Eduardo VI de Inglaterra
Eduardo VI foi rei da Inglaterra e da Irlanda de 1547 até sua morte. Filho do rei Henrique VIII com Joana Seymour, Eduardo foi o terceiro monarca da Casa de Tudor e o primeiro rei inglês criado como protestante. Em razão de nunca ter atingido a maioridade, o governo do reino durante seu reinado foi exercido por um conselho regencial, inicialmente liderado por Eduardo Seymour, 1.º Duque de Somerset e, posteriormente, por João Dudley, 1.º Duque de Northumberland.
Nascimento
Eduardo nasceu em 12 de outubro de 1537 no Palácio de Hampton Court, Middlesex, filho do rei Henrique VIII da Inglaterra com sua terceira esposa Joana Seymour. Todo o reino recebeu o nascimento de um herdeiro homem, "por quem ansiávamos há tanto tempo", com grande alegria e alívio. Te Deums foram cantados em igrejas e fogueiras acesas. A rainha Joana, aparentemente se recuperando rapidamente do nascimento, enviou pessoalmente cartas assinadas por ela anunciando o nascimento de "um Príncipe, concebido no matrimônio mais legítimo entre meu Senhor a Majestade do Rei e eu". Eduardo foi batizado no dia 15 de outubro, acompanhado de suas meias-irmãs: Maria como madrinha e Isabel. O Rei de Armas da Jarreteira o proclamou como Duque da Cornualha e Conde de Chester. Entretanto, a rainha adoeceu no dia 23 de outubro, presume-se de complicações pós-natais, e morreu na noite seguinte. Henrique escreveu ao rei Francisco I da França que a "Divina Providência… misturou minha alegria com a amargura da morte daquela que me trouxe esta felicidade".
Crescimento e educação
Eduardo foi um bebê saudável que desde o início amamentou muito. Seu pai ficou encantado com ele; Henrique escreveu em maio de 1538 que "divertindo-o com seus braços… e então segurando-o numa janela para a vista e conforto do povo". Em setembro, Tomás Audley, Lorde Chanceler, afirmou que Eduardo estava crescendo rapidamente e com vigor; em outros relatos ele é descrito como uma criança alta e alegre. Alguns historiadores contestaram a tradição de que Eduardo VI era um menino doente. Aos quatro anos de idade, ele adoeceu com uma potencialmente letal "febre quartenária",[nota 1] entretanto, apesar de alguma doença ocasional e visão ruim, ele sempre teve boa saúde até os últimos meses de vida.[nota 2]
"O Rude Cortejo"
Henrique VIII assinou o Tratado de Greenwich com os escoceses em 1 de julho de 1543, selando a paz com o noivado de Eduardo e a rainha Maria da Escócia, então com apenas sete meses de idade. Os escoceses estavam em posição ruim para negociar depois da derrota em Solway Moss no mês de novembro, e Henrique, desejando unir os dois reinos, estipulou que Maria fosse entregue a ele para crescer junto com Eduardo. Henrique ficou furioso quando os escoceses repudiaram o tratado em dezembro de 1543 e renovaram sua aliança com a França. Ele ordenou em abril do ano seguinte que Eduardo Seymour, Conde de Hertford e tio de Eduardo, invadisse a Escócia para "colocar tudo a ferro e fogo, queimar a cidade de Edimburgo, tão arrasada e desfigurada quando você a saquear e conseguir o que puderes dela, já que deve haver para sempre uma memória perpétua da vingança de Deus iluminada sobre eles por sua falsidade e deslealdade". Seymour respondeu com a campanha mais selvagem já lançada contra a Escócia.[nota 6] A guerra ficou conhecida como "O Rude Cortejo".
Eduardo, com nove anos de idade, escreveu ao pai e a madrasta em 10 de janeiro de 1547 agradecendo pelos presentes de ano novo. Em 28 de janeiro de 1547, Henrique VIII morreu. Liderados por Eduardo Seymour e Guilherme Paget, aqueles próximos ao trono concordaram em adiar o anúncio da morte do rei até todos os arranjos para suavizar a transição fossem tomados. Seymour e sir Antônio Browne, mestre do cavalo, foram pegar Eduardo em Hertford e o levaram até Enfield, onde Isabel estava vivendo. Ele e Isabel foram então informados da morte do pai e tiveram uma leitura de seu testamento. O Lorde Chanceler Tomás Wriothesley anunciou a morte de Henrique ao parlamento em 31 de janeiro, ordenando proclamações gerais sobre a sucessão de Eduardo. O novo rei foi levado a Torre de Londres, onde foi recebido por "grandes tiros de artilharia em todos os lugares, tanto fora da Torre quanto fora dos navios". No dia seguinte, os nobres do reino prestaram reverência na torre; Seymour foi anunciado como Protetor.
