A Flauta Mágica
A Flauta Mágica KV 620 é uma ópera (singspiel) em dois atos de Wolfgang Amadeus Mozart, com libreto alemão de Emanuel Schikaneder. Estreou no Theater auf der Wieden em Viena, no dia 30 de setembro de 1791.
A Flauta Mágica foi produzida no século XVIII, período histórico em que a linha de pensamento do homem sofria uma mudança radical através do Iluminismo, conjunto de ideais filosóficos que defendiam a dissociação de pensamento com a Igreja, ocorrida durante a Idade Média e a valorização de uma visão de mundo racional, em que a sabedoria aparece como única possibilidade de justiça e igualdade entre os homens, o que imediatamente coloca em xeque as relações de poder e subordinação da sociedade da época e a legitimidade dos aristocratas e das tiranias. Nesse contexto, A Flauta Mágica apresenta-se como uma ópera de formação e como uma alegoria para as provações pelas quais o homem precisa passar para sair das trevas do pensamento medieval em direção da luz iluminista. Assim, as principais personagens Tamino e Pamina enfrentam os obstáculos impostos pelos membros do Templo da Sabedoria para juntos, ao final da ópera, encontrarem a realização plena e a união ideal.
Die Schuldigkeit des Ersten Gebots (1767) Apollo et Hyacinthus (1767) Bastien und Bastienne (1768) La finta semplice (1769) Mitridate, ré di Ponto (1770) La Betulia liberata (1771) Ascanio in Alba (1771) Il sogno di Scipione (1772) Lucio Silla (1772) La finta giardiniera (1775) Il re pastore (1775) Zaide (1780) Idomeneo, ré di Creta (1781) O Rapto do Serralho (1782) L'oca del Cairo (1783) Lo sposo deluso (1784) O Empresário Teatral (1786) As Bodas de Fígaro (1786) Don Giovanni (1787) Così fan tutte (1790) A Flauta Mágica (1791) A Clemência de Tito (1791) A ópera foi o resultado de um período de crescente envolvimento de Mozart com a trupe de teatro de Schikaneder, que desde 1789 atuava no Theater auf der Wieden. Mozart era amigo íntimo de um dos cantores-compositores do grupo, o tenor Benedikt Schack (o primeiro Tamino), e contribuiu diversas vezes com composições para a trupe. A participação de Mozart aumentou com a ópera colaborativa Der Stein der Weisen ("A Pedra Filosofal"), incluindo o dueto (Nun liebes Weibchen, K. 625/592a), e acabou levando à composição da Flauta Mágica em 1791. Enquanto Schikaneder se propôs a escrever o libreto da peça, Mozart ficou responsável por sua melodia.
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A ópera estreou em Viena no dia 30 de setembro de 1791 no teatro Freihaus-Theater auf der Wieden. Mozart foi o condutor da orquestra e Schikaneder, responsável pelo texto da ópera, também atuou no papel de Papageno. Tamino ficou a cargo do compositor Benedikt Schak, e a cunhada de Mozart, Josepha Hofer, assumiu o papel da Rainha da Noite. Inicialmente a peça pareceu não ter agradado o público vienense, mas não demorou muito para que a situação se invertesse, e a ópera passasse a ser aclamada por pessoas que não se cansavam de lotar o teatro onde ela estava sendo apresentada todas as noites, como comenta Mozart em uma de suas cartas à esposa: Ao voltar da Ópera, com a maior satisfação e sentimento de alegria, encontrei sua carta. Ainda que sábado, por ser dia de Correio, seja um mau dia, a Ópera foi apresentada toda com teatro lotado, e os aplausos e repetições de costume. Amanhã será apresentada novamente (…)
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Há dois casais que se formam na ópera, Papageno e Papagena, simbolizando o lado comum da humanidade, e Tamino e Pamina, simbolizando o iniciado. O contexto é uma luta entre a Rainha da Noite, que ambiciona o poder, e Sarastro, o grande sacerdote que só pratica o bem. Para Sarastro trabalha, porém, o mouro Monostatos, que tenta seduzir Pamina e se alia à Rainha da Noite. A obra começa com Tamino perdido na floresta, onde encontra Papageno, um homem alegre que aprecia os prazeres da vida e trabalha para a Rainha da Noite. Deste encontro Tamino fica sabendo que Pamina, filha da Rainha da Noite, foi sequestrada por Sarastro e, apaixonado pela sua beleza e a pedido da Rainha da Noite, decide resgatá-la. Na sequência, ambos passam por várias provas antes de poderem se encontrar. Papageno também passa por um tipo de prova antes de encontrar Papagena, e este contraponto do homem comum que se comporta de modo diferente do príncipe diante das adversidades é o lado cômico que faz esta ópera tão popular.
