Holocausto
Holocausto, também conhecido como Shoá, foi o genocídio ou assassinato em massa de cerca de seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial, no maior genocídio do século XX, através de um programa sistemático de extermínio étnico patrocinado pelo Estado nazista, liderado por Adolf Hitler e pelo Partido Nazista e que ocorreu em todo o Terceiro Reich e nos territórios ocupados pelos alemães durante a guerra. Dos nove milhões de judeus que residiam na Europa antes do Holocausto, cerca de dois terços foram mortos; mais de um milhão de crianças, dois milhões de mulheres e três milhões de homens judeus morreram durante o período.
Holocausto, Shoah e Solução Final
A palavra "holocausto" deriva da palavra grega "ὁλόκαυστον" [holokauston] grego, significando "oferta de sacrifício completamente (ὅλος) queimada (καυστον)" ou "algo queimado oferecido a um deus". Em ritos pagãos gregos e romanos, deuses da terra e do submundo recebiam animais queimados, que eram oferecidos à noite. A palavra "holocausto" foi adotada mais tarde na tradução grega da Torá para se referir ao Olah, que são ofertas de sacrifícios queimados individuais e comunais que os judeus eram obrigados a fazer nos tempos do Beit Hamicdash (Templo de Jerusalém). Na sua forma latina, holocaustum, o termo foi usado pela primeira vez com referência específica a um massacre de judeus pelos cronistas Roger de Howden e Richard de Devizes na Inglaterra do ano 1190.
Designação para vítimas não judias
Embora os termos "Shoah" e "Solução Final" sempre se refiram ao destino dos judeus durante o regime nazista, o termo "Holocausto" é usado às vezes em um sentido mais amplo para descrever outros genocídios do nazismo e outros regimes. A Columbia Encyclopedia define "Holocausto" como o "nome dado ao período de perseguição e extermínio de judeus europeus pela Alemanha nazista". A Microsoft Encarta fornece uma definição semelhante. A Encyclopædia Britannica define "Holocausto" como "o assassinato sistemático patrocinado pelo Estado de seis milhões de judeus homens, mulheres e crianças, e milhões de outros pela Alemanha nazista e seus colaboradores durante a Segunda Guerra Mundial", embora o artigo faça uma extensão: "os nazistas também perseguiram os ciganos. Eles foram o único outro grupo que os nazistas mataram sistematicamente em câmaras de gás, juntamente com os judeus".
O primeiro grande campo, Majdanek, foi descoberto pelos soviéticos em 23 de julho de 1944. Chełmno foi libertado pelos soviéticos em 20 de janeiro de 1945. Auschwitz foi libertado, também pelos soviéticos, em 27 de janeiro de 1945; Buchenwald pelos estadunidenses em 11 de abril; Bergen-Belsen pelos britânicos em 15 de abril; Dachau pelos estadunidenses em 29 de abril; Ravensbrück pelos soviéticos no mesmo dia; Mauthausen pelos estadunidenses em 5 de maio e Theresienstadt pelos soviéticos em 8 de maio. Treblinka, Sobibor e Bełżec nunca foram libertados, mas foram destruídos pelos nazistas. Em 1943, o Coronel William W. Quinn do 7.º Exército dos Estados Unidos disse sobre Dachau: "Lá nossas tropas encontraram visões, sons e fedores horríveis além da imaginação, crueldades tão grandes a ponto de serem incompreensíveis para a mente normal". Na maioria dos campos descobertos pelos soviéticos, quase todos os presos já tinham sido removidos, deixando apenas alguns milhares de pessoas vivas — 7 600 detentos foram encontrados em Auschwitz, incluindo 180 crianças que haviam passado por experimentos médicos. Cerca de sessenta mil prisioneiros foram descobertos em Bergen-Belsen pela 11.ª Divisão Blindada britânica, treze mil cadáveres jaziam insepultos e outros dez mil morreram de tifo ou desnutrição nas semanas seguintes. Os britânicos forçaram os guardas restantes da SS a recolher os cadáveres e colocá-los em valas comuns.
