Couraçado
Um couraçado ou encouraçado é um navio de guerra pesadamente blindado e armado com as peças de artilharia de longo alcance e de maior calibre existentes. Normalmente, os couraçados eram maiores, mais armados e mais blindados que os cruzadores e contratorpedeiros.
Um navio de linha era um grande navio de guerra à vela, construído em madeira, não blindado, com duas ou três batarias cobertas, nas quais eram montadas entre 50 e 120 peças de artilharia. O navio de linha resultou de uma evolução gradual de um projeto básico com origem nas naus desenvolvidas pelos Portugueses no século XV. À parte do crescimento em tamanho, o navio de linha pouco mudou entre a adopção da tática de linha de batalha no início do século XVII e o final da marinha de guerra à vela, na década de 1830. No final do século XVIII, o termo completo "navio de linha de batalha" foi abreviado, em alguns países, para "navio de batalha". O disparo de todas as peças laterais de um navio de linha à vela permitia-lhe afundar qualquer embarcação de madeira, esmagando-lhe o casco, destruindo os seus mastros e abatendo a sua tripulação. No entanto, o alcance eficaz das suas peças era de, apenas, algumas centenas de metros e as táticas de batalha dependiam, inteiramente, do vento.
Os primeiros navios couraçados eram navios convencionais de madeira protegida por placas de ferro. Por isso, são ocasionalmente referidos pelo termo inglês "ironclad" (literalmente "vestido de ferro"). O engenheiro francês Dupuy de Lome projetou o primeiro couraçado, o La Gloire, lançado em 1858. Este era um navio de casco de madeira, protegido por uma couraça de ferro, que foi prontamente imitado pelos Britânicos com a sua fragata couraçada HMS Warrior. A Warrior foi totalmente construída em ferro, o que permitiu que se instalassem anteparos estanques para isolar as zonas inundadas em caso de perfuração do casco. A diferença entre os couraçados franceses e britânicos era o fato de os primeiros terem o casco blindado, enquanto os segundos apenas tinham a bataria e as caldeiras protegidas. Isto deu uma superioridade naval à França, ainda que por pouco tempo. Com a construção do HMS Achilles em 1863, o Reino Unido iniciou a construção de navios com o casco totalmente couraçado.
Em 1859, o capitão de mar e guerra britânico Cowper Coles patenteou a sua ideia de uma torre rotativa, construindo para a Dinamarca o KMD Rolf Krake e adiantando-se, assim, ao engenheiro sueco Jan Ericsson que desenharia para os EUA, em setembro de 1861, o USS Monitor e outros navios do mesmo tipo. Posteriormente, em 1864, com base nas ideias de Coles, modificou-se o HMS Royal Sovereign de 3 150 t, construído em madeira, cuja artilharia, originalmente montada nos bordos laterais, foi substituída por quatro torres com cinco peças de 12,5 t de peso, que disparavam projeteis de 300 libras, montadas na linha central do navio. A torre proposta por Coles apareceu oportunamente, já que o peso das peças de artilharia aumentava rapidamente e, com ele, a dificuldade de as manejar. Os primeiros mecanismos eram simples: uma cremalheira circular engrenada com um pinhão acionado por manivelas, toda a estrutura rodando, tendo como pivô central e ancoragem à coberta um eixo sólido de 4 polegadas. Por sua vez, Ericsson usou, no Monitor, um cabrestante a vapor, atuando através de várias engrenagens até uma roda dentada fixa sobre o eixo central da torre.
Os primeiros couraçados tinham a artilharia instalada nos seus bordos laterais, de uma forma semelhante aos antigos navios de madeira. Depressa, essa disposição da artilharia foi melhorada com a concentração das peças num reduto fortemente blindado no centro do navio, chamado de "bataria central". A necessidade de municiar as pesadas peças, que não podia ser efetuada em navios com uma disposição normal da bataria central, levou à opção de as colocar em casamatas instaladas nos bordos laterais, criando uma versão melhorada dos navios de bataria central. Cada casamata dispunha de duas canhoneiras, uma voltada à proa e outra à popa, que permitiam apontar as peças, montadas em reparos giratórios, nessas direções. Assim, os navios deste tipo, dispunham de uma casamata a estibordo/boreste e outra a bombordo, cada uma com uma peça apontada à proa e outra à popa. O diretor das construções navais da da Royal Navy Edward James Reed era partidário desta opção, estando contra os navios de torre, apesar de ter desenhado vários destes. O seu principal argumento era a não interferência da artilharia disposta desta maneira com os mastros do navio.
