restritos ao seu tempo e que designam um contexto histórico específico, onde a filosofia especulativa da história teria florescido na Modernidade e a analítica a partir século XX. No segundo modo, elas seriam entendidas como categorias históricas, onde há a possibilidade de reformulação das questões e interpretações, encarando as filosofias especulativas e analíticas como categorias fluídas e que podem estar presentes em um mesmo filósofo ou historiador.

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Antecedentes

Mesmo que não tenham existido filósofos da história no período anterior a Idade Moderna, já havia pensadores que se dedicavam à escrita das ações humanas no tempo e no espaço, como Heródoto e Tucídides. A partir de suas obras, podemos identificar algumas reflexões a respeito da história. Heródoto entendia o termo história em um sentido de "pesquisa" e "investigação", como empregado em sua obra Historiai, na qual trouxe a inovação de escrever sobre as ações dos homens pelos homens, ou seja, uma explicação que buscava fugir do teor mítico. Em Heródoto, a história não é fruto de uma discordância entre homens e deuses, e sim entre os próprios seres humanos. Por outro lado, Tucídides rejeitava as Historai de Heródoto, que por vezes se baseavam em relatos orais incertos, e assim escreveu sua história a partir dos vestígios encontrados mediante quase exclusivamente a própria visão, consequentemente priorizando o tempo presente. Nesse mesmo sentido, ele contemplava a discussão da função do historiador ao diferenciar a visão do sujeito em relação aos fatos da acribeia (akribeia), que é a própria função do historiador de transformar o ver em saber; e da evidência, caracterizada nos vestígios do real, aquilo que se vê. Também em busca de um comprometimento com a verdade, ao escrever sobre a Guerra do Peloponeso, Tucídides introduziu a ideia da necessidade da compreensão da natureza humana para explicar os eventos humanos. Assim, para entender o conflito do Peloponeso entre atenienses e espartanos, o historiador recorre ao que seria a natureza ateniense, desejosa de expansão e poder, e a natureza espartana, reticente e desejosa de segurança, como justificativas da Guerra entre as cidades-Estados.

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Desenvolvimento

Século XVIII

A filosofia da história surgiu no século XVIII na obra de filósofos e historiadores como Giambattista Vico, Voltaire, Jacques Turgot, Marquês de Condorcet, Immanuel Kant e Johann Gottfried von Herder. Apesar de Voltaire ter cunhado o termo "filosofia da história", ela só se consolida como uma matéria independente em relação às outras áreas da filosofia com alguns dos escritos de Herder, e torna-se mais influente na filosofia, bem como recebe maior aprofundamento, com Hegel, no início do século XIX. Vico, como aponta Michael C. Lemon, foi o primeiro a elaborar uma teoria própria da história e a colocá-la no centro de sua investigação filosófica. A originalidade atribuída ao filósofo pode ser entendida por meio da análise de seu pertencimento em um dado contexto que, desde Maquiavel, voltava-se para áreas como a história, o direito, a literatura e a política. A filosofia da história de Vico está ligada à defesa dos estudos históricos, que na época eram negligenciados pelos cartesianos. O filósofo criticava explicitamente a preocupação que outros filósofos tinham com o mundo natural, entendido como a história natural e a física, deixando de lado o mundo dos homens, relacionado à jurisprudência, história, poesia e mitologia. Para Vico, seria infrutífera a busca pelo conhecimento através do mundo natural, uma vez que foi Deus quem fez a natureza e, assim, só ele estaria plenamente apto a conhecê-la. Em contrapartida, seria legítimo ao humano estudar a história, já que ela é feita pela humanidade. Para Vico, tudo dependia do seu contexto de nascimento, ou seja, as instituições, os costumes, o direito e a arte só são compreendidos se observados diante de seu meio histórico. Até mesmo a natureza humana tem uma formação histórica. Diferente de outros autores modernos, como Thomas Hobbes ou René Descartes, em Vico o ser humano não possuía uma natureza racional intrínseca e perene; ao contrário, ela seria mutável assim como a sociedade e quaisquer fenômenos históricos.

