Pesquisa · Mapa mental

Donzela-cisne

Em folclorística, chama-se de história de "donzela-cisne" ou mulher-cisne a três tipos de contos: aquelas em que uma das personagens é uma donzela-pássaro, nas quais ela pode aparecer tanto como pássaro quanto como mulher; aquelas em que um dos elementos da narrativa é o roubo do manto de penas de uma donzela-pássaro, embora não seja o tema mais importante da história; e finalmente o motivo mais comumente referido, e também o de origem mais arcaica: aquelas histórias em que o tema principal, entre vários motivos mistos, é o de um homem que encontra a donzela-pássaro tomando banho e rouba seu manto de penas, o que o leva a se casar com a donzela-pássaro. Mais tarde, a donzela recupera o manto e sai voando, retornando ao céu, e o homem pode buscá-la novamente.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 03/07/2026
01

Visão geral em folclorística

Os mitos são adaptados com os elementos encontrados no contexto local de cada cultura, sofrendo frequentemente alterações sutis, preservando a maior parte da estrutura original ou dos principais elementos prototípicos. Assim, todas as versões em que a donzela celeste é uma ave migratória são encontradas principalmente nas regiões mais ao norte, enquanto mais ao sul, as mulheres do conto são mais comumente aves não migratórias, podendo também ser estrelas ou ninfas celestiais. Também nas regiões mais meridionais, diferentemente das do Norte, as histórias das donzelas do céu geralmente têm valor antropogônico ou etiológico, explicando a origem dos humanos, das culturas, dos deuses, dos fenômenos celestes. O estudo areal do mito da Donzela-Cisne começou em 1894, com Hyacinthe de Charencey. A proposta de suas origens na Índia por Theodor Benfey e pela escola finlandesa já foi desacreditada há muito tempo.

Motivos folclóricos e tipos de contos

A folclorística estabelecida não reconhece formalmente "Donzelas-cisnes" como um único tipo de conto de Aarne-Thompson. Em vez disso, deve-se falar de contos que exibem o índice dos motivos de Stith Thompson "D361.1. Donzela-cisne", ou "B652. Casamento com pássaro em forma humana" e outros relacionados, que podem ser classificado AT 400, 313, ou 465A. Agravado pelo fato de que esses tipos de contos têm "nada menos que dez outros motivos" atribuídos a eles, o sistema AT torna-se uma ferramenta incômoda para manter o controle de paralelos para esse motivo. Buscando um esquema alternativo, um investigador desenvolveu um sistema de cinco paradigmas da donzela-cisne, quatro deles agrupáveis como um cognato do conto de Grimm (KHM 193, 92, 93 e 113) e o restante categorizado como o paradigma "AT 400". Assim, para uma lista abrangente dos cognatos mais parecidos com os contos da Donzela dos Cisnes, basta consultar os Anmerkungen de Bolte e Polívka ao Conto de Grimm KHM 193, o paradigma mais importante do grupo.

02

Antiguidade e origem

Literatura

Foi sugerido que o romance da apsará Urvasi e do rei Pururavas, da antiga literatura sânscrita, pode ser uma das formas mais antigas do conto da Donzela-Cisne. O motivo também se encontra em registros antigos da China e Japão. Na mitologia grega, é considerada como exemplo de referência do tipo "donzela-cisne" a história de Peleu e Tétis, porém Tétis é uma ninfa d'água (nereida) multiforme; em versões modernas desse mito, assemelha-se o motivo da captura depender de roubar o cachecol ou outro adereço da ninfa, que acaba sendo recuperado e ela escapa. Frederick Ahl afirma que originalmente pode ser que no mito de Leda fosse ela na verdade o cisne, atacada por uma águia enquanto estivesse na água, tal como se observa que cisnes apenas podem ser capturados quando estão na água após terem removido suas asas, durante a estação de muda. O estudioso reconhece papéis semelhantes às de donzela-cisne também em Clitemnestra, Cassandra e Helena. Na literatura grega, o branco simbolizava o feminino, bem como os cisnes e as regiões do norte.

