Construção de Deus
A Construção de Deus é uma ideia proposta por alguns dos primeiros marxistas proeminentes da facção bolchevique do Partido Trabalhista Social-Democrata Russo. Inspirado na Religião da Humanidade de Auguste Comte, o conceito teve alguns precedentes na Revolução Francesa com o Culto da Razão. A ideia propunha que, no lugar da abolição da religião, deveria haver um contexto metarreligioso no qual as religiões fossem vistas principalmente em termos do efeito psicológico e social do ritual, do mito e do simbolismo, e que tentasse aproveitar esta força para objectivos pró-comunistas, tanto através da criação de novos rituais e simbolismos, como através da reinterpretação de rituais e simbolismos existentes num contexto socialista. Em contraste com o ateísmo leninista, os chamados construtores de Deus assumiram uma posição oficial de agnosticismo.
O conceito de bogostroitel'stvo foi alcançado de forma independente por Anatoly Lunacharsky e Maxim Gorky. Eles estavam convictos de que o elemento emocional era religioso e uma dimensão essencial ao ser humano, e o coletivismo fundamentava seu entendimento religioso do socialismo. Para ambos, a construção de Deus era uma forma de se atingir um "novo tipo psicológico" ou "novo homem" do futuro. Lunacharsky estava alinhado com a ala vperedista da facção bolchevique. Embora mais tarde ele voltasse a se juntar aos bolcheviques e de fato se tornasse chefe do Comissariado do Povo para a Educação depois de outubro de 1917, ele estava originalmente intimamente associado ao rival de Vladimir Lenin, seu cunhado Alexander Bogdanov. Em sua obra de dois volumes, Religião e Socialismo (1908–11), Lunacharsky propôs sua teoria de bogostroitel'stvo: "O socialismo científico é a mais religiosa de todas as religiões, e o verdadeiro social democrata é o mais profundamente religioso de todos os seres humanos."
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A noção de Anatoly Lunacharsky de que a religião era um fenômeno complexo com muitos aspectos contrastava com as opiniões de outros líderes soviéticos nos primeiros dias da URSS que pensavam que a religião desapareceria com as mudanças nas condições materiais, sob a presunção marxista de que a religião e toda ideologia era simplesmente um produto de condições materiais.:20 Vladimir Lenin enfureceu-se com este conceito, e considerou extremamente prejudicial a posição de Lunacharsky, ao supostamente transformar o marxismo num reformismo liberal moderado.:20 Ele acreditava que isso obscurecia o fato de que a religião tinha sido uma ferramenta de exploração ideológica e que esta ideia estava a fazer um compromisso com as forças reacionárias. Nas discussões iniciais que se seguiram à revolução de 1905, Lenin atacou os construtores de Deus dentre outros "empiriocríticos", em sua obra Materialismo e Empiriocriticismo. Bogdanov respondeu em um artigo em que acusava Lenin de ter um apego religioso a uma forma de entendimento do materialismo. Bognadov inicialmente chamava seu sistema de construção de Deus de "empiriomonismo", e posteriormente de "tectologia"; Bogdanov, diferente das afirmações de Lenin de que ele era idealista, considerava que o mundo é real, porém que as coisas-em-si eram filtradas pela lente da cultura.
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Ideias de Lunacharsky foram adotadas por vários outros líderes bolcheviques, incluindo Maxim Gorky e Alexander Bogdanov, apesar de este último ter criticado em alguns momentos os conceitos e termos religiosos de Lunacharsky. Lunacharsky defendeu a crítica aos clérigos por não conseguirem manter o ensino bíblico e outras estratégias que dependiam de uma compreensão mais profunda da religião. Embora ele tenha apelado à moderação (não por princípio, mas por preocupações pragmáticas) e esta fosse ignorada, as visões simplistas sobre a religião como um mero fenômeno de classe foram descartadas em favor da compreensão da mesma como um fenômeno mais complexo. Ideias relacionadas à construção de Deus surgiram nos anos seguintes. A partir de 1926, um escritor e médico russo-soviético, chamado V. Veresaev, defendeu o desenvolvimento de rituais belos e padronizados para ocasiões importantes, como dar nomes a crianças, casamentos e funerais. Ele argumentou que o estado já possuía muitos rituais (desfiles, manifestações, etc.), mas que eles eram "deprimentemente sem talento e miseráveis".:92 Ele e muitos outros argumentaram que as pessoas iam às igrejas devido à decepção com a indiferença burocrática e a má qualidade dos casamentos ou dos registos de nascimento do Estado soviético. Um professor rural comunista que o apoiava afirmou que não pregaria o ateísmo aos camponeses porque quando alguém os torna ateus, priva-os de todos os rituais juntamente com a religião e não dá nada para os substituir. Um ativista do Komsomol que o apoiava apresentou o caso de uma pessoa cuja esposa havia morrido, foi enterrada por meio de uma cerimônia secular-comunista emocionalmente fria e indiferente, e o homem, muito deprimido por isso, consumiu uma garrafa cheia de vodca enquanto derramava lágrimas. Lenin afirmou que a religião era uma espécie de bebida espiritual, na medida em que agia como uma droga para as pessoas, enquanto este homem se voltou para a bebida em vez da religião.:92
Reavivamento da Construção de Deus
Em fevereiro de 1962, a "Conferência de Toda União Soviética sobre Propaganda Científica" foi realizada em Moscou. Entre as ideias discutidas foi sugerido que “As pessoas religiosas devem ser educadas nos princípios da moralidade e ética comunistas, os costumes e tradições religiosas devem ser substituídos por festas e rituais religiosos para satisfazer as necessidades estéticas e emocionais dos crentes”.:91 Em 1965, quando o ataque de Nikita Khrushchev à religião parecia não produzir resultados eficazes, começaram a aparecer na imprensa soviética mais sugestões de que deveriam ser instituídos ritos pseudorreligiosos que criassem uma ligação mística entre as pessoas e a prometida sociedade comunista do futuro, glorificada no trabalho do presente. Os ritos e serviços seriam orientados para um futuro utópico prometido pela sociedade comunista. Eventos e dias para glorificar o comunismo seriam celebrados. Templos especiais com ornamentos artísticos simbólicos seriam construídos para glorificar o comunismo como a maior conquista do homem, com oratórios compostos e executados nos templos.:95