Origem
Yehuda Bauer, Raul Hilberg e Lucy Dawidowicz sustentam que a partir da Idade Média, a sociedade e a cultura alemã tornaram-se repletas de aspectos antissemitas e que havia uma ligação ideológica direta entre os pogroms medievais e os campos de extermínio nazistas. A segunda metade do século XIX viu o surgimento na Alemanha e na Áustria-Hungria do movimento völkisch, desenvolvido por pensadores como Houston Stewart Chamberlain e Paul de Lagarde. O movimento apresentava um racismo com uma base biológica pseudocientífica, onde os judeus eram vistos como uma raça em um combate mortal com a raça ariana pela dominação do mundo. O antissemitismo völkisch inspirou-se em estereótipos do antissemitismo cristão, mas difere dele porque os judeus eram considerados uma raça, não uma religião.
Reassentamento e deportação
Antes da guerra, os nazistas consideravam a deportação em massa de judeus alemães (e, posteriormente, de judeus de toda a Europa) para fora do continente europeu. A aprovação do Plano Schacht (1938-9) por Hitler e a fuga contínua de milhares de judeus dos domínios nazistas durante um longo período, quando então tal plano mostrou-se ineficaz, indicam que a escolha de promover um genocídio sistemático surgiu apenas mais tarde entre os líderes nazistas. Planos para recuperar antigas colônias alemãs — como Tanganyika e Sudoeste Africano — através do reassentamento judaico foram interrompidos por Hitler, que argumentou que não existe lugar onde "tanto sangue dos heroicos alemães havia sido derramado" que deva ser disponibilizado como residência para os "piores inimigos dos alemães". Esforços diplomáticos foram realizados para convencer as outras ex-potências coloniais, principalmente o Reino Unido e a França, a aceitarem os judeus expulsos em suas colônias. As áreas consideradas para o possível reassentamento de judeus incluíam o Mandato Britânico na Palestina, a Abissínia italiana, a Rodésia britânica, o Madagascar francês e a Austrália.
Campos de concentração e trabalho forçado (1933–1945)
Desde o início do Terceiro Reich campos de concentração foram criados, inicialmente como locais de encarceramento. Embora a taxa de mortalidade nos campos de concentração fosse elevada (de 50%), eles não eram projetados para serem centros de matança. (Em 1942, seis grandes campos de extermínio foram estabelecidos pelos nazistas na Polônia ocupada, que foram construídos exclusivamente para extermínios em massa). Depois de 1939, os campos tornaram-se cada vez mais lugares onde os judeus e prisioneiros de guerra eram mortos ou obrigados a trabalhar como escravos, ficavam desnutridos e eram torturados. Estima-se que os alemães tenham estabelecido cerca de quinze mil campos e subcampos nos países ocupados, a maioria no leste da Europa. Novos campos foram fundados em áreas com grande populações de judeus, poloneses intelligentsia, comunistas ou ciganos, incluindo dentro da Alemanha. O transporte dos presos era muitas vezes realizado em condições horríveis, usando vagões ferroviários de carga, onde muitos morriam antes de chegar ao destino.
Guetos (1940–1945)
Após a invasão da Polônia, os nazistas estabeleceram guetos em que judeus e alguns ciganos foram confinados até serem finalmente enviados para campos de extermínio. A primeira ordem para a criação dos guetos veio em uma carta datada de 29 de setembro de 1939 a partir de Heydrich para os líderes dos Einsatzgruppen. Cada gueto era administrado por um Judenrat (Conselho Judaico) composto por líderes da comunidade judaica alemã, que eram responsáveis pelo dia a dia do gueto, como a distribuição de alimentos, água, remédios e abrigo. A estratégia básica adotada pelos conselhos era de uma tentativa de minimizar as perdas, em grande parte, cooperando com as autoridades nazistas (ou seus substitutos), aceitando o tratamento cada vez mais terrível e pedindo por melhores condições e clemência.
