Cinema western
O chamado cinema western, também popularizado sob os termos "filmes de cowboys" ou "filmes de faroeste", compõe um gênero clássico do cinema norte-americano. O termo inglês western significa "ocidental" e refere-se à fronteira do Oeste norte-americano durante a colonização. Esta região era também chamada de far west — e é daqui que provém o termo usado no Brasil e Portugal, faroeste. Os westerns podem ser quaisquer formas de arte que representem, de forma romanceada, acontecimentos desta época e região. Além do cinema, podemos referir ainda a escultura, literatura, pintura e programas de televisão.
Os westerns, definidos pelo crítico francês André Bazin como o "cinema americano por excelência", no seu livro O que é o cinema?, foram também considerados por um dos seus principais criadores, Clint Eastwood, como a única forma de arte originalmente norte-americana, à excepção do jazz. O cenário dos westerns é, como já foi dito, o Velho Oeste dos Estados Unidos, a partir da linha do Mississippi, desde o período que precede a Guerra Civil Americana (o Antebellum) até ao virar do século XX. Alguns destes filmes incorporam cenas passadas ou relacionadas com a Guerra Civil Americana, mas de forma rara ou mesmo secundária, já que o oeste não se envolveu na guerra com a mesma intensidade do leste dos Estados Unidos. É o tempo da ocupação de terras; do estabelecimento de grandes propriedades dedicadas à criação de gado; das lutas com os índios e a sua segregação; das corridas ao ouro na Califórnia; da demanda das terras prometidas (como o estabelecimento do Estado do Utah, pelos mórmons) e da guerra no Texas.
A cultura popular mundial, hoje em dia muito influenciada pela cultura norte-americana em virtude da globalização, costuma preferir e valorizar a cultura da honra, em oposição à cultura do direito e da lei. Os westerns retratam uma sociedade onde o indivíduo é valorizado pela luta que estabelece com o seu meio e onde os códigos de honra (não atirar pelas costas, por exemplo) se sobrepõem à lei e onde se estabelece uma hierarquia social assente na reputação granjeada através de atos de violência ou através da generosidade criadora de dependência nas relações humanas. Estes temas não são exclusivos do western e caracterizam muito os filmes de gangsters, os filmes de vingança e, numa perspectiva mais global, os filmes de samurais (gênero de cinema japonês) que, por vezes, inspirou os argumentos de alguns westerns bem conhecidos, como The Magnificent Seven, de 1960, baseado em Shichinin no samurai (Os Sete Samurais), filme de 1954 de Akira Kurosawa.
No cinema, o western remonta às produções de Kit Carson, de 1903 e The Great Train Robbery, um filme mudo dirigido por Edwin S. Porter e protagonizado por Broncho Billy Anderson. Realizado em 1903, a sua popularidade entre o público da altura granjeou a Anderson o privilégio de se tornar o primeiro cowboy estrela de cinema, como se verificou nas centenas de curta-metragens em que depois participou. Mas, a concorrência não se fez esperar, e William S. Hart tornou-se em breve outro astro de uma arte que dava os primeiros passos. É interessante verificar que o primeiro filme rodado em Hollywood, em 1910, In Old California, de D.W. Griffith, foi um western. De facto, Griffith é muitas vezes apontado como o grande renovador artístico do gênero. Outro filme, The Squaw Man, de 1914, em que estreava Cecil B. DeMille, seria o primeiro longa-metragem realizado na "meca do cinema". DeMille transpôs para o cinema, no mesmo ano, a obra pioneira, nos Estados Unidos, do western literário, The Virginian, e teve, mesmo, a colaboração do autor Owen Wister na elaboração do argumento.
Durante a década de 1960 e a de 1970, deu-se um certo revivalismo com obras realizadas principalmente na Itália, com os chamados western spaghetti ou "ítalo-westerns". Muitos destes filmes — de baixo orçamento; produzidos por italianos, espanhóis ou alemães; filmados onde fosse mais barato (na Espanha e na Jugoslávia por exemplo) — caracterizavam-se por um teor de violência extrema e muita ação, ou uma dose não desprezável de melodrama, ao gosto popular. Contudo, os filmes mais apreciados do gênero têm uma dimensão paródica não desprezável, como acontece nos western spaghetti de Sergio Leone. A estranha sequência inicial de Once Upon a Time in the West é uma deturpação consciente da cena de abertura do clássico de Fred Zinnemann', High Noon (O comboio apitou três vezes, na versão portuguesa, e Matar ou morrer, no Brasil). Além disso, costuma-se dizer que Leone revolucionou o gênero, se transformando num divisor de águas: o western pode ser divido em "antes" e "depois" de Sergio Leone. Na chamada Trilogia dos Dólares (Por Um Punhado de Dólares, Por Uns Dólares a Mais e Três Homens em Conflito) não há um "mocinho" no sentido clássico (leal, politicamente correto e de inquestionável retidão moral). Em vez disso, temos um "herói às avessas" ou anti-herói, o Homem Sem Nome interpretado por Clint Eastwood, que na verdade é um mercenário em busca de fortuna. Além disso, os xerifes são corruptos e os protagonistas não se envolvem em romances.