Geografia e padrões migratórios

Uma linha acadêmica sugere que a dispersão do conto da donzela-cisne está relacionada aos padrões migratórios dos cisnes e de pássaros semelhantes. Jörg Backer contrasta entre as áreas do norte e do sul onde aparecem contos: cisnes e grous na Hungria, Sibéria, China, Coreia e Japão; gansos selvagens entre os povos paleoasiáticos e esquimós e em todo o Noroeste da América do Norte; peris em forma de pomba no Irã. Arthur T. Hatto reconheceu um aspecto mítico no personagem e na narrativa, mas defendeu uma localização na Eurásia subártica e na América, em relação à migração de cisnes, grous, gansos e aves aquáticas semelhantes. Da mesma forma, Edward Allworthy Armstrong reconheceu a "linhagem antiga" da história e supôs uma origem em um "clima setentrional", ao norte das cadeias de montanhas da Eurásia, onde os cisnes são comuns.

Estudos filogenéticos

Cada um deles usando métodos diferentes, ou seja, observação da área de distribuição do tipo Donzela-Cisne ou uso de métodos filogenéticos para reconstruir a evolução do conto, Gudmund Hatt, Yuri Berezkin e Julien d'Huy mostraram independentemente que este conto popular teria surgido durante o período Paleolítico, na Ásia Pacífico, antes de se espalhar em duas ondas sucessivas na América. Além disso, Yuri Berezkin e Julien d'Huy mostraram que não havia menção a aves migratórias nas primeiras versões deste conto (este motivo parece aparecer muito tarde). Segundo Julien d'Huy, tal motivo também teria existido na pré-história europeia e teria como heroína uma donzela-búfala. Com efeito, este autor encontra o motivo com animais quadrúpedes na América do Norte e na Europa, numa área coincidente com a área do haplogrupo X.

03

Papel da Donzela-Cisne

De acordo com Alan Miller e Amira El-Zein, a donzela-cisne está ligada tanto ao ar (ou "mundo do céu") quanto à água. Nesse sentido, em muitos contos, a donzela-cisne e suas irmãs são filhas de uma divindade celestial, um rei dos espíritos ou vêm dos céus. As donzelas-cisnes incorporam características desejáveis, como sorte e prosperidade. Nesse sentido, segundo a pesquisadora Serinity Young, ela também representa uma imagem do divino feminino que o personagem masculino tenta captar, pois traz prosperidade e pode elevar este último a "estados mais elevados de ser, incluindo a imortalidade".

Donzela-cisne como ancestral

De acordo com os estudos acadêmicos, "uma antiga crença na transformação pássaro-humano se manifesta na mitologia eurasiana". Por exemplo, a personagem mítica da donzela-cisne é encontrada "em todo o norte da Eurásia, da Escandinávia à Manchúria". Como tal, "um grande número de populações" nessas regiões a reivindicam como sua ancestral totêmica,, como os povos e tribos da Sibéria e da Ásia Central. Esta narrativa é atestada em mitos etnogenéticos dos povos buriates, chukotko-kamchatkanos, na-denés, basquires e ameríndios. Estudos adicionais sugerem que esta forma de mitologia totêmica remonta a um passado nostrático ou mesmo boreal pré-indo-europeu.

Xamanismo

De acordo com estudos, "uma antiga crença na transformação pássaro-humano se manifesta... nas práticas xamânicas". Edward A. Armstrong e Alan Miller notaram que os cisnes aparecem no xamanismo siberiano, que, segundo Miller, contém histórias sobre xamãs masculinos nascidos de um pai humano e de uma esposa divina em forma de pássaro. Na mesma linha, o estudioso Manabu Waida transcreveu um conto coletado no Transbaical, Mongólia, entre os buriates, onde o caçador humano se casa com uma das três donzelas cisnes, filhas de Esege Malan. Em outro relato, os filhos e filhas nascidos dessa união tornam-se grandes xamãs. Uma história semelhante ocorre nas Ilhas Ryukyu, onde a donzela-cisne, encalhada na Terra, dá à luz um filho que se torna um toki e duas filhas que se tornam uma noro e uma yuta.

