Crucificação de Jesus
Crucificação de Jesus foi um evento que ocorreu, provavelmente, entre o ano 30 d.C. e 33 d.C. Jesus, que os cristãos acreditam ser o Filho de Deus e também o Messias, foi preso, julgado pelo Sinédrio e condenado por Pôncio Pilatos a ser flagelado e finalmente executado na cruz. Coletivamente chamados de Paixão, o sofrimento e morte de Jesus representam aspectos centrais da teologia cristã, incluindo as doutrinas da salvação e da expiação.
Os estudiosos modernos consideram o batismo de Jesus e a sua crucificação como sendo dois fatos historicamente certos sobre ele. James Dunn afirma que estes "dois fatos na vida de Jesus detém hoje uma concordância quase universal" e "figuram bem alto na escala do 'quase impossível duvidar ou negar' dos fatos históricos" que eles são geralmente os pontos de partida para o estudo do Jesus histórico. Bart Ehrman afirma que a crucificação por ordem de Pôncio Pilatos é o elemento mais certo que sabemos sobre ele. John Dominic Crossan afirma que a crucificação de Jesus é tão certa quanto um fato histórico pode ser. Eddy e Boyd afirmam que está atualmente "firmemente estabelecido" que existe confirmação por fontes não cristãs sobre a crucificação de Jesus. Craig Blomberg afirma que a maioria dos acadêmicos na terceira busca pelo Jesus histórico consideram a crucificação indisputável. Ainda que os estudiosos concordem na historicidade da crucificação, eles discordam sobre as razões e sobre o contexto em que ela se insere, por exemplo E. P. Sanders e Paula Fredriksen defendem a historicidade da crucificação, mas argumentam que ele não a teria previsto e que a sua profecia sobre sua morte é uma história cristã. Christopher M. Tuckett afirma que, embora as razões exatas para a morte de Jesus sejam difíceis de determinar, um dos fatos inquestionáveis sobre ele é que ele foi crucificado. Geza Vermes também entende que a crucificação é um evento histórico, mas apresenta sua própria explicação e contexto para ela.
Narrativas bíblicas
As primeiras narrativas históricas detalhadas sobre a morte de Jesus estão nos quatro evangelhos canônicos (Mateus 27:33–44; Marcos 15:22–32; Lucas 23:33–43; João 19:17–30). Há outras referências implícitas nas epístolas do Novo Testamento. Nos evangelhos sinóticos, Jesus prevê sua morte em três ocasiões diferentes. De acordo com os quatro evangelhos, Jesus foi levado ao "Lugar com uma caveira" ("Calvário") («e em hebraico Gólgota» (João 19:17)) e crucificado juntamente com dois ladrões, acusado de ser o "Rei dos Judeus" e os soldados dividiram suas roupas entre si antes de curvar sua cabeça e morrer. Após a morte de Jesus, José de Arimateia requisitou o corpo a Pilatos, que ele retirou da cruz e depositou um novo túmulo.
Outros relatos e referências
Uma das primeiras referências não cristãs à crucificação de Jesus é provavelmente a carta de Mara bar Serapião para o seu filho, escrita em algum momento após 73, mas antes do século III. A carta não contém temas cristãos e supõe-se que o autor fosse pagão. Ela faz referência às retribuições que se seguiram ao tratamento injusto dado a três sábios: Sócrates, Pitágoras e "o sábio rei" dos judeus. Alguns acadêmicos tem poucas dúvidas de que se trata de uma referência à execução do "rei dos judeus" trata da crucificação de Jesus, enquanto outros dão menos valor à carta dada a possível ambiguidade da referência. Em sua obra "Antiguidades Judaicas" (escrita por volta de 93 d.C.), o historiador judeu Flávio Josefo afirmou que Jesus foi crucificado por Pilatos, escrevendo queː
Cronologia da crucificação
Embora não haja consenso sobre a data exata da crucificação, os estudiosos geralmente concordam que ela ocorreu numa sexta-feira de ou próxima da Páscoa judaica (15 de Nisan), durante o governo de Pôncio Pilatos (r. 26-36). Como o calendário hebreu era utilizado no tempo de Jesus e ele incluía a determinação dada de uma nova fase da lua e do amadurecimento da colheita da cevada, o dia - e mesmo o mês - exato da Páscoa judaica num determinado ano é tema de muita especulação. Várias abordagens já foram utilizadas para estimar o ano da crucificação, inclusive o uso dos evangelhos canônicos, a cronologia da vida de Paulo de Tarso, assim como diferentes modelos astronômicos (veja Cronologia de Jesus). Estas estimativas para o ano da crucificação resultaram numa faixa entre 30 e 36 d.C. Uma data frequentemente sugerida é sexta-feira, 3 de abril de 33.
