Pesquisa · Mapa mental

Cosme Bento

Cosme Bento das Chagas, também conhecido como Negro Cosme, foi um líder quilombola brasileiro.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 22/07/2026
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Panorama da época

Imagem: Threeohsix · BY-SA · Openverse

Com o fim do Primeiro Reinado e o início do período regencial, quase toda a Nação conheceu rebeliões, arruaças e agitações contra a ordem estabelecida. Graças a instabilidade política e econômico-financeira, esta época ficou conhecido como uma das mais conturbadas na história do país. No inicio do século XIX, o estado do Maranhão possuía aproximadamente 200 mil habitantes, dos quais mais da metade era de escravos que trabalhavam nas lavouras de algodão em difíceis condições. Vaqueiros, artesãos sertanejos e trabalhadores livres também viviam miseravelmente. Toda essa população era explorada pelos grandes proprietários rurais e pelos comerciantes, grupos que controlavam o governo local. Neste período, a região do Maranhão, que era uma das grandes exportadoras de algodão, sofreu uma grave crise econômica devido à concorrência com os Estados Unidos. A indústria pecuária, que tinha forte ligação com a renda obtida pela exportação deste produto, além de abarcar uma grande parcela da força de trabalho escrava do estado, entrou em colapso. Quanto ao cenário político, uma disputa de poder surgiu no coração da elite, que se refletiu por todo o território pela oposição dos liberais (bem-te-vis) e pelos conservadores (cabanos).

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Primeiros anos

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Cosme Bento das Chagas, também conhecido como "Negro Cosme", nasceu escravo entre 1800 e 1802, na cidade de Sobral, no estado do Ceará. Além do trabalho que executava a comando de um senhorio, também vivia de pequenos expedientes, ocupando-se com outras tarefas braçais. Diferente da maioria dos subjugados, Cosme sabia ler e escrever. Ainda jovem, chegou como negro alforriado ao Maranhão. Pouco se sabe sobre os primeiros anos de sua vida, assim como datas precisas de acontecimentos marcantes até então. Porém, em 22 de setembro de 1830 foi preso por ter assassinado Francisco Raimundo Ribeiro, em Itapecuru-Mirim, sendo enviado à capital do estado, São Luís. Cosme fugiu da cadeia em 1º de maio de 1833, após liderar uma rebelião entre os presos. Ao escapar, passou a promover uma vasta insurreição de negros em várias fazendas e pontos de trabalho escravo da região. Escondendo-se em diversos quilombos, ajudou muitos escravos a se libertarem e fugirem da opressão dos proprietários, apresentando-se frente à grande população negra, unindo-os sob a sua tutela, ideologia e bandeira. Concedeu a si próprio o título de "Dom Cosme Bento das Chagas, Tutor e Imperador da Liberdade Bem-Te-Vi", estabelecendo, um quartel-general em Lagoa Amarela, na Comarca do Brejo, próximo aos rios Munim e Mearim, Vale do Itapecuru. Assim nascia na fazenda Tocanguira, o maior quilombo da história do Maranhão.

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Balaiada

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O início

Quando a Balaiada teve início, em dezembro de 1838, Cosme Bento ainda se encontrava detido em São Luís. Permaneceu na capital até outubro de 1839, quando consegue, novamente, fugir e participar dos levantes. Em novembro do mesmo ano, seu título de defensor da liberdade já era conhecido entre a população, tomando à frente de milhares de escravos às margens do Rio Itapecuru, reorganizando o quilombo em Lagoa Amarela, na fazenda Tocanguira. Antes mesmo de integrar o movimento, Cosme já chamava sua luta de “Guerra da Lei da Liberdade Republicana”. Seu objetivo era criar uma outra visão de liberdade e igualdade entre os homens, buscando a insurreição contra a escravatura, em favor da liberdade. Para isso, fundou em seu quilombo uma hierarquia interna com a intenção de capacitar e alfabetizar a população subjugada, promovendo uma escola de primeiras letras. Uma vez que tal privilégio só era destinado e exclusivo aos filhos dos ricos proprietários das Províncias. Projeto que não pode ser confundido com o confronto geral dos chamados bem-­­te­-vis, que buscavam a retomada do poder no estado do Maranhão.