Século XIX

A filosofia da história ganhou uma multiplicidade de orientações no século XIX, como o idealismo, o materialismo, o positivismo e o historicismo. Além das filosofias da história metafísicas e racionalistas, como o idealismo de Hegel, que se prendia à força subjacente da razão na história, as filosofias da história também acompanharam mudanças da própria história enquanto gênero disciplinado separado da retórica. Nesse momento, as questões relacionadas à história ganharam mais peso entre os historiadores que se preocupavam não só com a filosofia da história, mas também com a própria escrita da história. Para Allan Megill, foi no século XIX que começou a surgir a historiologia, algo como uma filosofia da escrita da história que viria a se concretizar no século seguinte.

Século XX e XXI

O século XX apresenta um contexto histórico multifacetado que passa pela Primeira e Segunda Guerra Mundial, que destruíram o ideal civilizador e racional da Europa Ocidental, pelo processo de descolonização, pela sociedade do consumo, chegando até a vanguarda artística da década de 1970 que apresentou uma pluralidade estética nas belas artes. A partir desse contexto, ficaria impossível pensar em uma ideia de homem e de mundo que homogeneizasse o ecletismo em ideias universais. A filosofia da história desenvolveu-se em vários sentidos, seus temas ganharam a atenção não só de historiadores e filósofos, mas também de críticos literários, antropólogos, sociólogos, dentre outros. Entre as orientações e críticas mais influentes na filosofia da história podemos citar o idealismo, a analítica, a hermenêutica, a linguístico-narrativista, teoria crítica, estruturalismo, pós-estruturalismo, pós-modernismo, pós-colonialismo e a filosofia do antropoceno. É importante frisar que essas divisões não são rígidas e excludentes, pois muitos intelectuais podem ser identificados em mais de uma dessas orientações. Esse é o caso de Arthur Danto, tradicionalmente encaixado entre os analíticos mas com muitas contribuições para os narrativistas, e de Paul Ricoeur, que, embora hermeneuta, também propôs uma fenomenologia, além de se enquadrar também no grupo dos narrativistas.

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Temas recorrentes

O ideal de objetividade visa assegurar que as conclusões de pesquisa possam ser reconhecidas pelos pares e que suas ideias e escritas possam ser revisados adequadamente por pessoas competentes no assunto dentro da comunidade a que pertence, possibilitando um livre consenso intelectual. Tal consenso, entretanto, não é um fim em si mesmo nas ciências na medida em que sozinho não garante o conhecimento, e, ainda assim, pode-se ter consenso e conhecimento em uma comunidade sem que diga respeito a realidade. Um exemplo disso é a veracidade de que Sherlock Holmes mora em 221B Baker Street. Além disso, embora o tema da objetividade esteja tradicionalmente vinculado ao conhecimento, uma vez que a teoria das virtudes tenha aproximado a epistemologia da ética, ultimamente autores como Bernard Williams têm reivindicado uma dimensão ética da objetividade, a qual tem sido aplicada para a historiografia. Nesse sentido, Williams distingue duas "virtudes da verdade" básicas: sinceridade e precisão.

Causalidade

Causalidade é a relação entre dois eventos ou estados, em que o primeiro - a causa - leva ao segundo ou o produz enquanto seu efeito. Quando essa relação é transitiva, suficientemente forte e estendida para mais de dois eventos, geralmente formam um efeito cascata ou efeito em cadeia também chamado efeito dominó. A causalidade é um dos temas mais recorrentes na história da filosofia, atravessando várias áreas e épocas. Contudo, ela só ganhou lugar de destaque na filosofia da história no século XVIII quando autores como o Marquês de Condorcet defenderam a possibilidade de explicar e predizer mediante leis os eventos históricos em um ritmo de progresso. Desde então a causalidade tornou-se uma questão importante no desenvolvimento moderno da historiografia enquanto ciência no século XIX, uma vez que os historiadores pretendiam explicar fenômenos humanos no curso do tempo, e não apenas descrevê-los, o que pressupunha poder delimitar suas causas. Isso trazia o problema de como conciliar a causalidade com a liberdade da ação humana.

