Conservacionismo
O movimento conservacionista, também chamado movimento de conservação da natureza, é um movimento político, ambiental e social que se interessa pela conservação da natureza. Inicialmente o conservacionismo incluía interesses relacionados à pesca, à gestão da vida animal, à água, à conservação dos solos e à exploração sustentável de florestas. O conservacionismo contemporâneo difere-se por concentrar-se e dar ênfase nas questões do uso sustentável dos recursos naturais e na preservação da diversidade biológica, e o seu instrumento preferencial são as chamadas áreas protegidas. Para alguns, trata-se de uma parte do movimento mais amplo e diverso intitulado ambientalismo, enquanto outros afirmam tratarem-se movimento distintos, haja vista possuírem fundamentações ideológicas e abordagens práticas marcadamente diferentes. Nos Estados Unidos, particularmente, ambos movimentos são considerados distintos. Além disso, originalmente o termo conservacionismo designava uma corrente específica do movimento de conservação na natureza, e que se contrapunha à corrente preservacionista do mesmo. Com o passar do tempo, contudo, o termo passou a designar o conjunto de correntes do movimento de conservação na natureza, tornando-se sinônimo do mesmo.
Antecedentes
Em uma perspectiva distante, o movimento conservacionista pode ser traçado até John Evelyn e seu trabalho Sylva, apresentado à Royal Society em 1662. Publicado como livro dois anos depois, esse foi um dos mais influentes trabalhos sobre gestão florestal jamais publicado. Recursos madeireiros estavam tornando-se perigosamente raros na Inglaterra dessa época, e Evelyn argumentava em sua obra sobre a importância de se conservar florestas, através da gestão dos volumes de madeira retirados das florestas, que deveriam manter-se dentro da sua capacidade de regeneração. Esse campo desenvolveu-se profundamente ao longo do século XVIII, especialmente na Prússia e na França, e métodos científicos cada vez mais avançados foram sendo desenvolvidos. Mais tarde, no século XIX, diversos outros países europeus criariam as primeiras reservas de gestão florestal em suas colônias, e o Reino Unido utilizaria amplamente esses métodos na Índia, onde a produção de erva de chá exigiria um controle mais apurado da exploração florestal.
Origens do movimento conservacionista
O movimento conservacionista que se difundiria internacionalmente a partir da primeira metade do século XX teve uma importante influência do movimento conservacionista americano. Esse, recebeu sua influência dos movimentos artísticos do século XIX que exaltavam o valor inato da natureza e estabeleciam uma divisão clara entre o humano e o natural selvagem, principalmente o transcendentalismo e o romantismo. A obra de Henry David Thoreau (1817-1862) teve um papel fundamental na construção da ética conservacionista americana, fundamentada na ideia de wilderness, uma natureza completamente selvagem e prístina. Thoreau interessava-se pela relação entre o homem e a natureza, e relatou suas experiências no livro Walden, no qual a natureza possui um valor estético e espiritual inato, argumentando que as pessoas para serem felizes devem viver de forma simples e ter contato com a natureza. Não por acaso, tornou-se um grande amigo e colaborador de John Muir, o fundador do Sierra Club e ativista responsável pela criação do Parque Nacional de Yosemite, que se tornaria uma figura fundamental da vertente preservacionista (Preservationnist) do movimento conservacionista. As ideias de Dietrich Brandis, William P.D. Schlich e Carl A. Schenck também foram muito influentes, assim as do primeiro chefe do Serviço Florestal dos Estados Unidos, Gifford Pinchot, um ícone da corrente conservacionista (Conservationnist) do movimento conservacionista. Junto com outros setores da sociedade, conservacionistas e preservacionistas participaram de muitos debates ao longo da chamada Progressive Era americana (primeiras décadas do século XX), durante a qual as discussões se concentravam em três posições: os grandes proprietários e grandes corporações de exploração mineral e florestal defendiam a posição chamada de laissez-faire, ou seja, que o direito de propriedade deveria ser respeitado literalmente, e que portanto em propriedades privadas a exploração dos recursos naturais deveria ser completamente livre e à critério do dono. Os conservacionistas, liderados por Theodore Roosevelt e Gifford Pinchot, eram motivados pelo desperdício de recursos que se assistia (principalmente caça e madeira), e tinham como objetivo tira-los das mãos de corporações e grupos econômicos específicos, como forma de que fossem geridos no interesse da coletividade. Já nessa época, a política do laissez-faire havia levado um numero importante de espécies à beira da extinção, e a região leste dos Estados Unidos, antes coberta por florestas, já apresentava muito poucas. Roosevelt reconheceu que essa abordagem era ineficiente e dispendiosa, e como a maior parte das terras à oeste dos EUA pertenciam ao Estado, a melhor linha de ação seria a elaboração de um plano de longo prazo e a organização de um serviço público encarregado de maximizar os benefícios a longo prazo dos recursos naturais. Preservacionistas, liderados por John Muir, argumentavam que as políticas de conservação não eram suficientemente fortes para proteger os interesses dos mundo natural, uma vez que elas continuavam a focar no mundo natural como fonte de produção econômica.
