Endogamia
Endogamia ou consanguinidade é o método de acasalamento que consiste na união entre indivíduos aparentados, geneticamente semelhantes. A consanguinidade ocorre naturalmente de forma a garantir a propagação da espécie. Quando ocorre naturalmente por espécies hermafroditas, a autógamia e quando ocorre em especies dióicas, a partenogênese (agamia). Quando os progenitores de um ser vivo que se reproduz sexuadamente possuem um ou mais ancestrais comuns, isto é, são parentes, diz-se que eles são consanguíneos ou endogâmicos. O resultado desse acasalamento é o aumento da homozigose, o que acaba resultando em perda de vigor, assim como na perda da variância, à medida que aumenta o parentesco. Em contrapartida, pode ser usada para melhoramento genético, visando a selecionar determinado caractere desejável, quando em sua máxima expressão (F=1).
O coeficiente de endogamia (F) é uma ferramenta bioestatística usada para medir a probabilidade de um indivíduo nascer com dois alelos idênticos caso pertença a uma população onde exista o hábito de reprodução por consanguinidade. Em outras palavras, mede o percentual provável de genes em homozigose que o indivíduo consanguíneo tem a mais quando comparado com outro não consanguíneo da mesma população.
Para entender os efeitos da endogamia sobre os organismos, é necessário resgatar alguns conceitos biológicos, como a heterozigose, a homozigose e a maneira como ambas atuam sobre os indivíduos de uma determinada espécie. A heterozigose é uma condição genética caracterizada pela existência de dois alelos distintos para o mesmo gene (cada um deles em partes correspondentes entre si de cromossomos homólogos), provenientes da geração parental (mãe e pai). Isso significa que, quando houver a combinação dos materiais genéticos, os alelos materno e paterno equivalentes irão se unir, formando um genótipo. O efeito dessa condição é a variabilidade genética ocasionada pela disseminação desses genes distintos entre os indivíduos da espécie, o que, em termos evolutivos, é bastante favorável, pois aumenta as chances de sobrevivência do grupo e sua perpetuação no ambiente. Na homozigose, por outro lado, os alelos correspondentes entre si são idênticos, formando um genótipo sem variação (quando comparado ao parental), o que, do ponto de vista evolutivo, é desfavorável para a espécie a longo prazo. Às vezes, o gene formado é constituído de dois alelos recessivos que expressam alguma característica que impede a sobrevivência e perpetuação da espécie, como no caso de uma baixa resistência a certos tipos de doença existentes no meio ou até mesmo a esterilidade. Futuramente, o resultado final seria a sua extinção completa. É importante lembrar que os mecanismos de seleção natural descritos por Darwin levam em conta as características do indivíduo que melhor se adéqua às condições do meio; o mais adaptado sobrevive e, sendo fértil, é capaz de transmitir seus genes às próximas gerações. A endogamia atua essencialmente em cima disso, alterando a constituição genética dos integrantes do grupo, o que predispõe a diminuição da variabilidade genética e proporciona um caso generalizado de indivíduos homozigotos. A consequência está exatamente no fato de existir apenas um genótipo disponível se perpetuando pelo grupo. Nesse contexto, se os alelos são deletérios, ou seja, expressam características físicas ou fisiológicas que inabilitam a espécie em termos de sobrevivência, surge a depressão endogâmica.
Depressão endogâmica é um quadro caracterizado pela diminuição no sucesso reprodutivo das espécies que praticam a endogamia, já que essa não é a forma mais vantajosa de garantir uma prole evolutivamente apta. Ao longo das gerações, o próprio processo de seleção natural fez com que os organismos encontrassem maneiras que excluíssem os alelos deletérios das linhagens, pois esses não expressam características benéficas aos indivíduos. Ao entrarem em um panorama reprodutivo baseado na endogamia, esses indivíduos estão aumentando as chances de os alelos deletérios, que são recessivos, passarem a predominar na população ou meta-população, o que inviabiliza a espécie em curto, médio ou longo prazo. Esse quadro pode ser qualificado pela diminuição de indivíduos sobreviventes ao parto, e às condições de vida no meio, que levam em conta competição intra e interespecífica, resistência imunológica e vários outros fatores.
