Declínio do politeísmo greco-romano
Declínio do politeísmo greco-romano é um termo utilizado para designar o processo de ascensão do cristianismo no contexto do Império Romano e seus estados sucessores em detrimento das antigas religiões. A religião, no mundo greco-romano na época da chamada "reviravolta de Constantino", consistia basicamente de três correntes principais. Em primeiro lugar, as religiões tradicionais da Grécia e Roma, em seguida, o culto imperial típico da era imperial romana e, finalmente, as várias religiões de mistério greco-romanas, como os mistérios eleusinos, o culto de Cibele, o mitraísmo e o culto sincrético a Ísis, originalmente uma deusa do Egito Antigo.
Os romanos tendiam para o sincretismo, enxergando os mesmos deuses com nomes diferentes nas diversas regiões do Império, acomodando outros povos, como os helenos, germânicos e celtas da Europa e diversos grupos semitas do Oriente Médio. Sob a autoridade romana, os vários mitos nacionais que tinham alguma similaridade com os de Roma foram adaptados por analogia à mitologia romana, o que ajudava a consolidar o controle imperial. Consequentemente, os romanos eram geralmente tolerantes e acolhedores em relação a novas divindades e algumas experiências religiosas de outros povos.
Ascensão da filosofia esotérica
A perspectiva mais filosófica da religião nas regiões helenizadas do Império Romano levou a um renascimento do pensamento religioso intelectual por volta do início do século II. Escritos pseudepígrafos atribuídos a Hermes Trimegisto — discutindo filosofia esotérica, magia e alquimia — começaram a se espalhar do Egito romano para todo o império. Apesar de difíceis de datar com precisão, estes textos foram provavelmente redigidos entre os séculos I e III. Embora este tipo de hermetismo tenha sido geralmente escrito com o objetivo teológico de melhoramento espiritual, cada um tinha uma origem anônima, eclética e espontânea e o conjunto não era parte de nenhum movimento organizado.
Adoração do Sol oriental
Em algum momento do século I, os membros do exército romano começaram a adotar uma religião de mistério chamada mitraísmo, um culto relacionado a um deus sol que surgiu de obscuras origens estranhas à Roma. A primeira referência ainda existente é de Plutarco, que menciona uma observação, em 67 a.C., de certos piratas do Mediterrâneo praticando-o. As legiões romanas se movimentavam por todo o império, espalhando o mitraísmo por onde passavam. No começo, seus fieis eram principalmente soldados, mas ela também foi adotada depois por libertos, escravos e comerciantes em todos os locais onde permanecia uma legião, especialmente nas fronteiras. O mitraísmo não exigia exclusividade — era possível e comum segui-lo juntamente com outros cultos simultaneamente. Finalmente, ele tornou-se popular na capital imperial, arrebanhando de forma gradativa membros entre as classes mais aristocráticas até contar em suas fileiras com senadores. De acordo com a "História Augusta", até mesmo o imperador Cômodo teria sido membro. Apesar de, por razões desconhecidas, o mitraísmo excluir completamente as mulheres, já havia um grande contingente de seguidores no século III — há mais de 100 ruínas de mitreus conhecidas, oito somente em Roma (além de mais de 300 monumentos mitraicos) e dezoito em Óstia Antiga, o principal porto marítimo da capital.
Judaísmo e cristianismo
A tolerância imperial se estendia apenas às religiões que não resistiam à autoridade romana e respeitavam seus deuses. As que eram hostis ao estado ou que reivindicassem exclusividade das crenças e práticas religiosas não estavam entre elas e alguns cultos orientais foram perseguidos. Os judeus conseguiram alguns privilégios especiais por sua predominância no setor econômico, pelo baixo número de seguidores e sua dispersão, mas esta tolerância estava precariamente equilibrada sob fino verniz de submissão e ela finalmente transformou-se em perseguição quando a disposição à colaboração entre os judeus começou a diminuir. Seitas intolerantes também perseguiam-se umas às outras, como era o caso do primeiros cristãos, denunciados pelos judeus tradicionais como provocadores perigosos segundo algumas interpretações do Concílio de Jâmnia e do "Birkat haMinim". Resultaram diversos massacres de comunidades cristãs e de grupos nacionalistas judaicos.
