Congregacionalismo
O nome congregacionalismo é o regime de governo eclesiástico conhecido onde cada congregação local é autônoma e independente. A igreja local possui autonomia para sua própria reflexão teológica, expansão missionária, relação com outras congregações e seleção de seu ministério. Congregacionalismo também pode se referir a uma denominação própria, formada por igrejas enraizados no puritanismo inglês e no Calvinismo, distinguindo-se de outras tradições reformadas, como as igrejas presbiterianas e as Reformadas continentais, que adotam um sistema de governo representativo baseado em concílios e sínodos com autoridade sobre as igrejas locais.
Puritanos conformistas e dissidentes
As origens do congregacionalismo estão no movimento puritano conformista e dissidente. As reformas introduzidas na Igreja Anglicana a partir do reinado de Henrique VIII eram consideradas por muitos como insuficientes e em certos setores havia um claro sentimento de insatisfação e inconformismo e um desejo que a Igreja experimentasse uma reforma mais profunda, se tornar-se mais pura em sua vida, doutrina, governo e liturgia. Foram nessas circunstâncias que surgiram os puritanos, que queriam reformar a Igreja da Inglaterra, tornando-a mais pura, sem contudo deixá-la. Diferentemente dos puritanos conformistas, alguns grupos puritanos chamados de dissidentes começaram a formar organizações separadas da Igreja da Inglaterra.
A União Congregacional da Inglaterra e do País de Gales
Durante o século XIX, discutiu-se a formação de uma associação entre as igrejas congregacionais a fim de promover cooperação em áreas como a evangelização. Por isso, em 1831 foi formada a União Congregacional da Inglaterra e País de Gales. Com o passar do tempo, a estrutura da União Congregacional foi se tornando mais centralizadora, até que em 1967 foi formada a Igreja Congregacional da Inglaterra e do País de Gales, expressão que foi considerada por muitos como uma verdadeira contradição dos princípios congregacionalistas, pois, no congregacionalismo não há uma Igreja nacional, mas a igreja local é a uma igreja plena, independente de todas as outras igrejas, no seu trabalho e administração.
A formação da Igreja Reformada Unida
A Igreja Congregacional da Inglaterra e País de Gales manteve conversações com a Igreja Presbiteriana, até que em 1972 essas duas denominações se fundiram e formaram a Igreja Reformada Unida da Inglaterra. No mesmo ano foi formado o órgão chamado Federação Congregacional (Congregational Federation - CF, em inglês), reunindo igrejas locais que não aderiram à fusão com a Igreja Presbiteriana. Hoje, a CF conta com cerca de 312 igrejas no Reino Unido. Atualmente, além da EFCC e da CF há várias igrejas congregacionais que não estão filiadas a nenhum órgão associativo.
A história do congregacionalismo norte-americano começou no ano de 1620, com a chegada à Baía de Massachussets dos 102 colonos que partiram da Inglaterra embarcados no navio Mayflower e fundaram a colônia de Plymouth. Dos 102 passageiros do navio, 35 eram membros da Igreja de exilados de Leyden (Holanda), pastoreada por John Robinson. Eles fundaram a primeira igreja do tipo congregacionalista na América. Pouco tempo depois dos peregrinos do Mayflower chegarem ao Novo Mundo, a situação na Inglaterra piorou. Charles I assumiu o trono e o novo arcebispo era William Laud. A perseguição contra os puritanos na Inglaterra aumentou e, por volta de 1640, aproximadamente 20 mil puritanos haviam partido para a América, por causa da liberdade religiosa. Na Inglaterra, eles eram uma parte da Igreja da Inglaterra, mas no Novo Mundo eles estabeleceram congregações independentes, sob a forma de governo congregacionalista.
O congregacionalismo brasileiro não tem suas origens históricas no congregacionalismo britânico ou norte-americano, mas sim no trabalho missionário indenominacional realizado pelo médico-missionário escocês de origem presbiteriana Robert Reid Kalley e sua esposa Sarah Poulton Kalley, que chegaram ao Brasil em 1855. Começaram um trabalho de evangelização e mais tarde fundaram, no Rio de Janeiro, a Igreja Evangélica Fluminense. No Recife foi fundada a Igreja Evangélica Pernambucana, e também foi estabelecida uma congregação em Niterói (1863, atual 1ª Igreja Evangélica e Congregacional de Niterói). Todas essas igrejas eram apenas igrejas evangélicas brasileiras, sem nenhum vínculo denominacional com igrejas no exterior. Apesar de ter sido batizado na Igreja da Escócia (presbiteriana), Kalley não possuía vínculos com nenhuma denominação. Em certa ocasião Kalley escreveu: "eu não sou presbiteriano e nem estou em contato com qualquer tipo de igreja - sou irmão de qualquer cristão independente de sua denominação". Kalley divergia do Presbiterianismo quanto a “estreitos denominacionalistas”[a] e a fórmulas rígidas de credo.
A Igreja Evangélica Congregacional de Angola, resultado do trabalho de norte-americanos e canadenses, é a denominação congregacional instalada no país. Em 1977, maioria das igrejas que formavam a União Congregacional da Austrália fundiram-se com a Igreja Metodista da Australásia e com a maior parte das congregações da Igreja Presbiteriana da Austrália para formar a Igreja Unida na Austrália. As igrejas Congregacionais que não aderiam à fusão formaram a Fraternidade das Igrejas Congregacionais da Austrália (Fellowship of Congregational Churches - FCC). Em 1995, algumas igrejas com posicionamentos mais ecumênicos deixaram a FCC e formaram a Federação Congregacional da Austrália. Em 1969, a maioria das congregações da União Congregacional da Nova Zelândia decidiram se filiar à Igreja Presbiteriana. A União Congregacional ficou reduzida a um número muito pequeno de igrejas, que atualmente são cerca de 14.
A Fraternidade Congregacional Internacional é uma entidade associativa, formada em 1977, a fim de reunir denominações congregacionais que ainda haviam permanecido apesar dos vários processos de fusão de igrejas congregacionais com outras denominações. A ICF não exige que seus membros subscrevam uma declaração específica de fé, apesar de muitos de seus membros expressarem uma posicição teológica ecangélica/conservadora, como a Igreja Evangélica Congregacional do Brasil
Em 1986 algumas associações nacionais de igrejas Congregacionais evangélicas formaram a Fraternidade Mundial Evangélica Congregacional, da qual tanto a UIECB como a AIECB são membros. As associações que compôem a WECFsubscrevem sua declaração de fé e aceitam sua constituição.
Histórica e teologicamente as Igrejas Congregacionais fazem parte da família calvinista e muitas das denominações são afiliadas com a Aliança Mundial de Igrejas Reformadas, entidade que mantém a comunhão das denominações Reformadas, Congregacionais e Presbiterianas. A diferença entre o congregacionalismo e o presbiterianismo está que o primeiro adota a crença da autonomia total das igrejas locais; não aceitam credos e confissões como regras de fé, mas como sínteses do pensamento comum de uma igreja; celebram o culto com espontaneidade em uma ordem estabelecida, mas sem fixar liturgias.


