Espingarda
Uma espingarda é uma arma de fogo portátil de alma lisa, que utiliza como munição cartuchos de projéteis múltiplos ou de um único projétil concebido para se estabilizar no voo, compensando a ausência de raiamento do cano. Tornou-se a principal arma pessoal dos exércitos, desde o final do século XVII, altura em que a espingarda de pederneira substituiu o mosquete. A baioneta que era costume afixar na ponta do cano para usar em combate corpo a corpo operacionalmente tornou-se praticamente obsoleta.
As primeiras espingardas surgiram no início do século XVII, as de dois canos apareceram em 1873, enquanto que a primeira espingarda moderna de repetição, desprovida de martelo, foi fabricada em 1904. O termo originou do francês antigo espingarde < frâncico *springan ("saltar"),< proto-germânico *springaną, e finalmente, do proto-indoeuropeu *spr̥ǵʰ.
A classificação das armas longas portáteis é um tanto confusa, pois varia consoante o país e, mesmo dentro do mesmo país, conforme o tipo de utilização. Assim, em Portugal, popularmente é utilizado o termo espingarda como designação genérica de todas as armas longas. No entanto, legalmente apenas são classificadas como "espingardas" as armas longas de cano de alma lisa, sendo as de alma raiada classificadas como "carabinas". Deste modo, as outras designações populares de armas longas, tais como "caçadeira", "shotgun", “escopeta” e "doze", não têm significado formal, devendo estas armas ser classificadas genéricamente como "espingarda", por terem os canos de alma lisa. Portanto, as espingardas com um único tiro disparam diversos projéteis que se espalham por uma área maior, diferentemente dos fuzis, cujo tiro atinge um único ponto. O Exército Português, faz a distinção entre "espingardas" e "carabinas", não pelo raiamento do cano, mas sim pelo tamanho da arma. Assim, tradicionalmente são consideradas "espingardas" as armas longas normais de infantaria, e "carabinas" versões especiais mais curtas. Como exemplo, a atual arma padrão da infantaria portuguesa, a Heckler & Koch G3, apesar de ser raiada, é classificada como "espingarda automática" e não como "carabina automática".
Na Europa, em meados do século XIX aparece a primeira espingarda de ferrolho. O "ferrolho" era o mecanismo de carregamento e extração da munição, chamado desta forma porque tinha uma saliência lateral semelhante às homónimas das fechaduras de ferrolho. Esta saliência permitia abrir a arma pela culatra para colocação da munição, armando, ao mesmo tempo, o conjunto da mola e percursor que golpeariam a escorva da munição para deflagrar. As armas podem assim, ser carregadas em qualquer posição, permitindo ao soldado manter-se abrigado durante o processo. Na sequência da Guerra Franco-Prussiana de 1870-1872 os exércitos abandonam as espingardas de percussão e adotam espingardas de carregar pela culatra. Durante a Guerra Civil Americana, partindo de diversos protótipos já anteriormente existentes, desenvolve-se uma grande quantidade de espingardas e carabinas capazes de disparar várias vezes mediante processos de recarregamento mecânico por ação manual, geralmente através de alavancas. Os cartuchos utilizados por estas armas são já metálicos e impermeáveis, podendo ser armazenados em tubos, normalmente fixos, sob o corpo do cano. Nascem assim os depósitos tubulares como os do rifle Winchester de alavanca. A Winchester apareceu na parte final da guerra dando uma grande vantagem à cavalaria da União: um soldado pode disparar doze tiros por minuto, frente aos três disparos por minuto dos soldados de infantaria, armados com as tradicionais espingardas de percussão. A seguir à guerra, na conquista do Oeste, irá nascer a lenda da Winchester 44.
Espingarda de pederneira
A espingarda de pederneira, ou fuzil era uma arma longa cujo mecanismo de disparo era o fecho de pederneira. Este consistia num cão (peça em formato de martelo com um fragmento de silex ou pederneira no seu extremo) que, depois de ser acionado pelo gatilho, percutia uma peça móvel de aço (o "fuzil"). Esse mecanismo provocava uma faísca que incendiava a pólvora colocada num orifício que comunicava com o interior da câmara, produzindo assim a deflagração que impulsionava a bala no interior do cano da arma. O "fuzil" de aço, peça característica deste tipo de espingardas, acabou por batizar as próprias armas, bem como deu origem à denominação dos soldados armados com elas, os fuzileiros.
Espingarda de percussão
A partir de cerca de 1830 começam-se a generalizar as espingardas que disparam por intermédio de um mecanismo chamado "fecho de percussão". O fecho de percussão era um sistema de disparo que consistia num martelo percutor que golpeava uma chapa de cobre ajustada sobre um orifício (chamado "chaminé") que comunicava com o interior da câmara. O fulminante era colocado sob a chapa de cobre, sendo também desenvolvidos fulminantes encapsulados dentro de cartuchos de papel. O martelo percutor, ao golpear a chapa de cobre, produzia uma faísca que incendiava o fulminante através da chaminé, fazendo deflagrar a carga de pólvora originando o disparo. Este sistema de disparo é muito mais seguro e eficaz que o de pederneira, inclusive em condições atmosféricas adversas. Além disso melhorou a cadência de tiro garantindo 90% de disparos efetivos.
Desenvolvimento dos projéteis
No início do século XIX, os projéteis de chumbo começaram a ser endurecidos através da utilização duma liga de antimónio e cobre, impedindo-os de se desviarem da sua trajetória por deformações provocadas durante o disparo. Foi também desenvolvida uma forma cilindro-cónica que facilitava a rotação do projétil aquando disparado por um tubo de alma raiada.
Introdução dos canos de alma raiada
A primeira menção conhecida do uso de estrias ou raias no interior dos canos das armas encontra-se num édito suíço de 1563. Aqui é referida a pouca utilidade do uso de raias no interior dos canos em virtude das balas esféricas utilizadas na altura. Raiar a alma de um cano consiste em gravar-lhe uma série de estrias ao longo da sua superfície interna, que vão girando num determinado sentido, completando uma volta de 360º ao redor do eixo do cano cada certa distância. As estrias provocam um efeito de rotação na bala que, desta forma, se mantém um trajetória estável durante a sua progressão, ao manter o seu eixo paralelo à linha de voo. A consequência à o aumento da precisão e do alcance eficaz do tiro da arma.
Munição de cartucho
Outra grande inovação é o aparecimento do cartucho que contém, num único elemento, a bala, a carga propulsora e o fulminante, até então separados ou só parcialmente envolvidos no papel que era empregue como bucha. Os primeiros cartuchos, que aparecem na década de 1840, às vezes, não incluíam a escorva que era colocada de forma semelhante às armas tradicionais de percussão. O carregamento da arma simplifica-se e torna-se mais rápido com o uso do cartucho, ainda que a maioria das armas se mantenha de um só tiro.
Aumento do alcance das espingardas
A obtenção de pólvoras muito mais potentes e incorporação de elementos de pontaria, como as alças de mira reguláveis para tiro a diferentes distâncias, permitem que um bom atirador atinja facilmente um alvo inimigo acima de 300 metros, com o projétil a ser letal a mais dum quilómetro.


