Colônia Juliano Moreira
A Colônia Juliano Moreira (CJM), originalmente chamada de Colônia dos Psicopatas Homens de Jacarepaguá, foi uma colônia psiquiátrica brasileira localizada em Jacarepaguá, na cidade do Rio de Janeiro.
Engenho de Nossa Senhora dos Remédios
Originalmente, as terras da Colônia Juliano Moreira fizeram parte do grande terreno de Jacarepaguá reivindicado por Salvador Correia de Sá, o Velho, após a vitória portuguesa na Batalha do Uruçumirim. O terreno foi herdado por seu filho, Gonçalo Correia de Sá, e em seguida pela filha de Gonçalo, Vitória Correia de Sá, que em 1653 as desmembrou da Fazenda do Camorim e as vendeu para os irmãos Tomé e João da Silva. Neste local, os irmãos construíram um dos engenhos de açúcar mais antigos da cidade do Rio de Janeiro, que veio a ser conhecido como Engenho de Nossa Senhora dos Remédios, em homenagem à santa para a qual também ergueram uma pequena capela na propriedade.
Engenho Novo da Taquara
Em 1806, após o falecimento de Francisco Teles Barreto de Menezes, as terras do Engenho Novo foram herdadas por sua filha Catarina Josefa de Andrade Teles, enquanto as terras da Fazenda da Taquara ficaram para sua filha Ana Inocência Teles de Menezes. Devido à falta de clareza no inventário de Francisco Teles a respeito das divisas exatas entre as duas propriedades, iniciou-se uma série de disputas judiciais entre as duas herdeiras, no que ficou conhecida como "guerra dos concunhados". Após a morte de Catarina Josefa em 1838, as terras do Engenho Novo foram herdadas por suas duas filhas com Pascoal Cosme dos Reis: Tereza e Maria Teles Cosme dos Reis. Sob a posse dessas herdeiras, terminou-se a construção do aqueduto e ergueu-se a casa-grande da fazenda, que permanece de pé até hoje.
Criação da colônia
Em 1903, o médico baiano Juliano Moreira tornou-se diretor-geral da Assistência a Alienados do Distrito Federal, órgão público criado em 1890 para garantir o tratamento psiquiátrico gratuito universal a todos os então chamados "alienados mentais" (portadores de distúrbios psicológicos, alcoólatras e desviantes de diversos tipos). À frente do órgão, Moreira lutou por um tratamento mais humanitário dos pacientes, especificamente defendendo o modelo de instituições psiquiátricas idealizado pelo alemão Wilhelm Griesinger. Segundo Griesinger, idealmente haveriam dois tipos de hospitais psiquiátricos: o hospício urbano, que deveria tratar casos agudos e em regime fechado a curto prazo, e a colônia agrícola, no qual deveriam ficar, em regime aberto, os pacientes crônicos. Tais hospícios rurais permitiriam o melhor tratamento dos enfermos (devido ao não-encarceramento, à distância das pressões urbanas e ao contato com a natureza) e também aliviariam a superlotação, além de permitirem com que os enfermos se dedicassem à atividade agrícola, o que era visto tanto como uma forma de praxiterapia quanto uma maneira da instituição se manter financeiramente independente.
Período 1920-1950: expansão e transição
Em 1933 faleceu Juliano Moreira, idealizador da Colônia. Dois anos depois, o nome da instituição foi alterado em sua homenagem, passando a se chamar oficialmente Colônia Juliano Moreira. Em 1934, Gustavo Capanema foi nomeado ministro da Educação e Saúde do governo de Getúlio Vargas. Logo no início de sua administração, apresentou planos de transferir para a Colônia de Jacarepaguá os internos do Hospital Nacional de Alienados na Praia Vermelha, que encontrava-se superlotado e decadente. Para atingir este objetivo, a infraestrutura da Colônia foi grandemente ampliada, com diversos novos pavilhões sendo construídos ao longo dos anos seguintes: como resultado, o total de leitos saltou de 700 em 1936 para 2 900 em 1940. O número de novas entradas também aumentou drasticamente, superando as décadas anteriores e a década seguinte; apenas no ano de 1942, foram 994 novas internações.