Conferência de Wannsee e Solução Final (1942–1945)
A Conferência de Wannsee foi convocada por Reinhard Heydrich em 20 de janeiro de 1942, no subúrbio de Wannsee, em Berlim, e reuniu cerca de 15 líderes nazistas que incluíam uma série de secretários de Estado, altos funcionários, líderes do partido, oficiais da SS e outros líderes de departamentos governamentais que eram responsáveis pelas políticas que estavam ligadas às "questões judaicas". O objetivo inicial da reunião era discutir planos para uma solução abrangente para a "questão judaica na Europa". Heydrich pretendia "delinear os assassinatos em massa nos vários territórios ocupados... como parte de uma solução para a questão judaica europeia ordenada por Hitler... para garantir que eles e, especialmente, a burocracia ministerial, iriam compartilhar conhecimento e responsabilidade por esta política".
Tentativas de ocultação
Evidências indicam que, quando a derrota tornou-se evidente e que os líderes nazistas, provavelmente, seriam capturados e levados a julgamento, um grande esforço coordenado foi feito para destruir todas as provas do extermínio em massa. Tal esforço foi denominado, "Kommando 1005 - Sonderaktion 1005". Em novembro de 1942, no escritório de Eichmann em Berlim, conheci o Standartenführer Paul Blobel, que era líder do Kommando 1005, que foi especialmente designado para remover todos os vestígios da solução final (extermínio) do problema judaico pelos Einsatzgruppen e todas as outras execuções. O Kommando 1005 operou pelo menos desde o outono de 1942 até setembro de 1944 e foi todo esse período subordinado a Eichmann. A missão foi constituída depois que se tornou evidente que a Alemanha não seria capaz de manter todo o território ocupado no Leste e foi considerado necessário remover todos os vestígios das execuções criminosas que haviam sido cometidas. Enquanto estava em Berlim em novembro de 1942, Plobel deu uma palestra para a equipe de especialistas de Eichmann sobre a questão judaica dos territórios ocupados. Ele falou sobre os incineradores especiais que construiu pessoalmente para uso no trabalho do Kommando 1005. Era sua tarefa particular abrir as sepulturas, remover e cremar os corpos de pessoas que haviam sido executadas anteriormente. O Kommando 1005 operou na Rússia, Polônia e na região do Báltico. Eu vi Plobel novamente na Hungria em 1944 e ele declarou a Eichmann na minha presença que a missão do Kommando 1005 havia sido completada.
Apoio institucional
O historiador norte-americano Michael Berenbaum afirma que a Alemanha tornou-se um "Estado genocida". Cada braço da sofisticada burocracia do país estava envolvido no processo de matança. Igrejas paroquiais e o Ministério do Interior forneciam registros de nascimento mostrando quem era judeu; os Correios entregaram ordens de deportação e de desnaturalização; o Ministério das Finanças confiscou propriedades judaicas; empresas alemãs demitiram trabalhadores judeus e acionistas judeus foram marginalizados. As universidades se recusavam a aceitar judeus, negavam diploma para aqueles que já estavam estudando e demitiam acadêmicos judeus; companhias de transportes públicos organizaram trens de carga para deportar as vítimas para os campos; as empresas farmacêuticas alemãs testaram drogas nos prisioneiros dos campos; empresas participaram das licitações para a construção dos crematórios; listas detalhadas de vítimas foram elaboradas utilizando máquinas de cartões perfurados da empresa Dehomag (IBM Alemanha), produzindo registros meticulosos dos assassinatos. Quando os prisioneiros entravam nos campos de extermínio, eles eram forçados a entregar toda a sua propriedade pessoal, que era catalogada e etiquetada antes de ser enviada para a Alemanha para ser reutilizada ou reciclada. Berenbaum escreve que a Solução Final para a "questão judaica" foi "aos olhos dos autores... a maior conquista da Alemanha". Através de uma conta oculta, o banco nacional alemão ajudou a lavar objetos de valor roubados das vítimas.
