Estação Ferroviária da Guarda
A estação ferroviária da Guarda é uma interface das Linhas da Beira Alta e Beira Baixa, que serve o concelho da Guarda, em Portugal. Foi inaugurada, como parte da Linha da Beira Alta, em 3 de agosto de 1882, e foi unida à Linha da Beira Baixa em 11 de maio de 1893. Em 29 de abril de 2002, foi inaugurado o novo edifício da estação da Guarda.
Localização e acessos
Situa-se em frente ao Largo 1.º de Dezembro, na cidade da Guarda, distando o centro histórico (Largo Frei Pedro) cerca de 4 km por via rodoviária, maioritariamente pela EN16. A estação é servida pela L01 (ou, simplesmente, 1), uma das cinco carreiras dos Transportes Urbanos da Guarda, com 29 circulações diárias em cada sentido.
Infraestrutura
Esta interface apresenta dez vias de circulação (identificadas como: I, I-A, I-B, I + I-A + I-B, II, II-A, II + II- A, III, III-A, e III + III-A) com comprimentos entre 200 e 935 m e das quais três (I, II, e III) acessíveis por plataformas de 400 m de comprimento e 685 mm de altura; existem ainda dezasseis vias secundárias (identificadas como IV, V, VI, VII, VIII, A (R1), B (R1), C (R1), I (R2), II (R2), I (R3), II (R3), G2, G3, G4, e G6) com comprimentos entre 428 e 130 m; quase todas estas vias (exceto VII, C (R1), I (R2), II (R2), I (R3), e II (R3)) estão eletrificadas em toda a sua extensão. A superfície dos carris no ponto nominal situa-se à altitude de 8108 dm acima do nível médio das águas do mar, constituindo o ponto culminante de toda a Linha da Beira Alta.
Serviços
Em dados de 2024, esta interface é terminal de serviços da C.P. efetuados por via rodoviária, ligando à Pampilhosa com doze circulações diárias em cada sentido, e a Vilar Formoso com três chegadas e duas partidas. Esta substituição temporária é devida às obras de requalificação da Linha da Beira Alta, iniciadas em Abril de 2022 e cuja conclusão está prevista para 2025. É igualmente terminal de serviços ferroviários regulares pela Linha da Beira Baixa, com cinco circulações diárias em cada sentido — três ligando a Lisboa - Santa Apolónia, uma ao Entroncamento, e uma a Castelo Branco.
Antecedentes e planeamento
Em meados do século XIX, o interior do país tinha grandes problemas de comunicações, com uma rede viária pouco desenvolvida, em más condições e perigosa. Ainda assim, o concelho da Guarda possuía várias estradas importantes, que o ligavam ao resto do país, sendo o principal meio de transporte público as diligências da mala-posta, que apresentavam poucas condições de conforto para os passageiros. Esta situação começou a mudar nos finais do século, quando o governo iniciou um programa para desenvolver os meios de transporte na região, de forma a aproximá-la da capital e promover o seu crescimento económico. O principal investimento em transportes públicos na região foi a construção da Linha da Beira Alta, que tinha como um dos principais fins servir igualmente a cidade da Guarda.
Ligação à Linha da Beira Baixa
Quando se iniciou a discussão sobre o traçado da futura Linha da Beira Baixa, acendeu-se uma viva polémica sobre qual deveria ser o seu ponto terminal. Originalmente a linha era para atravessar a fronteira perto de Monfortinho e unir-se à rede espanhola, criando uma nova ligação a Madrid, mas este projecto falhou devido à abertura do Ramal de Cáceres, em 1880, que tinha o mesmo objectivo. Por outro lado, surgiram oposições ao traçado da linha, com a Junta Geral do Distrito e a imprensa local a reclamar que a linha fosse até à Guarda, onde seria feito o entroncamento com a Linha da Beira Alta. Considerava-se que este factor seria de grande importância para o desenvolvimento da cidade, como foi descrito num artigo no jornal A Civilização, de 20 de Setembro de 1884: «devem ser postas de lado as questões políticas para se tratar com urgência deste assunto, que é de muita importância. Ninguém ignora as vantagens que poderão resultar para a Guarda de um tão grande melhoramento. É indispensável que todos trabalhemos no sentido indicado e que este não seja descurada uma questão vital desta ordem.».
Século XX
Na primeira metade do século XX, o restaurante da estação chegou a ser muito afamado, sendo principalmente conhecido devido ao seu prato do cabrito no forno. Em 1907, a Rainha D. Amélia e a sua comitiva viajaram de comboio até à estação da Guarda, para a inauguração do Sanatório Sousa Martins. Nos princípios de 1910, a Rainha voltou a passar pela estação da Guarda, quando viajou de comboio até Biarritz. Entre 11 de 15 de Janeiro de 1911, ocorreram várias greves nacionais dos ferroviários, que tiveram um grande efeito na Guarda devido à sua elevada concentração de empregados dos caminhos de ferro, e que só não tiveram um maior impacto devido à intervenção do Governador Civil, Arnaldo Bigotte, que negociou com os grevistas e reencaminhou as suas reclamações para o Ministério do Interior, em Lisboa. Com efeito, os trabalhadores da estação depois aprovaram uma moção em que elogiaram a conduta do Governador Civil, que foi publicada no jornal O Combate de 21 de Janeiro de 1911: «O pessoal ferroviário da Companhia Portuguesa e Beira Alta existente na estação da Guarda durante os 4 dias em que se manteve solidário com o movimento grevista, não encontrando outro meio para que possa testemunhar o seu vivo reconhecimento perante o altivo e carinhoso acolhimento que sempre nos dispensou sua excelência, vêm por esta forma patentear que ficam sumariamente penhorados e bem assim altamente bem impressionados com a fineza e a rectidão do seu carácter.». Em 1913, existiam serviços de diligências ligando a estação à cidade. Em 1914, uma viagem de comboio entre Lisboa e a Guarda demorava cerca de oito horas.
Século XXI
Em 29 de Abril de 2002, na comemoração dos cinco anos da REFER, foi inaugurado o novo edifício da Estação Ferroviária da Guarda, melhoramento que já era pedido pela população da cidade há algum tempo. O projeto para a construção de um novo edifício tinha sido apresentado em maio de 1999 e previa que o novo edifício fosse construído no local do edifício que já existia; o edifício antigo foi demolido em 2000 e os serviços ferroviários e comerciantes foram instalados em contentores provisórios. As obras ficaram concluídas dois anos depois; o novo edifício custou 1,9 milhões de euros e conta com uma área de 1400 m² onde se situam a sala de espera, bilheteiras e posto de informação. As plataformas e coberturas, assim como as passagens inferiores para o cais foram remodeladas. A pedido da Assembleia de Freguesia de São Miguel, a REFER aceitou imortalizar o antigo edifício num painel de azulejos colocado à frente da nova estação.
No romance Manhã Submersa (publ. 1954), de Vergílio Ferreira, o protagonista relata a sua passagem pela estação ferroviária da Guarda: Quando chegámos à Guarda, estava toda a plataforma retinta de fatos pretos - e foi uma invasão. Perdido naquela turba, senti-me outra vez só. Alguns do nosso grupo partiram para outros grupos; e os que ficaram, submetidos, como eu, à importância recente, não falavam.


