Guilherme I de Inglaterra
Guilherme I, geralmente chamado de Guilherme, o Conquistador, e algumas vezes de Guilherme, o Bastardo, foi o primeiro rei normando da Inglaterra, que governou de 1066 até a sua morte em 1087. Descendente de invasores vikings, ele era duque da Normandia desde 1035. Depois de uma longa luta para estabelecer seu poder em 1060, seu domínio sobre a região francesa tornou-se seguro, e deu início à conquista normanda da Inglaterra em 1066. O resto de sua vida foi marcado por lutas para consolidar seu domínio sobre a Inglaterra e suas terras continentais, e por dificuldades com seu filho mais velho.
Os nórdicos inicialmente começaram a invadir o que se tornaria a Normandia no final do século VIII. Colônias escandinavas permanentes foram criadas antes de 911, quando Rolão (r. 911–927), um dos líderes vikings, e o rei Carlos, o Simples (r. 893–922) da França chegaram a um acordo no qual o último entregou o Condado de Ruão ao líder viking. As terras ao redor de Ruão tornaram-se posteriormente o núcleo do Ducado da Normandia. A região pode ter sido usada como uma base quando os ataques escandinavos na Inglaterra foram renovados no final do século X, o que teria piorado as relações entre a Inglaterra e a Normandia. Em um esforço para melhorar a situação, o rei inglês Etelredo, o Despreparado tomou Ema da Normandia, irmã do duque Ricardo II, como sua segunda esposa em 1002. Ataques dinamarqueses à Inglaterra continuaram, e Etelredo procurou a ajuda de Ricardo. Precisou refugiar-se na Normandia em 1013, quando o rei Sueno Barba Bifurcada expulsou-o junto de sua família da Inglaterra. O rei dos ingleses regressou quando Sueno morreu em 1014, mas seu filho, Canuto, o Grande (r. 1018–1035), contestou seu retorno. Etelredo morreu inesperadamente em 1016, e Canuto tornou-se o governante da Inglaterra. Os dois filhos de Etelredo e Ema, Eduardo (r. 1042–1066) e Alfredo Atelingo, foram para o exílio na Normandia, enquanto sua mãe tornar-se-ia a segunda mulher do rei dinamarquês.
Guilherme nasceu em 1027 ou 1028 em Falaise, Normandia, mais provavelmente no final de 1028.[nota 3] Era o único filho de Roberto I, o Magnífico, filho de Ricardo II da Normandia.[nota 4] Sua mãe, Arlete (ou Herleva), era filha de Fulberto de Falaise; ele pode ter sido um curtidor ou embalsamador. Possivelmente ela era um membro da família ducal, mas não se casou com Roberto. Em vez disso, se casou com Herluino de Conteville, com quem teve dois filhos — Odo de Bayeux e Roberto, Conde de Mortain— e uma filha cujo nome é desconhecido.[nota 5] Um dos irmãos de Arlete, Gualtério,[nota 6] tornou-se um defensor e protetor de Guilherme durante sua infância.[nota 7] Roberto também teve uma filha, Adelaide da Normandia, com outra amante. Roberto tornou-se duque da Normandia em 6 de agosto de 1027, sucedendo seu irmão mais velho, Ricardo III, que só tinha conseguido o título no ano anterior. Roberto e seu irmão estavam em desacordo sobre a sucessão, e a morte de Ricardo foi repentina. O novo governante foi acusado por alguns escritores de matar seu irmão, o que era plausível, mas hoje considerado improvável. As condições na Normandia eram incertas, pois famílias nobres despojaram a Igreja e Alano III da Bretanha travou uma guerra contra o ducado, possivelmente em uma tentativa de controlá-lo. Em 1031, Roberto havia reunido considerável apoio de nobres, muitos dos quais se tornariam proeminentes durante a vida de Guilherme. Eles incluíam o tio de Roberto, o arcebispo Roberto de Ruão, que originalmente se opunha ao duque, Osberno, sobrinho de Gunora de Crépon, esposa do duque Ricardo I, o Destemido, e o conde Gilberto de Brionne, um neto de Ricardo I. Após a sua adesão, Roberto continuou o apoio normando aos príncipes ingleses Eduardo e Alfredo, que ainda estavam exilados no norte da França.