Desde os anos 1970
Ao longo do século XX outras figuras importantes ajudaram a moldar o movimento conservacionista de nossos dias, destacando-se Aldo Leopold e Julian Huxley. A partir dos anos 1970 o conservacionismo ganhou um novo significado e uma nova dimensão, principalmente em razão da crise ambiental a que se tem assistido. A partir dos anos 1970 a qualidade do meio ambiente deixa de ser assunto tratado em mesas de políticos e em escritórios de ONG, para se tratar um assunto de toda a sociedade. Isso teve profundo impacto no conservacionismo, que tem buscado adaptar-se à necessidade do desenvolvimento sustentável. Em 2019, a conservação convivial foi proposta por Bram Büscher e Robert Fletcher. A conservação convivial se baseia em movimentos sociais e conceitos como justiça ambiental e mudança estrutural para criar uma abordagem pós-capitalista para o conservacionismo. A conservação convivial rejeita as dicotomias homem-natureza e as economias políticas capitalistas. Construída sobre uma política de equidade, mudança estrutural e justiça ambiental, a conservação convivial é considerada uma teoria radical, pois se concentra na estrutura da economia política dos estados-nação modernos e na necessidade de criar mudanças estruturais.
Racismo e o movimento conservacionista
O foco dos primeiros anos dos movimentos ambientais e conservacionistas estavam em proteger animais de caça para apoiar as atividades recreativas de homens brancos de elite, como a caça esportiva. Esse movimento fomentou uma economia para apoiar e perpetuar essas atividades, bem como a conservação contínua da natureza para apoiar os interesses corporativos que forneciam aos caçadores o equipamento necessário para seu esporte. Os parques de caça na Inglaterra e nos Estados Unidos permitiam que caçadores e pescadores ricos esgotassem a vida selvagem, enquanto a caça por grupos indígenas, membros da classe trabalhadora e cidadãos pobres em geral, especialmente a caça com finalidade de subsistência, era vigorosamente monitorada. Pesquisadores apontam que o estabelecimento de parques nacionais pelo governo dos EUA, ao mesmo tempo em que reservava terras para preservação, também perpetuava a ideia de preservação da terra para a recreação e diversão de caçadores brancos de elite e entusiastas da natureza.
Fundo Mundial para a Natureza
O Fundo Mundial para a Natureza (World Wide Fund for Nature, WWF) é uma organização não governamental internacional fundada em 1961, que trabalha no campo da preservação da vida selvagem e da redução do impacto humano no meio ambiente. Era anteriormente chamado de "World Wildlife Fund", que continua sendo seu nome oficial no Canadá e nos Estados Unidos. O WWF tem como objetivo "parar a degradação do ambiente natural do planeta e construir um futuro no qual os humanos vivam em harmonia com a natureza". O WWF é a maior organização conservacionista do mundo, com mais de cinco milhões de apoiadores, trabalhando em mais de 100 países, apoiando cerca de 1.300 projetos ambientais e de conservação. Desde 1995, a organização investiu mais de 1 bilhão de dólares em mais de 12.000 iniciativas de conservação. Em 2020, o WWF recebia 65% de financiamento de indivíduos, 17% de fontes governamentais (como o Banco Mundial, USAID) e 8% de empresas.
Enquanto movimento estruturado e com significativa representação política, uma série de documentos políticos vêm sendo elaborados, notadamente após os anos 1960, com o objetivo definir e difundir conceitos e os objetivos relacionados à conservação da natureza. Esses documentos apresentam os consensos técnicos e políticos de cada época, e têm a conservação da natureza como tema central ou transversal, como no caso de documentos relacionados ao desenvolvimento sustentável. Dentre esses documentos destacam-se principalmente a Declaração final da Conferência das Nações Unidas sobre o meio ambiente humano de Estocolomo 1972, o relatório Nosso Futuro Comum de 1987, o Relatório final da Conferência das Nações Unidas sobre o meio ambiente e o desenvolvimento de Rio de Janeiro 1992, o Relatório da Cúpula Mundial sobre o desenvolvimento sustentável de Joanesburgo 2002, o Relatório da Conferência das Nações Unidas sobre o desenvolvimento sustentável, e a série de relatórios do Congresso Mundial de Parques da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).


