Ciência da religião
Ciência da religião ou religiologia é uma disciplina acadêmica das ciências humanas ou ciências sociais/culturais.
Ciência da religião é a disciplina acadêmica de perspectiva empírica que investiga sistematicamente religiões em todas as suas manifestações. Um elemento chave é o compromisso de seus representantes com o ideal de distanciamento e respeito frente aos objetos de estudo, também chamado de agnosticismo metodológico, termo cunhado por Ninian Smart em 1973, mas que já tem raízes desde Max Müller. Não se questiona a "verdade" ou a "qualidade" de uma religião. Do ponto de vista metodológico, religiões são "sistemas de sentido formalmente idênticos", ainda que se expressando com uma rica diversidade. É especificamente este princípio metateórico que distingue a ciência da religião da teologia, e a aproxima de outras ciências humanas e sociais, como a antropologia, a história e a sociologia. O objetivo da ciência da religião é fazer um inventário, o mais abrangente possível, de fatos reais do mundo religioso, bem como um entendimento histórico do surgimento e desenvolvimento de religiões particulares, uma identificação de seus contatos mútuos e a investigação de suas inter-relações com outras áreas da vida. A partir de um estudo de fenômenos religiosos concretos, o material é exposto a uma análise comparada. Isso leva a um entendimento das semelhanças e diferenças de religiões singulares a respeito de suas formas, conteúdos e práticas. O reconhecimento de traços comuns entre as diferentes religiões, por parte do cientista da religião, permite a definição de elementos que caracterizam universalmente o fenômeno religioso, ou seja, como um fenômeno humano universal.
Precursores
O interesse pelo estudo das religiões remonta vários estudiosos desde a antiguidade, de gregos, romanos, chineses, indianos, árabes, norte-africanos, judeus, até japoneses. Na civilização helênica ("Grécia" e regiões em seu entorno), exemplos são Hecateu de Mileto (546-480 a.C.) e Heródoto (485-420 a.C.). O orador romano Cícero (106-43 a.C.) analisou, por sua vez, o fenômeno religioso em sua obra "Sobre a natureza dos deuses" (De Natura Deorum), adotando uma perspectiva mais filosófica. Um marco na história escrita dos encontros entre culturas, foi, conforme Eliade, com as viagens (diplomáticas ou invasoras) de "Alexandre, o Grande (356-323), que os escritores gregos tiveram oportunidade de conhecer diretamente e descrever as tradições religiosas dos povos orientais. Sob Alexandre, Bérose, sacerdote de Bel, publica suas Babyloniká. Megasténe, várias vezes enviado por Seleukos Nikator, entre os anos de 302 e 297, em embaixada ao rei indiano Chandragupta, publica Indiká. Hecateu de Abdera ou de Mos (365-270/275) escreve sobre os hiperbóreos e consagra à teologia dos egípcios os seus Aigyptiaká. O sacerdote egípcio Manéton (século 111) aborda o mesmo assunto em obra publicada sob o mesmo título. Foi assim que o mundo alexandrino passou a conhecer um grande número de mitos, ritos e costumes religiosos exóticos".
Origem institucional
Fruto do encontro dos povos que ocorreu com o imperialismo mercantilista europeu, houve a modernidade e os movimentos de reforma cultura do "renascimento" e "iluminismo" na Europa. A própria ciência da religião, enquanto uma ciência sistemática e histórica que busca estudar várias religiões, é filha do iluminismo. As tradições asiáticas ("orientais"), sobretudo tradições islâmicas, persas, indianas e chinesas, foram o objeto de estudo privilegiado durante a fase clássica, sendo seus mitos escritos em textos sagrados as fontes primárias estudadas com mais afinco. O livro Mitologia Comparada [Comparative Mythology] (1856), de Max Müller (1823-1900), seria precursor do que viria a ser, em poucos anos, a ciência da religião. Segundo o filósofo e cientista das religiões Mircea Eliade (1992), "é certo que o termo fora empregado esporadicamente antes (em 1852, pelo padre Prosper Leblanc; em 1858 por F. Stie felhagen, etc.), mas não no sentido rigoroso que Max Müller lhe deu e que, desde então, passou a ser amplamente adotado". O cientista das religiões Frank Usarski (2014) vai mais profundo, e afirma que "acadêmicos associados ao chamado 'círculo de Göttingen', como Johann Gottfried Immanuel Berger (1773-1803), Karl Friedrich Stäudlin (1761-1826) ou Christian Wilhelm Flügge (1773-1827), mencionaram termos como “História das Religiões” ou “Ciência da Religião” nos seus cursos ou publicações, porém sem se referirem a uma disciplina autônoma e distinta da Teologia", As obras Chips from a German Workshop (1867–75, 5 vols.) e a Introdução à Ciência da Religião [Introduction to the Science of Religion] (1873) de Max Müller marcariam o início explícito dessa ciência. Em seguida é lançado a mega obra Livros Sagrados do Oriente [The Sacred Books of the East] (1879), que é o primeiro grande compêndio de história das religiões organizado de forma conjunta e sob um plano acadêmico e secular unificado.