Conselho Regencial
O testamento de Henrique VIII nomeava dezesseis executores que deveriam atuar no conselho de Eduardo até ele alcançar dezoito anos. Esses executores eram suplementados por doze homens que deveriam auxiliá-los se chamados. O estado final do testamento de Henrique já foi assunto de controvérsias. Alguns historiadores sugerem que aqueles próximos manipularam o rei, ou manipularam o próprio testamento, para garantir a eles mesmos parte do poder e benefícios, tanto de forma material quanto religiosa. Nessa interpretação, a composição da Câmara Privada mudou no final de 1546 em favor da facção reformista. Além disso, dois conselheiros conservadores foram removidos do centro de poder. Foi recusado o acesso de Estêvão Gardiner ao rei durante seus últimos meses. Tomás Howard, 3.º Duque de Norfolk, foi acusado de traição; um dia antes da morte de Henrique suas propriedades foram confiscadas, disponibilizando-as para redistribuição, e ele passou todo o reinado de Eduardo VI na Torre de Londres. Outros historiadores falam que a exclusão de Gardiner não ocorreu por motivos religiosos, que Howard não era notavelmente conservador em assuntos religiosos, que os conservadores permaneceram no conselho e que é questionável o radicalismo de homens como sir Antônio Denny, que controlava um carimbo que replicava a assinatura do rei. Seja qual for o caso, a morte de Henrique foi seguida de uma enorme entrega de terras e honras ao novo grupo no poder. O testamento possuía uma cláusula de "presentes não cumpridos", adicionada no último minuto, que permitia aos executores de Henrique a livre distribuição de terras e honras para eles mesmos e a corte,[nota 7] particularmente para Eduardo Seymour, tio de Eduardo VI que se tornou Lorde Protetor do Reino, Governador da Pessoa do Rei e Duque de Somerset.
Tomás Seymour
Eduardo Seymour enfrentou uma oposição menos gerenciável em Tomás Seymour, seu irmão mais novo, que foi descrito como "verme na raiz". Como também era tio de Eduardo VI, Tomás Seymour exigia o governo da pessoa do rei e uma parcela maior de poder. Eduardo tentou comprar o irmão com um título de barão, uma nomeação para o Almirantado e uma cadeira no Conselho Privado – porém Tomás estava determinado a conspirar pelo poder. Ele começou a contrabandear dinheiro de bolso do rei, dizendo que o irmão amarrava muito apertado a bolsa. Ele também pediu para Eduardo deixar o protetorado em dois anos e "suportar regras como outros reis fazem"; porém Eduardo, instruído a diferir do conselho, recusou-se a cooperar. Usando o apoio de Eduardo VI para contornar a oposição do irmão, Tomás casou-se secretamente na primavera de 1547 com Catarina Parr, viúva de Henrique VIII, cuja criadagem protestante incluía Joana Grey, então com onze anos de idade, e Isabel, com treze.
Guerra
A única habilidade inquestionável de Seymour era como soldado, algo que ele havia provado em expedições a Escócia e na defesa de Bolonha-sobre-o-Mar em 1546. Desde o início, seu principal interesse como Protetor era a guerra contra a Escócia. Depois de uma esmagadora vitória em setembro de 1547 na Batalha de Pinkie Cleugh, ele estabeleceu uma rede de guarnições na Escócia, chegando até a Dundee. Entretanto, seu sucesso inicial foi seguido por uma perda de direção, já que seu objetivo de unir os dois reinos através da conquista ficou cada vez mais irrealista. Os escoceses se aliaram com a França, que enviou reforços para a defesa de Edimburgo em 1548; Maria da Escócia foi levada para a França, onde foi prometida ao delfim.[nota 12] O custo de manter os exércitos ingleses em guarnições permanentes também colocava um ônus insustentável nas finanças reais. Um ataque francês contra Bolonha em agosto de 1549 forçou Seymour a começar uma retirada da Escócia.
