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Civilização cartaginesa

A civilização cartaginesa ou civilização púnica foi uma civilização da Antiguidade que se desenvolveu na Bacia do Mediterrâneo entre o fim do século IX a.C. e meados do século II a.C. e esteve na origem de uma das maiores potências comerciais e militares do seu tempo.

Fonte: Wikipédia (pt)Atualizado em 11/07/2026
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História

Das origens até ao século V a.C.

As primeiras instalações permanentes fenícias no Norte de África são muito precoces, apesar de provavelmente aquela região não ser mais do que uma simples etapa na rota dos metais da Península Ibérica.[d] Por exemplo, Útica, situada a noroeste de Cartago, foi fundada em 1 101 a.C. segundo Plínio, o Velho. No século XII a.C. teriam sido também fundados os assentamentos de Gades (ou Gadir),[e] no sul de Espanha, e Lixo,[f] em Marrocos, a primeira em 1 110 a.C. e a última ainda antes disso. A data de fundação de Cartago por Dido (ou Elissa), uma princesa de Tiro, irmã do rei Pigmalião (r. 814–803 a.C.) foi sempre objeto de debate, não apenas durante a Antiguidade, mas também nos nossos dias. Existem duas tradições antigas que se confrontam. A mais difundida que chegou aos nossos dias em fragmentos de Timeu de Tauroménio reutilizados por outros autores, situa a fundação de Cartago em 814 a.C. A outra lenda coloca a criação de Cartago em redor da Guerra de Troia (c. século XIII a.C.), uma tradição que é retomada por Apiano.

Expansão no Mediterrâneo e em África

É muito difícil de distinguir, a partir das escavações nos sítios fenício-púnicos, o que é de origem fenícia e o que é de origem cartaginesa. Assim, os arqueólogos não assinalam ruturas como as verificadas em certos sítios antigos como Bítia ou Nora, na Sardenha. A fundação de Ibiza, tradicionalmente datada em 675 a.C. tanto pode assim ter sido obra quer dos fenícios quer dos cartagineses.[carece de fontes?] O "império" púnico, cuja formação e funcionamento não têm caraterísticas dum imperialismo em sentido estrito, é antes considerado uma espécie de confederação de colónias preexistentes em volta da mais poderosa dentre elas quando se deu o declínio da cidade-mãe de Tiro. Cartago teria ficado encarregue de assegurar a segurança coletiva e a política externa e comercial da comunidade.[carece de fontes?]

Antagonismo com Roma e fim da Cartago púnica

As primeiras relações com Roma são pacíficas, o que é atestado pelos tratados concluídos em 509 a.C., referidos na obra de Políbio, 348 a.C. e 306 a.C. Estes tratados garantem a Cartago a exclusividade do comércio desde o Norte de África e ausência de pilhagens contra os aliados de Roma em Itália. A duração cada vez mais curta entre esses tratados tem sido entendida como um sinal de tensões crescentes entre as duas potências.[carece de fontes?] Os episódios denominados "guerras púnicas" referem-se ao antagonismo que se estendeu durante mais de um século, de 264 a 146 a.C. O primeiro conflito ocorre de 264 a 241 a.C., e implicou a perda da Sicília por parte de Cartago, que foi ainda obrigada a pagar um pesado tributo. Esta derrota tem graves consequências sociais internas, como o episódio da Guerra dos Mercenários, uma guerra civil com contornos de extraordinária crueldade, que assolou os territórios cartagineses africanos entre 240 e 237 a.C. A capital seria finalmente salva por Amílcar Barca, mas Roma aproveitou as dificuldades internas para agravar as condições de paz.[carece de fontes?]

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Geografia

Localização dos assentamentos

Os locais ocupados pelos fenícios, e depois pelos púnicos, virados para o mar para assegurar a ligação com as rotas comerciais, deviam também garantir a segurança dos habitantes, protegendo-os de um interior que podia ser-lhes hostil. Esta segurança era naturalmente assegurada numa ilha, como em Gades,[e] no sul da Península Ibérica, ou Mócia, na Sicília, ou então, se bem que em menor escala, numa península ou num espaço cercado de colinas, que tornassem a defesa mais fácil em caso de ataque. Deste ponto de vista, a excelência da localização de Cartago explica que ela tenha sido elogiada por vários autores antigos, nomeadamente Estrabão, que compara o local a «um navio ancorado». Todavia, as qualidades defensivas naturais podiam não ser suficientes, o que implicava o reforço com arranjos suplementares, como em Mócia, onde a ilha foi rodeada por uma muralha e uma calçada fazia a ligação com a terra firma, facilitando os aprovisionamentos.[carece de fontes?]