Psicologia

Otto Rank analisa a lenda da donzela-cisne na história de Lohengrin, e Carl Jung cita sua interpretação de que ela pode expressar a perda ou separação da mãe como um dos componentes do mito do herói: "A mesma ideia é expressa no mito da donzela-cisne, que voa novamente após o nascimento da criança, tendo seu propósito cumprido". Na psicologia analítica, a donzela-cisne é vista como uma imagem que psicologicamente muitas vezes pode representar a anima, o que é afirmado por Emma Jung e Marie Louise von Franz. Haveria uma tentativa de aprisionamento da anima pelo homem, quando ele forçosamente rouba as vestes de pássaro. Carl Jung afirmou que o roubo do véu no mito da donzela-cisne também poderia indicar o incesto, que em sua interpretação é a regressão ao inconsciente. Von Franz assim diz: "O motivo da donzela-cisne simboliza um esforço para se tornar consciente, para puxar o ser superior que está escondido atrás do selvagem para uma consciência mais elevada". Mas ela afirma que é difícil distinguir em contos de fadas se a princípio é apresentado um ponto de vista feminino, ou se é a escrita de um homem expressando um aspecto de sua própria personalidade que seria tradicionalmente visto como feminino.

04

Lenda

Lenda típica

Os contos populares coletados geralmente seguem o seguinte enredo básico. Um jovem solteiro rouba um manto mágico feito de penas de cisne de uma donzela-cisne que vem se banhar em um corpo d'água, para que ela não voe, e se casa com ela. Geralmente ela dá à luz seus filhos. Quando as crianças crescem, cantam uma canção sobre onde o pai escondeu o manto da mãe, ou alguém pergunta por que a mãe sempre chora, e encontram o manto para ela, ou então traem o segredo. A donzela-cisne imediatamente pega seu manto e desaparece para o lugar de onde veio. Embora as crianças possam entristecê-la, ela não as leva consigo. Se o marido conseguir encontrá-la novamente, será uma busca árdua, e muitas vezes a impossibilidade é suficientemente clara para que ele nem tente.

Lenda germânica

Na mitologia germânica, a personagem da donzela-cisne é associada a "múltiplas valquírias", traço já observado por Jacob Grimm em seu livro Deutsche Mythologie (Mitologia Teutônica). Tal como a lenda internacional, a sua camisa mágica de cisne permite a sua transformação aviária. Na lenda heroica germânica, as histórias de Velando (ou Volundo), o Ferreiro, descrevem-no como se apaixonando por Swanhilde, uma Donzela-Cisne, que é filha de um casamento entre uma mulher mortal e um rei feérico, que proíbe sua esposa de perguntar sobre suas origens; quando ela lhe pergunta, ele desaparece. Swanhilde e suas irmãs são capazes de voar como cisnes. Mas ferida por uma lança, Swanhilde cai no chão e é resgatada pelo mestre artesão Wieland, e se casa com ele, deixando de lado suas asas e seu anel mágico de poder. Os inimigos de Wieland, os Neidings, sob o comando da princesa Bathilde, roubam o anel, sequestram Swanhilde e destroem a casa de Wieland. Quando Wieland procura Swanhilde, eles o prendem e o aleijam. No entanto, ele cria asas para si mesmo e foge com Swanhilde enquanto a casa dos Neidings é destruída.

