Classes de substantivos
Em linguística, classe de substantivo se refere a um sistema para agrupar os substantivos que existem em algumas línguas. Um substantivo pode pertencer a uma determinada classe em função de características tais como sexo (gênero), ser vivo ou não, formato, tamanho. Porém, o fato de um substantivo pertencer a uma ou outra classe é muitas vezes bem convencional. Alguns estudiosos consideram a expressão "gênero gramatical" sendo equivalente a classe de substantivo, porém fazem muitas diferenças entre esses dois conceitos..
Há três modos principais pelos quais as línguas naturais agrupam substantivos em classes: É usual também uma combinação dos critérios acima, sendo um deles mais prevalente. As classes de substantivos formam um sistema de concordância nominal e a pertinência de um substantivo a uma classe varia conforme a língua e pode implicar em: Por exemplo, as línguas românicas (com 2 gêneros, exceto romeno com 3), as germânicas e as eslavas (com 3 gêneros) expressam classe de substantivo na inflexão dos pronomes da 3ª pessoa do singular (algumas, como português, espanhol e francês, também 3ª do plural). Isso se reflete nos pronomes possessivos, no uso dos pronomes relativos “quem” e “de quem” , dos artigos, de alguns numerais, etc. e também nos sufixos que marcam o gênero feminino. Há línguas classificadas como “sem gênero gramatical”, são aquelas onde as classes de substantivos são expressas por outras palavras contidas nas frases. Nessas línguas sem inflexões por classe nominal, os substantivos (nomes) podem ser caracterizados por partículas.
Línguas algonquinas
A língua ojíbua e outros membros das línguas algonquinas distinguem classes de seres vivos (animados) dos inanimados. Alguns estudiosos acreditam que essa diferença é em realidade entre seres poderosos e não-poderosos. Assim, todos os seres vivos, coisas sagradas e coisas ligadas à Terra são poderosas, são seres animados. Mesmo assim, a classificação é por vezes arbitrária, pois framboesa é "animada", mas morango é "inanimado".
Línguas atabascanas
Em navajo (língua atabascana meridional) os substantivos são classificados de acordo com animacidade, forma e consistência. Em morfologia, porém, a distinção não é expressa nos próprios substantivos, mas nos verbos dos quais a palavra é sujeito ou objeto. Como exemplo, temos a frase Shi’éé’ tsásk’eh bikáa’gi dah siłtsooz, ‘minha camisa está em cima da cama’, o verbo siłtsooz, ‘está sobre’, é usado porque o sujeito shi’éé’, ‘minha camisa’, é um objeto plano (fino) e flexível. Mas na frase Siziiz tsásk’eh bikáa’gi dah silá, ‘Meu cinto está em cima da cama’, o verbo silá, ‘está’, é usado porque o sujeito siziiz,‘meu cinto’, é um objeto esguio (delgado, longo) e flexível.
Aborígenes australianos
A língua dyirbal é bem notável por seu sistema de 4 classes de substantivos, que se dividem conforme as seguintes linhas semânticas: A classe identificada como feminina, por exemplo, inclui o fogo, palavras relacionadas ao fogo, e também criaturas e fenômenos perigosos. Isso inspirou o livro de George Lakoff Women, Fire and Dangerous Things (ISBN 0-226-46804-6). A língua ngangikurrunggurr tem classes de substantivos reservadas para caninos e para armas de caça. A língua enindhilyagwa tem classes para coisas que refletem luz e na língua diyari há distinção apenas entre mulheres e outros objetos. A língua yaniuwa apresenta 16 classes para substantivos, incluindo nomes associados com comida, árvores, entidades abstratas, homens, coisas masculinas, mulheres, coisas femininas e outras. É uma língua com dois dialetos, um dos homens e um das mulheres, e no dialeto masculino as classes para homens e coisas masculinas se simplificam para uma única, a mesma que as mulheres usam só para homens.
Caucasianas
Algumas das línguas caucasianas do noroeste e quase todas as do nordeste apresentam classes de substantivos. Destas últimas somente as línguas lezgui, a udi e a agul não têm classes de substantivos. Algumas das línguas têm apenas duas classes, enquanto que a bats tem oito. A maior parte, no entanto, apresenta quatro classes, algo como gêneros: macho, fêmea, seres vivos e alguns objetos e os demais. A língua andi tem uma classe reservada para insetos. Dentre as caucasianas do noroeste, a língua abcázia faz distinção entre macho/humano e fêmea/não humano e a língua ubykh tem classes similares, mas as inflexões não são obrigatórias em todos os casos. Nas línguas caucasianas, a classe não é marcada no próprio substantivo, mas nos relacionados verbos, adjetivos, pronomes e preposições.
Nigero-Congolesas
As línguas nígero-congolesas podem ter dez ou mais classes gramaticais, definidas por critério sem base em gênero sexual. Algumas classes, porém, são reservadas para humanos. A língua fula tem cerca de 26 classes de substantivos (a quantidade varia dentre os dialetos). Conforme o linguista Steven Pinker, a língua kivunjo tem 16 classes, incluindo algumas, por exemplo, para “locais precisos”, “locais genéricos”, para “grupos ou pares de objetos”, algumas para objetos que “vêm em pares ou conjuntos”, para “qualidades abstratas” e outras. Conforme Carl Meinhof, as línguas bantas (ou bantu) apresentam um total de 22 classes de substantivos, ditas “classes nominais” (noção criada por Wilhelm Bleek). Embora nenhuma das línguas bantas expresse todas essas classes, a maioria das línguas tem pelo menos dez classes. Por exemplo, a língua chona tem 20 classes, o suaíle tem 15, sesotho do sul tem 18 e luganda tem 10, 17, ou 21 (varia de análise).
Alguns linguistas consideram gênero como casos particulares e mínimos de conjuntos de classes de substantivos com apenas 2 a 4 classes (5 no caso do polonês). Assim, os chamados gêneros não seriam mais do que instâncias das classes. Nem todos especialistas, porém, fazem distinção entre gênero e Classe, usando termo gênero para ambos os casos. Nas línguas com gênero, o “gênero” é uma categoria seletiva para os substantivo, o que implica que todos os substantivos podem ser divididos e separados em grupos, em função desse gênero. Com exemplo, a palavra Polonesa ręcznik, ‘toalha’, tem gênero masculino inanimado, enquanto que homens e animais do sexo masculino são respectivamente dos gêneros masculino humano e masculino animal. Encyklopedia, ‘enciclopédia’ é do gênero feminino, que inclui fêmeas humanas, fêmeas animais e objetos tidos com femininos. Krzesło, ‘cadeira’, tem o gênero neutro, que inclui animais e objetos neutros e animais a ainda a palavra para “criança”. A palavra gênero deriva do Latim que significa ‘tipo’, sem um sentido obrigatoriamente sexual. Por exemplo, em sueco os substantivos podem ter gênero “comum” e “neutro”, sendo tanto homens como mulheres do gênero dito “comum”.
Algumas línguas têm um sistema especial, dito de classificadores, o qual tem um elaborado conjunto de partículas gramaticais que separam os substantivos com base em forma e função, mas são morfemas e não afixos. É o caso do chinês, do japonês e do tailandês. Como as classes definidas por essas pequenas palavras classificatórias não causam variações em outros contextos, muitos linguistas não as classificam como gêneros gramaticais.


