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Exegese alegórica de Homero

A exegese alegórica de Homero é uma interpretação ou explicação da obra homérica, baseada no axioma de que o poeta não expressou explícita ou literalmente seu pensamento, mas escondeu-o atrás de relatos mitológicos, por meio de uma linguagem enigmática ou alusiva.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 27/07/2026
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Exegese física e teológica

Coleções posteriores, reunindo um grande número de comentários homéricos antigos de outra forma desconhecidos, mas também contribuições originais, foram produzidas por dois bizantinos do século XII: Eustácio, arcebispo de Tessalônica, e João Tzetzes. Há alguns comentários no tratado alegórico Sobre Homero de Gemisto Pletão (segunda metade dos século XIV - primeira do XV). Existem também vários comentários filosóficos sobre Homero, inteiramente originais, escritos pelo bizantino Cristóforo Contoleão (final do XV - início do XVI). Finalmente, encontramos várias interpretações físicas do texto homérico entre os antigos autores árabes: Intimamente relacionados aos comentários físicos dos antigos, os comentários sobre Homero posteriores, escritos por humanistas e alquimistas, ou filósofos herméticos, a partir do século XIV, são muitos e variados. Existem muitos comentários físicos originais entre eles. Incluem-se os nomes de Pedro Bono (século XIV), François Rabelais (século XVI), Jean Dorat (século XVI), Blaise de Vigenère século XVI), Giovanni Bracesco (século XVI), Michael Maier (século XVII), etc:

Os rapsodos e os pré-socráticos

Segundo Porfírio, o surgimento de uma linhagem de interpretação alegórica é traçado desde o século VI a.C., com Teágenes de Régio, sob uma postura defensiva dos sentidos simbólicos da narração mítica: com o início do pensamento filosófico, era criticada a leitura literal antropomórfica e imoral dos deuses de Hesíodo e Homero, tal como a atacou o pré-socrático Xenófanes de Cólofon e até mesmo Platão posteriormente em A República. Teágenes propunha uma leitura tanto física quanto moral e psicológica: "O discurso geral acerca dos deuses liga-se geralmente ao inapropriado, e mesmo ao inconveniente; pois os mitos que ele narra sobre os deuses não são convenientes. Para dissolver tal acusação, há quem evoque a maneira de falar; estes estimam que tudo foi dito sob o modo da alegoria e concerne a natureza dos elementos, como por exemplo, no caso de desacordos entre os deuses. É assim que, segundo eles, o seco combate o úmido, o quente o frio, e o leve o pesado; a água apaga o fogo, mas o fogo seca a água. (...) <Dizem que> ele organizou batalhas dando ao fogo o nome de Apolo, Hélio ou Hefesto, à água o de Posêidon ou Escamandro, à lua o de Ártemis, ao ar o de Hera etc. Do mesmo modo, acontecia-lhe de dar os nomes de deuses para disposições, Atena para a sabedoria, Ares para a insensatez, Afrodite para o desejo, Hermes para a fala, e associam <estas disposições> a eles. Este modo de defesa é muito antigo e de Teágenes de Régio, que foi o primeiro a escrever sobre Homero, considerando sua maneira de falar"

Pitágoras e os pitagóricos

Pitágoras compartilha com Homero o raro privilégio de ver os versos atribuídos a ele serem qualificados como "de ouro". De fato, segundo seus biógrafos, o filósofo foi iniciado na leitura do Aedo por Hermodamas de Samos e, pelos relatos de Jâmblico, Estobeu e Eustácio de Tessalônica teria se inspirado na obra homérica, em particular no desenvolvimento de sua doutrina dos números e sobre a palingenesia ou metempsicose: Os discípulos de Pitágoras foram inspirados por Homero em, por exemplo, impor a regra do silêncio: O neoplatônico Porfírio (século III – início do IV) tornou-se ilustre pela redação das Questões Homéricas e de O Antro das Ninfas, obras em que o texto de Homero é frequentemente interpretado alegoricamente com conceitos do neopitagorismo:

Platão e os platônicos

A obra de Platão (século IV a.C.), por sua vez, contém comentários alegóricos de Homero, geralmente formulados por Sócrates: Um diálogo fortemente dedicado a uma alegorização dos deuses é o Crátilo: Entre os mais famosos platônicos, Plutarco de Queroneia (I século e início do II) cita várias interpretações alegóricas do texto homérico; o Pseudo-Plutarco, autor do livro Sobre a Vida e a Poesia de Homero, dedicará um grande capítulo a esse tipo de exegese: Fílon de Alexandria (século I) cita versos de Homero como autoridade em apologética a suas interpretações da Bíblia judaica, assim como outros autores judeus o fizeram antes. Em seguida, vieram os neoplatônicos Porfírio (ver acima) e Proclo (século V), com o sexto tratado de seu Comentário sobre a República de Platão, onde se acumulam interpretações alegóricas do poeta:

Epicuro e os epicuristas

Epicuro (século III–IV a.C.) teria baseado vários temas de sua filosofia (felicidade dos deuses, busca do prazer) em várias passagens homéricas:

Os estoicos

"É geralmente reconhecido que a exegese edificante de Homero foi praticada principalmente pelos estóicos e que estes a herdaram dos antigos rapsodos." A interpretação física é neles onipresente: Um caso particularmente representativo é o estoico Cornuto (século I) cujo livro Visão geral da tradição teológica grega é uma compilação em que todo o panteão homérico é explicado como um conjunto de alusões a fenômenos naturais. No entanto, sua explicação é exclusivamente etimológica, despojando Homero de qualquer intenção alegórica, e propunha uma transmissão quase literal que seria imediatamente identificável no idioma grego: Já outro contemporâneo seu, o gramático Heráclito, na obra Alegorias Homéricas, defendeu o contrário de que Homero adotou uma escrita fortemente alegorizante e tentou resgatá-lo de acusações de blasfêmia: conferiu-lhe dimensão cosmológica, exaltando a sua forma filosófica e que suas histórias sobre as divindades não violavam a moral. Nessa obra, todos os grandes episódios da Ilíada e da Odisseia são interpretados alegoricamente: ela é a primeira obra preservada que comenta o texto homérico de forma sistemática, do início ao fim. Heráclito foi um caso um tanto enigmático, que não pode ser classificado como platônico, epicurista ou estoico, mas evidencia principalmente o estoicismo em sua escrita.

Outros exegetas da Antiguidade

Muitos outros autores antigos, gregos e latinos, ao menos fornecem amostras da exegese físico-teológica de Homero: Aristóteles, Cícero, Macróbio, Numênio, Apuleio, Calcídio etc.

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Exegese histórica

Na Antiguidade, a interpretação alegórica que dá ao texto de Homero um sentido puramente histórico foi desenvolvida especialmente por Paléfato, autor de um livro Histórias Inacreditáveis, e por Evêmero (século IV a.C.): Sem ter conhecido o mesmo impacto da interpretação física e teológica, a exegese histórica de Homero, e da mitologia em geral, experimentou um interesse renovado com o abade Antoine Banier (século XVIII): "Diversas vezes revisada e ampliada, sua grande obra de interpretação histórica da mitologia é fortemente marcada pelo evemerismo e quase não faz referência hoje, mas foi recebida em sua época com muito apreço." Seu contemporâneo Dom Pernety (ver acima), um defensor da exegese física, lutou em suas Fables para desmantelar os argumentos historicistas do Padre Banier.

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Exegese ética

Tão menos importante do que a exegese física, mas mais presente do que a histórica, foi a explicação moralizante dos episódios homéricos. O interesse demonstrado pelos antigos filósofos pela mente, ou ψυχή, naturalmente os levou a formular certas considerações éticas e a buscar apoio delas no texto do Aedo. Exemplos são encontrados em Aristóteles, entre os epicuristas, estoicos, como também em alguns escritores cristãos, como Mateus de Éfeso (final do século XIII – início do XIV): As traduções feitas pelos renascentistas Leôncio Pilato e Angelo Poliziano eram lidas com intenção moralizante. Assim também as publicações pelos primeiros editores Demétrio Calcondiles e Giovanni Acciaiuoli foram acrescidas de comentários. Mais tarde, sua leitura foi vista por alguns como coadjuvante aos ensinos do cristianismo, como defendia James Dupont.

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