Cartago, a principal cidade: caraterísticas gerais

Segundo a lenda, Cartago ter-se-ia desenvolvido a partir da colina de Birsa, uma cidadela e centro religioso, estendendo-se depois para a planície costeira e para as colinas a norte com o arrabalde de Mégara (atualmente La Marsa), que parece ter sido construído de uma forma mais anárquica do que o resto da cidade. Mégara é possivelmente o subúrbio mais recente, que não teve tempo para se estruturar. À exceção de Mégara Cartago foi construída segundo um plano bastante ordenado, com ruas retilíneas, exceto nas colinas, onde apesar de tudo a urbanização foi planeada. Globalmente, a planície era quadriculada pelas ruas, com a ágora e as praças ligando as ruas que raiavam em direção às colinas. A cidade era rodeada por espessas muralhas de blocos duma pedra branca que a tornavam luminosa e visível de longe. As escavações do bairro dito de Magão (ou Magon) permitiram estudar a evolução das estruturas defensivas ao longo de um extenso período. A cidade foi concebida segundo um plano que sugere que os gregos podem não ter sido os únicos a dar origem a planos urbanos retilíneos ordenados sobre dois eixos que se cruzam perpendicularmente no centro, comuns à maior parte das cidades do mundo antigo.[carece de fontes?]

Possessões: zona de influência ou império?

Na época da sua máxima expansão territorial, em 264 a.C., a área de influência de Cartago era constituída pela maior parte do Mediterrâneo Ocidental e uma parte da costa atlântica do noroeste de África. No Norte de África, os entrepostos e colónias cartaginesas estendiam-se desde o é hoje a parte ocidental da Líbia a pelo menos uma parte da costa da Mauritânia; na Península Ibérica grande parte do que é hoje a Andaluzia e a Região de Múrcia estava sob o domínio ou influência cartaginesa, o mesmo acontecendo com as ilhas Baleares, a Sardenha e a Córsega, a parte ocidental da Sicília e ainda outras ilhas mais pequenas, como Malta, as Eólias e as Pelágias. Além dos assentamentos púnicos propriamente ditos, Cartago exercia ainda o controlo sobre antigos estabelecimentos fenícios como Lixo (perto da atual Larache, a sul de Tânger), Mogador (atual Essaouira), ambos na costa atlântica de Marrocos, Gades (atual Cádis, no sul de Espanha) e Útica, a noroeste de Cartago. Entre as maiores cidades púnicas encontravam-se, além da capital Cartago, Hadrumeto (atual Sousse), Ruspina (atual Monastir), Cartagena e Hipona (atual Annaba).[carece de fontes?]

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Arquitetura e urbanismo

Proteção da cidade: fortificações

Os autores antigos evocaram longamente as muralhas das cidades púnicas quando relataram os cercos a que foram sujeitas algumas delas.[h] Além das cidadelas das principais cidades, existiam também fortalezas destinadas a controlar determinados territórios. As escavações arqueológicas confirmaram em larga medida a difusão por todo o espaço púnico da cidade com muralha fortificada, pelo menos no estado atual da investigação. As escavações do bairro de Magão de Cartago puseram em evidência o traçado da muralha da cidade, na qual existia uma porta no lado do mar. Os púnicos reutilizaram muralhas anteriores em certos casos, como em Érix (atual Erice), na Sicília, e as próprias fortalezas previamente existentes por vezes eram usadas como envasamento (base) para outros elementos fortificados, como em Kélibia, no cabo Bon.