Desafios
Guilherme enfrentou vários desafios para se tornar duque, incluindo seu nascimento ilegítimo e sua juventude: as evidências indicam que ele tinha sete ou oito anos de idade na época.[nota 8] Ele contou com o apoio de seu tio-avô, o arcebispo Roberto, assim como o rei da França, Henrique I, habilitando-o para suceder ao ducado de seu pai. O apoio dado aos príncipes ingleses exilados em sua tentativa de voltar à Inglaterra em 1036 mostra que os guardiões do novo duque estavam tentando dar continuidade às políticas de seu pai, mas a morte do arcebispo de Ruão em março de 1037 removeu um dos principais partidários de Guilherme, e as condições na Normandia rapidamente caíram em caos.
Consolidação do poder
Os esforços seguintes de Guilherme foram contra Guido de Borgonha, que havia se retirado para seu castelo em Brionne, o qual foi sitiado pelo duque normando. Depois de um longo esforço, ele conseguiu exilar Guido em 1050. Aliou-se ao rei Henrique para enfrentar o crescente poder do conde de Anjou, Godofredo Martel, a última cooperação conhecida entre os dois. Eles conseguiram capturar uma fortaleza angevina, mas conseguiram pouca coisa. Godofredo tentou expandir sua autoridade para o Condado de Maine, especialmente após a morte do conde Hugo IV em 1051. O centro para o controle da região eram as participações da família de Bellême, que controlava a cidade homônima na fronteira do condado com a Normandia, assim como as fortalezas em Alençon e Domfort. O soberano de Bellême era o rei da França, mas Domfort estava sob a soberania de Godofredo Martel e o duque Guilherme era soberano de Alençon. A família Bellême, cujas terras estavam estrategicamente colocadas entre os três diferentes soberanos, foi capaz de jogar uns contra os outros e garantir a independência virtual para si mesma.
Aparência e características
Nenhum retrato autêntico de Guilherme foi encontrado; as representações contemporâneas dele na tapeçaria de Bayeux e em seus selos e moedas são apenas representações convencionais destinadas a afirmar sua autoridade. As descrições existentes relatam uma aparência forte e robusta, com uma voz gutural. Possuía excelente saúde até uma idade avançada, embora tenha se tornado obeso na velhice. Era forte o suficiente para atirar com arcos que os outros eram incapazes de puxar e tinha uma grande resistência. Godofredo Martel o descreveu como um lutador e cavaleiro sem igual. O exame de seu fêmur, o único osso a sobreviver quando o resto de seus restos foi destruído, mostrou que tinha aproximadamente 1,78 metros de altura, muito alto para a época.
Administração normanda
O governo normando sob Guilherme foi semelhante ao governo que existia liderado por duques anteriores. Era um sistema administrativo bastante simples, construído em torno da casa ducal, que consistia de um grupo de oficiais, incluindo administradores, mordomos e marechais. O duque viajava constantemente ao redor de suas terras, confirmando cartas e cobranças de receitas. A maior parte da renda vinha das terras ducais, assim como de taxas e alguns impostos. Este rendimento era recolhido pela câmara, um dos departamentos domésticos. Guilherme cultivava relações estreitas com a igreja em seu ducado. Participou de conselhos e fez várias nomeações para o episcopado normando, incluindo a nomeação de Maurílio como arcebispo de Ruão. Outro compromisso importante foi o de seu meio-irmão Odo como Bispo de Bayeux por volta de 1049 ou 1050. Também contou com o clero para o conselho, incluindo Lanfranco, um não-normando, que passou a se tornar um dos proeminentes conselheiros eclesiásticos de Guilherme no final dos anos de 1040 e permaneceu assim durante toda década de 1050 e 1060. O duque fazia doações generosas à igreja; entre 1035 e 1066, a aristocracia normanda fundou pelo menos 20 novas casas monásticas, incluindo dois mosteiros de Guilherme em Caen, uma expansão notável da vida religiosa no ducado.