Desenrolar e momentos finais

Passados dois anos desde o estouro da revolta, entre fevereiro e setembro de 1840, com seu poder e aparato militar, o coronel Luis Alves de Lima e Silva, o futuro Duque de Caxias, havia praticamente derrotado todos os rebeldes comandados por Raimundo Gomes. Este, então, vai se refugiar ao grupo de escravos fugidos liderados por Cosme Bento, que passou a ser o principal comandante do movimento. O “Tutor e Imperador da Liberdade” era quem mais assustava os fazendeiros locais, devido a seus piquetes avançados e fortes incentivos a insurreição nas propriedades da região. A resistência só pôde ser mantida graças aos mais de três mil homens comandados por Cosme. Dentre as classes de pessoas que compunham este montante estão negros, escravos e pretos libertos, crioulos e africanos. Este último grupo ainda estava dividido entre angolanos, congos, cambindas, mandingas e nagôs. Durante seu controle sob a revolta, Cosme Bento apresentou grande visão política. Ele foi o primeiro líder a estabelecer uma aliança entre os rebeldes livres e escravos, assim como alcançar o apoio dos bem-te-vis, na tentativa de a Balaiada triunfar e, ainda, lograr a liberdade para o seu povo.

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Falecimento

Com a prisão de Cosme Bento, dava-se fim a Balaiada. Seu processo foi aberto em março de 1841, arrastando-se por mais de um ano. Levado a júri em um tribunal na vila e cabeça de comarca do Itapecuru Mirim, o julgamento fora realizado apenas em 5 de abril de 1842, sentenciado com a pena capital, condenado à forca. Executado na Praça do Mercado, em frente a Cadeia Pública de Itapecuru, hoje Casa da Cultura Professor João Silveira, em setembro de 1842, Cosme, grande líder dos quilombolas, virou um símbolo da luta contra a escravidão, ficando conhecido pela região como o Zumbi maranhense. No livro “O cativeiro”, do autor João Dunshee de Abranches Moura, encontram-se relatos e documentos significativos sobre a sociedade maranhense do século XIX. Dentre eles, uma carta de sua avó, Marta Alonso Alvarez de Castro Abranches, ao marido, Garcia de Abranches, que se encontrava em Portugal, na qual ela discorre sobre a pacificação, a anistia e, principalmente, como a prisão de Cosme Bento deu fim à Balaiada:.mw-parser-output .flexquote{display:flex;flex-direction:column;background-color:#F1F1F1;border-left:3px solid #C7C7C7;font-size:100%;margin:1em 4em;padding:.4em .8em}.mw-parser-output .flexquote>.flex{display:flex;flex-direction:row}.mw-parser-output .flexquote>.flex>.quote{width:100%}.mw-parser-output .flexquote>.flex>.separator{border-left:1px solid #C7C7C7;border-top:1px solid #C7C7C7;margin:.4em .8em}.mw-parser-output .flexquote>.cite{text-align:right}@media all and (max-width:600px){.mw-parser-output .flexquote>.flex{flex-direction:column}}@media screen{html.skin-theme-clientpref-night .mw-parser-output .flexquote{background-color:transparent}}@media screen and (prefers-color-scheme:dark){html.skin-theme-clientpref-os .mw-parser-output .flexquote{background-color:transparent}}

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Homenagens

A memória da Balaiada e de seus líderes ganharam novos significados com o passar do tempo, remetendo a história nacional e a composição de uma cultura regional. Muitas homenagens e obras referem-se a Cosme Bento e seus feitos. É possível identificar a reinvenção da tradição do chefe balaio em espaços políticos, religiosos e institucionais. Principalmente quando se trata de seu significado na luta popular contra a opressão e a ditadura do período. Também vale ressaltar que Negro Cosme foi o fundador da primeira escola de caráter democrática no Maranhão, onde aproveitava para abordar assuntos de militância à população quilombola. Um dos exemplos é o Centro de Cultura Negra do Maranhão (CCN-MA), que traz o texto "A epopeia dos guerreiros balaios na versão dos oprimidos", de Magno José Cruz, em literatura de cordel. Segue um trecho de seus trechos: Foi em mil e oitocentos / No ano de trinta e oito / Quando explodiu a Balaiada / Com muitos cabras afoitos / Pra agarrar a burguesada /E (ó) cortar-lhe o pescoço. Brigavam “bentevis” e “cabanos” / Na política do Maranhão /Briga de jornal (lero-lero) / Vejam a comparação: / Briga de Sarney e Castelo / Pra enganar Zé Povão. A Província naquela época / Tinha problemas sociais / Sofriam caboclos e negros / Com os preconceitos raciais / Fome, “pega”, desemprego / Tudo consta nos anais. Esses negros organizados / Chamados de quilombolas / Viram na Balaiada / Que era chegada a hora / Da liberdade sonhada /Renascer naquela aurora. Cosme Bento das Chagas / Logo então se destacou / E lá de Lagoa Amarela / Três mil negros libertou / E com tal valentia cega /A Balaiada engrossou. Ali Negro Cosme implantou / Uma conceituada escola / Para ensinar ler e escrever / À toda massa quilombola / Queria o líder dizer: / “Façamos nossa história”. Na história que tem nos livros / Escritos pela burguesia / Cosme é o grande bandido / (Ora vejam, quem diria!) / E Luís, racista assumido / É o herói duque de Caxias.

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