Ideologia e escala
Em outros extermínios étnicos, considerações pragmáticas, como o controle do território e de recursos, eram fundamentais para a política de genocídio. O historiador e estudioso israelense Yehuda Bauer afirma que: A motivação básica [do Holocausto] foi puramente ideológica, enraizada em um mundo ilusório da imaginação nazista, onde uma conspiração judaica internacional para controlar o mundo se opunha aos objetivos arianos. Até então nenhum genocídio tinha sido feito tão completamente baseado em mitos, em alucinações, no abstrato, em ideologias não pragmáticas — e que depois foi executado por meio de maneiras muito racionais e pragmáticas. O historiador alemão Eberhard Jäckel escreveu em 1986 que uma característica distintiva do Holocausto era que:
Experimentos médicos
Uma característica distinta do genocídio nazista foi o uso extensivo de seres humanos em experimentos "médicos". De acordo com Raul Hilberg, "os médicos alemães eram altamente nazificados em comparação com outros profissionais, em termos de filiação partidária". Alguns realizaram experimentos nos campos de concentração de Auschwitz, Dachau, Buchenwald, Ravensbrück, Sachsenhausen e Natzweiler. O mais notório desses médicos foi o Dr. Josef Mengele, que trabalhou no campo de Auschwitz. Seus experimentos incluíam colocar os "objetos" de pesquisa em câmaras de pressão, testar drogas neles, congelá-los e, na tentativa de mudar a cor dos olhos, injetar substâncias químicas nos olhos de crianças, além de várias amputações e outros tipos de cirurgias. A extensão total do seu trabalho nunca será conhecida, porque os registros que ele enviou ao Dr. Otmar von Verschuer na Sociedade Kaiser Wilhelm foram destruídos por von Verschuer. Os indivíduos que sobreviveram aos experimentos de Mengele eram quase sempre mortos e dissecados logo depois.
Identificação de prisioneiros
Face a enorme migração somada às grandes distâncias que separavam os campos de concentração das indústrias bélicas alemãs, para efeito de identificação fora dos campos em vez de números, os administradores tiveram que elaborar uma solução geométrica de identificação que pudesse ser visualizada rapidamente. Os prisioneiros foram requeridos a usar triângulos coloridos nas suas vestes, cujas cores respondiam por seus endereços em campos que geralmente atendiam a sua nacionalidade e preferência política etc.; essa solução tinha por objetivo facilitar as equipes de transportes (por caminhão) identificá-los mais rapidamente no retorno diário, evidentemente após cumprirem suas missões dos centros industriais aos campos.
Campos de extermínio
Durante 1942, além de Auschwitz, outros cinco campos foram designados como campos de extermínio (Vernichtungslager) para a realização do plano de Reinhard. Dois deles — Chełmno e Majdanek — já funcionavam como campos de trabalho forçado e agora iriam funcionar como instalações de extermínio. Três novos campos foram construídos com o único propósito de matar um grande número de judeus, tão rapidamente quanto possível, em Belzec, Sobibor e Treblinka. Um sétimo do campo de Trostinets Maly, na Bielorrússia, também foi usado para este objetivo. Jasenovac era um campo de extermínio, onde foram mortos principalmente sérvios. Campos de extermínio são frequentemente confundidos com campos de concentração, como Dachau e Belsen, que eram localizados em sua maioria na Alemanha e eram lugares de prisão e trabalho forçados para uma variedade de inimigos do regime nazista (tais como comunistas e homossexuais). Eles também devem ser distinguidos dos campos de trabalho escravo, que foram criados em todos os países ocupados pelos alemães para explorar o trabalho de prisioneiros de vários tipos, incluindo prisioneiros de guerra. Em todos os campos nazistas eram muito altas as taxas de mortalidade por fome, doença e exaustão, mas apenas os campos de extermínio eram projetados especificamente para assassinatos em massa.
