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Príon

Príon (português brasileiro) ou prião (português europeu) é um agente infeccioso composto por proteínas com forma aberrante. Tais agentes não possuem ácidos nucleicos ao contrário dos demais agentes infecciosos conhecidos. O termo "prion" foi cunhado em 1982 por Stanley B. Prusiner através de um amálgama entre as palavras proteinaceous (proteica) e infection (infecção). Os príons são responsáveis pelas encefalopatias espongiformes transmissíveis em uma variedade de mamíferos, incluindo os humanos.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 21/10/2026
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Descoberta

O especialista em radiação Tikvah Alper e o matemático John Stanley Griffith desenvolveram, na década de 1960, a hipótese de que as encefalopatias espongiformes transmissíveis (TSEs) são causadas por um agente infeccioso constituído unicamente por proteínas. Esta hipótese foi formulada para explicar a descoberta que o misterioso agente infeccioso, causador da scrapie e da doença de Creutzfeldt-Jakob, ser resistente à radiação ultravioleta (o UV causa dano direto ao DNA pela excitação de moléculas individuais do polímero de DNA, causando erro ao ser introduzido na seqüência de pares de bases). Francis Crick reconheceu a potencial importância da hipótese de Griffith para a propagação do scrapie na segunda edição de seu famoso "Dogma Central da Biologia Molecular": embora afirmando que o fluxo da sequência de informações de proteína para proteína ou de proteína para RNA e DNA foi "impedido", ele observou que a hipótese de Griffith era potencialmente contraditória (embora ela não tenha sido somente promovida por Griffith). Uma hipótese revisada foi posteriormente formulada, em parte, para acomodar a descoberta da transcrição reversa por Howard Temin e David Baltimore.

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Proteína priônica

Estrutura

Os príons consistem em uma forma mal dobrada da proteína priônica principal (PrP), uma proteína que é uma parte natural do corpo de humanos e outros animais. A PrP encontrada em príons infecciosos tem uma estrutura diferente e é resistente a proteases, as enzimas do corpo que normalmente podem quebrar proteínas. A forma normal da proteína é chamada PrPC, enquanto a forma infecciosa é chamada PrPSc – o C refere-se à PrP 'celular', enquanto o Sc refere-se à 'scrapie', a doença priônica prototípica, que ocorre em ovelhas. A PrP também pode ser induzida a se dobrar em outras isoformas mais ou menos bem definidas in vitro; embora suas relações com as formas patogênicas in vivo sejam frequentemente obscuras, análises estruturais de alta resolução começaram a revelar características estruturais que se correlacionam com a infectividade do príon.

Função normal da PrP

A função fisiológica da proteína priônica permanece pouco compreendida. Embora dados de experimentos in vitro sugiram muitos papéis diferentes, estudos em camundongos knockout para PrP forneceram apenas informações limitadas, pois esses animais exibem apenas anormalidades menores. Pesquisas em camundongos descobriram que a clivagem da PrP em nervos periféricos causa a ativação do reparo da mielina nas células de Schwann, e que a falta de proteínas PrP causa desmielinização nessas células. MAVS, RIP1 e RIP3 são proteínas semelhantes a príons encontradas em outras partes do corpo. Elas também se polimerizam em fibras amiloides filamentosas que iniciam a morte celular regulada no caso de uma infecção viral para evitar a propagação de vírions para outras células circundantes. Há evidências de que a PrP e a PrPSc patogênica contribuem para a sensibilidade à ferroptose, uma condição que é aumentada pela expressão de RAC3.

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Replicação

A primeira hipótese que tentou explicar como os príons se replicam de uma maneira apenas proteica foi o modelo heterodímero. Este modelo assumia que uma única molécula de PrPSc se liga a uma única molécula de PrPC e catalisa sua conversão em PrPSc. As duas moléculas de PrPSc então se separam e podem continuar a converter mais PrPC. No entanto, um modelo de replicação de príons deve explicar tanto como os príons se propagam quanto por que seu aparecimento espontâneo é tão raro. Manfred Eigen mostrou que o modelo heterodímero requer que a PrPSc seja um catalisador extraordinariamente eficaz, aumentando a taxa da reação de conversão por um fator de cerca de 1015. Este problema não surge se a PrPSc existir apenas em formas agregadas, como amiloide, onde a cooperatividade pode atuar como uma barreira à conversão espontânea. Além disso, apesar de um esforço considerável, a PrPSc monomérica infecciosa nunca foi isolada.

