Citânia de São Julião de Caldelas
A Citânia de São Julião de Caldelas fica localizada no alto do monte de São Julião que domina a parte final do Vale do Homem, na freguesia de Ponte, e uma pequena parte na freguesia de Coucieiro, ambas no Município de Vila Verde, distrito de Braga, em Portugal.
A Citânia nasceu por volta de 900 anos a.C. no topo do monte e à volta duma gruta (Cova da Moura). Embora haja provas duma primeira ocupação no IV ou III milénio a.C. (presença de cerâmicas de tipo “Penha”), de várias outras por intermitência nos finais do II milénio a.C. (cabanas com chão em saibro, buracos de postes), a monumentalização e ocupação definitiva começou há 3000 anos no topo do monte com cerca de 9 cabanas protegidas por uma muralha (acrópole) e uma área reservada ao culto ritual com gravuras rupestres. A Dra Bettencourt estimou a população inicial em 40 pessoas. É a ocupação mais antiga da bacia do Cávado. Depois, a Citânia, pouco a pouco foi-se alargando, ganhando em população, atingindo o seu apogeu no início da nossa era, num importante povoado protegido por 4 muralhas concêntricas, chefiado por Malceino, filho de Dovilonis (cuja estátua foi encontrada por acaso, nos anos 80 do século passado, na construção dum caminho).
Paróquia de Santo Adriano do Monte
Pelo documento conhecido como Censual de entre Lima e Ave[nota 2] ou censual de D. Pedro de Braga, datado de 1089, sabemos que a citânia era conhecida depois da reconquista como: Santo Adriano do Monte. Extrato do Censo de D. Pedro[nota 3]: Tudo indica que durante o período suevo, século VI, com a construção duma Igreja, a citânia transformou-se em paróquia, essa igreja primitiva, em ruína foi encontrada pelo Padre João Freitas, que a descreve assim, sem se dar conta da descoberta. Casa redonda, as colunas, os “montões” de fragmentos, possivelmente de lamparina, as cruzes (uma com o cristograma ΙΧΘΥΣ (foto abaixo), tudo indica a presença dum templo cristão ou paleo-cristão, duma paróquia possivelmente com o nome de Senequino ou Senesquio, nome que consta no paroquial suévico do fim do século VI, do concilio de Lugo, dizendo que essa paróquia, fica a pouca distancia de Braga. Pelo estudo de Almeida Fernandes sabemos que esse nome de Senequino poderá ter-se transformado em Sanguinho(a). Justamente, o Doutor Cónego Avelino de Jesus da Costa falando de São Julião cita um documento de 1078 que descreve Lanhas como sendo ao pé do Monte de Santo Adriano aonde passa o ribeiro Sanguineto (hoje, ribeira do Tojal) que deu nome a um Lugar do Pico São Cristóvão: Sanguinhedo, “ In Villa Lagenas sub monte Sancti Adriani rivulo Sanguineto território Bracarensi”. (forma muito próxima de Sanguinho) que poderá ser a evolução natural do nome da antiga vila.
Lugar de Crasto
A citânia, deixa de ser paróquia no tempo de D. Sancho I, porque o último documento conhecido que faz referência a paróquia de Santo Adriano, é a divisão dos Arcediagados bens e rendimentos da diocese, do arcebispo de Braga D. Godinho feito em 1188 e ela não consta da primeira Inquirição de 1220. Junta-se então a paróquia de São Vicente como, lugar de Crasto entre 1188 e 1220. Já não é honrado, e tem que pagar impostos, sob coação do mordomo do rei, o que terá ditado provavelmente, o fim da occupação da citânia. Pois sabemos que a citânia foi ocupada aparentemente sem interrupção até ao tempo de Afonso V de Portugal (os vestígios mais recentes encontrados nas escavações da citânia feitas pela Dra. Bettencourt foram: uma moeda desse tempo, nomeadamente um ceitil, e cerâmicas do século XV).