O número de vítimas depende da forma como o termo "Holocausto" é utilizado. Donald Niewyk e Francis Nicosia escrevem no The Columbia Guide to the Holocaust que o termo é comumente definido como o assassinato em massa de mais de cinco milhões de judeus europeus. Eles afirmam ainda que "nem todo mundo acha essa uma definição totalmente satisfatória.", De acordo com Martin Gilbert, o número total de vítimas é de pouco menos de seis milhões de pessoas, cerca de 78 por cento dos 7,3 milhões de judeus que na época viviam na Europa ocupada. Timothy D. Snyder afirma que "o termo Holocausto é usado às vezes de outras duas maneiras: para se referir a todas as políticas de extermínio alemãs durante a guerra ou para se referir a toda a opressão aos judeus pelo regime nazista.". As definições mais amplas incluem cerca de dois a três milhões prisioneiros de guerra soviéticos, dois milhões de poloneses, cerca de 1,5 milhão de ciganos, duzentos mil deficientes, dissidentes políticos e religiosos, quinze mil homossexuais e cinco mil Testemunhas de Jeová, elevando o número de mortos para cerca de onze milhões de pessoas. Uma definição mais abrangente incluiria seis milhões de civis soviéticos, elevando o número de mortos para dezessete milhões. Um projeto de pesquisa realizado pelo Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos estima que de quinze a vinte milhões de pessoas morreram ou foram presas. R. J. Rummel estima que o total de mortos no democídio da Alemanha nazista seja de cerca de 21 milhões de pessoas. Outras estimativas colocam apenas as vítimas totais de cidadãos soviéticos em cerca de 26 milhões de pessoas mortas.
Judeus
Desde 1945, o número mais citado para o total de judeus mortos durante o Holocausto é o de seis milhões de pessoas. O Museu Yad Vashem em Jerusalém, Israel, afirma que não há estimativas precisas sobre o total de judeus mortos. O número mais comumente utilizado de seis milhões de mortos é atribuído a Adolf Eichmann, um alto funcionário da SS. Cálculos iniciais variam de cerca de 4,2 a 4,5 milhões de mortos no livro The Final Solution (1953), de Gerald Reitlinger (argumentando contra estimativas russas), e de 5,1 milhões, segundo Raul Hilberg, a 5,95 milhões, de acordo com o sociólogo israelense Jacob Lestschinsky. Israel Gutman e Robert Rozett, da Enciclopédia do Holocausto, estimam 5,59-5,86 milhões de mortes. Um estudo conduzido pelo historiador alemão Wolfgang Benz, da Universidade Técnica de Berlim, sugere 5,29-6,2 milhões de mortes. O Museu Yad Vashem afirma que as principais fontes para estas estimativas são comparações de censos anteriores à guerra e após o conflito, além de estimativas populacionais e documentos nazistas sobre deportações e assassinatos. Seu banco de dados central de nomes de Shoah vítimas detém atualmente cerca de três milhões de nomes de vítimas do Holocausto e que está acessível on-line. O Yad Vashem continua seu projeto de coletar os nomes de vítimas judias em documentos históricos e memórias pessoais.
Eslavos
O Generalplan Ost (Plano Geral de Leste) de Heinrich Himmler, que era entusiasticamente apoiado por Hitler, envolveu, no verão de 1942, o extermínio, a expulsão ou a escravização da maioria ou de todos os povos eslavos em suas terras nativas, de modo a tornar esse território livre para colonos alemães viverem, algo que seria realizado ao longo de um período de vinte a trinta anos. A autora e historiadora Doris L. Bergen escreveu: "eu gosto tanto do modo de escrever nazista, o Plano Geral Leste era cheio de eufemismos.... No entanto as suas intenções eram óbvias. Ele também deixou claro que as políticas alemãs em direção a diferentes grupos populacionais estavam intimamente ligadas. A colonização de alemães no leste; a expulsão, a escravização e a dizimação dos povos eslavos e o assassinato de judeus eram todos parte de um mesmo plano.".
Ciganos
A campanha de genocídio de Hitler contra os povos ciganos da Europa era vista por muitos como uma aplicação particularmente bizarra da ciência racial nazista (ver: Nazismo e raça). Antropólogos alemães foram forçados a enfrentar o fato de os ciganos serem descendentes dos invasores arianos, que regressaram à Europa. Ironicamente, isto torna-os não menos arianos que os próprios alemães, pelo menos na prática, senão em teoria. Este dilema foi solucionado pelo professor Hans Gunther, um conhecido cientista racial, que escreveu: Os ciganos retiveram na verdade alguns elementos da sua origem nórdica, mas eles descendem das classes mais baixas da população dessa região. No decurso da sua migração, eles absorveram o sangue dos povos circundantes, tornando-se assim uma mistura racial oriental, asiática-ocidental com uma adição de ascendência indiana, centro-asiática e europeia.