Donzela-cisne como filha ou serva de um antagonista

O segundo tipo de conto que envolve a donzela-cisne é o tipo ATU 313, "A Fuga Mágica", onde a personagem ajuda o herói contra um antagonista. Pode ser a ama da donzela, por exemplo, uma bruxa, como em um conto publicado pelo ilustrador Howard Pyle em The Wonder Clock, ou o pai da donzela, por exemplo, o personagem de Morskoi Tsar nos contos de fadas russos. Neste segundo formato, o herói do conto espia as donzelas-pássaros (cisne) tomando banho e esconde a vestimenta (pele de pena) da mais nova, para que ela o ajude a chegar ao reino do vilão do conto (geralmente o pai da donzela-cisne). Na história escocesa intitulada "O conto do filho do rei da Irlanda e da filha do rei do capuz vermelho" (em gaélico escocês: Sgeulachd air Mac Righ Éirionn agus Nighean Rígh a' Churraichd Ruaidh), o príncipe da Irlanda se apaixona pelo Cisne Branco do Pescoço Liso, também chamada de Brilho do Sol, a jovem filha do Rei do Capuz Vermelho, ao vê-la vindo se banhar em um lago.

Outras ficções

A donzela-cisne apareceu em vários itens de ficção. Num poema tártaro, aparece a personagem de As Mulheres-Cisne, Tjektschäkäi, que desenvolve uma relação inimiga com o herói Kartaga Mergän. Em um byliny russo ou poema heroico, um personagem chamado Cisne Branco (Byelaya Lebed'), cujo nome verdadeiro pode ser Avdotya ou Marya, aparece como o interesse amoroso traidor do herói. Os estudiosos observaram que a Donzela-Cisne aparece "em todas as antigas terras celtas". Por outro lado, a investigadora Maria Tatar salienta que o conto da "Donzela-Cisne" é "difundido nas regiões nórdicas ". A acadêmica Lotte Motz comparou sua presença em diferentes regiões geográficas. Segundo o seu estudo, ela aparece como personagem de conto de fadas nos "países mais meridionais", enquanto "nas regiões setentrionais" torna-se um mito e "um elemento de fé".

Versões masculinas

Contos de noivos animais são conectados ao tipo da donzela-cisne, frequentemente apresentando paralelos, mas muitas vezes em inversão da história (humanos se transformando em cisnes); também há aqueles em que meninos se transformam em cisnes, um bom exemplo sendo o conto de fadas Os Seis Cisnes, em que enteados são amaldiçoados por uma madrasta com camisas de pele de cisne que os transformam em cisnes. Crianças-cisnes são mais frequentes em histórias da Idade Média, como na versão do cavaleiro dos cisnes, com a origem mais antiga encontrada no Dolopathos: um caçador avista uma donzela (mágica) tomando banho em um lago e, depois de alguns anos, dá à luz sétuplos (seis meninos e uma menina), que nasceram com correntes de ouro no pescoço. Após serem expulsas pela avó, as crianças se banham em um lago em sua forma de cisne, e voltam à forma humana graças às suas correntes mágicas. Outros contos relacionados de padrastos amaldiçoando seus enteados são a lenda irlandesa de Os Filhos de Lir e Os Cisnes Selvagens, um conto de fadas literário do autor dinamarquês Hans Christian Andersen.

05

Motivo de esposa animal

Distribuição e variantes

O motivo da esposa de origem sobrenatural (na maioria dos casos, uma donzela-cisne) apresenta apelo universal, estando presente nas tradições orais e folclóricas de todos os continentes. O cisne é a espécie típica, mas pode transformar-se em "gansos, patos, colhereiros, ou aves aquáticas de alguma outra espécie". Outros animais incluem "pavoas, calaus, galinhas selvagens, periquitos e casuares". O grupo de contos populares ATU 402 ("A Noiva Animal") é encontrado em todo o mundo, embora os animais variem. O conto de fadas italiano "A Menina Pomba" apresenta uma pomba. Na África, o mesmo motivo é mostrado nas donzelas-búfalas. A donzela-cisne também foi comparada à "Menina-Asno" ou "Donzela-Asno" do folclore hauçá. Além disso, de acordo com o folclorista americano William Bascom, em narrativas semelhantes entre os iorubás e os fon, a esposa animal é um búfalo africano, uma gazela, uma corça, às vezes um duiker ou antílope.