Caminho para a crucificação
Os três evangelhos sinóticos fazem referência a um homem chamado Simão Cirineu, que foi obrigado a carregar a cruz, enquanto que, no Evangelho segundo João, diz-se que Jesus "suportou" sua própria cruz (João 19:17). O Evangelho segundo Lucas também descreve uma interação entre Jesus e as mulheres que estavam na multidão de lamentadores que o seguia, citando Jesus dizendo: «Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; mas chorai por vós mesmas e por vossos filhos, porque dias virão, em que se dirá: 'Bem-aventuradas as estéreis, os ventres que nunca geraram e os peitos que nunca amamentaram.' Então começarão a dizer aos montes: 'Cai sobre nós', e aos outeiros: 'Cobri-nos', porque se isto se faz no lenho verde, que se fará no seco?» (Lucas 23:28–31).
Local da crucificação
A localização precisa da crucificação permanece tema de muitas conjecturas, mas os relatos bíblicos indicam que ela ocorreu fora dos muros da cidade, num local acessível aos que passavam e passível de ser observado a distância. Eusébio de Cesareia identificou sua localização como sendo ao norte do Monte Sião, local consistente com os dois locais mais citados em tempos modernos. Calvário é uma palavra que deriva da palavra latina para "caveira" (calvaria), que é utilizada na tradução Vulgata como "local da caveira", a explicação dada nos quatro evangelhos para a palavra aramaico Gûlgaltâ, que era o nome do local da crucificação. Os evangelhos não explicam por que ele era chamado assim, mas diversas teorias já foram propostas. Uma é de que, como o local se prestava às execuções públicas, o Calvário poderia estar repleto de caveiras de vítimas abandonadas (o que seria contrário às tradições funerárias judaicas, mas não às romanas). Outra é de que o Calvário foi chamado assim por causa de um cemitério próximo (o que é consistente com ambos os locais propostos em tempos modernos). Uma terceira teoria é de que o nome deriva do contorno físico do local, o que seria mais consistente com o uso da palavra no singular, ou seja, "local da caveira". Mesmo sendo geralmente chamado de "Monte do Calvário", o local era provavelmente uma pequena colina ou um formação rochosa.
Pessoas presentes na crucificação
Mateus 27:1–66 apresenta diversos indivíduos presentes na crucificação. Dois "rebeldes" ou "ladrões" foram crucificados juntamente com Jesus, um à direita e outro à esquerda (v. 38). Há ainda o centurião, que segundo um relato posterior se chamava Petrônio, e outros soldados guardando todos os crucificados (v. 54). Além disso, observando à distância, estavam "muitas mulheres", seguidoras de Jesus durante o seu ministério (v. 55), principalmente "Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José e a mulher de Zebedeu" (v. 56). Lucas 23:28–31 afirma que, no caminho do Calvário, Jesus falou com diversas mulheres que estavam na multidão, chamando-as de "filhas de Jerusalém". Estudiosos bíblicos já apresentaram diversas teorias sobre a identidade delas e também das que estavam presentes na crucificação, incluindo entre elas Maria, mãe de Jesus, e Maria Madalena.
Como o Novo Testamento não fornece detalhe exatos sobre o processo da crucificação de Jesus, vários elementos do método empregado tem sido tema de debates.
Formato do cadafalso
Ainda que a maior parte dos cristãos acredite que o cadafalso no qual Jesus foi executado seja a tradicional cruz de duas traves, existe um debate sobre o ponto de vista defendido por alguns de que uma estaca simples teria sido utilizada. As palavras gregas e latinas utilizadas nos primeiros escritos cristãos são ambíguas. Os termos em grego koiné utilizados no Novo Testamento são stauros (σταυρός) e xylon (ξύλον). Esta última significa "madeira" (uma árvore viva, lenha ou um objeto construído de madeira); nas formas antigas do grego, o primeiro termo significava uma estaca vertical ou um poste, mas em grego koiné ele também é utilizado para descrever a cruz. A palavra latina crux também foi aplicada a objetos que não são cruzes.