Prisioneiros de guerra soviéticos
De acordo com o rabino e escritor norte-americano Michael Berenbaum, entre dois e três milhões de prisioneiros de guerra soviéticos, ou cerca de 57 por cento de todos os prisioneiros de guerra soviéticos, morreram de fome, maus-tratos ou execuções entre junho de 1941 e maio de 1945 e a maioria das pessoas durante o seu primeiro ano de cativeiro. De acordo com outras estimativas de Daniel Goldhagen, cerca de 2,8 milhões de prisioneiros de guerra soviéticos morreram em oito meses entre 1941 e 1942, com um total de 3,5 milhões em meados de 1944. O Museu Memorial do Holocausto estima que 3,3 milhões dos 5,7 milhões de prisioneiros de guerra soviéticos morreram sob a custódia alemã, em comparação com 8 300 de 231 mil prisioneiros britânicos e norte-americanos, respectivamente. As taxas de mortalidade diminuíram à medida que os prisioneiros de guerra eram necessários para trabalhar como escravos para ajudar no esforço de guerra alemão; em 1943, meio milhão deles tinham sido implantados como trabalhadores escravos.
Deficientes físicos e mentais
O Aktion T4 foi um programa criado em 1939 para manter a "pureza" genética da população alemã através do extermínio ou da esterilização de cidadãos alemães e austríacos que fossem classificados como deficientes físicos ou mentais. Entre 1939 e 1941, de oitenta a cem mil adultos, cinco mil crianças e mil judeus em instituições médicas foram mortos. Fora das instituições de saúde mental, os valores são estimados em 20 mil (de acordo com o Dr. Georg Renno, o vice-diretor do Castelo de Hartheim, um dos centros de eutanásia) ou quatrocentos mil (de acordo com Frank Zeireis, o comandante do campo de concentração de Mauthausen). Outros 300 mil foram esterilizados à força. No geral estima-se que mais de duzentas mil pessoas com transtornos mentais de todos os tipos foram condenadas à morte, embora o seu assassinato em massa tenha recebido relativamente pouca atenção histórica. Junto com os deficientes físicos, pessoas que sofriam de nanismo também foram perseguidas. Muitas foram colocadas em exposição em gaiolas e sofreram experimentos médicos feitos pelos nazistas. Apesar de não serem formalmente obrigados a participar, psiquiatras e instituições psiquiátricas estiveram no centro do embasamento, planejamento e execução dessas atrocidades em cada estágio e "constituíram a ligação" com a aniquilação dos judeus e de outras pessoas "indesejáveis" durante o Holocausto. Depois de fortes protestos por parte das igrejas católicas e protestantes alemãs em 24 de agosto de 1941, Hitler ordenou o cancelamento do programa T4.
Homossexuais
Estima-se que entre cinco mil e quinze mil homossexuais alemães foram enviados para campos de concentração. James D. Steakley afirma que o que importava na Alemanha era a intenção em vez de atos criminosos e a "gesundes Volksempfinden" ("sensibilidade saudável das pessoas") tornou-se o principal princípio jurídico normativo. Em 1936, Himmler criou o Escritório Central do Reich para o Combate à Homossexualidade e ao Aborto. A homossexualidade foi declarada contrária ao "sentimento popular saudável" e, consequentemente, os homossexuais foram considerados como "profanadores do sangue alemão". A Gestapo invadiu bares gays, indivíduos foram rastreados através das agendas de endereços daqueles que já tinham sido presos, listas de assinaturas de revistas gays foram utilizadas para perseguir homossexuais e a população era estimulada a denunciar suspeitas de comportamento homossexual e a examinar o comportamento de seus vizinhos.
