Planta medicinal
As plantas medicinais foram identificadas e usadas ao longo da história da humanidade, pois têm a capacidade de sintetizar uma grande variedade de compostos químicos que são utilizados para desempenhar funções biológicas importantes e para a defesa contra o ataque de predadores, tais como insetos, fungos, herbívoros e mamíferos. Pelo menos 12 000 desses compstos foram isolados até hoje, um número estimado em menos de 10% do total.
O uso de plantas como medicamentos antecede a história humana escrita. Muitas das ervas e temperos usados por seres humanos na comida também produzem compostos medicinais úteis. O uso de ervas e especiarias na culinária desenvolveu-se em parte como uma resposta à ameaça de agentes patógenos de origem alimentar. Estudos mostram que em climas tropicais, onde os patógenos são mais abundantes, as receitas são mais condimentadas. Além disso, as especiarias com poder antimicrobiano mais potente tendem a ser selecionadas. Em todas as culturas os vegetais são menos temperados do que as carnes, presumivelmente porque são mais resistentes à deterioração. As angiospermas foram a fonte original da maioria das plantas medicinais. Muitas das ervas daninhas comuns que povoam os assentamentos humanos, como a urtiga, o dente-de-leão e a Morugem, têm propriedades medicinais.
Os compostos químicos em plantas mediam seus efeitos sobre o corpo humano através de processos idênticos aos já bem compreendidos compostos químicos de drogas convencionais, assim os medicamentos fitoterápicos não diferem muito de drogas convencionais em termos de funcionamento. Isto permite que os medicamentos à base de plantas possam ser tão eficazes como os convencionais, mas também podem ter o mesmo potencial para causar efeitos secundários nocivos. A indústria farmacêutica tem raízes nas boticas lojas da Europa na década de 1800, onde os farmacêuticos forneciam medicamentos tradicionais locais aos clientes, que incluíam extratos como morfina, quinina e estricnina. Medicamentos terapeuticamente importantes como camptotecina (de Camptotheca acuminata, usado na medicina tradicional chinesa) e taxol (do teixo do Pacífico, Taxus brevifolia) foram derivados de plantas medicinais. Os alcalóides da vinca vincristina e vinblastina, usados como medicamentos anticâncer, foram descobertos na década de 1950 na pervinca de Madagascar, Catharanthus roseus.
Cultivo
O cultivo de plantas medicinais demanda manejo intensivo, pois diferentes espécies exigem condições de cultivo específicas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o uso de rotação de culturas para minimizar problemas com pragas e doenças. O cultivo pode ser tradicional ou utilizar práticas de agricultura de conservação para manter a matéria orgânica no solo e conservar a água, como ocorre em sistemas de plantio direto. Em muitas plantas medicinais e aromáticas, as características da planta variam amplamente com o tipo de solo e a estratégia de cultivo, sendo necessário cuidado para obter rendimentos satisfatórios.
Preparação
Plantas medicinais costumam ser resistentes e fibrosas, exigindo algum tipo de preparação para facilitar a administração. De acordo com o Instituto de Medicina Tradicional, métodos comuns de preparação incluem decocção, trituração e extração com álcool, produzindo misturas de substâncias. A decocção envolve triturar e, em seguida, ferver o material vegetal em água para produzir um extrato líquido que pode ser administrado oralmente ou aplicado topicamente. A trituração envolve secar e moer o material vegetal para obter um pó que pode ser comprimido em comprimidos. A extração com álcool envolve embeber o material vegetal em vinho ou aguardente para formar uma tintura.
Uso
Medicamentos à base de plantas são amplamente usados em todo o mundo. Em grande parte do mundo em desenvolvimento, especialmente em áreas rurais, a medicina tradicional local, incluindo a fitoterapia, é a única fonte de cuidados de saúde para as pessoas, enquanto nos países desenvolvidos a medicina alternativa, incluindo o uso de suplementos alimentares, é comercializada agressivamente com alegações baseadas na medicina tradicional. Em 2015, a maioria dos produtos de plantas medicinais ainda não havia sido testada quanto à segurança e eficácia, e produtos comercializados em economias desenvolvidas ou fornecidos por curandeiros tradicionais em países em desenvolvimento tinham qualidade desigual, por vezes com contaminantes perigosos.
Conhecimento tradicional
Nas comunidades quilombolas, as plantas medicinais desempenham um papel central como forma ancestral de cuidado em saúde, constituindo um saber transmitido oralmente entre gerações e intimamente ligado ao território, à memória e à cultura afro-brasileira. Esses conhecimentos, historicamente preservados pelas pessoas mais velhas, orientam o uso de chás, lambedores e garrafadas empregados no tratamento de diferentes enfermidades, funcionando como alternativa importante aos medicamentos industrializados e como prática cotidiana de autocuidado. Apesar de terem sido alvo de perseguição e deslegitimação pelo discurso biomédico hegemônico ao longo da história, as práticas de cura popular se mantiveram vivas nos quilombos, tornando-se símbolo de resistência cultural e expressão da autonomia desses povos em relação à natureza e às suas formas tradicionais de vida. Em comunidades como a de Paratibe (João pessoa - PB), o uso das ervas continua ativo e associado à valorização da experiência dos anciãos, ao fortalecimento da identidade étnica e à luta pela preservação dos saberes tradicionais, sendo inclusive incorporado a práticas pedagógicas nas escolas quilombolas como parte do reconhecimento da importância desses conhecimentos na formação das novas gerações. Nesta comunidade foram mapeadas plantas medicinais como Hortelã do Mato (Mentha subincana), Boldo (Peumus boldus), Hortelã da Folha Grossa (Plectranthus amboinicus), Coité (Crescentia cujete), Capim Estrela (Rhynchospora spp).
Eficácia
Medicamentos vegetais muitas vezes não são testados sistematicamente, mas seu uso se consolidou informalmente ao longo dos séculos. Em 2007, ensaios clínicos demonstraram atividade potencial em cerca de 16% dos extratos de ervas; evidência limitada in vitro ou in vivo existia para aproximadamente metade; cerca de 20% tinham apenas evidências fitoquímicas; 0,5% eram alérgicos ou tóxicos; e cerca de 12% nunca foram estudados cientificamente. O Cancer Research UK alerta que não há evidência confiável para a eficácia de remédios herbais para o câncer. Um estudo filogenético de 2012 revelou que espécies usadas tradicionalmente para tratar condições semelhantes pertenciam a grupos semelhantes em diferentes regiões, indicando uma "forte sinalização filogenética" e sugerindo que esses grupos de plantas podem ter potencial medicinal.
Regulamentação
A OMS coordena uma rede chamada Cooperação Internacional de Regulação para Medicamentos Fitoterápicos para melhorar a qualidade dos produtos médicos à base de plantas e as alegações feitas para eles. Em 2015, apenas cerca de 20% dos países possuíam agências reguladoras bem estruturadas, enquanto 30% não tinham nenhuma, e aproximadamente metade possuía capacidade regulatória limitada. Na Índia, onde o Ayurveda é praticado há séculos, os remédios herbais são responsabilidade de um departamento governamental, AYUSH, vinculado ao Ministério da Saúde e Bem-Estar Familiar. A OMS estabelece uma estratégia para os medicamentos tradicionais com quatro objetivos: integrá-los às políticas nacionais de saúde; fornecer orientações sobre segurança, eficácia e qualidade; aumentar sua disponibilidade e acessibilidade; e promover seu uso terapêutico racional.