Em 1051 o rei sem filhos Eduardo da Inglaterra parece ter escolhido Guilherme como seu sucessor ao trono inglês. O duque era neto do tio materno do rei, Ricardo II, o Bom. A Crônica Anglo-Saxônica, na versão "D", afirma que o governante normando visitou a Inglaterra no final de 1051, talvez para garantir a confirmação da sucessão, ou talvez Guilherme estava tentando conseguir ajuda para seus problemas na Normandia. A viagem é improvável dada a sua absorção na guerra com Anjou no momento. Quaisquer que fossem os desejos de Eduardo, era provável que qualquer reclamação de Guilherme seria contestada por Goduíno, o Conde de Wessex, um membro da família mais poderosa na Inglaterra. Eduardo havia se casado com Edite, filha de Goduíno, em 1043, e o conde de Wessex parece que foi um dos principais partidários da reivindicação do Confessor ao trono. Foi durante este exílio que Eduardo ofereceu o trono a Guilherme. Goduíno retornou do exílio em 1052 com as forças armadas, e um acordo foi alcançado entre o rei e o conde, restaurando-o junto com sua família às suas terras e substituindo Roberto de Jumièges, um normando a quem Eduardo tinha nomeado arcebispo da Cantuária, por Estigando, o bispo de Winchester. Nenhuma fonte inglesa menciona uma suposta embaixada do arcebispo Roberto ao duque da Normandia transmitindo a promessa de sucessão, e as duas fontes normandas que o mencionam, Guilherme de Jumièges e Guilherme de Poitiers, não são precisas em suas cronologias de quando essa visita ocorreu.
Preparações de Haroldo
Haroldo foi coroado em 6 de janeiro de 1066 na nova abadia em estilo normando de Westminster, reformada por Eduardo, embora existe certa controvérsia envolvendo quem realizou a cerimônia. Fontes inglesas alegam que Aldredo, Arcebispo de Iorque, realizou a coroação, enquanto fontes normandas afirmam que ela foi realizada por Estigando, que era considerado um arcebispo não-canônico pelo papado. A reivindicação de Haroldo ao trono não era inteiramente segura, no entanto, não havia outros pretendentes, talvez incluindo seu irmão exilado Tostigo.[nota 13] O rei Haroldo Hardrada da Noruega também tinha uma reivindicação ao trono como o tio e herdeiro do rei Magno I, que havia feito um pacto com Hardacanuto por volta de 1040 que se um dos dois morresse sem herdeiros, o outro o sucederia. O último requerente era Guilherme da Normandia, cuja invasão antecipou o rei Haroldo Godwinson a fazer a maior parte de seus preparativos.
Preparações de Guilherme
Guilherme de Poitiers descreveu um conselho convocado pelo duque Guilherme, no qual o escritor relata um grande debate que aconteceu entre os nobres e partidários do governante normando sobre a possibilidade de arriscar uma invasão da Inglaterra. Embora algum tipo de reunião formal provavelmente tenha sido realizada, é improvável que qualquer debate tenha ocorrido, já que até então o duque havia conseguido estabelecer o controle sobre seus nobres, e a maioria dos que estavam reunidos estavam ansiosos para garantir a sua parte das recompensas da conquista da Inglaterra. Guilherme de Poitiers também relata que o duque obteve o consentimento do papa Alexandre II para a invasão, juntamente com uma bandeira papal. O cronista alega ainda que o duque garantiu o apoio do imperador romano-germânico Henrique IV (r. 1084–1105) e do rei Sueno II da Dinamarca (r. 1047–1074). No entanto, Henrique ainda era menor de idade e o rei da Dinamarca era mais propenso a apoiar Haroldo, que poderia, então, ajudá-lo contra o rei norueguês, de modo que essas alegações devem ser tratadas com cautela. Embora Alexandre tenha dado aprovação papal posterior à conquista, nenhuma outra fonte afirma o apoio pontifício antes da invasão.[nota 14] Os eventos após a incursão, que incluem a penitência realizada por Guilherme e as declarações dos papas posteriores, prestam apoio circunstancial ao pedido de aprovação papal. Para lidar com assuntos normandos, Guilherme colocou o governo da Normandia nas mãos de sua esposa durante o período da invasão.