Mesmo não sendo uma metodologia recomendada do ponto de vista biológico, a endogamia é um recurso amplamente utilizado nos setores agrários para aprimoramento genético, levando em consideração, é claro, o que o mercado procura. Quando uma característica é comercialmente valiosa, ela é fixada através do acasalamento endogâmico, que é monitorado por profissionais qualificados e auxiliado por ferramentas de seleção. O resultado desejado é recorrentemente alcançado, mas ainda assim pode acarretar disfunções não somente para a indústria, mas também para a espécie cultivada. Atualmente, a endogamia vem ganhando destaque na mídia especializada em pecuária bovina, preocupando muitos criadores e chamando a atenção de pesquisadores e selecionadores nos programas de melhoramento atuais. Cruzamentos consanguíneos foram utilizados, a princípio, como técnica para a formação de raças puras no século XVIII, através de ferramentas genéticas que resultaram na formação de linhagens homozigotas. Tais linhagens obtiveram grande sucesso na época, porém, fazia-se necessária a utilização de uma forte pressão de seleção contra animais indesejáveis e defeituosos.
Principais efeitos
A endogamia tem, como principais efeitos:
Como controlar a endogamia
O controle da endogamia pode se dar em 4 diferentes fases de um programa de melhoramento, sendo elas: Em qualquer uma das estratégias adotadas, a ideia básica é manter a endogamia sob controle sem reduzir o ganho genético, numa visão a curto e/ou longo prazo. As principais limitações para que isso ocorra são: informação de parentesco perdida ou desconhecida, erro na informação de parentesco e a tendência a focar o controle somente na próxima geração. Além de afetar a regulação da endogamia, a informação de parentesco incorreta ou desconhecida acarreta em redução do progresso genético que se poderia alcançar.
Pelo fato de a endogamia normalmente acompanhar perda de fertilidade e de vigor do indivíduo, no caso das plantas, ela acarreta redução considerável da viabilidade daquelas que são alógamas (que fazem preferencialmente polinização cruzada). Esses efeitos não se aplicam às plantas autógamas (que se reproduzem principalmente por autofecundação). Espécies alógamas desenvolveram mecanismos para evitar endocruzamentos e autofecundações, sendo que a reprodução ocorre preferencialmente via cruzamentos aleatórios. Os efeitos da endogamia nessas populações são, principalmente, a manifestação da carga genética (devido ao aumento da frequência de genes deletérios) e a diminuição do número de indivíduos heterozigotos. Isso pode prejudicar a adaptação genotípica e a produtividade da planta. Autofecundações induzidas, seguidas do cruzamento entre as linhagens resultantes (para solucionar a depressão endogâmica gerada), são utilizadas no melhoramento genético de plantas alógamas. Ocorre, então, o chamado vigor híbrido, fenômeno em que os indivíduos resultantes dos cruzamentos possuem maior vitalidade ou maior produção que a média de seus progenitores.
Pouco menos de 10% das sociedades do mundo são organizados em demos, ou comunidades de aldeias que tendem a ser endógamas. O sistema de endogamia mais famoso do mundo é a organização de castas da Índia, que conta com cerca de duas mil castas e subcastas entre as quais o casamento costumava ser formalmente proibido (sob o pretexto de que o contato com castas inferiores poluiria ritualmente os membros das castas superiores). Outro exemplo histórico clássico de endogamia é o da Casa de Habsburgo, da Áustria. Com uma série de casamentos estratégicos, essa casa expandiu seu poder a muitos outros reinos da Europa e, como diversas outras famílias reais, não desejava que suas posses fossem diluídas em outros núcleos da nobreza. Para isso, promoveu casamentos entre parentes, e à medida que as gerações passavam, seus atributos físicos e psicológicos começaram a mudar, levando ao surgimento de fisionomias disformes (como prognatismo mandibular), bem como de retardo nas habilidades motoras e cognitivas, fraqueza muscular, recorrência de vômito, doenças mentais, diarreia, edemas e impotência. O alto índice de mortalidade infantil e dificuldade de gerar descendentes culminaram na decadência da dinastia.
Algumas condições genéticas relacionadas à consanguinidade em humanos:


