Fernão de Magalhães
Fernão de Magalhães foi um navegador português que se notabilizou por ter liderado a primeira viagem de circum-navegação ao globo, de 1519 até 1522, ao serviço da Coroa de Castela, a Expedição de Magalhães.
Fernão de Magalhães nasceu no norte de Portugal, ca. de 1480.[nota 1] A freguesia da Sé do Porto, Vila Nova de Gaia e Ponte da Barca reclamam a sua naturalidade. A vila de Sabrosa outrora reclamou ser o berço do navegador e assim consta em muitas obras.[nota 3] No entanto, hoje sabe-se, para além de qualquer dúvida razoável, que essa presunção se baseou em documentação falsificada por António Luís Alvares Pereira, descendente de lavradores do lugar da Pereira, em Sabrosa, com o intuito de se habilitar à herança de Fernão de Magalhães no Arquivo das Índias. Fernão de Magalhães era filho de Rui (por vezes Rodrigo) de Magalhães, nascido cerca de 1442, Cavaleiro Fidalgo da Casa de D. Afonso, 1.º Conde de Faro, 2.º Conde de Odemira jure uxoris, 5.º Senhor de Mortágua jure uxoris, Senhor de Aveiro e Alcaide-Mor do Castelo de Estremoz, que exerceu cargos de governação no Porto, onde se encontra documentado entre junho de 1472 e junho de 1488 e onde exerceu os cargos de Juiz Ordinário, Procurador e Vereador do respetivo Senado da Câmara, e terá sido Alcaide-Mor do Castelo de Aveiro, onde está documentado em 1486, e de sua primeira mulher Alda de Mesquita, nascida cerca de 1445, e casado pela segunda vez com Inês Vaz Moutinho, filha de Pedro Vaz Moutinho, cidadão do Porto, cidade onde foi Vereador, e de sua mulher Inês Gonçalves de Mesquita. Era irmão de Duarte de Sousa, Diogo de Sousa, Isabel de Magalhães, Leonor de Magalhães, casada com João Fernandes Barbosa, com geração, Genebra de Magalhães, casada com André Afonso Cão, General de Galés de Entre Douro e Minho, filho de Diogo Cão e de sua mulher, com geração, e Aires de Magalhães, que seguiu uma carreira eclesiástica, recebeu ordens de epístola em 1509 em Braga e, nessa matrícula, seus pais acima nomeados são ditos moradores na Sé do Porto.
Portugal foi o primeiro reino Europeu a empreender expedições marítimas em busca de uma rota para as Índias que lhes daria o controle do comércio das especiarias. Fernão de Magalhães tinha cerca de dez anos quando se tornou Pajem da Corte da Rainha D. Leonor, consorte de D. João II de Portugal. Casou-se em Sevilha, em Dezembro de 1517, com Beatriz Barbosa, sua parente, filha de Diogo Barbosa e de sua mulher Maria Caldeira, e teve dois filhos: Rodrigo, que faleceu muito novo, e Carlos, que faleceu ao nascer. Em março de 1505, com 25 anos, alistou-se na Armada da Índia, na frota de 22 navios enviada para instalar D. Francisco de Almeida como primeiro governador e vice-rei da Índia. Embora o seu nome não figure nas crónicas, sabe-se que ali permaneceu oito anos, e que esteve em Goa, Cochim e Quíloa. Participou em várias batalhas, incluindo a batalha naval de Cananor em 1506, onde foi ferido, e a decisiva batalha de Diu. Em 1509 partiu com Diogo Lopes de Sequeira na primeira embaixada a Malaca, onde seguia também Francisco Serrão, seu grande amigo e possivelmente primo. Chegados a Malaca em setembro, foram vítimas de uma conspiração e a expedição terminou em fuga, na qual Magalhães teve um papel crucial avisando Sequeira e salvando Francisco Serrão que havia desembarcado. Para trás ficaram dezanove prisioneiros. A sua atuação valeu-lhe honras e uma promoção.
Em 1517 foi a Sevilha com Rui Faleiro, tendo encontrado no feitor da "Casa de la Contratación" da cidade um adepto do projecto que entretanto concebera: dar a Castela a possibilidade de atingir as Molucas pelo Ocidente, por mares não reservados aos portugueses no Tratado de Tordesilhas e, além disso, segundo Faleiro, provar que as ilhas das especiarias se situavam no hemisfério castelhano.
Origens da expedição
Fernão de Magalhães não tinha a intenção de circunavegar a Terra. O tratado que ratificou com o rei Carlos I de Castela em 22 de março de 1518, continha até uma proibição implícita neste sentido, pois violaria os interesses e direitos do tio e cunhado de Carlos, o rei Manuel I de Portugal. A orientação para a viagem de Magalhães foi a mesma que para a viagem de Cristóvão Colombo 27 anos antes: navegar para o oeste para chegar ao leste (rota marítima para a Índia). Acima de tudo, tratava-se de encontrar o caminho mais curto possível para as ilhas das especiarias, cuja localização exata era pouco conhecida na época devido ao sigilo estrito. O comércio extremamente lucrativo de especiarias com a Europa era compartilhado por mercadores indianos, persas, árabes, otomanos e venezianos por terra e por mar por Portugal.
O contrato da expedição
Magalhães chegou a Sevilha em 20 de outubro de 1517. Ele veio para a casa do conterrâneo português Diogo Barbosa — seu futuro sogro — que administrava os castelos reais e estaleiros de Sevilha a serviço de um português exilado da Casa de Bragança. Naquela época, a Casa de la Contratación, agência de comércio exterior castelhana, tinha suas instalações nesses edifícios. Magalhães contratou os serviços de Juan de Aranda. Aranda ofereceu-se para marcar uma audiência para Magalhães e Faleiro com o Rei Carlos I, que então se encontrava com a sua corte em Valladolid. Em troca, Aranda solicitou uma participação nas empresas de Magalhães e Faleiro, para as quais foi assinado um contrato.
Viagem às Molucas
A armada fez escala nas ilhas Canárias e alcançou a costa da América do Sul, chegando a 13 de dezembro ao Rio de Janeiro. Prosseguindo para o sul, atingiram Puerto San Julián à entrada do estreito, na extremidade da atual costa da Argentina, onde o capitão decidiu hibernar. Irrompeu então uma revolta que ele conseguiu dominar com habilidosa astúcia. Após cinco meses de espera, período no qual a nau Santiago foi perdida em uma viagem de reconhecimento, tendo os seus tripulantes conseguido ser resgatados, Magalhães encontrou o estreito que hoje leva seu nome, aprofundando-se nele. Em outra viagem de reconhecimento, outra nau foi perdida, mas desta vez por um motim na nau San Antonio onde a tripulação aprisionou o seu capitão Álvaro de Mesquita, primo de Magalhães, e iniciou uma viagem de volta com o piloto Estêvão Gomes (realmente estes completaram a viagem, espalhando ofensas contra Fernão de Magalhães na Espanha).
O regresso
Decidiram incendiar a nau Concepción, visto o pequeno número de homens para operá-la, e finalmente conseguiram chegar às Molucas, onde obtiveram seu suprimento de especiarias. Trinidad acabou ali permanecendo para reparos e a Victoria voltou sozinha para casa, contornando o Índico pelo sul, a fim de não encontrar navios portugueses. A Trinidad, após os reparos tentou seguir uma rota pelo Pacífico até a América Central, onde poderia contatar os espanhóis e levar sua carga, no entanto acabou tendo de retornar às Molucas onde seus tripulantes foram aprisionados pelos portugueses que haviam chegado. A nau Victoria dobrou o Cabo da Boa Esperança em 1522, fez escala em Cabo Verde, onde alguns homens foram detidos pelos portugueses, alcançando finalmente o porto de Sanlúcar de Barrameda, com apenas 18 homens na tripulação.