Espaços públicos e estruturas

O espaço público organizava-se em redor da ágora: centro da cidade, a praça era rodeada pelo edifício do Senado e outras edificações de caráter religioso. A ágora de Cartago nunca foi objeto de reconhecimento arqueológico, apesar da sua localização ser mais ou menos conhecida. A localização dos sítios usados pelos púnicos requeria a construção de estruturas, portos e cothons[i] Até mesmo em locais onde os navios podiam estar abrigados em enseadas ou outros locais naturalmente privilegiados, como o stagnum[j] de Mócia, onde no início não houve construção de estruturas artificiais, rapidamente se passou a considerar indispensável a criação das estruturas artificiais chamadas cothon. Encontramos esse tipo de porto artificial em Rachgoun, Mócia, Sulcis (Sant'Antioco) ou ainda em Mádia, se bem que nesta última nem todos os autores estejam de acordo quanto a ter existido um cothon, pois as instalações portuárias foram atribuídas à época fatímida.

Arquitetura sagrada

A localização do espaço sagrado na civilização cartaginesa estava ligada à topografia urbana, apesar de por vezes a arqueologia ter demonstrado a ausência de regras para o posicionamento dos locais afetos a esse uso. De facto, têm-se encontrado locais sagrados tanto nos centros urbanos ou acrópoles como nas periferias, quando não até nas zonas rurais. A localização de locais de culto estava dependente do crescimento das cidades, o qual continua em grande parte desconhecido e a posição dentro da cidade pode ter evoluído ao longo do tempo. Alguns locais de culto são conhecidos pelas fontes literárias, como o templo de Eshmun, o maior santuário de Cartago, que segundo Apiano se encontrava no cimo da acrópole, a qual se identificou como sendo a colina de São Luís, rebatizada Birsa. No entanto, o cume dessa colina foi completamente arrasado na época romana, o que implicou a perda do conjunto dos seus vestígios. O templo de Melcarte em Gades foi durante afamada durante muito tempo, até à época romana. O santuário de Astarte em Tas-Silg, perto da atual Marsaxlokk, no sul de Malta, sucedeu a um espaço de culto indígena e foi igualmente célebre.

Arquitetura privada

Nas escavações em Kerkuane e em dois bairros púnicos de Cartago — o de Magão e o de Aníbal — foram descobertos bairros organizados segundo um plano em quadriculado[k] com ruas largas. A organização da casa púnica é atualmente bem conhecida. A entrada das habitações do bairro de Birsa, batizado bairro de Aníbal, é bastante estreita, com um longo corredor que conduz a um pátio onde se encontra um escoadouro e em volta da qual se organiza o edifício. Na frente situava-se um espaço dedicado, segundo algumas interpretações, ao comércio; uma escadaria conduzia ao andar superior. Várias fontes, em particular Apiano, afirmam que os prédios tinham seis andares. Os vestígios arqueológicos confirmam a presença de de vários andares, mas desconhece-se o seu número. Algumas moradias aparentam ser mais sumptuosas do que outras, em particular uma villa com peristilo no bairro de Magão. Observa-se a mesma distinção nas casas de Kerkuane, com o belo exemplo da villa da rua do Apotropeu (Apotropaion).

Arquitetura funerária

A arquitetura funerária foi o primeiro elemento que foi estudado desde o fim do século XIX, em particular em Cartago, onde as exumações deram lugar a verdadeiras cerimónias mundanas. A localização em arco de círculo dessas necrópoles permitiu circunscrever a cidade púnica e examinar as variações do seu perímetros. Os arqueólogos notaram uma certa tipologia de túmulos, geralmente escavados na rocha e não construídos, quer como um tipo de túmulo em poço simples com o caixão no fundo ou a meio, quer incluindo uma escadaria que conduz a um poço. Esta forma de inumação é largamente predominante, exceto em alguns períodos, como demonstrado na escavação da necrópole púnica de Puig des Molins, em Ibiza.

Outros aspetos da arquitetura e mosaicos púnicos

Poucos vestígios da arquitetura púnica sobreviveram, devido à aplicação do princípio romano Delenda est Carthago ("Cartago deve ser destruída"), mas há diversas características que se podem depreender das investigações arqueológicas. As escavações em Cartago, em particular as do bairro de habitação à beira-mar, dito "bairro de Magão", e as de Kekuane, puseram em evidência as influências arquiteturais do Egito Antigo nos períodos mais antigos e da Grécia Antiga nos períodos mais recentes. A utilização da cornija "com garganta", bem como a existência de modelos reduzidos de fachadas de templos nas estelas com discos solares e ureus testemunham a influência egípcia. Fragmentos de colunas emolduradas de arenito de El Haouaria (cabo Bon), ornamentadas com estuque foram também descobertos, bem como provas do uso da ordem jónica, nomeadamente no naiskos de Thuburbo Majus, e da ordem dórica nas escavações de Birsa.