Depois que os conflitos iniciais entre o Estado e a nova religião emergente, Galiano (r. 253–268) foi o primeiro imperador a emitir um édito de tolerância a todos os credos religiosos, incluindo o cristianismo. Segundo polemistas cristãos escrevendo depois de sua morte, Constantino I teria sido batizado em seu leito de morte, o que faria dele o primeiro imperador romano cristão. Eusébio, um historiador cristão contemporâneo, elogia-o além disso pela demolição de alguns templos pagãos. Seja como for, seus efeitos sobre a política oficial durante os imperadores cristãos até Valentiniano I e Valente foram suficientes para aumentar significativamente as conversões para o cristianismo, mas não para extinguir o paganismo. As perseguições de fato eram esporádicas e geralmente resultado de iniciativas locais, como foi o caso da destruição dos lugares santos da Gália por São Martinho de Tours no final do século IV.
Os atos de Constâncio II, que reinou entre 337 e 361, marcam o começo de uma era de perseguição formal contra o paganismo pelo Império Romano Cristão, especialmente pela publicação de leis e éditos que puniam as práticas pagãs. A partir da década de 350, novas leis prescreveram a pena de morte para os que realizassem ou participassem de sacrifícios ou adorassem ídolos, templos foram fechados e o tradicional "Altar da Vitória" foi removido do Senado. Nesta época ocorreram frequentes episódios de cristãos comuns destruindo, pilhando, dessacrando ou vandalizando templos, túmulos e monumentos pagãos. Os duros éditos imperiais tiveram que enfrentar o vasto número de seguidores do paganismo entre a população e a resistência passiva de governadores e magistrados. As leis antipaganismo, começando com Constâncio, iriam, no futuro, influenciar negativamente as leis da Idade Média e, de forma alterada, seriam as bases da Inquisição.
Apenas durante o reinado de Juliano, o Apóstata, de 361 a 363, o paganismo ameaçou voltar. Entre 363 e 375, durante os reinados de Joviano, Valente e Valentiniano I, ele foi aceito com relativa tolerância.
Juliano
Juliano era sobrinho de Constantino I e foi criado como cristão, mas os assassinatos de seu pai, irmão e dois tios depois da morte de Constantino foram atribuídos por ele a Constâncio II e, por associação, aos cristãos em geral. Esta antipatia só piorou quando Constâncio executou o último irmão remanescente de Juliano em 354. Depois da infância, Juliano foi educado por helenistas e foi atraído pelos ensinamentos dos neoplatonistas e pelas antigas religiões. Suas crenças eram sincréticas e ele foi um iniciado de pelo menos três religiões de mistério. Mas esta abertura religiosa de Juliano não se estendia ao cristianismo em si, principalmente por sua reivindicação de deter uma perspectiva exclusiva sobre a verdade religiosa. Vendo a si mesma como a única religião verdadeira, o cristianismo era oposto a, e fundamentalmente incompatível com, formas sincréticas mais inclusivas do paganismo.
Joviano, Valentiniano e Valente
Depois da morte de Juliano, Joviano aparentemente reinstituiu uma política de tolerância religiosa que evitou os extremos de Constâncio e Juliano. Sob Valentiniano I e Valente, esta política se manteve. Os escritores pagãos elogiam ambos por suas políticas religiosas liberais. Valentiniano, que reinou no ocidente, chegou a permitir sacrifícios noturnos, que haviam sido proibidos anteriormente por serem vistos como tentativas de ocultar as divinações proibidas sob o véu da noite, depois que o procônsul da Grécia lhe fez um apelo. Ele também confirmou o direito e os privilégios dos sacerdotes pagãos e confirmou-lhes o direito de serem os únicos administradores de seus templos. Valente, que reinou no oriente, era ariano e estava ocupado demais com sua batalha contra os cristãos ortodoxos para se importar demasiadamente com os pagãos. Tanto no ocidente quanto no oriente, novas leis foram passadas proibindo novamente as divinações privadas. Por conta do zelo exagerado da população em sua tentativa de acabar com as divinações perigosas, áugures e arúspices começaram a temer aparecer em público, o que levou os imperadores a autorizarem formalmente a prática da divinação oficial e legal numa lei de 371. Apesar da política oficial, as leis antipaganismo anteriores continuaram valendo e a destruição esporádica de lugares sagrados pagãos ainda era tolerada.