Invasão de Tostigo e Hardrada
O irmão de Haroldo, Tostigo, e Haroldo Hardrada invadiram a Nortúmbria em setembro de 1066 e derrotaram as forças locais sob Morcar e Eduíno na Batalha de Fulford, perto de Iorque. O rei Haroldo recebeu a notícia da invasão e marchou para o norte, derrotando os invasores e matando Tostigo e Hardrada em 25 de setembro na Batalha de Stamford Bridge. A frota normanda finalmente partiu dois dias depois, desembarcando na Inglaterra na baía de Pevensey em 28 de setembro. Guilherme, em seguida, mudou-se para Hastings, algumas milhas a leste, onde construiu um castelo como uma base de operações. De lá, ele devastou o interior e esperou pelo retorno de Haroldo do norte, recusando-se a se aventurar muito longe do mar, sua linha de comunicação com a Normandia.
Batalha de Hastings
Haroldo, depois de derrotar Tostigo e Haroldo Hardrada da Noruega, deixou uma parte de seu exército no norte, incluindo Morcar e Eduíno, e marchou com o resto até o sul para lidar com a ameaça normanda. Ele provavelmente ficou sabendo do desembarque de Guilherme enquanto viajava para o sul. O rei parou em Londres, e ficou lá por cerca de uma semana antes de marchar para Hastings, por isso é provável que passou cerca de uma semana em sua marcha ao sul, com uma média de cerca de 43 quilômetros por dia, em uma distância de aproximadamente 320 quilômetros. Embora o rei inglês tentou surpreender os normandos, sentinelas de Guilherme relataram a chegada inglesa para o duque. Os eventos exatos que precedem a batalha são obscuros, com relatos contraditórios nas fontes, mas todos concordam que Guilherme liderou seu exército de seu castelo e avançou em direção ao inimigo. Haroldo tomou uma posição defensiva na parte superior do monte Senlac (atual Battle, East Sussex), a cerca de 9,7 quilômetros do castelo de Guilherme em Hastings.
Marcha para Londres
Guilherme pode ter esperado que os ingleses se rendessem após sua vitória, mas não o fizeram. Em vez disso, alguns membros do clero e magnatas ingleses nomearam Edgar, o Atelingo como rei, embora o apoio que esse recebeu fosse tépido. Depois de esperar um pouco, Guilherme assegurou Dover, partes de Kent, Cantuária e, ao mesmo tempo, enviou uma força para capturar Winchester, onde estava o tesouro real. Estas capturas garantiram áreas de retaguarda para Guilherme e também a sua linha de retirada à Normandia, caso fosse necessário. Em seguida, o duque marchou de Southwark, através do Tâmisa para Londres, onde chegou no final de novembro. Logo depois, conduziu suas forças em torno do sul e oeste da capital inglesa, queimando ao longo do caminho. Ele finalmente atravessou o Tâmisa em Wallingford no início de dezembro. Lá o arcebispo Estigando se submeteu a Guilherme, e logo depois quando o duque passou para Berkhamsted, Morcar, Eduíno, o arcebispo Aldredo e Edgar, o Atelingo também se renderam. O invasor normando, em seguida, enviou homens a Londres para construir um castelo; ele foi coroado na Abadia de Westminster no dia de Natal de 1066.