Na mitologia

Uma história japonesa notavelmente semelhante, "A esposa do grou" (Tsuru Nyobo), é sobre um homem que se casa com uma mulher que é na verdade uma grua (Tsuru no Ongaeshi) disfarçada de humana. Para ganhar dinheiro, a mulher-garça arranca as próprias penas para tecer brocado de seda que o homem vende, mas fica cada vez mais doente ao fazê-lo. Quando o homem descobre a verdadeira identidade de sua esposa e a natureza de sua doença, ela o abandona. O motivo da donzela-cisne ou esposa cisne também aparece no Sudeste Asiático, com os contos de Kinnari (da Tailândia) e a história de amor de Manohara e do Príncipe Sudhana. O professor e folclorista James George Frazer, em sua tradução de Biblioteca, de Pseudo-Apolodoro, sugeriu que o mito de Peleu e Tétis parecia relacionado ao ciclo de histórias da donzela-cisne.

No folclore

Em um romance do século XIII sobre Friedrich von Schwaben, o cavaleiro Friedrich esconde as roupas da princesa Angelburge, que veio se banhar em um lago em forma de pomba. Num conto da Bretanha, recolhido por François-Marie Luzel com o título Pipi Menou et Les Femmes Volants ("Pipi Menou e as Mulheres Voadoras"), Pipi Menou, um pastor, vê três grandes pássaros brancos descendo perto de um étang (um lago). Quando os pássaros se aproximam do lago, eles se transformam em donzelas nuas e começam a brincar na água. Pipi Menou vê toda a cena do alto do morro e conta para a mãe, que explica que são filhas de um poderoso mágico que mora em outro lugar, em um castelo repleto de joias e pedras preciosas. No dia seguinte, ele rouba a roupa de uma delas, mas ela o convence a devolvê-la. Ele vai até o castelo, a donzela voadora o reconhece e os dois escapam com joias nas bolsas.

Donzelas que não são pássaros

Apesar da quase universalidade do conto da donzela-cisne (ou donzela que se transforma em qualquer outro tipo de pássaro), há contos em que o humano masculino ainda segura as vestes da donzela, mas a narrativa não menciona se ela se transforma ou não. Acredita-se que a história da donzela-cisne seja atestada em Lady Featherflight, uma história obtida de uma contadora de histórias inglesa (uma velha tia). Lady Featherflight ajuda o herói contra seu pai gigante e ambos escapam (ATU 313, "A Fuga Mágica"). Emmanuel Cosquin coletou um conto francês intitulado Chatte Blanche ("Gato Branco"), onde o herói Jean é informado que "Plume Verte", "Plume Jaune" e "Plume Noir" vêm se banhar no lago da Floresta Negra, e tem a tarefa de conseguir as vestes de "Plume Verte".

06

A donzela celestial ou noiva celestial

Um segundo formato do motivo da esposa sobrenatural refere-se a contos em que a donzela não é um animal que muda de forma, mas sim uma criatura ou habitante do Céu, um Reino Celestial, ou vem do lugar onde os deuses vivem.[nota 1] Obras ocidentais comumente traduzem essas personagens como "fadas" ou "ninfas". O folclorista japonês Seki Keigo chama esta história de "A Esposa do Mundo Superior", em seu índice de "Tipos de contos populares japoneses". Da mesma forma, o estudioso Kunio Yanagita intitulou-o de A Esposa do Mundo Celeste. O professor Alan L. Miller chama de "A Esposa Divina", que também pode se referir aos contos da Donzela-Cisne. Os estudos do Leste Asiático também nomeiam este grupo de contos como "A Lenda do Manto Alado" (ou "Conto do Manto Emplumado") e "Esposa Celestial". Os estudos coreanos supõem que a esposa-pássaro e a transformação animal foram substituídas por uma mulher sobrenatural de aparência humana com um par de asas ou uma vestimenta mágica em regiões que não tinham contato com cisnes, por exemplo, Índia, Sudeste Asiático, Coreia e Japão.

