Óbolo de Caronte
O Óbolo de Caronte é uma antiga tradição funerária onde uma moeda era colocada na boca do falecido antes do sepultamento. Nas culturas grega e romana, essa moeda era vista como um pagamento para Caronte, o barqueiro que transportava as almas pelo rio que separava o mundo dos vivos do mundo dos mortos. Exemplos arqueológicos dessas moedas, que variavam em valor, são considerados "os mais famosos bens mortuários da Antiguidade".
Pontos-chave
- O Óbolo de Caronte era uma moeda colocada na boca do falecido.
- A moeda servia como pagamento para Caronte, o barqueiro do submundo.
- A prática é documentada em fontes literárias e evidências arqueológicas.
- O costume variava em diferentes regiões e períodos históricos.
- A tradição persistiu e foi adaptada por diferentes culturas, incluindo a cristã.
A moeda era comumente chamada de 'óbolo' na Grécia Antiga, uma unidade monetária básica (⅙ de dracma). Em Roma, moedas de bronze ou cobre eram mais comuns. Em algumas regiões, como no Mar Negro (séculos VI-IV a.C.), moedas de baixo valor com símbolos como pontas de flecha ou golfinhos eram usadas especificamente como 'óbolo de Caronte'. Termos como 'naulo', 'portmeu' e 'portório' também se referiam à taxa do barco ou pedágio fluvial.
Viático para a Jornada Final
Em latim, o óbolo de Caronte era por vezes chamado de 'viático', significando 'provisão para uma jornada'. Essa metáfora se estendeu para o preparo para a morte. No cristianismo, o termo 'viático' passou a designar a Eucaristia dada aos moribundos, como provisão para a passagem da alma para a vida eterna. Santo Agostinho e Tomás de Aquino usaram a ideia de cristãos como 'viajantes' em busca da salvação para explicar o conceito.
Fontes greco-romanas (séculos V a.C. a II d.C.) consistentemente mencionam o óbolo de Caronte. Epigramas gregos, epitáfios literários, e obras de autores como Luciano de Samósata e Propércio descrevem a moeda como pagamento pela travessia. O baixo valor da moeda era frequentemente usado para enfatizar que a morte é igualitária, não fazendo distinção entre ricos e pobres.
A descoberta de moedas em túmulos revela uma prática funerária variada. Embora o termo 'óbolo de Caronte' seja usado, a diversidade de moedas e sua colocação levantam questões. As moedas foram encontradas em túmulos gregos desde o século V a.C. e por todo o Império Romano, chegando à Península Ibérica, Grã-Bretanha e Polônia. A porcentagem de túmulos com moedas variava, sendo menor entre os gregos (5-10%) e maior em alguns cemitérios romanos (até 50%).
Mundo Helenizado
No Mediterrâneo, Chipre apresentou moedas antigas em túmulos, muitas delas de pequena denominação, desde o século VI a.C. Embora apenas uma fração dos túmulos gregos contenha moedas, algumas eram colocadas na boca do falecido ou em urnas de cremação, aderindo à mandíbula.
Oriente Próximo
A prática de depositar moedas na boca do falecido também ocorreu no Império Parta e Sassânida (Irã), geralmente usando dracmas gregos. Na região de Iázide, objetos de prata em túmulos podem ter tido função similar. Fenícios e judeus também apresentaram práticas análogas, com ossuários judeus por vezes contendo moedas na boca do crânio, apesar de ser um costume incomum na antiguidade judaica.
Europa Ocidental
No Império Romano Ocidental, a prática variava. Na Gália Cisalpina, mais de 40% dos túmulos continham moedas, mas não na boca. Em Ampúrias (Espanha) e Ebóraco (Grã-Bretanha), o índice era de apenas 10%. Na Gália Belga, a prática se tornou mais comum no final do século IV e início do V, com túmulos galo-romanos frequentemente contendo uma moeda de Caronte.
Entre os Cristãos
O costume do óbolo de Caronte foi adotado pelos cristãos, com moedas sendo colocadas na boca em enterros cristãos desde o século IV na Gália. A prática foi comum na Britânia, persistindo até o final do século XIX. O Papa Pio IX foi sepultado com uma moeda em 1878. Na Grécia, a moeda era por vezes acompanhada por uma chave.
Moedas 'Fantasma' e Cruzes
Surgiram também as chamadas 'moedas fantasmas', feitas de finas lâminas de ouro com impressões de moedas ou ícones numismáticos. Exemplos incluem uma folha de ouro com a figura de Deméter/Cora em Siracusa e um disco de ouro com a coruja de Atena em Atenas, colocados na boca dos falecidos.