Período 1960-1980: decadência e cobertura midiática
A partir de meados da década de 1960, a instituição passou por um período de decadência. O governo Castelo Branco, empossado em 1964, adotou uma política de assistência focada na privatização, que se manifestou em mais da metade da verba pública para saúde sendo destinada ao setor privado. No contexto da Colônia, os pavilhões de tisiologia foram fechados, a capela foi desativada por falta de reformas, e a taxa de óbitos disparou, tornando-se três vezes maior do que a de qualquer outro hospital para pacientes psiquiátricos crônicos no país. Neste período também se iniciou um aumento crescente de ocupações irregulares nos terrenos da Colônia, processo este que se estende até os dias de hoje.
Período 1990-atual
Em 2022, a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro encerrou as atividades de internação psiquiátrica da Colônia, última instituição em funcionamento na cidade com estas funções. Grande parte dos edifícios foram ressignificados, e hoje abrigam estabelecimentos variados, dentre eles a Clínica da Família Arthur Bispo do Rosário e o Centro de Atenção Psicossocial Arthur Bispo do Rosário.
A Colônia era dividida em diversas unidades, normalmente chamadas de pavilhões ou núcleos, que em geral atendiam a grupos de internos distintos. A grande maioria se encontrava em quatro núcleos principais, dois masculinos e dois femininos:
Em 1936, um grupo de funcionários fundou o Colônia Atlético Clube, time de futebol masculino que treinava no campo de futebol da instituição. O campo também era usado para partidas de futebol de outros times, como o Madureira e o Niterói. Posteriormente, foram criados times exclusivos para pacientes, como o Time Ulysses Viana e o Time Adib Jabour, que jogavam entre si e ocasionalmente inclusive contra times profissionais de fora da Colônia, usualmente da segunda divisão do campeonato carioca. Durante muitos anos nas décadas de 70 e 80, Zico visitava anualmente a Colônia para participar de peladas.
Aqueduto
O aqueduto da Colônia é um dos principais marcos arquitetônicos de Jacarepaguá. Sua construção teve início no final do século XVIII e foi concluída em 1839, tendo sido possivelmente atrasada devido às disputas judiciais pelas terras. Sua função era trazer água das nascentes do Maciço da Pedra Branca para abastecer a propriedade, aproveitando a inclinação natural da região para conduzir a água por aproximadamente 3 quilômetros. A água era usada não apenas ara movimentar as moendas de cana na preparação do açúcar, como também para o uso diário dos moradores. O aqueduto foi tombado pelo IPHAN em maio de 1938 sob a classificação de "infraestrutura ou equipamento urbano".
Igreja de Nossa Senhora dos Remédios
A igreja (por vezes chamadas de "igrejinha" pela população local), foi construída em 1862 por ordem de Maria Teles, tendo um projeto de inspiração neoclássica desenhado pelo arquiteto Theodoro Marx. Possui uma nave única, com uma torre sineira de planta octogonal erguendo-se sobre o nártex. Se encontrava desativada quando o governo federal desapropriou o engenho no início do século XX. Foi apenas em 1949, sob a gestão do diretor Heitor Péres (1946-1956), que iniciou-se a restauração do templo e uma aproximação entre a Colônia e a comunidade eclesiástica local. Tal aproximação culminou, em 1953, com a chegada do padre Joaquim del Rodrigues, que passou a residir na Colônia e dedicar-se exclusivamente aos serviços religiosos da instituição.
Imagem: Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) · BY-NC-SA · Openverse
A Colônia é citada na música "Neurastênico" de Betinho & Seu Conjunto, lançada em 1954, que ficou popular nacionalmente por fazer parte da trilha sonora da novela Estúpido Cupido. A música, teoricamente cantada por um cidadão com neurastenia, mas que fica subentendido tratar-se de um desviante, relata que se o mesmo não se tratar "iria para Jacarepaguá". A instituição também foi tema do documentário Stultifera Navis, dirigido por Clodoaldo Lino e publicado em 1987. No documentário, são mostradas cenas do dia-a-dia da instituição na época, assim como entrevistas com o filósofo e dramaturgo Carlos Henrique de Escobar e o psicanalista Jurandir Freire. A obra ganhou o Grande Prêmio VHS no V Festival Fotóptica Videobrasil, ocorrido no Museu da Imagem e do Som de São Paulo. O videoclipe da canção "O amanhã", do grupo Detonautas, foi gravado em 2007 na Colônia. O local também serviu de cenário para o filme Os Mercenários, de 2010, estrelando Sylvester Stallone.