Embora já referenciada, a partir do século XIX ( ,216), Pinho Leal (1874,44), Albano Belino (1909,6) e Joaquim Fontes (1919,198)), é em 1935, pela mão do Padre João Martins de Freitas, pároco da vila de Caldelas (Amares) que serão feitas as primeiras escavações. Além da referida igreja, também descobriu uma casa comunitária, com bancos, usada pelas mulheres para tecer: Parte do material recolhido encontra-se no Museu Pio XII do Seminário de São Tiago de Braga. Mas a primeira escavação científica, só teve início em 8 de Setembro de 1981, pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, e a Dra. Manuela Martins em colaboração com o museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa e o financiamento da Câmara de Vila Verde (liderada pelo Sr. António Cerqueira), depois da publicação em 1979 dum artigo no Jornal de Noticias, de Carlos Ribeiro alertando para o abandono desse rico património: Os trabalhos da Dra. Manuela Martins continuaram por fases curtas até 1985, e em 1991, em conjunto com os trabalhos da Dra. Ana Bettencourt, entre 1989 e 1996, com o apoio financeiro da Associação das Terras Altas do Homem e do Cávado (ATAHCA), da Câmara, do Centro de Ciências Históricas e Sociais da UM., do IPPAR e do IPJ.
24711 fragmentos cerâmicos (cerâmica caseira e importada), 352 líticos, 21 artefactos metálicos, 3 de vidro (conta de vidro), 3 de matérias vegetais. Foram também encontrados pesos de tear, pesos de rede de pesca, provas de fundição do cobre e do bronze (moldes, escória), ouro, trabalho do ferro (escória), mós, punhais.
Amostra do espólio do Museu Pio XII
A esquerda, cruz muita antiga (ou roda de 6 raios), formada pela superposição das letras gregas ΙΧΘΥΣ (Ichthys ou Ichthus que quer dizer peixe): Acrónimo de Ἰησοῦς Χριστός, Θεοῦ Υἱός, Σωτήρ (Iēsoûs Christós, Theoû Hyiós, Sōtḗr), que se traduz em português por: Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador. Foi feito uma prospeção arquezoológica que encontrou pólen das seguintes espécies: Amieiro, amieiro negro, castanheiro, aveleira, freixo, azevinho, giesta, pinheiro, carvalho, sobreiro, pilriteiro, pereira, salgueiro, sabugueiro, ulmeiro e sementes de favas. Esse estudo importante, ajuda-nos a ter uma melhor noção da vida quotidiana dos habitantes, da alimentação (bolotas de carvalho e sobreiro, favas cultivadas, pereira, aveleira, castanheiro), e das atividades económicas (salgueiro para a cestaria, sabugueiro na tinturaria, carvalho no curtimento das peles, sobreiro na apicultura, já que foi encontrada cera de abelha). O resto sendo utilizado na construção e nos objetos usuais (giesta, pinheiro, carvalho, ulmeiro, freixo). Boa parte dessas espécies são ribeirinhas, provenientes das margens do rio Homem.
A Citânia, e mais particularmente a Cova da Moura, são alvo de várias lendas, algumas milenárias. A mais popular é relatada já nas inquirições de 1758, pelo padre de São Vicente, o Abade João do Amaral e Abreu: Em primeiro, a citânia é associada erradamente à presença dos Mouros, depois há um túnel que liga a citânia ao rio, o padre não disse, mas em concreto a ponte de Rodas de Caldelas. Curiosamente, a ponte e a capela são dois extremos da freguesia de São Vicente, ligados por essa linha virtual do túnel! Temos de dizer que nunca houve um túnel na cova da Moura, mas sim a direita da entrada, no fundo, um “poço”, (curiosidade geológica ou árduo trabalho humano?) muito fundo, com água, que ficou soterrado no início dos anos 80 do século passado. Na freguesia de Barros outra lenda, muito semelhante, fala de um túnel com muito ouro, que liga a Quinta do Mouro, que pertenceu aos Senhores de Regalados à Cova da Moura. Essa mina existe, foi em parte percorrida pelo antigo padre da freguesia, mais alguns aventureiros, que fugiram devido ao grande número de cobras ali existente.