Conhecimento do passado

A definição de conhecimento mais abrangente usualmente empregada é dada pela epistemologia das virtudes, que abarca tanto o que se chama "conhecimento por familiaridade" (acquaintance) quanto o "conhecimento proposicional". Tal diferenciação é recorrente na epistemologia e foi objeto de importantes análises no decorrer do século XX em trabalhos de Bertrand Russell, Gilbert Ryle, Karl Polanyi e outros. No primeiro caso, trata-se em geral de um saber-como (know-how) enquanto conhecimento direto das coisas em diferentes graus, enquanto o conhecimento proposicional é o conhecimento de alguma descrição em forma de crença relativa a uma pessoa, que tem conhecimento indireto sobre as coisas. Dentre esses dois tipos de conhecimento, tem centralidade na epistemologia o conhecimento proposicional na medida em que usualmente supõe-se que a realidade tem uma estrutura proposicional ou, pelo menos, que a proposição é a principal forma pela qual a realidade se torna compreensível à mente humana. Isso vale também para o historiador, a começar pelo fato de que quando lida com um passado distante não conseguirá experienciar de modo direto os fenômenos que estuda, o que põe em dúvida a possibilidade de conhecimento direto do passado. O conhecimento indireto (conhecimento proposicional) traz, entretanto, também várias questões filosóficas a serem resolvidas. Tradicionalmente a definição de conhecimento proposicional - por vezes atribuída ao diálogo Teeteto de Platão e reformulada após as críticas de Edmund Gettier em 1963 - é a uma crença verdadeira devidamente justificada ou crença verdadeira pelas razões corretas. Isso leva a algumas das perguntas fundamentais da epistemologia da história: como historiadores podem justificar ou embasar adequadamente suas crenças acerca do passado?, com que critério se pode determinar que uma crença é verdadeira em história? e no que consiste uma verdade histórica?

Escala

Devido à abrangência de certos fenômenos humanos no tempo, os historiadores veem-se forçados a serem seletos quanto às fontes e ao foco de seu estudo e ao escopo espacial e temporal do fenômeno estudado. Desse modo, a escala dos estudos historiográficos tornou-se um tópico importante para a filosofia da história particularmente a partir do século XX, quando alguns autores passaram a buscar uma escala moderada ideal para o estudo historiográfico enquanto outros defendiam uma teoria da explicação subordinada aos jogos de escala, como é o caso da proposta do estruturismo. Nessa proposta, o autor Christopher Lloyd acreditava ser somente ser possível colocar em pé de igualdade a relevância da atuação individual dos agentes históricos e da atuação estrutural das condições históricas para o entendimento de um fenômeno sem reduzir um tipo de atuação ao outro pelo estudo simultâneo entre macro e micro-escalas na historiografia. Assim, diferentes níveis de escopos espaciais e temporais correspondem a diferentes escalas da história, mas diferentes historiografias quanto ao escopo espacial/temporal podem ter o mesmo foco quanto ao objeto, tema ou problema.

Explicação

As teorias da explicação são elaboradas para compreender teoricamente o funcionamento de frases ou sentenças que respondem ao "por quê?" e que se pretendem, portanto, explicativas de algo. Nessa direção, uma explicação divide-se entre um explanans, enquanto conjunto de artifícios para se explicar algo (causa), e um explanandum, enquanto descrição do fenômeno a ser explicado (efeito). Na tradição hermenêutica em especial, diferencia-se desde Wilhelm Dilthey, a explicação (Erklären) da compreensão (Verstehen). No primeiro caso, busca-se causas suficientes - ou ao menos causas necessárias - para um certo evento. No segundo caso, busca-se diminuir o estranhamento ou fazer sentido entre decisões e comportamentos de agentes livres que contribuíram para a origem de um evento, revivendo ou reavaliando contextualmente suas razões e emoções.