Rebeliões
A Inglaterra esteve sujeita a inquietações sociais durante 1548. Várias revoltas estouraram depois de abril de 1549, impulsionadas por inúmeras queixas religiosas e agrárias. As duas maiores rebeliões precisaram de intervenções militares para serem suprimidas. A primeira, que ocorreu em Devon e Cornualha, algumas vezes chamada de Rebelião do Livro de Oração, aconteceu principalmente por causa da imposição de serviços religiosos em inglês, e a segunda, que ocorreu em Norfolk, foi liderada por Roberto Kett, e foi basicamente uma luta contra os cercamentos. Um aspecto interessante dessa segunda rebelião era que os camponeses acreditavam estar agindo legitimamente contra senhorios cercados, convencidos que os senhores de terra eram os infratores.[nota 13]
Queda de Seymour
A sequência de eventos que levaram a retirada de Eduardo Seymour do poder já fora frequentemente chamada de "golpe de estado". Seymour foi alertado em 1 de outubro de 1549 que seu governo estava sendo seriamente ameaçado. Ele emitiu uma proclamação pedindo ajuda, tomou posse da pessoa do rei e retirou-se para a segurança do Castelo de Windsor, onde o rei escreveu que "Eu acho que estou na prisão". Enquanto isso, o conselho publicou detalhes da má gestão do governo de Seymour. Eles deixaram claro que o poder do Protetor vinha deles, não do testamento de Henrique VIII. O conselho prendeu Seymour em 11 de outubro e levou Eduardo VI para o Palácio de Richmond. O rei resumiu as acusações contra o tio no seu Chronicle: "ambição, vanglória, entrar em guerras precipitadas na minha juventude, negligência de Novo Paraíso,[nota 16] enriquecer-se do meu tesouro, seguir sua própria opinião e fazer tudo sob sua própria autoridade, etc.". Em fevereiro de 1550, João Dudley, Conde de Warwick, emergiu como o líder do conselho. Apesar de ter sido solto da Torre e voltado ao conselho, Seymour foi executado por felonia em janeiro de 1552 depois de tentar derrubar Dudley. Eduardo marcou a morte de Seymour em seu Chronicle: "o duque de Somerset teve a cabeça cortada na Torre entre às oito e nove horas desta manhã".
Em contraste, João Dudley, Conde de Warwick, feito Duque de Northumberland em 1551, o sucessor de Seymour, era considerado pelos historiadores um conspirador que cinicamente se elevou e enriqueceu-se às custas da coroa. Desde a década de 1570, as realizações econômicas e administrativas de seu governo passaram a ser reconhecidas. Ele recebeu crédito por restaurar a autoridade do conselho e por equilibrar o governo após os desastres do protetorado de Seymour. O rival de Dudley na liderança do novo governo era Tomás Wriothesley, 1.º Conde de Southampton, cujos apoiadores conservadores haviam se aliado com os de Dudley para criar um conselho unânime, esperando reverter a política de reforma religiosa de Seymour. Entretanto, Dudley depositou suas esperanças no forte protestantismo do rei e, afirmando que Eduardo era velho o bastante para governar pessoalmente, se aproximou do rei junto com seu pessoal, tomando o Conselho Privado. Paget, aceitando um título de barão, juntou-se a Dudley ao perceber que a política conservadora não aproximaria o imperador Carlos V da causa inglesa em Bolonha. Wriothesley preparou um caso para executar Seymour, desejando descreditar Dudley através das declarações de Seymour feitas com a cooperação do primeiro. Como um contramovimento, Dudley convenceu o parlamento a libertar Seymour em 14 de janeiro de 1550. Dudley então expulsou Wriothesley e seus apoiadores depois de ganhar os outros membros em troca de títulos, sendo feito Lorde Presidente do Conselho e grande mestre da criadagem do rei.[nota 17] Ele era claramente o líder do governo, mesmo não sendo chamado de Protetor.
Na questão religiosa, o governo de Dudley seguia a mesma política do de Seymour, apoiando um programa reformista cada vez mais intenso. Apesar da influência prática de Eduardo no governo ser limitada, seu forte protestantismo fez da reforma algo obrigatório; sua sucessão foi realizada pela facção reformista que continuou no poder durante seu reinado. Tomás Cranmer, Arcebispo da Cantuária, era o homem que o rei mais confiava, e ele apresentou uma série de reformas religiosas que revolucionavam a Igreja Anglicana de uma que – apesar de rejeitar a supremacia papal – permanecia essencialmente católica para uma institucionalmente protestante. Sob Eduardo, foi retomado o confisco de propriedades da igreja que havia começado com Henrique VIII – notavelmente com a dissolução de capelas – gerando grandes vantagens para a coroa e para os novos donos das propriedades. Dessa maneira, a reforma foi uma ação religiosa e política no reinado de Eduardo VI. Ao final de seu reinado, a igreja estava em ruínas financeiras e com muitas das propriedades dos bispos transferidas para outras mãos.