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Marinha e exército

O filólogo, historiador e arqueólogo francês Serge Lancel associou estes dois termos nos seus estudos, pois é inútil tentar estudar a civilização cartaginesa sem apreender aquilo que são dois pilares da expansão púnica no Mediterrâneo Ocidental.

Marinha

Cartago beneficiou dos avanços fenícios em matéria de construção naval e de comércio marítimo. Desde o início da ascensão de Cartago que a marinha púnica teve como objetivos a proteção das rotas comerciais e de mantê-las secretas, em particular exercendo o controlo da zona do estreito de Gibraltar. Ao serviço do comércio, a marinha afastou os concorrentes gregos, em particular os focenses. Cartago dominou os mares durante largo tempo; possuía a tecnologia marítima e o conhecimento dos mares mais avançados da sua época. Copiada pelos romanos para recuperarem do seu atraso nesse domínio, o poderio naval cartaginês foi consideravelmente reduzido durante a Primeira Guerra Púnica, em meados do século III a.C.

Exército

O tema do recrutamento do exército cartaginês, dos seus mercenários e do papel dos cidadãos foi sublinhado pela historiografia desde a Antiguidade: a derrota de Cartago estaria ligada ao recrutamento de soldados profissionais e ao pouco envolvimento dos cidadãos, ao contrário do que acontecia na Grécia e em Roma. Este argumento não tem em conta a coragem dos soldados durante os últimos combates, em que a população também participa, nem a organização da marinha de guerra, em que estavam envolvidos cidadãos. O exército púnico era composto por soldados de diversas origens: mercenários, cidadãos alistados voluntariamente e habitantes das possessões cartaginesas ou de aliados. O exército tinha por isso um forte caráter cosmopolita; cada uma das partes contribuía com unidades à guisa de participação no esforço comum. Uma estrutura desse tipo não apresentava alguns perigos, pois o Estado não regulava os soldos, como demonstrou a Guerra dos Mercenários a seguir à Primeira Guerra Púnica.

Técnicas e manobras

Entre as contribuições de origem macedónica à arte da guerra cartaginesa, os historiadores salientam a organização em falange e a disposição das tropas em campanha e nos campos. Entretanto, algumas alterações devem-se a Aníbal Barca: a importância estratégica da cavalaria, novas manobras de envolvimento do adversário (batalha de Canas), e ainda uma tática de emboscada para atenuar uma desvantagem numérica, como na batalha do Lago Trasimeno. Os elefantes de guerra, apesar de pouco usados e apenas tardiamente, eram muito notados pelos adversários, e desempenhavam um papel de intimidação e desorganização das linhas inimigas. No que concerne à guerra no mar, o habitual na época era armar os navios de rostros (esporões) atacar as embarcações inimigas. Para contrariar o avanço cartaginês, os romanos conceberam o corvo, para facilitar a abordagem e ganhar vantagem. Foi graças a este dispositivo que lograram derrotar Cartago na batalha de Milas.

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Política e sociedade

Instituições

A organização política de Cartago foi elogiada por numerosos autores antigos, que destacavam a sua «reputação de excelência»". Apesar de serem conhecidos poucos detalhes sobre o governo da grande cidade, dispõe-se, contudo, de um texto precioso de Aristóteles que descreve como um modelo de constituição "mista", equilibrado e que apresentava as melhores caraterísticas de diversos tipos de regimes políticos. Este documento alimentou um debate animado, com certos historiadores, como Stéphane Gsell, a considerarem-no uma descrição tardia. A generalidade dos investigadores entende que houve uma evolução das instituições ao longo da história. Não obstante a insuficiência de informações disponíveis sobre Cartago, os dados são muito mais importantes do que sobre as outras cidades púnicas.

Organização social

A sociedade cartaginesa era muito estratificada. O essencial do poder económico, político e religioso era detido por uma aristocracia originária de Tiro. O resto da população distribuía-se em proporções desconhecidas em artesãos, comerciantes e um proletariado heterogéneo composto de escravos e de populações nativas ou púnicas. O lugar da mulher ainda é tema de debate. A aristocracia cartaginesa era caracterizada pela sua origem em Tiro (fenícia), sendo a sua fortuna ligada às funções de armadores, proprietários rurais e a funções ligadas ao poder político e judiciário. Tinham um modo de vida luxuoso e viviam no cabo Bon ou no bairro de Mégara.

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Economia

Cartago constituiu um império comercial marítimo, terrestre e agrícola. As ligações entre todos os territórios, quer púnicos quer sob a sua influência, faziam-se por mar graças à marinha cartaginesa.

Comércio

Os cartagineses, como os seus ancestrais fenícios, eram excelentes marinheiros e comerciantes. O historiador latino Plínio, o Velho escreveu a propósito disso que «os púnicos inventaram o comércio». Como Tito, Cartago negociava em metais, procurando sobretudo matérias-primas, o que lhe permitiu assegurar a sua riqueza e desenvolver a sua rede mercante. Aos entrepostos no sul da Península Ibérica (Tartessos) chegava prata, estanho e couro. Nessa região, as minas eram facilmente acessíveis e de exploração fácil. O estanho provinha igualmente das chamadas ilhas Cassitérides (atual Grã-Bretanha). Paralelamente, os cartagineses também importaram e difundiram pequenos objetos manufaturados, embora essa fosse uma atividade secundária: cerâmicas gregas e etruscas e, desde o século VII a.C., elementos do artesanato egípcio, como amuletos. O comércio era praticado também por caravanas, mas este meio era bastante mais aleatório e perigoso. O comércio terrestre permite explicar alguns assentamentos, em particular no que são hoje a Líbia e no sul da Tunísia. A principal atividade dos fenício-púnicos era exportar os metais em estado bruto para o Oriente. Até ao século VI a.C. gozaram de um monopólio do comércio e navegação no Mediterrâneo ocidental graças ao qual desfrutavam de livre acesso aos metais e aos recursos humanos e agrícolas de regiões inteiras.

Agricultura e pesca

Na véspera da Primeira Guerra Púnica, Cartago controlava na Norte de África uma área de cerca de 73 000 km², uma área que corresponde grosso modo à atual Tunísia, onde os campos agrícolas totalizavam uma área superior à que dispunha Roma e dos seus aliados juntos. Após a conquista romana, passou a ser uma das principais regiões agrícolas do Império Romano, com uma população de cerca de quatro milhões de habitantes. Tal população necessitava de um abastecimento regular e um interior capaz de produzir em quantidade e qualidade suficientes. Além da produção de cereais destinada a todas as classes sociais, a produção agropecuária devia também satisfazer a procura de fruta e carne por parte dos mais abastados.

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Arte e artesanato

Escultura

O essencial dos elementos conservados que chegaram à atualidade dias está ligado a um uso funerário. Existem outras esculturas, mas de tamanho reduzido, como a Dama de Galera e o protomo de leão de Sant’Antioco. Os cipos e estelas, por vezes em forma de bétilos ou "casa do deus", deixam perceber uma evolução estilística. Esculpidas inicialmente em arenito, estes elementos passam depois a ser feitos em calcário, por vezes ladeados de acrotérios e de motivos incisos de influência marcadamente grega: motivos faunísticos, vegetais, humanos e sobretudo símbolos. A partir dos séculos V e IV a.C. assiste-se à difusão do motivo dito " símbolo de Tanit" se encontra em muitos outros suportes. No passado pensava-se que só estava presente no Mediterrâneo ocidental, mas as investigações mais recentes mostram a sua presença em sítios do Levante. São ainda reconhecidos outros motivos, como o do ídolo-garrafa. Distinguem-se diferenças locais, em particular em Mócia, onde as representações humanas são mais precoces e mais generalizadas do que em Cartago.

Vida quotidiana

Os púnicos eram artesãos especializados e reconhecidos. Os gregos atribuíam-lhe a reputação de venderem bibelots e missangas fabricadas pelos artesãos em troca de produtos de valor como matérias-primas provenientes das regiões onde abordavam os seus navios. Deste modo, numerosos objetos e bibelots fenícios de inspiração diversa (grega, egípcia, etc.) foram descobertos em sítios que eles frequentavam. As necrópoles que foram escavadas desde o século XIX forneceram material arqueológico importante e variado que denota um artesanato desenvolvido. trabalhos em metais, em particular exemplos de lâminas de barbear em bronze frequentemente ornamentadas com motivos gravados, pequenas máscaras de pasta de vidro com funções apotropaicas que ornamentavam colares, marfim e osso esculpido e ainda joias.

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Língua e literatura

Língua e escrita

A língua fenícia serviu de ligamento e de fundo linguístico e cultural comum aos fenícios do ocidente, cujo centro era Cartago, a púnica. Esta língua, usada tanto pelas elites como pelas populações sob influência púnica — númidas e berberes do Magrebe (como em Marrocos), mas também iberos e outras populações do reino de Tartessos (no sul da Hispânia) — era veiculada em profundidade nos seus territórios. Apesar da predominância do latim, perdurou até à chegada dos invasores árabes no século VII. Nesta altura, a língua em declínio tinha-se tornado um patoá local, pelo menos em certas regiões. Corolário da língua, o uso do alfabeto fenício, antepassado do alfabeto grego, espalhou-se em toda a bacia mediterrânica até se tornar o veículo do pensamento dos povos da esfera púnica. Esta escrita sem vogais foi modificada após a implantação romana no Norte de África, passando a incluir vogais. O seu aspeto foi-se modificando ao longo do tempo e diferindo conforme as regiões. No século IV, o alfabeto latino era usado para transcrever a língua púnica.

Literatura e epigrafia

A literatura cartaginesa não chegou até nós, mas sabe-se que existiam em Cartago numerosas bibliotecas, o que indica alguma produção literária ou pelo menos uma difusão da literatura da época, em particular da língua grega. A filosofia era divulgada no meio púnico, e são conhecidos alguns nomes de filósofos, pelos escritos de Diógenes Laércio e Jâmblico. O filósofo mais célebre de origem cartaginesa é sem dúvida Clitómaco, que foi para Atenas em 163 ou 162 a.C., onde foi discípulo de Carnéades e chegou a líder da Academia. Existia literatura de direito, história e geografia, embora toda ela se tenha perdido. Todavia, foram conservados fragmentos do importante tratado de agronomia de Magão [en], que teve grande influência sobre os romanos, como se comprova pelo facto da sua tradução para latim ter sido decidida pelos conquistadores imediatamente a seguir à tomada de Cartago. Os autores romanos posteriores, como Plínio, o Velho, Varrão e Columela, citam vários extratos e não poupam elogios ao autor. O relato do périplo de Hanão, apesar de ser um texto em redigido em grego, deve ser a tradução de um texto púnico, provavelmente exibido num templo púnico. Porém, sendo de difícil interpretação, esse documento suscita muitas polémicas.

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Religião

A religião é o aspeto da civilização cartaginesa que foi objeto da maior polémica, devido às acusações de monstruosidade a propósito dos sacrifícios de crianças mencionados nas fontes antigas, desde Diodoro Sículo a Tertuliano|, retransmitidas até à atualidade por numerosos estudiosos.

Panteão

A mitologia de Cartago foi em grande parte herdada dos fenícios, e a sua religião, apesar ter sido transcrita em latim ou em grego nas fontes antigas, conservou ao longo da sua história o caráter profundamente semítico ocidental. O panteão, fundado sobre uma base semítica, evoluiu ao longo do tempo, muitas vezes depois de um encontro com tradições locais. Além disso, certas divindades adquiriram em diversas colónias o caráter de políade (divindade local ou protetora de uma cidade). Assim, Tinnit ou Tanit pode considerar-se a políade de Cartago, Melcarte desempenhava esse papel em Gades, onde tinha um templo célebre; na Sardenha existia Sid (que na época romana se passou a chamar Sardus Pater).