Leis

Na filosofia da história do século XIX, Augusto Comte defendeu uma teoria progressista da história, mas procurou fazê-lo suprimindo as reivindicações por estudos acerca de causas finais nas ações humanas. Julgou que a historiografia, como qualquer ciência empírica, deveria se limitar ao âmbito dos fatos observáveis, e o mesmo apontamento valeria para a compreensão dos fenômenos mentais. John Stuart Mill ocupou-se em conciliar a causalidade dentro de leis empíricas sem negar de todo o livre arbítrio humano, mostrando que, apesar das ações humanas possuírem o esforço consciente de seus respectivos agentes entre suas causas, mostrando certas reações diferentes aos mesmos estímulos internos e externos, esse esforço estaria fortemente limitado aos fatores psicológicos e etológicos. Nesse sentido, Comte e Mill concordam que seja possível extrair ao menos regularidades tanto no âmbito da estática social (condições sincrônicas de equilíbrio) quanto na dinâmica social (condições diacrônicas de movimento). Karl Marx, por sua vez, procurou conciliar a dialética histórica de Friedrich Hegel sob bases empiristas de causalidade semelhantes as de Comte e de Mill ao mesmo tempo em que concedia ao humano algo de particular em relação aos demais animais, aquilo que estaria no domínio de seu trabalho.

Narrativa

A narrativa dentro da filosofia da história ganhou destaque a partir da década de 1960, inicialmente apenas como uma categoria de explicação, que geralmente é entendida como um modo de dar sentido a um evento a partir de relações de causa e efeito. Entretanto, partindo do pressuposto de que uma historiografia não contém apenas explicações, a narrativa histórica começou a ser investigada em outros níveis. Analogamente, as sentenças narrativas, ainda que sejam componentes básicos de uma narrativa histórica, passaram a ser vistos não como seus únicos componentes nem necessariamente como os mais importantes. Para além das frases ou sentenças narrativas, Gallie, por exemplo, procurou analisar o que há nos textos que possibilitam seu acompanhamento pelo leitor (followability). Ademais, a narrativa na filosofia da história começou a ser abordada em perspectivas ontológicas diversas: narrativa histórica enquanto história de ações humanas no passado, por Frederick A. Olafson em Narrative History (1995), seguindo um realismo histórico; ou narrativa histórica enquanto histórias que os historiadores constroem refletindo suas próprias perspectivas e experiências da vida humana, por David Carr em Narrative and the Real World (1986). Ainda, após a virada linguística, a narrativa histórica foi longamente debatida na perspectiva de poder ser uma construção segundo critérios protolinguísticos, definindo-se a história como um tipo específico de narrativa literária sobre o passado.

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Polêmicas

Século XIX

Algumas filosofias da história foram desenvolvidas em contrapartida ao idealismo hegeliano mas sem necessariamente concordar com as orientações científicas da história. Arthur Schopenhauer teceu críticas significativas às filosofias da história que estavam sendo construídas até então, tanto em oposição à Friedrich Hegel, quanto em oposição ao projeto da história ciência. Enquanto os idealistas alemães associavam a história com o desenvolvimento da liberdade e da razão humana, Schopenhauer argumentava que a partir do curso histórico não se pode inferir nada a respeito da essência humana. Nesse sentido, a filosofia da história de Schopenhauer rejeita a teleologia, ou seja, a ideia de que há uma coerência interna e racional entre os eventos históricos com uma finalidade. Antes, a história é muito mais caracterizada pela ação humana guiada pela Vontade, que exprime a carência, o tédio, o sofrimento e os desejos da humanidade, sendo esse também o motor da história para o filósofo: uma realidade impulsionada por interesses materiais e prazeres do ego.

Século XX

Walter Benjamin em Teses sobre a filosofia da história (1940) critica as filosofias da história da Modernidade em seu aspecto de recorrer às noções de progresso e de um tempo unilateral para definir o curso histórico, como era comum entre os iluministas franceses e Kant. Para Benjamin, a história não é orientada por uma razão governante e transcendental. Pelo contrário, vê-se na história um processo caótico e confuso, onde há o predomínio de uma visão da história dos "vencedores", que é violenta e opressora para com os demais. Herbert Marcuse em Eros e a civilização (1955) questiona a perspectiva da natureza humana e da história de Sigmund Freud na qual a natureza humana tem por princípio a busca do prazer, mas é reprimida socialmente pelo princípio da realidade. Assim, na perspectiva freudiana a história seria a contraposição entre a natureza desejosa e o corpo social que desvia os sentidos e, dessa forma, a repressão é encontrada em qualquer civilização ou cultura. Para Marcuse, isso não procede porque a atual composição da sociedade não é fruto de uma relação de oposição metafísica e necessária. Ela é uma construção histórico-social, na qual a formação da "civilização" implicou o ceifamento da liberdade humana.

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Fontes consultadas

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