Primeiros atos
Guilherme permaneceu na Inglaterra após sua coroação e tentou reconciliar os magnatas nativos. Os condes restantes — Eduíno de Mércia, Morcar de Nortúmbria, e Valdevo da Nortúmbria — foram confirmados em suas terras e títulos. Valdevo era casado com a sobrinha do duque normando, Judite, filha de Adelaide, e um casamento entre Eduíno e uma das filhas de Guilherme foi proposto. Edgar, o Atelingo também parece ter recebido terras. Ofícios eclesiásticos continuaram a ser mantidos pelos mesmos bispos como antes da invasão, incluindo o não-canônico Estigando. Mas as famílias de Haroldo e seus irmãos perderam suas terras, assim como alguns outros que tinham lutado contra Guilherme em Hastings. Até março, o duque estava seguro o suficiente para voltar à Normandia, mas levou consigo Estigando, Morcar, Eduíno, Edgar, e Valdevo. Ele deixou seu meio-irmão Odo, o bispo de Bayeux, no comando da Inglaterra, juntamente com outro defensor influente, Guilherme FitzOsbern, filho de seu antigo tutor. Os dois homens também foram nomeados para condados — FitzOsbern para Hereford (ou Wessex) e Odo para Kent. Embora ele tenha colocado dois normandos como encarregados gerais, manteve muitos xerifes nativos da Inglaterra. Uma vez na Normandia o novo rei foi para Ruão e à Abadia de Fécamp, e, em seguida, assistiu à consagração de novas igrejas em dois mosteiros normandos.
Resistência inglesa
Em 1068 Eduíno e Morcar se revoltaram, apoiados por Gospatrico. O cronista Orderico Vital afirma que a razão de Eduíno se revoltar era que o casamento proposto entre ele e uma das filhas de Guilherme não aconteceu, mas outras razões provavelmente incluem o aumento do poder de Guilherme FitzOsbern em Herefordshire, o que afetou o poder dele dentro de seu próprio condado. O rei marchou nas terras de Eduíno e construiu um castelo em Warwick. Eduíno e Morcar se renderam, mas Guilherme continuou rumo a Iorque, construindo os castelos de Iorque e Nottingham antes de retornar ao sul. Em sua jornada ao sul, o rei começou a construir castelos em Lincoln, Huntingdon, e Cambridge. Guilherme colocou partidários responsável por estas novas fortificações — entre eles Guilherme Peverel em Nottingham e Henrique de Beaumont em Warwick. Em seguida, o rei voltou à Normandia no final de 1068.
Assuntos da Igreja
Enquanto em Winchester em 1070, Guilherme se reuniu com três legados papais — João Minuto, Pedro, e Ermenfrido de Sion — que foram enviados pelo papa Alexandre. Os legados cerimonialmente coroaram o rei durante o cortejo da Páscoa. O historiador David Bates vê essa coroação como a cerimonia papal que deu o "selo de aprovação" à conquista de Guilherme. Os legados e o rei então começaram a realizar uma série de concílios eclesiásticos dedicados à reforma e reorganização da igreja na Inglaterra. Estigando e seu irmão, Etelmar, o Bispo de Elmham, foram depostos de seus bispados. Alguns dos abades nativos também foram depostos, ambos no concílio realizado perto da Páscoa e em um próximo do dia de Pentecostes. Este último viu a nomeação de Lanfranco como o novo arcebispo de Cantuária, e Tomás de Bayeux como o novo arcebispo de Iorque, para substituir Aldredo, que morreu em setembro de 1069. Odo, o meio-irmão do rei, talvez esperasse ser nomeado para Cantuária, mas Guilherme provavelmente não quis dar tanto poder a um membro da família.[nota 17] Outra razão para a nomeação pode ter sido a pressão do papado em nomear Lanfranco. O clero normando foi designado para substituir os bispos e abades depostos, e no final do processo, apenas dois bispos ingleses nativos permaneceram no cargo, juntamente com vários prelados continentais nomeados por Eduardo, o Confessor. Em 1070, Guilherme também fundou a Abadia de Battle, um novo mosteiro no local da Batalha de Hastings, em parte como uma penitência pelas mortes na batalha e, em parte, como um memorial aos mortos.