Índia e Sul da Ásia

Segundo estudos, o motivo da noiva celestial cujas roupas são roubadas por um guerreiro mortal é popular na tradição literária e oral indiana. O escritor romântico russo Vasily Zhukovsky desenvolveu o tema da donzela-pássaro em seu poema "O Conto do Czar Berendey", publicado em 1833. Ele conta a história épica do mítico czar Berendey que é forçado a prometer seu filho, Ivan Tsarevich, ao malvado feiticeiro Koschei. Anos depois, Ivan Tsarevich chega às margens de um lago e vê trinta patos cinzentos mergulhando no lago. Na verdade, elas são filhas de Koschei, e uma delas é Marya Tsarevna. Uma canção folclórica coletada do estado de Chhattisgarh, A Balada da Donzela-Flor Bakaoli, contém o episódio onde um homem (Lakhiya) é informado por um sadhu sobre as sete filhas de Indra Rajá (uma das quais é Bakaoli) que se banham em um lago.

Sudeste Asiático

A professora Margaret Kartomi afirmou que "inúmeras versões" da história do homem que se casa com uma das sete mulheres celestiais (ou anjos) depois de roubar suas roupas aparecem no " Sudeste Asiático insular e continental". Num conto do Laos, O Marido Fiel, Chow Soo Tome, um senhor, vê sete ninfas aladas tomando banho. Eles percebem sua presença e fogem, exceto uma. Eles se casam e sua mãe esconde as asas, para que ela não possa voar de volta. O chefe chow manda Soo Tome para a guerra e a ninfa, de tristeza, pede à sogra suas asas de volta. Ela veste suas asas e voa de volta para o reino de seu pai, Chom Kow Kilat. Chow Soo Tome descobre que sua esposa fugiu e parte em uma missão para reconquistá-la.

Leste Asiático

As tradições folclóricas do Leste Asiático também atestam a ocorrência de contos semelhantes sobre donzelas celestiais. Um conto de Lew Chew foi relatado c. início do século XIX pelo enviado Li Ting-yuan: um fazendeiro, Ming-Ling-Tzu, dono de uma fonte cristalina da água mais pura, avista uma bela donzela tomando banho na fonte de água e possivelmente sujando-a. Ele nota as vestes da donzela, de uma "cor avermelhada do pôr do sol", penduradas perto de um pinheiro. Ele pega as roupas dela e não as devolve para ela. O homem se casa com a donzela, eles moram juntos há dez anos e têm um filho e uma filha. Um dia, quando o marido está fora, a misteriosa donzela sobe numa árvore e sobe ao céu, deixando para sempre a sua família humana.

Nordeste Asiático

A região do Nordeste Asiático (mais especificamente, a Manchúria) também registra a história da donzela-cisne, mas na forma da "Donzela Celestial". Num conto publicado, a donzela celestial desce à terra para se banhar num lago, casa-se com um homem humano e torna-se "a ancestral primitiva dos manchus". Em uma versão da origem dos dörbet, um caçador sobe a montanha Nidu, onde está localizado um lago. Ao se aproximar do corpo d’água, ele avista quatro "deusas" brincando na água. Ele volta para casa para buscar uma rede e sobe a montanha novamente. Esperando para lançar uma armadilha, ele usa a rede para capturar uma das deusas enquanto a outra escapa de volta para os céus. A deusa e o humano se casam, mas depois eles devem se separar e ela retorna ao seu reino celestial. Chegando lá, ela percebe que está grávida e desce à terra para dar à luz seu filho, um menino. Ela coloca um berço para ele nos galhos das árvores e um pássaro para cuidar da criança. Agora terminada, ela voa de volta aos céus.