O revisionismo da década de 1960 e 1970 deve muito ao facto de acadêmicos e críticos da altura se debruçarem para o cinema enquanto legítima forma de arte emergente cuja linguagem convinha decodificar. A teoria do cinema dava os seus primeiros passos, no sentido de desvelar os significados da linguagem própria do cinema. Dentro deste movimento intelectual, a par dos estudos sobre literatura, emergiu o ramo da crítica que receberia o nome de estudos dos gêneros (não confundir com estudo de gêneros, que teorizam sobre as diferenças entre homens e mulheres). Tendo, inicialmente, uma abordagem semiótica, semântica e estruturalista, estes estudos revelaram a forma como vários filmes semelhantes transmitiam sentidos especificamente distintos. Há muito ridicularizados pela crítica devido ao seu moralismo simplista, os westerns passaram a ser considerados como uma série de códigos e convenções que atuavam como métodos imediatos de comunicação com as audiências. Por exemplo, um chapéu branco representa o "bom"; o chapéu negro, o "mau"; duas pessoas frente a frente numa rua deserta conduzem sempre a um desfecho imprevisto; os vaqueiros são solitários; os habitantes das pequenas cidades têm preocupações familiares e sentido de comunidade, e assim por diante...
Os westerns inspiraram-se em grande parte em outras formas de arte, como a ópera ou as sagas nórdicas, assim como outras formas de arte inspiraram-se nos westerns. Não por acaso, westerns são conhecidos como horse opera. Além da já referida influência internacional dos filmes japoneses de samurais de Akira Kurosawa em The Magnificent Sevens, filmes como Per un pugno di dollari (Por um punhado de dólares, em Portugal) ou Last Man Standing (O último a cair, em Portugal; e O último matador, no Brasil) são também remakes do filme Yojimbo, também de Kurosawa que, por sua vez, se deixou influenciar pelo romance policial Red Harvest, de Dashiell Hammett. Apesar da guerra fria, o western teve também os seus seguidores na URSS, que desenvolveu o seu tipo particular: o ostern ou "western vermelho". O ostern assumiu duas formas distintas: ou eram westerns convencionais filmados nos países do leste europeu ou, então, filmes de ação que decorriam durante a Revolução Russa, durante a guerra civil ou durante a rebelião Basmachi, de povos turcos que assumiam o papel tradicionalmente reservado aos mexicanos nos westerns dos Estados Unidos. No México, surgiu o subgênero charro western, misturando os westerns com elementos locais.
Com a explosão de popularidade da televisão, no final da década de 1940, e de 1950, os westerns tornaram-se uma parte principal da programação televisiva, que careciam de programas. Muitos filmes de série B do gênero ocupavam uma grande parte da grelha de programas. Nos Estados Unidos, a série Hopalong Cassidy deixou seu protagonista, que ficara com os direitos de exibição desprezados pelos produtores, milionário ao repassá-los para a televisão. As séries pensadas para o meio televisivo ganharam o estatuto de série de culto. As mais conhecidas foram Gunsmoke, The Lone Ranger (Zorro, no Brasil), The Cisco Kid, The Rifleman, Have Gun, Will Travel (Paladino do Oeste), Bonanza, The Big Valley, Cimarron e Maverick, entre outros. Na década de 1970, o gênero sofreu uma revisão profunda que lhe incorporou novos elementos. McCloud, estreado em 1970, era, essencialmente, a fusão do western protagonizado pelo xerife, com o drama televisivo policial urbano moderno. Hec Ramsey era um western que incluía sempre um mistério a ser revelado no final dos episódios, ao gênero dos chamados "who-dunnit" ("quem fez isto?"). Little House on the Prairie (em Portugal, Uma casa na pradaria), ainda que a sua ação decorresse no período histórico e próprio dos westerns, junto à fronteira oeste dos Estados Unidos, era, contudo, mais um drama familiar que um western. A série Kung Fu, seguindo a tradição do pistoleiro errante, recriou o gênero com o seu personagem principal, um monge chinês que lutava usando apenas os seus dotes de artes marciais. Life and Times of Grizzly Adams tinha como ingrediente uma aventura familiar sobre um personagem com uma estranha relação com a natureza, em prol de quem o visitava no seu refúgio selvagem.