Com a morte de seu pai, Valentiniano I, em 375, Graciano começou a reinar de fato aos dezesseis. Seis dias depois da morte de Valentiniano, o meio-irmão de Graciano, Valentiniano II, que tinha apenas quatro anos, também foi declarado imperador. Depois da morte de Valente, na Batalha de Adrianópolis, Graciano escolheu Teodósio para suceder o tio. Graciano havia sido educado por Ausônio, que elogiou o pupilo por sua tolerância, mas, com a morte do pai, o imperador caiu sob a influência de Ambrósio, que tornou-se seu principal conselheiro. Por influência dele, passos decisivos para a supressão definitiva do paganismo foram tomados. Esta influência de Ambrósio foi a força mais importante que acabou por encerrar um período de ampla, ainda que não oficial, tolerância religiosa que existia desde a morte de Juliano. Graciano desferiu severos golpes contra o paganismo em 382, quando se apropriou da renda dos sacerdotes pagãos e das virgens vestais, confiscou as propriedades privadas dos colégios sacerdotais pagãos (que perderam ainda seus privilégios e imunidades) e ordenou novamente a remoção do Altar da Vitória do Senado. Graciano declarou ainda que todos os templos e santuários pagãos deveriam ser confiscados pelos governo e suas rendas, incorporadas ao tesouro imperial.
A perseguição ao paganismo pelo imperador Teodósio I começou em 381, depois de apenas dois anos de seu reinado no Império Romano do Ocidente. Na década de 380, ele reiterou a proibição de Constâncio aos sacrifícios, proibiu o aruspício sob pena de morte, iniciou a criminalização e punição dos magistrados que não aplicassem as leis antipaganismo, dissolveu associações pagãs e demoliu templos. Entre 389 e 391, publicou os infames "Decretos Teodosiano", que estabeleceram, na prática, a proibição do paganismo: visitas aos templos foram proibidas, os feriados pagãos remanescentes foram abolidos, o fogo eterno do Templo de Vesta, no Fórum Romano, foi apagado, as virgens vestais foram extintas e auspícios e bruxarias passaram a ser punidos. Teodósio recusou o pedido de senadores pagãos para recolocar o Altar da Vitória no Senado. Em 392, Teodósio tornou-se imperador do império inteiro (o último) e, deste momento até o final de seu reinado, em 395, ignorou os pedidos dos pagãos por tolerância e autorizou ou participou pessoalmente na destruição de muitos templos, lugares santos, imagens e objetos de veneração por todo o império, além de participar em ações cristãs contra os grandes santuários pagãos. Ele emitiu uma ampla legislação proibindo rituais pagãos até mesmo nas residências privadas e particularmente opressiva contra os maniqueístas. Agora o paganismo é que estava proscrito, uma religio illicita. É provável que tenha sido por iniciativa sua a supressão final dos Jogos Olímpicos Antigos, cujo último registro é de 393.
Com a morte de Teodósio I, em 395, iniciou-se uma crise política que os bárbaros rapidamente souberam se aproveitar, invadindo o Império Romano numa escala sem precedentes. Como as tribos germânicas que se infiltravam, colonizavam ou invadiam o império eram arianas, muitos cristãos ortodoxos passaram a ter dúvidas sobre sua verdadeira fé. Alguns, de forma supersticiosa ou patriótica, acreditaram que as invasões eram o resultado do abandono das crenças antigas. Outros, que o sucesso dos germânicos se devia à corrupção da igreja ortodoxa. Os pagãos, por sua vez, retomaram a agressividade e passaram a culpar os cristãos pelos desastres que afligiam o império[c]. Apesar dos apelos de muitos pagãos por tolerância, Honório e Arcádio continuaram o trabalho do pai passando ainda mais leis antipaganismo numa tentativa de acabar com este renascimento na raiz. O simples fato de eles terem sido obrigados a repetir as ameaças passando numerosas leis contra as práticas pagãs já indica que seus esforços não tiveram sucesso e o paganismo continuou a existir de forma discreta.
A vitalidade contínua do paganismo levou Marciano, que tornou-se imperador no oriente em 450 depois da morte de Teodósio II, a repetir todas as proibições anteriores aos ritos pagãos. A partir de 451, todos os que continuassem a realizar ritos pagãos teriam suas propriedades confiscadas e seriam condenados à morte. Marciano também proibiu qualquer tentativa de reabrir templos e, além disto, para encorajar a estrita aplicação da lei, uma multa de 25 quilos de ouro passou a ser imposta a qualquer juiz ou governador, assim como seus oficiais subalternos, que não fizessem valer esta lei. Porém, nem mesmo assim o paganismo foi extinto, pois, Leão I, o Trácio, que sucedeu a Marciano em 457, foi obrigado a publicar uma lei, em 472, impondo duras penas a qualquer proprietário que permitisse a realização de rituais pagãos em suas propriedades. Se fosse de alto escalão, seria punido com a perda de cargos e status além do confisco da propriedade. Caso contrário, seria punido fisicamente e condenado a trabalhar nas minas pelo resto da vida.