Ato I
O príncipe Tamino entra num bosque para fugir da perseguição de uma serpente monstruosa. Cai de cansaço e é salvo por três damas da Rainha da Noite. As mulheres ficam maravilhadas com a sua beleza e correm a dar a novidade à sua senhora, a Rainha da Noite. Enquanto isso, Papageno, um caçador de pássaros e servo da Rainha, entra em cena. Ele mente, dizendo que matou a serpente. As damas, ao voltarem, castigaram o mentiroso colocando na boca uma espécie de cadeado. As damas mostram um retrato da filha da Rainha da Noite para Tamino que, ao vê-la, fica apaixonado. Depois da ária de Tamino onde ele demonstra toda sua paixão por Pamina, chega a própria Rainha da Noite, que, comovida pelas palavras de amor do príncipe, revela o sequestro de Pamina por Sarastro, rei e sacerdote de Ísis, prometendo ao jovem a mão da donzela se ele conseguir resgatá-la com segurança do Templo do rei. Tamino aceita o desafio. Em troca, as três damas entregam a ele uma oferta da rainha: uma flauta mágica em ouro, que é capaz de mudar o estado de espírito dos seres vivos que a escutam. Papageno, que irá acompanhar o príncipe em sua jornada, ganha um carrilhão mágico, também com poderes extraordinários.
Ato II
Num bosque de palmeiras, Tamino e Papageno reúnem-se para serem iniciados pelos sacerdotes na presença do rei. Uma das provas a que ambos são submetidos é a de ficar em silêncio. Durante a prova, ambos passam por diversas tentações, que tem por objetivo desviá-los do caminho da virtude. Enquanto Tamino tem persistência para se manter calado, Papageno é facilmente distraído pelas três damas da Rainha da Noite, que aparecem para atormentar os dois e fazê-los quebrarem seu juramento. Pamina está num jardim. Aparece a Rainha da Noite, informando-a que o seu amado se aliou com o inimigo. A jovem percebe que é o coração de sua mãe que destila maldade e ódio. Esta dá um punhal à filha, exigindo-lhe que mate Sarastro sob pena de ser rechaçada para sempre por ela. Pamina fica horrorizada. Nesse momento, aparece Monostatos que ouviu toda a conversa e tenta fazer chantagem. Não obstante, o diálogo também tinha sido escutado pelo rei que manda prender o escravo e pede a Pamina paciência e compreensão, tranquilizando-a.
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Mais de duzentos anos após sua primeira apresentação, A Flauta Mágica continua a encantar pessoas no mundo inteiro. Uma das óperas mais conhecidas e reproduzidas da Alemanha – e no mundo –, sua bela história conseguiu ultrapassar o domínio da ópera, influenciando também a literatura, o cinema e as artes. Em 1935 a animadora Lotte Reiniger produziu o stop motion Papageno, baseado na história do personagem homônimo e utilizando músicas da ópera. Nas artes, o escultor e artista escocês Eduardo Paolozzi produziu, em 1994, uma serigrafia que ilustra, com seu estilo moderno, a chegada da Rainha da Noite no segundo Ato da Flauta Mágica. No cinema, a ópera de Mozart inspirou uma adaptação dirigida pelo diretor sueco Ingmar Bergman, exibida no Festival de Cannes em 1975. Sua versão é marcada por várias mudanças na história original, como a figura de Sarastro, que passa a ser o pai e guardião legal de Pamina, e o canto para os deuses Ísis e Osíris – Cena I do Ato II –, que é substituído pelo canto dos Deuses da Luz.
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Em março de 2007, o austríaco Martin Kušej dirigiu uma adaptação moderna da ópera no teatro Opernhaus Zürick, na Suíça. Em sua versão, o diretor fez uso de uma bela cenografia, que se movimentava durante toda a história, dando mais dinâmica à peça. Em abril de 2008, a ópera Zauberflöte in der U-Bahn entrou em cartaz em Berlim, sendo encenada dentro do metrô da cidade, onde hoje se encontra a U-Bahnlinie U55. Contornando o problema da falta de espaço e abusando do jogo de luzes e sombras, o trabalho dirigido por Christoph Hegel se mostra como uma das adaptações mais desafiadoras da ópera.