Elaboração para a sucessão
Em fevereiro de 1553 Eduardo VI ficou doente e em junho, após várias melhoras e recaídas, estava em uma condição sem esperanças. A morte do rei e a sucessão de sua meia-irmã católica Maria colocaria em perigo a reforma inglesa; seu conselho e oficiais tinham várias razões para temer isso. O próprio Eduardo era contra a sucessão de Maria, não apenas por questões religiosas mas também nas de legitimidade e herança masculina, algo que também se aplicava a Isabel. Ele escreveu um rascunho de documento, "Minha elaboração para a sucessão", em que empreendeu alterar a sucessão, muito provavelmente inspirado pelo precedente de seu pai. Ele preteriu as reivindicações de suas meias-irmãs e colocou a coroa em sua prima de segundo grau Joana Grey, então com dezesseis anos, que se casou em 25 de maio de 1553 com lorde Guildford Dudley, um dos filhos de João Dudley.
Doença e morte
Eduardo adoeceu em fevereiro de 1553 com uma febre e tosse que gradualmente piorou. Jean Scheyfve, embaixador imperial, relatou que "ele sofre bastante quando a febre o ataca, especialmente por uma dificuldade de respirar, que se deve a uma compressão dos órgãos do lado direito ... Eu opino que isso é uma visita e um sinal de Deus". O rei ficou bom o bastante no início de abril para tomar ar no parque de Westminster e se mudar para Greenwich, porém ele ficou fraco novamente ao final do mês. Em 7 de maio, ele estava "muito alterado" e os médicos estavam confiantes em sua recuperação. Alguns dias depois Eduardo estava vendo os navios passarem no rio Tâmisa da sua janela. Porém, ele desmaiou, e em 11 de junho, Scheyfve, que tinha um informante na criadagem do rei, relatou que "a matéria que ele expele de sua boca é algumas vezes da cor amarela e preta esverdeada, algumas vezes rosa, como a cor do sangue". Seus médicos agora acreditavam que ele estava sofrendo de "um tumor supurante" nos pulmões e admitiram que a vida de Eduardo não podia ser salva. Logo, suas pernas ficaram tão inchadas que ele tinha que deitar de costas, também perdendo a força para resistir a doença. Ele sussurrou ao seu tutor João Cheke que "Eu estou feliz em morrer".
Joana e Maria
Maria, que viu Eduardo pela última vez em fevereiro, foi mantida informada da situação de seu meio-irmão por Dudley e seus contatos com os embaixadores imperiais. Ciente da iminente morte de Eduardo, ela deixou a Hunsdon House, perto de Londres, e foi para suas propriedades em Kenninghall e Norfolk, onde podia contar com o apoio de seus inquilinos. Dudley enviou navios para a costa de Norfolk para impedir que ela fugisse do país ou barrar a chegada de reforços vindos do continente. Ele adiou o anúncio da morte do rei para poder juntar suas forças, com Joana Grey sendo levada à Torre no dia 10 de julho. No mesmo dia, foi proclamada rainha nas ruas de Londres, gerando descontentamento. O Conselho Privado recebeu uma mensagem de Maria afirmando seu "direito e título" ao trono e mandando o conselho proclamá-la sua rainha, algo que ela mesma já tinha feito. O conselho respondeu afirmando que Joana era rainha pela autoridade de Eduardo e que ela, ao contrário, era ilegítima e apoiada por "algumas pessoas básicas e lascivas".
Apesar de Eduardo VI ter reinado por apenas seis anos, seu período como rei deixou uma contribuição duradoura na Reforma Inglesa e na estrutura da Igreja Anglicana. A última década do reinado de Henrique VIII teve uma parcial estagnação na reforma, voltando para valores mais conservadores. Em contraste, o reinado de Eduardo viu uma progresso radical. Em seis anos, a igreja deixou de ter uma liturgia e estrutura essencialmente católica apostólica romana para uma normalmente identificada como protestante. Particularmente, a introdução do Livro de Oração Comum, o Ordinal de 1550 e os Quarenta e Dois Artigos de Cranmer formaram a base das práticas da Igreja Anglicana que se mantém até os dias de hoje. O próprio Eduardo aprovou essas mudanças, e mesmo elas tendo sido obras de reformistas como Tomás Cranmer, Hugo Latimer e Nicolas Ridley, apoiados pelo conselho evangelical do rei, sua religião foi o catalisador na aceleração da reforma durante seu reinado.


