Cilícia
Cilícia foi uma antiga região na costa sul da Ásia Menor, localizada imediatamente ao sul do platô central da Anatólia no território da moderna Turquia. Grosso modo, ocupava o que é hoje a região do Mediterrâneo da Turquia a oriente da província de Antália, situando-se a sua fronteira ocidental entre as modernas cidades turcas de Gazipaşa e Alânia. Foi organizada como uma entidade política desde a época dos hititas até ao período bizantino. A ilha de Chipre estava separada da Cilícia por uma estreita faixa do Mediterrâneo.
A Cilícia se estende ao longo da costa mediterrânea a partir da Panfília, que está a oeste, até os Montes Amano, que a separava da Síria. Para o norte e leste estavam os Montes Tauro, que a separavam do elevado platô da Anatólia central. A região era entrecortada por um estreito cânion chamado na Antiguidade de Portas da Cilícia. A antiga Cilícia era naturalmente dividida em duas regiões chamadas Cilícia Traqueia e Cilícia Pédias, separadas pelo rio Lamas (Limonlu Çayı). Salamina, uma importante cidade na costa leste de Chipre fazia parte também desta jurisdição. Os gregos inventaram para a Cílicia um epônimo fundador helênico na figura do mitológico Cílix, mas o histórico fundador da dinastia que reinou sobre a Cilícia Pédias era Mopsus, que aparece nas fontes fenícias como Mpš, o fundador de Mopsuéstia que emprestou seu nome para um oráculo nas proximidades. Homero menciona o povo de Mopsus, que podem ser os cilícios, como oriundos da Trôade, na região mais a noroeste da península anatólica.
A Cilícia tem sido permanentemente habitada desde o Neolítico:168–170. Ela era conhecida como Quizuatena durante o período antigo hitita (2º milênio a.C.) e estava dividida em duas partes, Uru Adaniya ("Cilícia plana"), uma planície bem irrigada por rios e Tarza ("Cilícia acidentada"), a região montanhosa a oeste. Os cilícios aparecem como Hilacu em inscrições assírias e, na primeira parte do 1º milênio a.C., eram um dos quatro mais poderosos povos da Ásia ocidental. Homero menciona a planície e a chama de "planície Aleiana", o local por onde vagava Belerofonte, mas ele "transferiu" os cilícios muito para o norte e oeste da Anatólia e os fez também aliados de Troia. Segundo ele, a "Cilícia" estaria imediatamente ao sul da Trôade, em frente ao golfo de Adramício. A ligação (se existe alguma) entre esta e a mais conhecida é incerta. Ela foi mencionada na Ilíada e na "Geografia" de Estrabão; suas principais cidades seriam Teba, Lirnesso e Crise. Todas as três teriam sido atacadas e saqueadas por Aquiles durante a Guerra de Troia.
Durante o domínio do Império Aquemênida, a Cilícia aparentemente era governada por reis nativos pagadores de tributos e que tinham o nome helenizado de "Sienesis"; mas ela foi oficialmente incluída na quarta satrapia por Dario. Xenofonte relata uma rainha e afirma que a grande marcha de Ciro atravessou a região sem enfrentar resistência. A grande estrada para o ocidente já existia antes de Ciro conquistar a Cilícia. Em seu longo trecho de descida a partir do platô anatólico até chegar em Tarso, ela atravessava um estreito passo entre as paredes de um cânion chamado Portas da Cilícia. Depois de atravessar as colinas a leste do Piramo, ela atravessava um outro portão de tijolos chamado "Demir Kapu" e adentrava a planície de Isso. A partir dali, uma estrada corria para o sul através de outro portão de tijolos até chegar em Alexandreta. De lá, ela atravessava os Montes Amano pela Porta da Síria, o Passo Beilan, chegando finalmente em Antioquia; outra corria para o norte em direção a um portão de tijolos ao sul de Toprak Kale e atravessava os Montes Amano pela Porta da Armênia, o Passo de Baghche, e chegava até a região norte da Síria e o alto Eufrates. Através deste último passo, que aparentemente não era conhecido por Alexandre, Dario cruzou as montanhas antes da Batalha de Isso. Ambos os passos são curtos, fáceis de atravessar e ligam a Cilícia Pédias geograficamente com a Síria e não com a Ásia Menor.
