Companhia Cinematográfica Vera Cruz
A Companhia Cinematográfica Vera Cruz foi um importante estúdio cinematográfico brasileiro que produziu e distribuiu filmes, de 1949 a 1954. Fundada em São Bernardo do Campo pelo produtor italiano Franco Zampari e pelo industrial Francisco Matarazzo Sobrinho, em 4 de novembro de 1949, produziu mais de quarenta longa-metragens. Atualmente os estúdios estão arrendados para a Rede Bandeirantes.
Contexto de criação
Após o fim da Segunda Guerra Mundial e da ditadura do Estado Novo, em 1945, São Paulo vivia um momento de efervescência cultural. Revistas de divulgação artística, conferências, seminários e exposições agitavam a vida paulista. No final dos anos 1940 foram inaugurados o Museu de Arte Moderna (MAM) e o Museu de Arte de São Paulo (MASP). Na mesma época, Franco Zampari, empresário de origem italiana, montou uma companhia teatral de alto nível chamado Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Crescia o interesse pelo cinema, enquanto os intelectuais fundavam cineclubes e movimentavam grupos de debates. Alimentada por empresários paulistas, criou-se então a Vera Cruz, com estúdios de mais de 100 mil metros quadrados que ocupavam o que antes era uma granja da Família Matarazzo.
O Início
Embora possuísse capital para manter a companhia e a administrasse com seriedade, Franco Zampari pouco entendia de cinema; se dava melhor com o teatro. Portanto, chamou o renomado Alberto Cavalcanti, que havia obtido fama e experiência no cinema inglês, para montar a companhia. Ele trouxe dezenas de técnicos estrangeiros, que trabalhavam em um sistema burocrático e complicado, incompatível com o mercado brasileiro. A justificativa era de que não havia profissionais suficientemente capacitados no país, o que afetaria a ambição da empresa em atingir padrões internacionais, realizando um cinema de bases industriais. Depois das custosas primeiras produções, desavenças fizeram Cavalcanti ser demitido do cargo de produtor geral, em 1951. O papel ficou para Fernando de Barros, comerciante português que havia tido experiência com o cinema carioca da época e que também tinha o compromisso de baratear as produções.
Consagração e Fim das Produções
Durante os três anos seguintes, a empresa chegou ao auge. Alguns de seus filmes circularam no exterior e galgaram prêmios nos mais importantes festivais do mundo, como Cannes e Veneza. O Cangaceiro, por exemplo, faturou 50 milhões de dólares e foi distribuído em mais de 80 países. Contudo, o montante obtido quase não voltava para empresa, já que os filmes eram todos distribuídos pela Columbia Pictures, que comprava as fitas por preços baixos, comparados ao mercado internacional. Dessa forma, a Vera Cruz mergulhou em um processo de endividamento irreversível, causado por custosas produções - que se tornavam ainda mais caras por atrasos nas filmagens - e o pouco retorno financeiro relacionado diretamente aos problemas de distribuição. Segundo depoimentos,[quais?] a situação chegou a esse ponto por conta da inexperiência de Zampari, que não estudou o mercado antes de fundar a empresa. Naquela época, a ausência de um sistema próprio de distribuição para filmes brasileiros fazia com que os distribuidores e exibidores ficassem com mais de 60% da arrecadação das produções. Além disso, por conta da alta inflação, preços dos ingressos das salas de cinema eram tabelados, reduzindo seu valor real e a arrecadação. No entanto, para produções estrangeiras, o governo brasileiro pagava a diferença entre o câmbio do dólar oficial e do paralelo, impedindo que houvesse perdas inflacionárias e criando concorrência desigual no mercado.
Apesar de ter existido por apenas cinco anos, a Vera Cruz formou uma geração de cineastas e profissionais de cinema. A qualidade técnica e artística de seus filmes marcou uma época e mostrou a viabilidade do cinema brasileiro. Michael Stoll, um dos técnicos de som, fundou o estúdio paulista Álamo, em 1972. Foi na Vera Cruz que despontou Amácio Mazzaropi, campeão de bilheteria até a década de 1970. A experiência da Vera Cruz na dificuldade na inserção de filmes no mercado brasileiro e internacional foi importante também para a criação da Embrafilme, em 1969, uma empresa estatal brasileira produtora e distribuidora cinematográfica. A Companhia Vera Cruz, uma das maiores e mais influentes produtoras de cinema no Brasil nos anos 1950, contou com a participação de muitos atores que, mais tarde, se tornaram nomes célebres do cinema brasileiro. Entre os figurantes que se destacaram, podemos citar o caso de Amácio Mazzaropi. Inicialmente atuando em papéis menores, Mazzaropi se tornou um ícone do cinema popular brasileiro, conhecido por seus filmes que misturavam comédia e drama, e pela criação da sua própria produtora, que levava seu nome
Durante os quase cinco anos de funcionamento, a companhia realizou vinte e dois filmes de curta, média e longa-metragem. Sua primeira produção foi o filme Caiçara, dirigido pelo italiano Adolfo Celi e todo filmado em Ilhabela, litoral de São Paulo, para onde foram deslocados o elenco, a equipe técnica e os pesados equipamentos de filmagem. A produção foi cercada de grande publicidade e teve como protagonista Eliane Lage. O reconhecimento internacional da Vera Cruz veio com O Cangaceiro, premiado no Festival de Cannes. Antes, o diretor Lima Barreto já havia sido premiado, mas por curta-metragens: em 1950, fez Painel e Santuário, sobre as pinturas de Aleijadinho, igualmente premiado em Cannes.
Administração atual do complexo
Os pavilhões da Vera Cruz eram administrados por concessão pela empresa privada Telem, desde 2015. Porém, a municipalidade revogou o contrato de concessão que, originalmente se daria por 30 anos, e retomou a administração do complexo, com a promessa de ser utilizado para produções televisivas e cinematográficas. Em 2022 a Rede Bandeirantes, após concorrência pública, arrendou o estúdio por 3 anos para seu departamento de entretenimento.