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PrPSc (isoforma da scrapie da proteína priônica)

As PrPSc são o agente infeccioso por trás de doenças priônica. A proteína PrPSc foi o primeiro príon - isto é, a proteína infecciosa - a ser descoberto e continua a ser o príon por excelência, não apenas por causa de sua preeminência histórica, mas também por causa de sua associação com uma classe única de doenças fatais. A PrPSc é o único prion conhecido até agora por causar epidemias locais e explosões epizoóticas. Essa proteína é uma variante alternativamente dobrada da proteína priônica celular, PrPC, que é uma proteína regular ancorada à GPI e que está presente na superfície celular de neurônios e outros tipos de células. Através de ressonância magnética (RM) da sequência completa da proteína PrPSc foi observado que a sua sequência de aminoácidos é idêntica à deduzida da sequência do gene da Prn-p, o gene codificador da proteína, eliminando assim qualquer variação na sequência pós-transcricional como uma das possíveis causas das propriedades patogênicas da PrPSc. Além disso, estudos de espectrometria de massa no modelo da PrPSc planejados para revelar qualquer modificação pós-traducional não caracterizada previamente indicaram que, de fato, a PrPSc e a PrPC são quimicamente idênticas. Assim, embora não se possa descartar a possibilidade de que uma pequena fração da PrPSc seja quimicamente modificada então tenha sido eliminada, parece mais provável que a PrPSc e a PrPC difiram apenas quanto às suas estruturas secundárias e/ou terciárias. Infelizmente, a insolubilidade da PrPSc impede que a sua estrutura seja determinada. Entretanto, algumas análises mostram que, de fato, as conformações da PrPSc e da PrPC são bem diferentes. A PrPC tem um alto conteúdo de hélices α (cerca de 40%), mas poucas folhas β (cerca de 3%) (de acordo com as estruturas de seus domínios globulares por RM), enquanto a PrPSc tem um conteúdo menor de hélices α (cerca de 30%), mas um alto conteúdo de folhas β (cerca de 45%). Em um modelo plausível da PrPSc, a sua região N-terminal dobra-se novamente formando uma estrutura chamada β-hélice, em que as folhas do polipeptídeo formam uma hélice voltada para a esquerda, contendo três fitas β paralelas. Apenas as duas hélices C-terminais de PrPC, que estão unidas por uma ligação dissulfeto, mantêm as suas conformações originais. O alto conteúdo de folhas β da PrPSc poderia, presumivelmente, facilitar a agregação da PrPSc em fibrilas amiloides. Fica evidente, então, que a mudança conformacional de PrPC para PrPSc é autocatalítica; isto é, a PrPSc induz a PrPC a se converter em PrPSc.

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Fungos

Proteínas que apresentam comportamento do tipo priônico também são encontradas em alguns fungos, o que tem sido útil para ajudar a compreender os príons de mamíferos. Os príons fúngicos nem sempre causam doenças em seus hospedeiros. Em leveduras, o redobramento de proteínas para a configuração priônica é auxiliado por proteínas chaperonas, como a Hsp104. Todos os príons conhecidos induzem a formação de um dobramento amiloide, no qual a proteína se polimeriza em um agregado que consiste em folhas beta firmemente empacotadas. Os agregados amiloides são fibrilas que crescem em suas extremidades, e se replicam quando a quebra faz com que duas extremidades em crescimento se tornem quatro extremidades em crescimento. O período de incubação das doenças priônicas é determinado pela taxa de crescimento exponencial associada à replicação de príons, que é um equilíbrio entre o crescimento linear e a quebra dos agregados.

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Doenças priônicas

Príons causam doença neurodegenerativa por formação de agregados extracelulares dentro do sistema nervoso central que formam placas conhecidas por amilóide, que rompem as estruturas do tecido normal. Este rompimento é caracterizado por "buracos" no tecido que resultam numa arquitetura espongiforme devido a formação de vacúolos nos neurônios. Outras mudanças histológicas incluem a astrogliose e a ausência de uma reação inflamatória. Enquanto o período de incubação das doenças priônicas é geralmente longo, uma vez que os sintomas aparecem, a doença progride rapidamente, levando a danos cerebrais e morte. Os sintomas neurodegenerativos podem incluir convulsões, demência, ataxia e mudanças comportamentais e de personalidade. Todas as doenças priônicas conhecidas são coletivamente denominadas de encefalopatias espongiformes transmissíveis (TSEs), uma vez que em todas essas doenças os neurônios desenvolvem grandes vacúolos. Ao que se sabe, essas enfermidades não apresentam tratamento e são fatais. Podemos citar alguns exemplos de doenças priônicas: a scrapie (do inglês scrapie: raspar), uma doença neurológica de ovinos e caprinos, assim chamada por causa da tendência que as ovelhas infectadas têm em raspar a lã (eles se esfregam contra as cercas em um esforço de se manter de pé, devido à perda da coordenação muscular); a encefalopatia espongiforme bovina (BSE ou doença da vaca louca), que afeta o gado bovino de forma semelhante; e a kuru, uma doença degenerativa do cérebro que ocorre entre os primitivos habitantes de Papua Nova Guiné (kuru significa tremores) e que é transmitida pelo ritual de canibalismo. Há também uma doença humana esporádica (aparentemente aparece de forma espontânea) com sintomas similares, a doença de Creutzfeldt-Jak.ob (DCJ), uma rara e progressiva desordem cerebelar, que se assemelha e pode ser idêntica à kuru. Além dessas, outras doenças e variantes também foram observadas, conforme vemos na tabela a direta.

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