Deus e o Diabo na Terra do Sol
Deus e o Diabo na Terra do Sol é um filme brasileiro de 1964 dos gêneros drama e faroeste, dirigido por Glauber Rocha, com roteiro escrito por ele e Walter Lima Jr.. No elenco principal, estavam nomes como Geraldo Del Rey, Yoná Magalhães, Othon Bastos, Sônia dos Humildes e Maurício do Valle. O filme foi produzido pela Copacabana Filmes, que também fez a distribuição da obra ao lado da Herbert Richers S.A.. A trama acompanha Manoel, um vaqueiro que fica revoltado por ser explorado pelo coronel Moraes, acabando por matá-lo em uma briga. Perseguido por jagunços, foge com sua esposa Rosa, se juntando a um grupo de seguidores do beato Sebastião, que promete o fim do sofrimento através do retorno a um catolicismo místico e ritual. Enquanto isso, o matador de cangaceiros Antônio das Mortes é contratado para exterminar os seguidores do beato.
Sertão, 1940. O sertanejo Manoel e sua mulher Rosa levam uma vida sofrida no interior do país, uma terra desolada e marcada pela seca. No entanto, Manoel tem um plano: usar o lucro obtido na partilha do gado com o coronel para comprar um pedaço de terra. Quando leva o gado para a cidade, alguns animais morrem no percurso. Chegado o momento da partilha, o coronel diz que não vai dar nada a Manoel, porque o gado que morreu era dele, ao passo que o que chegou vivo era seu. Manoel se enfurece, mata o coronel e foge para casa. Perseguido por jagunços, ele e sua esposa resolvem ir embora e fugir, deixando tudo para trás. Manoel decide juntar-se a um grupo religioso liderado por um santo (Sebastião) que lutava contra os grandes latifundiários e em busca do paraíso após a morte. Os latifundiários decidem contratar Antônio das Mortes, que se autodenomina "matador de cangaceiros", para perseguir e matar o grupo. Rosa esfaqueia Sebastião após vê-lo matar um bebê que estava nos braços de Manoel. Antônio das Mortes chega e assassina todos os fiéis, exceto o casal. Os dois fogem novamente.
"Uma estética da violência antes de ser primitiva é revolucionária, eis aí o ponto inicial para que o colonizador compreenda a existência do colonizado.". Deus e o Diabo na Terra do Sol foi o segundo longa-metragem de Glauber Rocha, que anteriormente havia dirigido o curta Pátio (1959) e Barravento (1962). O filme foi produzido após o golpe militar de 1964, época em que o Cinema Novo, movimento cinematográfico brasileiro influenciado pelo Neorrealismo italiano e pela Nouvelle vague, estava em seu auge, em um tempo que foi marcado pelo descontentamento de um grupo de cineastas com relação às questões políticas e sociais do país. O movimento ficou marcado pela desigualdade e a opressão de um contexto de luta que marcou não só o movimento como o terceiro mundo nessa época. Glauber, fascinado com a vitalidade, energia e violência de Corisco, realiza Deus e o Diabo na Terra do Sol em 1963. O roteiro, escrito por Rocha ao lado de Walter Lima Jr., amplia a sua crítica social em relação à exploração de sertanejos e à pobreza no sertão do nordeste. Adriano Lisboa foi chamado por Rocha para interpretar Corisco, porém não pôde, que o fez chamar Othon Bastos para o papel, que conheceu na Escola de Teatro da Bahia. Entre os outros nomes do elenco, participaram Geraldo Del Rey, Yoná Magalhães, Sônia dos Humildes como Dadá, e Maurício do Valle como Antônio das Mortes. O personagem de Valle ficou tão popular que voltaria em outro filme de Glauber Rocha, O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro.
O filme foi lançado comercialmente nos cinemas brasileiros em 1 de junho de 1964, no Rio de Janeiro. Teve uma pré-estreia alguns dias antes, em 28 de maio em São Paulo.
Home video e restauração
Em dezembro de 2002, o longa foi lançado em DVD pela Versátil Home Vídeo, em parceria com a RioFilme. Na América do Norte, teve um lançamento em DVD pela Koch Entertainment. Em 2022, na 75º edição do Festival de Cannes, foi reexibido em uma versão restaurada em 4K, na sessão "Cannes Classics", 58 anos depois de sua estreia mundial.
Opinião da crítica
No agregador de críticas de cinema Rotten Tomatoes, Deus e o Diabo na Terra do Sol recebeu uma aprovação de 100% com base em 15 avaliações de críticos, registrando uma nota de 8,3 de 10. O Metacritic, que usa uma média ponderada, atribuiu ao longa uma pontuação de 74 em 100, baseado em 6 críticos, indicando "geralmente favorável". A.H. Weiler, do The New York Times, elogiou o filme, chamando-o de "Simples, em preto e branco, mais impactante como uma polêmica chocante do que como um drama memorável". Ted Shen, do The Chicago Reader, escreveu: "A fusão de elementos europeus e afro-brasileiros — diálogos, imagens requintadas em preto e branco e música de Villa-Lobos — é surpreendentemente original e poética ao transmitir a esperança e o desespero dos oprimidos". A revista Time Out elogiou o estilo do filme como sendo "algo entre balada folclórica e mito contemporâneo, já que as referências à história e cultura brasileiras são onipresentes e bastante opacas para os não iniciados".
Listas de melhores, essenciais, e mais importantes filmes
Deus e o Diabo na Terra do Sol foi incluído em diversas prestigiadas listas de melhores, essenciais, e mais importantes filmes brasileiros, entre elas na lista da Folha de S.Paulo, Associação Brasileira de Críticos de Cinema, Rolling Stone, Terra, Gazeta do Povo e O Globo, sempre nas primeiras dez colocações. Em maio de 2026, a Abraccine atualizou sua lista, agora como os filmes brasileiros mais importantes em ordem cronológica, contando com o longa de Glauber.
Prêmios e indicações
Em 1964, foi indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes, ao lado do também brasileiro Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos. No mesmo ano, recebeu o Prêmio Náiade de Ouro no Festival do Cinema Livre, e o Prêmio Governador do Estado de Melhor Música para Sérgio Ricardo. No Prêmio Saci de 1965, Luiz Augusto Mendes recebeu o prêmio de Melhor Produtor, enquanto o ator Maurício do Valle recebeu o de Melhor Ator Coadjuvante. Em 1966, no Festival de Acapulco, recebeu o Prêmio Especial do Júri. Ainda foi o representante brasileiro ao Oscar de Melhor Filme Internacional.
Deus e o Diabo na Terra do Sol é, até os dias atuais, reverenciado como revolucionário e um dos melhores filmes brasileiros já produzidos na história. O filme de Glauber Rocha é admirado e elogiado por diversas personalidades, como o premiado cineasta estadunidense Martin Scorcese, que afirmou que a obra de Glauber e o movimento Cinema Novo no geral é inspirador para seu trabalho. Em entrevistas, o renomado e aclamado cineasta brasileiro Walter Salles incluiu o longa em sua lista dos quatro melhores filmes brasileiros. Em sua participação no programa Criterion Closet, o ator Wagner Moura incluiu o filme entre os seus favoritos. Após a morte do diretor Glauber Rocha em 1981, o Cine Guarani, considerado a casa do cinema da Bahia e onde Rocha estreou Deus e o Diabo na Terra do Sol, passou a se chamar Cine Glauber Rocha, em sua homenagem. A logo do cinema faz referência ao icônico cartaz do filme, idealizado por Rogério Duarte, sendo considerado um dos cartazes mais bonitos da história do cinema e um símbolo da cultura efervescente no Brasil da década de 60.