Santuários e ritos

Os lugares de culto são construções específicas ou espaços adaptados. Forma descobertos muitos templos em diversos locais; a sua localização não obedecia a uma regra precisa. Os situados à beira-mar beneficiavam do contacto com os estrangeiros (oferendas, ex-votos, doações, etc.). Também foram descobertos santuários em grutas. A religião era um assunto do Estado em Cartago; apesar dos sacerdotes não intervirem diretamente na política interna e externa, tinham uma grande influência sobre uma sociedade profundamente religiosa. Os cultos eram estruturados por uma hierarquia de sacerdotes cujos cargos mais elevados eram ocupados por membros das famílias mais poderosas da cidade. Toda uma sociedade parece ter estado ligada aos templos: servos, barbeiros, escravos, etc. Os fiéis podiam comprar ex-votos nas dependências dos lugares de culto. Em alguns templos existia prostituição sagrada, masculina e feminina, definitiva ou apenas provisória. Isso acontecia por exemplo em Sica Venéria (atual El Kef), segundo Valério Máximo.

Religiosidade popular

Nota-se uma diferença entre a religião do estado e a crença popular, visível nos amuletos e outros talismãs com fins de proteção contra os demónios ou doenças, que revelam uma forte influência egípcia. Entre as classes populares praticava-se o culto de divindades egípcias, como o deus anão Bes. Numerosos objetos encontrados nas escavações tinham a função de proteger os vivos e os mortos (máscaras e amuletos representando Bes, mas também lâminas de barbear). A magia impregnava a vida; tanto era praticada magia branca (para o bem), como a magia negra (para eliminar potenciais rivais). O culto dos antepassados era provavelmente observado no seio das habitações familiares, mas permanece relativamente obscuro. Algumas proibições alimentares, em particular a do porco, foram observadas até ao início do século IV d.C.

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Civilização exógena e mestiçada

A vida cultural da civilização cartaginesa, que alguns classificaram de talassocracia devido à sua relação estreita e durável com o mar, resultou da mistura das influências indígenas, fenícia, grega e também egípcia.

Persistências orientais e contribuições africanas

A arte fenícia é uma subtil mistura de elementos gregos e egípcios. A cultura egípcia influenciou profundamente os fenícios desde o 3º milénio a.C., mas a cultura helénica passou a ser a principal influência a partir do século IV a.C. A cultura fenícia emerge a partir do colapso egípcio na sequência da invasão dos Povos do Mar no século XIII a.C. Antes disso, a cultura fenícia confundia-se com as suas congéneres da área sírio-libanesa (Canaã). Alguns púnicos do ocidente chamavam-se a si próprios cananeus durante muito tempo após a absorção do império cartaginês pelos romanos. Devido à posição geográfica de Cartago e à presença dos fenícios no Mediterrâneo ocidental, a cidade púnica cristalizou e reagrupou esta presença, transformando-a num império com o desenvolvimento da colonização.

Identidade cartaginesa

A arte púnica, dos fenícios do ocidente, apresenta componentes egípcias, como o trabalho do vidro — com as pequenas máscaras de vidro dos túmulos púnicos, caraterísticos da mentalidade fenícia e que se destinavam a manter afastados do morto os maus espíritos ou demónios — e motivos como o lótus que se encontram em objetos ou na decoração de edifícios. A partir do século IV a.C. aparecem vestígios da influência helénica que se sobrepõem às influências egípcias e se juntam à cultura fenícia primitiva. O mausoléu líbio-púnico de Duga ocupa um lugar particular, pois ele simboliza o sincretismo arquitetural entre tradições egípcias e contribuições gregas ou helenísticas. Há ainda outros testemunhos dessa arquitetura funerária monumental, como em Sabrata.

Persistência após a queda de Cartago

A civilização púnica perdurou bastante tempo depois da destruição de Cartago em 146 a.C., em instituições locais de cidades romanas, na arquitetura e sobretudo na língua e religião. Constata-se a presença de sufetes e de magistrados municipais nas instituições das cidades romanas do Norte de África até ao século II d.C. Por vezes havia três sufetes, o que pode é considerado por alguns semitistas como uma influência berbere. As persistências na arquitetura manifesta-se sobretudo no opus africanum e no mosaico. O opus africanum é uma técnica de construção de alvenaria que se encontra nas escavações de Kerkuane e muitos outros sítios púnicos e um dos exemplos da sua utilização na época romana pode ver-se no capitólio de Duga. Em relação ao mosaico, a escola de mosaístas africanos, particularmente hábeis, carateriza-se pelos mármores de bela qualidade, e os seus modelos de bestiários e de cenas mitológicas foi largamente difundido no Império Romano.

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Fontes consultadas

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