Invasões dinamarquesas e rebelião no norte
Embora Sueno havia prometido deixar a Inglaterra, voltou na primavera de 1070, invadindo ao longo do Humber e Ânglia Oriental em direção à Ilha de Ely, onde se juntou a Herevardo, o Vigilante, um tano (servo) local. As forças de Herevardo atacaram a Abadia de Peterborough, a qual capturaram e saquearam. Guilherme foi capaz de garantir a retirada de Sueno e sua frota em 1070, permitindo-lhe regressar ao continente para lidar com problemas no Maine, onde a cidade de Le Mans havia se revoltado no ano anterior. Outra preocupação era a morte do conde Balduíno VI de Flandres, em julho de 1070, que conduziu a uma crise de sucessão com sua viúva, Riquilda, que governava por seus dois filhos novos, Arnulfo e Balduíno. No entanto, o seu governo foi contestado por Roberto, irmão de Balduíno. A viúva propôs casamento a Guilherme FitzOsbern, que estava na Normandia, e esse aceitou. Mas depois que foi morto em fevereiro de 1071 na Batalha de Cassel, Roberto tornou-se conde. Ele se opunha ao poder do rei Guilherme no continente, assim, a Batalha de Cassel não só fez o rei perder um importante aliado, mas também perturbou o equilíbrio de poder no norte da França.
Revolta dos Condes
Em 1075, durante a ausência de Guilherme, Raul de Gael, Conde de Norfolk, e Rogério de Breteuil, Conde de Hereford, conspiraram para derrubar o rei na "Revolta dos Condes". Raul era em parte bretão, e passou a maior parte de sua vida antes de 1066 em sua terra natal, onde ainda tinha propriedades. Rogério era um normando, filho de Guilherme FitzOsbern, mas tinha herdado menos autoridade do que seu pai possuía. A autoridade do conde de Norfolk também parece ter sido menor do que seus antecessores no condado, e essa foi provavelmente a causa da revolta. A razão exata da rebelião não está clara, mas começou no casamento de Raul com uma parente de Rogério, realizado em Exning, Suffolk. Outro conde, Valdevo, embora um dos favoritos de Guilherme, também esteve envolvido, e havia alguns senhores bretões que estavam prontos para se rebelar em apoio de Raul e Rogério. O conde de Norfolk também solicitou ajuda dinamarquesa. Guilherme permaneceu na Normandia, enquanto seus homens na Inglaterra subjugaram a revolta. Rogério não foi capaz de deixar sua fortaleza em Herefordshire por causa dos esforços de Vulstano, bispo de Worcester, e Etelvigo, o abade de Evesham. Raul foi cercado no Castelo de Norwich pelos esforços combinados de Odo de Bayeux, Godofredo de Montbray, Ricardo FitzGilbert, e Guilherme de Warenne. Raul finalmente deixou Norwich no controle de sua esposa e abandou a Inglaterra, finalmente terminando na Bretanha. Norwich foi sitiada e se rendeu, com a guarnição autorizada a ir para a Bretanha. Enquanto isso, o irmão do rei dinamarquês, Canuto, o Santo, finalmente chegou à Inglaterra com uma frota de 200 navios, mas era tarde demais pois Norwich já havia se rendido. Os dinamarqueses, em seguida, invadiram ao longo da costa, antes de voltar para casa. Guilherme voltou à Inglaterra mais tarde em 1075 para lidar com a ameaça dinamarquesa, deixando sua esposa Matilde no comando da Normandia. Ele comemorou o Natal em Winchester e lidou com o rescaldo da rebelião. Rogério e Valdevo foram mantidos em prisão, onde o conde de Northampton foi executado em maio de 1076. Antes disso, Guilherme tinha voltado para o continente, onde o conde de Norfolk continuou a rebelião da Bretanha.