Melanésia

Num conto da ilha de Éfaté, o "povo do céu" desce à terra para pescar durante a noite, deixa cair as asas brancas (inlailaita ou "velas finas") na costa e parte antes do amanhecer. Um dia, um homem presencia a chegada deles e, ao pousarem, esconde um par de asas no caule de uma bananeira. Depois que os povos do céu terminam suas atividades, eles partem para os céus, exceto uma mulher, que era dona do par de asas. Ela e o homem se casam e têm dois filhos, Maka Tafaki e Karisi Bum. A relação entre humano e garota do céu azeda. Mais tarde, ela recupera as asas e retorna aos céus. A história continua enquanto os irmãos chegam ao céu anos depois e visitam sua avó. A história também serve para explicar a introdução de vários tipos de inhame entre as populações humanas.

África

A narrativa da Donzela do Céu foi coletada em forma de canção do povo ndau, intitulada "Lenda e Canção da Donzela do Céu": a filha de um chefe poderoso que vivia no céu e seus acompanhantes descem à Terra para se banhar, e torna-se um desafio entre os príncipes reais ver quem consegue pegar sua pluma/pena – o símbolo de seu caráter sobrenatural. O vencedor é um homem pobre que, como uma subversão da narrativa comum, consegue viver com sua esposa do céu em sua moradia. Uma versão do conto em forma narrativa foi apresentada como O Povo do Céu (Vasagole) por Franz Boas e C. Kamba Simango no Journal of American Folk-Lore. Nas Donzelas Celestiais de Tshinyama, duas donzelas aladas descem dos céus para um bebedouro terrestre – um evento testemunhado por um homem mortal.

07

A Esposa-Estrela ou Mulheres-Estrelas

Uma terceira ocorrência da esposa sobrenatural vinda de cima são as Mulheres-Estrelas ou, nas palavras de E. Hartland, "A Filha da Estrela". Os estudiosos veem uma possível relação desse personagem com a lenda da Donzela-Cisne.

Nativos norte-americanos

O motivo da Donzela-Estrela pode ser encontrado no folclore e na mitologia dos nativos americanos, como a personagem da Esposa-Estrela: ela geralmente desce do céu em uma cesta junto com suas irmãs para brincar na pradaria ou para tomar banho em um lago, e um homem mortal, fascinado por sua figura, planeja torná-la sua. Mais tarde, é descoberto que ela é uma donzela das estrelas ou uma própria estrela que descera à Terra. De acordo com Anthony Wonderley, apesar da "muito próxima similaridade" entre os dois contos, o etnólogo John Bierhorst chama este conto norte-americano de "Donzelas do Céu": um grupo de donzelas desce dos céus em uma cesta para dançar ou jogar bola. Wonderley localiza a história no Sudeste dos EUA, entre os shawnees, os pawnees e possivelmente entre os iroqueses (já que a história iroquesa foi escrita depois de 1900).

Peru

Em um conto peruano coletado pelo etnólogo John Bierhorst com o título O menino que subiu ao céu, um jovem é enviado para proteger a plantação de batatas de sua família de quem está roubando sua produção. À noite, três estrelas descem do céu em forma de donzelas brilhantes. O jovem captura uma delas enquanto as outras escapam, e faz dela sua esposa. Depois de algum tempo, a donzela estelar foge de seu marido humano e retorna ao seu reino celeste. Ainda na Terra, o marido humano decide segui-la e convence um condor a levá-lo até lá, alimentando o pássaro com duas lhamas a caminho dos céus. A carne da lhama não é suficiente para alimentar o condor, e o jovem corta um pedaço de sua perna para alimentar seu transporte na última parte da viagem. Ele encontra sua esposa-estrela mais uma vez, mas tem que retornar à Terra depois que sua esposa o expulsa.