Pregos
A assunção de que foi utilizada uma cruz com duas traves para crucificar Jesus não determina o número de pregos, também chamados de cravos, utilizado e algumas teorias sugerem três enquanto outras sugerem quatro. Porém, por toda a história, um grande número de pregos foram propostos, números tão altos quanto 14 já foram propostos. Estas variações também aparecem nas representações artísticas da crucificação. Na Igreja Ocidental, antes do Renascimento, geralmente quatro pregos apareciam, com os pés colocados um ao lado do outro. Após, a maior parte traz apenas três pregos, com um pé colocado sobre o outro. Os pregos quase sempre são representados na arte, embora os romanos por vezes apenas amarrassem as vítimas nas cruz. A tradição também influenciou emblemas cristãos, como no caso dos jesuítas, em cujo monograma estão três pregos e a cruz.
Plataforma de apoio
Outro assunto discutido tem sido o uso de um hypopodium como uma plataforma de apoio para os pés, dado que as mãos podem não ter sido capazes de suportar o peso. No século XVII, Rasmus Bartholin considerou diversos cenários analíticos sobre o tema. No século XX, o patologista forense Frederick Zugibe realizou diversos experimentos de crucificação se valendo de cordas para pendurar pessoas em vários ângulos e posições de mãos. Seus experimentos apoiam uma suspensão em ângulo, uma cruz de duas traves e, talvez, uma forma de apoio para os pés, dado que uma suspensão na forma Aufbinden a partir de uma estaca única (como utilizada pelos nazistas no campo de concentração de Dachau durante a Segunda Guerra), a morte ocorre rapidamente.
Os evangelistas registraram sete frases ditas por Jesus enquanto estava na cruz: Todas as frases são exclamações curtas. Veja abaixo sobre como, em face à asfixia por exaustão, obter ar suficiente para falar numa cruz pode ser uma tarefa muito dolorosa e cansativa para a vítima. As últimas palavras de Jesus têm sido o tema de uma diversidade de ensinamentos e sermões cristãos e diversos autores escreveram obras especificamente dedicadas a elas. Porém, como as últimas palavras diferem entre os quatro evangelhos, James Dunn demonstrou dúvidas em relação à sua historicidade.
Marcos menciona uma escuridão durante o dia quando Jesus foi crucificado e o véu do Templo se rasgou em dois quando Jesus morreu. Mateus segue Marcos, adicionando um terremoto e a ressurreição dos santos. Lucas também segue Marcos. Em João, não há referência a estes sinais milagrosos, com exceção da própria ressurreição.
Escuridão e eclipse
Na narrativa dos evangelhos sinóticos, enquanto Jesus estava preso na cruz, o céu se "escureceu" por três horas, da hora sexta até a nona (do meio-dia às três da tarde). Tanto o orador romano Júlio Africano e o teólogo cristão Orígenes se referem ao historiador grego Flégon como tendo escrito "a respeito do eclipse durante o tempo de Tibério, em cujo reinado Jesus parece ter sido crucificado, e aos grandes terremotos que ocorreram". Júlio Africano se refere ainda às obras do historiador Thallus ao negar a possibilidade de um eclipse solar: "Esta escuridão que Thallus, no terceiro livro de sua "História", chama, para mim sem razão, de um eclipse solar. Pois os hebreus celebram a Páscoa no décimo-quarto dia de acordo com a lua e a Paixão de nosso Salvador cai no dia anterior à Páscoa; mas um eclipse do sol ocorre apenas quando a lua entra na frente do sol". Uma eclipse solar ocorrendo juntamente com uma lua cheia é uma impossibilidade científica. O apologista cristão Tertuliano escreveu "Na mesma hora, também, a luz do dia foi retirada, quando o sol, na mesma hora, estava no seu fulgor meridiano. Os que não sabem que isto foi previsto sobre Cristo, sem dúvida acreditam que se tratou de um eclipse. Vocês próprios tem um relato do augúrio mundial em vossos arquivos". A escuridão foi reportada em lugares tão distantes quanto Heliópolis e, aparentemente, a ocorrência sobrenatural também foi citada por São Paulo ao converter Dionísio ao cristianismo.
O véu do Templo, terremoto e a ressurreição dos santos
Os evangelhos sinóticos afirmam que o véu do templo se rasgou de cima a baixo. De acordo com Josefo, a cortina do templo de Herodes teria quase sessenta metros de comprimento, com 4 milímetros de espessura. De acordo com Hebreus 9:1–10, esta cortina representava a separação entre os homens e Deus, além da qual somente o sumo-sacerdote poderia passar e, mesmo assim, somente uma vez por ano para adentrar-se na presença de Deus e se redimir dos pecados de Israel (capítulo 16 do Levítico). O Evangelho segundo Mateus afirma que houve também terremotos, partindo rochas e abrindo os túmulos dos santos (que posteriormente ressuscitaram após a ressurreição de Jesus). Estes santos ressuscitados foram para a cidade sagrada e apareceram para diversas pessoas, mas o seu destino jamais foi elaborado.