Problemas em casa e no exterior
Conde Raul tinha assegurado o controle do castelo em Dol, e em setembro de 1076 Guilherme avançou para Bretanha e sitiou o castelo. O rei Filipe da França mais tarde aliviou o cerco e derrotou Guilherme na cidade, forçando-o a recuar à Normandia. Embora esta tenha sido sua primeira derrota em batalha, não alterou o desenrolar dos eventos. Um ataque angevino no Maine foi derrotado no final de 1076 ou 1077, com o conde Fulque le Rechin ferido na investida malsucedida. Mais grave foi o conde de Amiens, Simão de Crépy, ter se tornado um monge, porque entregou seu condado de Vexin ao rei Felipe. Vexin era um estado tampão entre a Normandia e as terras do rei francês, e o conde era um partidário do duque normando.[nota 19] Guilherme foi capaz de fazer a paz com Felipe em 1077 e garantiu uma trégua com o conde Fulque no final do mesmo ano ou no início de 1078.
Últimos anos
Fontes para ações de Guilherme entre 1082 e 1084 são escassas. De acordo com o historiador David Bates, isso significa que provavelmente pouca coisa aconteceu, e devido ao fato de o rei estar no continente, não havia nada para a Crônica Anglo-Saxônica registrar. Em 1082, ele ordenou a prisão de seu meio-irmão Odo de Bayeux. As razões exatas não são claras, como nenhum autor contemporâneo registrou o que causou a briga entre os meio-irmãos. Orderico Vital mais tarde registrou que Odo tinha aspirações de se tornar papa. O cronista também relatou que Odo havia tentado persuadir alguns dos vassalos de Guilherme a se juntar a ele em uma invasão do sul da Itália. Isto teria sido considerado a adulteração da autoridade do rei sobre seus vassalos, o que Guilherme não teria tolerado. Embora Odo tenha permanecido no confinamento o resto do reinado de seu irmão, suas terras não foram confiscadas. Mais dificuldades o atingiram em 1083, quando seu filho mais velho Roberto se rebelou mais uma vez com o apoio do rei francês. Um novo golpe foi a morte de sua esposa Matilde, em 2 de novembro daquele ano. Guilherme foi sempre descrito próximo dela, e sua morte teria aumentado os seus problemas.
Mudanças na Inglaterra
Como parte de seus esforços para assegurar a Inglaterra, Guilherme ordenou a construção de muitos castelos, torres e motas — entre eles a fortaleza central da Torre de Londres, a Torre Branca. Essas fortificações permitiram que os normandos recuassem em segurança quando ameaçados por uma rebelião e permitia que guarnições fossem protegidas enquanto eles ocupavam o campo. Os primeiros castelos eram simples construções de terra e madeira, posteriormente substituídos por estruturas de pedra. No início, a maioria dos normandos recém-estabelecidos mantinham cavaleiros domésticos e não recompensaram os seus partidários com feudos próprios, mas, gradualmente, terras foram concedidas a esses cavaleiros domésticos, um processo conhecido como subenfeudação. Guilherme também exigiu que os seus recém-criados magnatas contribuíssem com cotas fixas de cavaleiros não só para as campanhas militares, mas também para guarnições dos castelos. Este método de organizar as forças militares era um desvio da prática pré-conquista inglesa de basear o serviço militar em unidades territoriais como a hida.
Administração
Depois da conquista, Guilherme não tentou integrar seus domínios separados em um único reino unificado com um conjunto único de leis. O sinete que usou após 1066, do qual seis impressões ainda sobrevivem, foi feito depois que invadiu a Inglaterra e destacava seu papel como rei, mencionando separadamente o seu papel de duque.[nota 20] Quando na Normandia, reconheceu que devia vassalagem ao rei francês, mas na Inglaterra nenhum tipo de confirmação foi feita — mais uma prova de que as várias partes de suas terras eram consideradas independentes. As estruturas administrativas da Normandia, Inglaterra e Maine continuaram a existir de forma separada, com cada um mantendo suas próprias formas de governo. Por exemplo, a Inglaterra continuou a usar decretos, que não eram conhecidos no continente. Além disso, as cartas e documentos produzidos para o governo na Normandia diferiam em fórmulas daquelas produzidas na Inglaterra.