A expedição de Fernão de Magalhães permaneceu por pouco tempo no Brasil. A frota aportou primeiramente no Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, no dia 29 de novembro de 1519. Tratou-se de uma rápida estadia destinada ao abastecimento das naus. Algum tempo depois a expedição chegou na Baía de Guanabara onde permaneceu por duas semanas, de 13 a 26 de dezembro do mesmo ano. As estadias na costa do Brasil foram breves porque a expedição não estava autorizada a aportar em terras portuguesas devido ao Tratado de Tordesilhas. Durante a passagem pelo Brasil, os marinheiros mantiveram contatos com os povos tupis que habitavam a costa. Eles estabeleceram relações comerciais com os índios, usualmente conhecidas como escambo. Compraram produtos frescos e variados em troca de objetos europeus. Algumas destas transações foram registradas pelo cronista da expedição, o veneziano Antonio Pigafetta. Como todo acontecimento histórico global, a primeira viagem de circum-navegação da terra gerou impacto nos lugares por onde passou e no Brasil não foi diferente. A Marinha do Brasil chegou a refazer a viagem no século XIX com a Corveta Vital de Oliveira, iniciando o trajeto em 1879. Alguns anos depois, a Marinha refez novamente o trajeto, desta vez com o Cruzador Almirante Barroso (1888–1890), cujo objetivo era realizar a instrução da turma de guardas-marinha formada em 1886. Esta viagem, que percorreu 36 691 milhas náuticas, foi registrada em um livro escrito pelo seu comandante. Durante o trajeto ocorreu um facto curioso. Devido à Proclamação da República do Brasil, o neto do Imperador, e Segundo-Tenente da Armada Imperial, Príncipe Dom Augusto Leopoldo, que fazia parte da tripulação, teve que desembarcar em Colombo (Sri Lanka). A Marinha possui um interesse na temática que se reflete em várias seções da instituição, sobretudo na Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha (DPHDM). No Museu Naval há uma referência à expedição na entrada da exposição permanente, assim como artefatos do século XVI, incluindo instrumentos de navegação. Ademais, na Revista Marítima foram publicados artigos sobre a importância de Fernão de Magalhães na arte da navegação, assim como das posteriores comemorações da sua viagem, sobretudo o quarto centenário.
As notícias da viagem de Fernão de Magalhães às Molucas ao serviço de Carlos I, por mares reclamados por Portugal e supostamente interditos à passagem de navios pela Coroa de Castela tal como estipulado pelo Tratado de Tordesilhas, tanto à ida pelo Atlântico sul, como no regresso pelo Oceano Índico e de novo pelo Atlântico, causaram alguma apreensão na Corte portuguesa. A viagem deu origem a uma disputa internacional entre Portugal e Castela, dado que ambas as nações reclamavam agora soberania sobre as ilhas alcançadas e descobertas primeiramente por Francisco Serrão em 1512, sem que fosse no entanto possível determinar em que hemisfério se localizava o arquipélago, uma vez que era impossível à época determinar a longitude com grande precisão. Esta disputa, doravante conhecida como a Questão das Molucas, foi resolvida mediante o pagamento de um resgate de 350 000 ducados de ouro por parte de D. João III ao seu cunhado, o Imperador Carlos V, pelo direito à posse das ilhas. Em relação a Magalhães e à sua viagem, escreveria mais tarde Luís Vaz de Camões no Canto X d'Os Lusíadas: "O Magalhães, no feito, com verdade,/Português, porém não na lealdade", referindo-se aos seus serviços em favor da Coroa de Castela.
Apenas quatro homens dos 55 da tripulação original do Trinidad finalmente regressaram a Espanha em 1525.
A 20 de setembro de 1519 iniciou-se uma das mais ousadas viagens marítimas da história — a primeira viagem de circum-navegação do globo. Fernão de Magalhães, comandando uma armada de cinco navios e cerca de 240 homens, protagonizou uma audaz empreitada com a missão de encontrar uma passagem na América do Sul e chegar à Índia ou Oriental Superior (ir às Molucas e às ilhas das especiarias pelo oeste) sem entrar nos limites portugueses atribuídos no Tratado de Tordesilhas (1494). Encontrou a tal almejada passagem, o atual Estreito de Magalhães, de comunicação do Atlântico com um mar desconhecido que, impressionado com a tranquilidade das suas águas, batizou de Pacífico. Carcharhinus longimanus (Poey 1861) — Tubarão-oceânico-de-pontas-brancas. Sobre esta expedição são conhecidos relatos escritos por tripulantes que sobreviveram à grande aventura, sendo o mais célebre o de Antonio Pigafetta, cronista e geógrafo nascido em Vicenza, no Veneto. Pigafetta narrou, em primeira mão, vários acontecimentos da longa expedição, anotando cuidadosamente o que via, ouvia dizer e tudo quanto sucedia a ele, a seus companheiros de viagem e à armada de Magalhães. São vários os relatos sobre os animais terrestres (domésticos e selvagens), árvores, plantas, frutos, insetos, aves, mamíferos marinhos, crustáceos, bivalves, répteis (crocodilos e tartarugas) e peixes que teve oportunidade de observar. Sobre este último grupo são múltiplas as citações que importa salientar.