Cristologia da crucificação
Os relatos sobre a crucificação e a subsequente ressurreição de Jesus fornecem um rico contexto para a análise cristológica, dos evangelhos canônicos até as epístolas paulinas. Na cristologia agente joanina, a submissão de Jesus à crucificação é um sacrifício feito como um "agente de Deus" ou "servo de Deus", em prol de uma eventual vitória. Este argumento elabora sobre o tema salvífico do Evangelho segundo João, que começa em João 1:29 com a proclamação de João Batista: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!". Um elemento central na cristologia apresentada nos Atos dos Apóstolos é a afirmação na crença de que a morte de Jesus na cruz aconteceu "com Deus sabendo com antecedência e de acordo com um plano definido". Neste ponto de vista, como em Atos 2:23, a cruz não é vista como um escândalo, pois a crucificação de Jesus "pelas mãos dos sem lei" é vista como sendo o cumprimento do plano de Deus.
Expiação
A morte e a ressurreição de Jesus suportam uma variedade de interpretações teológicas sobre como a salvação é concedida à humanidade. Estas interpretações variam muito principalmente em quanta ênfase elas dão à morte de Jesus em comparação com suas palavras. De acordo com visão da expiação substitucionária, a morte de Jesus é de importância central e Jesus conscientemente se sacrificou como um ato de perfeita obediência como um sacrifício de amor que agradou a Deus. Em contraste, a teoria da expiação por influência moral foca muito mais no conteúdo moral dos ensinamentos de Jesus e vê a sua morte como um martírio. Desde a Idade Média há um conflito entre estes dois pontos de vista na Igreja Ocidental. Os protestantes evangélicos tipicamente defendem uma visão substitucional e, em particular, defendem a teoria da substituição penal. Os protestantes históricos (não evangélicos, reformados ou pentecostais) tipicamente rejeitam a expiação substitucional e defendem a teoria da influência moral. Ambas as visões são populares na Igreja Católica, com a doutrina da satisfação incorporada na ideia de penitência.
Diversas teorias já tentaram explicar as circunstâncias da morte de Jesus na cruz através do conhecimento médico dos séculos XIX e XX, propostas por todo tipo de profissionais: médicos, historiadores e até mesmo místicos. A maior parte das teorias propostas por médicos formados (com especialidades variando da medicina forense até a oftalmologia) concluíram que Jesus suportou um sofrimento enorme e muita dor na cruz antes de sua morte. Em 2006, o clínico geral John Scotson revisou quarenta publicações sobre a causa da morte de Jesus e as teorias variavam de ruptura cardíaca a embolismo pulmonar. Já em 1847, baseando-se em João 19:34, o médico William Stroud propôs a "teoria da ruptura cardíaca" como causa mortis de Jesus e ela influenciou diversas pessoas depois. A "teoria da asfixia" tem sido objeto de diversos experimentos que simulam a crucificação em voluntários saudáveis e muitos médicos concordam que ela causa uma profunda disrupção na capacidade respiratória da vítima. Um efeito colateral da asfixia por exaustão é que a vítima da crucificação sente gradualmente mais e mais dificuldade para conseguir fôlego suficiente para falar, o que foi apresentado como uma possível explicação para os relatos de que as últimas palavras de Jesus seriam nada mais do que curtas exclamações.
Desde a crucificação de Jesus, a cruz se tornou um elemento chave no simbolismo cristão assim como cena da crucificação, na arte cristã, dando origem a diversos temas artísticos específicos como o Ecce Homo, o Erguimento da Cruz, a Deposição da Cruz e o Sepultamento de Jesus. A obra "Crucificação vista a partir da cruz", de James Tissot, apresentou uma nova abordagem no final do século XIX, na qual a cena da crucificação foi retratada a partir da perspectiva de Jesus. O simbolismo da cruz, que hoje é um dos símbolos cristãos mais reconhecidos, foi utilizado desde o cristianismo primitivo. Justino Mártir, que viveu em 165, a descreve de uma forma que deixa implícito o uso já naquela época como símbolo, embora o crucifixo só tenha aparecido mais tarde. Mestres como Caravaggio, Rubens e Ticiano pintaram a cena da crucificação em suas obras. Devoções baseadas no processo da crucificação e nos sofrimentos de Jesus são observadas por diversos cristãos. As "Estações da Cruz" seguem um número de estágios baseados nos passos seguidos por Jesus até a sua crucificação, enquanto que o Rosário das Santas Chagas é utilizado para meditar sobre as chagas de Jesus como parte da crucificação.