Domesday Book
No Natal de 1085, Guilherme ordenou a compilação de um levantamento das propriedades rurais detidas por si mesmo e por seus vassalos em todo o reino, organizado por condados. Isso resultou em um trabalho hoje conhecido como Domesday Book. A listagem para cada condado mostra as posses de cada proprietário de terras, agrupados por donos. As listagens descrevem a posse, quem a possuía antes da conquista, o seu valor, qual era a taxa de assentamento, e, geralmente, o número de camponeses, arados, e quaisquer outros recursos que tinham exploração. Cidades eram listadas separadamente. Todos os condados ingleses ao sul do rio Tees e do rio Ribble estão incluídos, e toda a obra parece ter sido concluída principalmente até 1º de agosto de 1086, quando a Crônica Anglo-Saxônica registra que o governante recebeu os resultados e que todos os principais magnatas se uniram e juraram o Juramento de Salisbury, uma renovação dos seus juramentos de fidelidade. A motivação exata do rei em ordenar a pesquisa é obscura, mas provavelmente tinha vários propósitos, como fazer um registro de obrigações feudais e justificar o aumento dos impostos.
Guilherme deixou a Inglaterra no final de 1086. Após chegar ao continente, casou sua filha Constança com Alano Luva de Ferro, o duque de Bretanha, no cumprimento de sua política em buscar aliados contra os reis franceses. Seu filho Roberto, ainda aliado com o rei francês Filipe I, ainda aparece criando problemas suficientes para que o duque liderasse uma expedição contra o Vexin francês em julho de 1087. Enquanto apreendia Mantes, o rei ou adoeceu ou foi ferido por uma alça de sua sela. Ele foi levado para o priorado de Saint Gervase em Ruão, onde morreu em 9 de setembro de 1087. O conhecimento dos eventos que precederam a sua morte são confusos visto que existem dois contos diferentes. Orderico Vital preserva um relato longo, com discursos feitos por muitos dos subordinados, mas este é mais provavelmente uma descrição de como um rei deveria morrer do que o que realmente aconteceu. A outra, o De Obitu Willelmi, ou Sobre a Morte de Guilherme, é uma cópia de dois relatos do século IX com nomes alterados.
Uma consequência imediata após a morte do rei foi a guerra entre seus filhos Roberto e Guilherme, o Ruivo sobre o controle da Inglaterra e Normandia. Mesmo após a morte de Guilherme, o Ruivo em 1100 e a sucessão de seu irmão mais novo Henrique I como rei, a Normandia e Inglaterra permaneceram controvertidas entre os irmãos, até a captura de Roberto por Henrique na batalha de Tinchebray em 1106. As dificuldades na sucessão levaram a uma perda de autoridade no ducado francês, já que a aristocracia recuperou muito do poder que fora perdido para o Conquistador. Seus filhos também perderam muito de seu controle sobre o Maine, que se revoltou em 1089 e conseguiu manter-se na maior parte livre de influência normanda posteriormente. O impacto da conquista de Guilherme na Inglaterra foi profundo; mudanças na igreja, aristocracia, cultura e na língua do país têm persistido até os tempos modernos. A conquista trouxe ao reino um contato mais próximo com a França e forjou laços entre ambas as nações, que duraram toda a Idade Média. Outra consequência da invasão de Guilherme foi o rompimento dos laços anteriormente estreitos entre a Inglaterra e Escandinávia. Seu governo misturou elementos dos sistemas inglês e normando em um novo, que posteriormente lançou as bases do reino medieval inglês. Quão bruscas e quão grande alcance as mudanças tiveram ainda é uma questão de debate entre os historiadores, com alguns, como Richard Southern alegando que a conquista foi a mudança mais radical na história da Europa entre a queda de Roma e o século XX. Outros, como H. G. Richardson e G. O. Sayles, veem as mudanças trazidas pela conquista como muito menos radicais do que Southern sugere. A historiadora Eleanor Searle descreveu a invasão de Guilherme como "um plano que nenhum governante, exceto um escandinavo, teria considerado".