Estrutura curricular
A ciência da religião é tradicionalmente subdividida entre religiões comparadas ou ciência da religião sistemática, e história das religiões ou ciência da religião empírica, desde a proposta de Joachim Wach em 1924. Mais recentemente, nas últimas três décadas, surgiu o que pode ser considerado uma terceira subdisciplina: a ciência da religião aplicada ou ciência prática da religião, que busca pensar contribuições mais pragmáticas e diretas à toda sociedade, como em política cultural e internacional, ou na educação (ensino religioso laico).
Metodologia
Em termos de metodologia de pesquisa, sua estrutura interna clássica é baseada em pesquisa empírica - principalmente a partir de fontes religiosas textuais -, variando entre métodos analíticos com abordagens classificatórias e comparativas, com bases filosóficas hermenêuticas, e, métodos filológicos/linguísticos e históricos. Em termos de teoria metodológica, a Ciência da Religião apresenta uma ambiguidade entre um universalismo de viés iluminista que busca encontrar generalizações e um historicismo contextualista de reação contra-iluminista que pretende entender os fenômenos em suas especificidades. Exemplos são dois famosos professores de Ciência da Religião: Mircea Eliade criticava fortemente o historicismo, e questionava o porquê de cientistas das religiões terem certo receio de criar teorias mais gerais sobre as várias tradições religiosas, mas pode ser descrito como pertencente a corrente romântica do pensamento moderno, corrente que é um contra-modelo do iluminismo; outro caso é de Raffaele Petazzoni, famoso cientista das religiões italiano que inaugurou a cátedra dessa ciência em seu país, e apresentou um método próprio de estudo que fundia a vertente de estudos específicos (históricos e filológicos) com a vertente mais teórica-sistemática da Ciência da Religião, o método histórico-comparativo.
Tradições teóricas
Conforme o cientista das religiões Matheus Costa (2019) é possível observar três momentos que marcam a formação histórica da Ciência da Religião. Cada um desses momentos é caracterizado pela prevalência de certas abordagens teóricas e metodológicas, ainda que havia outras coexistentes. Tal como pensada por Max Müller, a Ciência da Religião tem variadas fontes: noções evolucionistas de cultura de viés darwiniano (ainda que crítica a eles), filosofia natural/da Natureza (especialmente a Naturphilosophie própria do Romantismo alemão, de J. W. Goethe e F. Schelling), , filologia clássica (sobretudo alemã, holandesa, francesa e inglesa), autores teológico-filosóficos como Kant, Espinoza, e Schleiermacher, Etnologia - especialmente de Frazer e Tylor, e até mesmo em precursores mais antigos, como os governantes antigos da atual região da Índia Akbar e Asoca. Houve vários autores que seguiram, cada um ao seu modo, essas tendências que estão nas raízes dessa ciência, como W. Robertson Smith, Joseph Estlin Carpenter e Cornelis Petrus Tiele. Com eles começaram estudos de abordagem cultural, filofágica, comparativa, normalmente buscando entender as "outras" culturas numa visão desenvolvimentista ou evolucionista, mas, sobretudo, visando classificar religiões de um modo que foi chamado de "enciclopédico" - ou seja, descritivamente com riqueza de detalhes.
No Brasil, em 1914 o pensador brasileiro Raimundo Farias Brito já citava o termo "ciência das religiões" e o nome dos três primeiros pais fundadores dessa ciência, Max Müller, Tiele e Chantepie de la Saussaye. Mas a ciência da religião tem seu início institucional somente em 27 de junho de 1969, através da criação do Colegiado de Ciências das Religiões da Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF, que mais tarde se tornou departamento e, em seguida, curso de graduação em formato bacharelado e com o nome "Ciência das Religiões" - que formou poucos estudantes e cessou suas atividades. No final dos anos 1970 surgem os primeiros programas de pós-graduação que ofereceriam cursos de especialização (lato-sensu), mestrado, e, posteriormente, doutorado. Os primeiros cursos de mestrado são da PUC-SP (1978) e UMESP (1979) - ambos em universidades confessionais cristãs, católica e metodista, respectivamente.