Couraçados pré-dreadnoughts
Enquanto se repetia o esquema do navio couraçado com propulsão a vapor instalada, mas que ainda mantinha um velame como os anteriores navios de madeira, a Itália revolucionou o conceito de couraçado com a construção, a partir de 1873, do Caio Duilio e do seu irmão gémeo Enrico Dandolo. Estes eram couraçados inteiramente metálicos e sem velas, com duas torres rotativas montando, cada uma, duas gigantescas peças de 450 mm, capazes de meter a pique qualquer navio, e com uma blindagem de 500 mm nos seus flancos, capaz de deter qualquer impacto de um projétil disparado por qualquer navio adversário existente na altura. Todas as grandes potências navais da época se lançaram numa corrida ao armamento, com a construção de couraçados do novo estilo, com torres montando peças de 305 mm ou mais - normalmente com duas peças por torre - e com uma panóplia de peças de calibres mais reduzidos (280 mm, 152 mm, 120 mm e 76 mm) montadas em torres instaladas nos bordos do navio, tudo isto dando a este um aspeto de um castelo de metal flutuante. Nesta época, alguns couraçados já chegavam às 15 000 t de deslocamento.
Dreadnoughts
Os dreadnoughts da Primeira Guerra Mundial dispunham, normalmente, de 10 a 12 peças principais cujo calibre atingiu os 343 mm e os 381 mm. Os couraçados alemães apenas dispunham de peças de 280 mm e 305 mm, uma vez que estas tinham tanta ou mais potências que as peças de maior calibre estrangeiras. Manteve-se o armamento secundário dos couraçados, mas com um calibre unificado nos 150 mm ou 152 mm. Tudo isto implicou que o deslocamento dos couraçados disparasse até às 25 000 t e que o seu comprimento atingisse os 200 m, levando aos navios conhecidos por "super-dreadnoghts", dos quais o pioneiro foi HMS Orion e os três restantes navios da mesma classe, lançados a partir de 1910. O crescimento dos calibres, durante a guerra, leva a que alguns couraçados atinjam as 30 000 t.
Couraçados na Segunda Guerra Mundial
Na Segunda Guerra Mundial o couraçado estava à beira da obsolescência, ainda que muitos se negassem a crê-lo. A Alemanha encaminho a sua estratégia naval no sentido do desenvolvimento de pesados couraçados, entre os quais se destacou o Bismarck com um deslocamento de mais de 50 000 t e armado com oito peças de 381 mm, com um calibre superior a qualquer arma naval adversária. A letalidade desta plataforma de armas confirmou-se na Batalha do Estreito da Dinamarca, quando, em apenas seis minutos de combate, afundou o enorme cruzador de batalha HMS Hood. O Ataque a Pearl Harbor marcou, definitivamente, o final do conceito de couraçado, defendido pelos próprios atacantes. Como exemplo deste paradoxo, o Japão chegou a construir couraçados de mais de 60 000 t com peças de até 460 mm, procurando, por todos os meios, aumentar a proteção e poder destes navios. Em 1940, os Japoneses lançam o maior couraçado da história, o Yamato e o seu irmão gémeo, o Musashi, ambos com 70 000 t de deslocamento e armados com nove peças de 460 mm capazes de disparar um projétil de 1 t a 40 quilómetros de distância e protegidos com uma blindagem de 400 mm. O Musashi foi afundado por um ataque aéreo maciço em outubro de 1944. O Yamato foi afundado em abril de 1945 por um ataque de aviões torpedeiros, a partir de porta-aviões situados a centenas de milhas de distância.
Couraçados depois da Segunda Guerra Mundial
Depois da Segunda Guerra Mundial, as marinhas que ainda mantinham couraçados desfizeram-se da grande maioria deles, poucos chegando até ao final da década de 1950. Os couraçados USS Arkansas e o japonês Nagato foram afundados em testes de armas nucleares logo em 1946. Os franceses Lorraine, Richelieu e Jean Bart foram demolidos, respectivamente, em 1954, 1968 e 1970. O couraçado italiano Giulio Cesare foi tomado pelos Soviéticos, como reparação de guerra e rebatizado como Novorossiysk, afundando-se vítima duma mina no Mar Negro, em 1955. Os italianos Andrea Doria e Duilio foram demolidos em 1956. Os couraçados britânicos da Classe King George V foram desmontados em 1957 e o HMS Vanguard em 1960. Os britânicos já se tinham desfeito dos seus restantes couraçados até 1949. Os soviéticos Volkhov, Oktyabrskaya Revolutsiya e Sevastopol foram desmontados, respetivamente, em 1953, 1957 e 1956. O couraçado brasileiro São Paulo afundou-se no Atlântico, a caminho da demolição, em 1951 e o seu irmão gémeo Minas Gerais foi demolido em 1953. A Argentina manteve os seus couraçados ARA Rivadavia e ARA Moreno até 1956 e o Chile manteve o seu couraçado Almirante Latorre até 1959. A Suécia manteve o seu couraçado de defesa costeira HMS Gustav V até 1970. Os três antigos couraçados alemães Schleswig-Holstein, Schlesien e Hessen foram tomados pelos soviéticos e usados como alvos, sendo destruídos entre 1952 e 1960.