As consequências do Holocausto judeu tiveram um efeito profundo sobre a sociedade, tanto na Europa quanto no resto do mundo. Seu impacto pode ser sentido em discussões teológicas, atividades artísticas e culturais e decisões políticas. O destino dos sobreviventes do Holocausto também se tornou uma questão importante, uma vez que levou à criação do Estado de Israel através da diáspora judaica. O Holocausto deixou milhões de refugiados, incluindo muitos judeus que tinham perdido a maior parte ou todos os seus bens e familiares, e muitas vezes ainda tinham de enfrentar o persistente antissemitismo em seus países de origem no período pós-guerra. O plano original dos Aliados era o de repatriar essas "pessoas deslocadas" para seus países de origem, mas muitos se recusaram ou não puderam voltar, visto que suas casas ou comunidades haviam sido destruídas. Como resultado, mais de 250 mil sobreviventes definharam em campos de refugiados durante anos após o fim da guerra. Como a maioria das pessoas deslocadas não podiam ou não queriam voltar para suas antigas casas na Europa e como as restrições à imigração para muitos países ocidentais ainda eram grandes, a Palestina tornou-se o principal destino para muitos refugiados judeus. No entanto, os povos árabes locais se opuseram à imigração, o Reino Unido recusou-se a permitir que os refugiados judeus migrassem para o Mandato Britânico na Palestina e muitos países do bloco soviético tornaram a emigração difícil. Ex-guerrilheiros judeus na Europa, juntamente com o Haganah na Palestina, organizaram um grande esforço para contrabandear judeus para a Palestina, chamado Berihá, que transportou 250 mil judeus para o mandato. Em 1952, os campos de desalojados judeus foram fechados, com mais de oitenta mil judeus nos Estados Unidos, cerca de 136 mil em Israel e outros 20 mil em outros países, como Canadá e África do Sul.
Funcionalismo versus Intencionalismo
Um tema frequente nos estudos contemporâneos sobre o Holocausto é a questão de funcionalismo versus intencionalismo. Os intencionalistas acham que o Holocausto foi planejado por Hitler desde o início. Funcionalistas defendem que o Holocausto foi iniciado em 1942 como resultado do fracasso da política nazista de deportação e das iminentes perdas militares na Rússia. Eles dizem que as fantasias de exterminação delineadas por Hitler em Mein Kampf e outra literatura nazista eram mera propaganda (ver: Propaganda nazi) e não constituíam planos concretos (curiosamente esta foi também a estratégia da argumentação da defesa dos nazistas perante os julgamentos de Nuremberga). Autoridades do governo nazista tentaram destruir as provas do Holocausto. Uma destas tentativas foi a operação Sonderaktion 1005.
Revisionistas e negadores
Algumas pessoas que duvidam do Holocausto são classificadas como negacionistas do Holocausto. Esses pesquisadores afirmam que muito menos de seis milhões de judeus tiveram seus últimos dias nos campos de concentração e que as mortes não foram o resultado da política deliberada dos alemães. Este grupo, não reconhecido academicamente por historiadores e pesquisadores, alega que o Holocausto definitivamente nunca existiu. Esta tese é normalmente acompanhada de números que entram em choque com os números amplamente aceitos. É comum que esta ideia seja associada imediatamente ao racismo, ao nazismo e ao neonazismo. Muitos que acreditam na versão histórica afirmam categoricamente que o negacionismo é uma forma de antissemitismo. Muitos negacionistas, por outro lado, afirmam não serem antissemitas, e que querem meramente contar a história como deve ser. Estas pessoas dizem que estão contentes por menos pessoas terem sido mortas do que previamente julgado e que desejam que outras pessoas interpretem os dados negacionistas como boas notícias. Porém, muitas vezes é possível identificar a divulgação de informações antissemitas nos mesmos meios ou pelas mesmas pessoas que divulgam essas ideias.
Ramificações políticas
O Holocausto teve várias ramificações políticas e sociais que se estendem até ao presente. A necessidade de encontrar um território para muitos refugiados judeus levou a uma grande imigração para o Mandato Britânico da Palestina, que na sua maior parte se tornou naquilo que é hoje o moderno Estado de Israel. Esta imigração teve um efeito direto nos árabes da região, levando ao conflito israelo-árabe e ao conflito israelo-palestiniano.