Alexandre atravessou o rio Hális no verão de 333 a.C. e terminou entre o sul da Frígia e a Cilícia. Ele conhecia bem as obras de Xenofonte e como as Portas da Cilícia eram "impassáveis se defendidas por um inimigo". O plano dele era tentar amedrontar seus inimigos com uma demonstração de força e avançar sem combate. Na calada da noite, os gregos atacaram e, pegos de surpresa, os guardas e o sátrapa iniciaram uma fuga para Tarso depois de incendiar as plantações. O plano funcionou e Alexandre e seu exército conseguiram passar ilesos pela Porta e invadiram a Cilícia. Depois de sua morte, uma longa guerra se seguiu entre os monarcas e reinos helênicos. A Cilícia foi dominada por um tempo pelo Egito de Ptolemeu, mas terminou nas mãos dos selêucidas, que, porém, jamais assumiram controle efetivo da região ocidental (a Traqueia). Durante a época helênica, diversas cidades foram fundadas na região, todas cunhando suas próprias moedas com seus próprios símbolos (deuses, animais e objetos).
Imagem: José Luiz · BY-SA · Openverse
A Cilícia Traqueia tornou-se um santuário de piratas durante este período e eles só foram conquistados por Pompeu em 67 a.C. depois da Batalha de Coracésio (a moderna cidade de Alânia). Tarso foi transformada na capital da nova província da Cilícia. A Cilícia Pédias, por outro lado, foi anexada pelos romanos ainda em 103 a.C., conquistada primeiro por Marco Antônio Orador em sua campanha contra os piratas. O primeiro governador foi Sula, que frustrou uma invasão de Mitrídates. Quando Pompeu conquistou a região, ela foi unida à província da Cilícia, que também contou, por um tempo, com uma parte da Frígia. Júlio César reorganizou novamente a região em 47 a.C. e, vinte anos depois, a Cilícia tornou-se parte da província da Síria-Cilícia Fenícia. Num primeiro momento, o distrito ocidental foi deixado a cargo de reis nativos (ou sacerdotes hereditários) e um pequeno reino, comandado por Tarcondímoto I, conseguiu se manter independente no oriente. Porém, toda a região foi finalmente anexada à província por Vespasiano em 72. A região era considerada importante o suficiente para ser governada por um procônsul e ostentava 47 cidades.
Na época das Cruzadas, a região foi controlada pelo Reino Armênio da Cilícia. As invasões dos turcos seljúcidas na Armênia resultaram numa grande migração de armênios para o território bizantino no ocidente e, em 1080, Ruben, um parente do último rei de Ani, fundou, no coração dos Montes Tauro da Cilícia, um pequeno principado que gradualmente se expandiu para tornar-se o Reino Armênio. Este estado cristão, rodeado por outros muçulmanos e hostis, teve uma turbulente história de quase 300 anos, durante os quais serviu de apoio aos cruzados e tornou-se um valioso parceiro comercial das repúblicas marítimas da Itália. Constantino I (r. 1095–1100) ajudou os cruzados em sua marcha até Antioquia e foi nomeado cavaleiro e marquês. Toros I (r. 1100–1123), aliado com os príncipes cristãos da Síria, lutou com sucesso contra bizantinos e turcos. Leão II, o Grande (r. 1187–1219) estendeu o reino para além dos Montes Tauro e fundou sua capital em Sis. Ele também ajudou os cruzados, foi coroado rei pelo arcebispo de Mainz e casou-se com uma princesa do reino cruzado em Chipre da casa dos Lusignan.
Imagem: Angela Llop · BY-SA · Openverse
No século XV, a Cilícia foi conquistada e foi anexada ao Vilaiete de Adana. A região era uma das mais importantes para os armênios otomanos por ter conseguido preservar bem sua característica armênia ao longo dos anos. Na realidade, as regiões mais altas eram densamente povoadas por camponeses armênios, organizados em pequenas e prósperas vilas ou cidades como Hadjin e Zeitun, duas regiões montanhosas que se mantiveram quase autônomas até o final do século XIX. Nas cidades e portos da planície de Adana, comércio e indústria eram dominados por armênios e permaneceram assim por conta do constante influxo de armênios das terras altas. A população crescia continuamente na Cilícia, o que não acontecia em outras regiões do império, onde ela decrescia por causa da repressão. Mesmo depois de massacres, como o de Adana em 1909, a tendência se mantinha. Durante o Genocídio Armênio em 1915, os armênios de Zeitum organizaram uma vitoriosa resistência contra o impiedoso ataque turco, mas eles também acabaram derrotados depois que uma delegação armênia de Marash foi forçada a pedir que os habitantes da cidade se rendessem.