Filipinas

O acadêmico filipino E. Arsenio Manuel, entre outros, afirmou que a personagem da "Donzela-Estrela" prevalece no folclore filipino. Em outro conto, coletado por Fay-Cooper Cole dos tinguian (povo itneg), nas Filipinas, a donzela estrela Gaygayoma desce do céu com outras estrelas em um canavial para comer os produtos. A plantação pertence a um humano chamado Aponitolau, que tinha uma esposa mortal, Aponibolinayen. Uma noite, ele vai ao campo verificar a cerca de bambu e vê muitas estrelas, "luzes ofuscantes" caindo do céu, e uma que "parecia uma chama de fogo" que deixou sua vestimenta perto da cerca. O humano agricultor assusta as muitas estrelas, que voltam aos céus, e senta-se na vestimenta da donzela. Ela se apresenta como filha de Bagbagak e Sinag, dois seres celestiais, e revela que deseja tomá-lo como marido.

08

Outras mulheres sobrenaturais

Bálcas: vilas, samovilas e nereidas

Personagens semelhantes à Donzela-Cisne são atestados nas tradições gregas e balcânicas. Estas figuras são conhecidas nas áreas eslavas do sul (nomeadamente, eslovena, eslovaca, sérvia e croata) como víla, em búlgaro como samodiva e em macedónio como samovila - todas elas descritas como belas donzelas sobrenaturais que dançam em grupos nas florestas. No folclore eslavo do sul, essas mulheres podem ser forçadas a se casar com homens mortais se conseguirem roupas, asas ou acessórios de donzela, o que lhes confere poderes mágicos. Após o casamento, a fada recupera ou descobre o pertence roubado, usa-o e vai embora, deixando sua família humana para trás. O motivo da donzela-cisne é comum de aparecer junto com as vílas, como na perda das asas.

Oriente Médio e Cáucaso: peris

Foi notado por escritores ocidentais que a personagem peri (ou pari) da mitologia persa e islâmica, como uma esposa sobrenatural, compartilha características semelhantes com a donzela-cisne, na medida em que o homem esconde as asas da pari e se casa com ela. Depois de algum tempo, a mulher pari recupera as asas e abandona o marido mortal. O estudioso Ulrich Marzolph indica uma origem indo-persa para o personagem, que mais tarde foi integrado à tradição árabe dos contos de fadas. A peri aparece na Ásia Menor, Ásia Central, e foi levada pela expansão turca para os Bálcãs, especificamente para a Bulgária e Macedônia. No conto popular armênio Kush-Pari ou A Peri-Pássaro, um príncipe procura a Kush-Pari, uma Houri-Pari ou "Pássaro-Fada" ("uma ninfa do paraíso em forma de pássaro", "uma ave dourada de cabeça humana... radiante como o sol"), como presente ao rei a quem ele serve. Depois de ser capturada, Kush-Pari revela ao rei que ela se transforma em donzela após desfazer seu manto de penas e propõe que ela se torne sua rainha depois que seu servo resgate sua empregada e traga de volta as éguas de fogo. Kush-Pari pretende usar o leite das éguas de fogo para um ritual especial: o rei morre, mas sobrevive o príncipe, com quem ela se casa. No final da história, seu novo marido conta à esposa que seu pai está cego, mas ela revela que foi ela a causa de sua cegueira. O autor Leon Surmelian observou que esta Houri-Pari era uma "criatura ígnea", uma donzela de grande beleza.

09

Cultura popular

Literatura

O romancista e tradutor vitoriano William Morris escreveu sua obra poética The Earthly Paradise, na qual há a narração de um bardo do romance entre um humano e uma donzela-cisne, compreendendo um episódio do poema The Land East of the Sun e West of the Moon. As aparições na cultura pop incluem romances modernos do gênero fantasia, como Três Corações e Três Leões, e os "swanmanes" da série Anita Blake (como Kaspar Gunderson). Também constituem uma raça dos chamados swan mays ou swanmays na ficção de fantasia e em Dungeons & Dragons.

Vídeos recomendados

Fontes consultadas

Continue pesquisando