Igreja e Convento das Flamengas
A Igreja e Convento das Flamengas, conjunto também conhecido como Convento de Nossa Senhora da Quietação, situa-se na freguesia portuguesa de Alcântara, no município de Lisboa, mais precisamente na Rua 1.º de Maio.
O Convento da Quietação ou das Flamengas foi fundado no último quartel do século XVI por iniciativa de Filipe I de Portugal (II de Espanha), para acolher um pequeno grupo de religiosas chegadas da Flandres (Países Baixos, sendo muitas delas da cidade de Alkmaar, do Convento de freiras Descalças de Santa Clara em Amberes), de onde haviam fugido devido às perseguições religiosas anti-católicas. Reclamando o estatuto de vassalas do monarca espanhol, partiram de Bilbau em direcção a Lisboa, em 5 de Fevereiro de 1582, acompanhadas por um padre inglês, seu confessor, aportando em São Martinho do Porto, no Convento dos Capuchos Arrábidos. Em 1 de Março de 1582, acompanhadas pelo padre inglês, quatro religiosas chegaram ao Convento de São Francisco de Xabregas, donde foram encaminhadas, por designação do provincial, para o da Madre de Deus. Quando o monarca espanhol teve conhecimento da história pelo padre inglês, ordenou que se reunissem todas em comunidade na Madre de Deus. Elegeram a primeira abadessa, Soror Clara dos Anjos e, como franciscanas, foram integradas na Província dos Algarves.
O conjunto é composto por igreja e convento, desenvolvido em torno de um claustro.
Igreja
A igreja apresenta planta retangular simples, com eixo longitudinal interno e acesso laterais, composta por nave e capela-mor, tendo coberturas em falsas abóbadas de berço, pintadas e ornadas a estuque, iluminada unilateralmente por janelas rasgadas na fachada principal. Para a nave abre o coro-alto, com tribuna acedida pela parede da nave, e possui duas capelas laterais confrontantes e um púlpito. A capela-mor, elevada, possui retábulo de talha dourada tardo-barroca, tendo adossada, à parede testeira, a sacristia de fora, com acesso para o terreiro. A igreja possui raros vestígios da sua construção seiscentista, de que se conservam alguns azulejos reaproveitados na escada de acesso à tribuna do coro-alto, ostentando património integrado datável da segunda metade do séc. XVIII, com talha tardo-barroca nos retábulos e apainelados da capela-mor, com uma gramática decorativa próxima de Queluz, estuques decorativos e azulejos que contam a história da fuga e chegada das religiosas a Portugal. Subsistem várias sepulturas na igreja, quinhentistas e seiscentistas.
Convento
O convento, antiga zona regral, desenvolve-se em torno do claustro principal, de dois pisos, com vãos retilíneos e tanque central. No claustro de baixo, surgem a portaria, roda, locutório, todos com acesso por um pátio, onde se situa a casa da veleira e que acede à casa do capelão, surgindo, ainda, um celeiro, a sacristia de dentro, a Casa do Capítulo, refeitório, cozinha e casa da abadessa. No piso superior, o ante-coro, coro-alto, com sacrário e acesso por tribuna, possuindo comungatório, os dormitórios, a enfermaria e o confessionário.
A padroeira do antigo convento é Nossa Senhora, sob a invocação da Quietação. A invocação remonta à fundação do convento. Fazendo jus a um tempo de paz e quietude, e à segurança que as monjas flamengas encontraram em Portugal, escolheu-se Nossa Senhora da Quietação para orago e protectora do novo instituto, que então se erigia em Alcântara. Segundo Fr. Agostinho de Santa Maria, no seu Santuário Mariano, "Maria Santissima he o descanço, & o leyto regalado de Deos, como diz Guilhelmo Parvo: "Quies et lectulus Dei": em sua gloriosa Assumpçaõ teve para si o seu descanço, & a sua quietaçaõ; mas para nòs deu-nos o sossego, & a quietaçaõ entre os borrascosos mares deste mundo, & entre as molestas perturbações desta vida; por isso a invoca Mathias Philadelpho Bispo de Epheso: "Quies tranquilla navigantium in saeculi pelago". Verdadeiramente esta Senhora alcançou de Seu amado Filho a queitaçaõ & o descanço às afflictas, & desterradas Madres Flamengas, com as trazer a Portugal, aonde ella mesma lhes solicitou a casa, & e o sossego; porque naõ achando este em toda a Europa, só em Lisboa o conseguiraõ pelos merecimentos de nossa Senhora".
A irmandade foi constituida em 24 de Julho de 1626, por breve do Papa Urbano VIII. Em 1694, o rei D. Pedro II tornou-se juiz perpétuo da Irmandade, facto que lhe conferiu a condição de Real Irmandade. Em 1706, ano da morte do monarca, foi depositado na igreja o coração do mesmo, em local assinalado por lápide. Em 31 de Janeiro de 1887, na sequência do processo de integração dos bens das ordens religiosas na Fazenda Nacional, a Irmandade de Nossa Senhora da Quietação requereu que lhe fosse atribuída a posse da igreja, da casa do despacho, da sacristia e dos respectivos bens móveis, que integravam o extinto convento. Em 29 de Outubro de 1887, a Irmandade da Quietação solicitou que as suas alfaias não fossem incluídas no Inventário do Ministério da Fazenda, sendo-lhes pedida a prova da posse das mesmas. Em 9 de Dezembro desse mesmo ano, com a morte da última freira do convento, as pupilas remanescentes são expulsas do edifício. As alfaias e objetos de culto são entregues à autoridades eclesiásticas, seguindo algumas para a Academia Nacional de Belas Artes e para o Museu Nacional de Arte Antiga. Os livros são entregues à Inspecção das Bibliotecas.
Em 17 de Setembro de 2020, o Pontifício Conselho para a Cultura, presidido pelo Cardeal Gianfranco Ravasi, concedeu o seu alto patrocínio para o programa de conservação e restauro dos bens culturais que integram o conjunto do antigo convento, em consideração ao elevado valor cultural do projecto. Na mesma ocasião, o Prof. Doutor Raymond Fagel, da Universidade de Leiden, destacou que a Real Irmandade de Nossa Senhora da Quietação "connects the heritage of several European countries that were involved such as Portugal, Spain and the Netherlands".


