Ciclo menstrual
O ciclo menstrual é o termo científico para as alterações fisiológicas que ocorrem nas mulheres férteis que têm como finalidade a reprodução sexual e fecundação. Este artigo foca-se apenas no ciclo menstrual humano.
Imagem: fertilidad · CC0 · Openverse
A menarca é um dos estágios mais avançados da puberdade feminina. A idade média para a sua ocorrência é entre os 12 e 13 anos nos humanos, mas são consideradas normais as ocorrências entre os 8 e os 16 anos. Esta variação pode ser influenciada e explicada por factores como a hereditariedade, a dieta alimentar e a condição geral de saúde da adolescente. O fim dos ciclos menstruais após o período fértil da mulher é designado por menopausa. A idade média em que ocorre a menopausa são 52 anos nos países industrializados, sendo no entanto considerada normal a ocorrência entre os 45 e 55 anos. A menopausa que ocorra antes dos 45 anos é considerada prematura. A idade a que ocorre é fundamentalmente resultado da genética. No entanto, determinadas doenças, cirurgias ou tratamentos clínicos podem fazer com que a menopausa se inicie mais cedo. A duração do ciclo menstrual normalmente varia entre ciclos mais curtos e outros ciclos mais longos. Uma variação de tempo entre os ciclos mais longos e mais curtos inferior a oito dias permite afirmar que a mulher tem ciclos regulares. Não é comum haver variações menores do que quatro dias. Uma variação entre 8 e 20 dias é considerada irregular. Variações superiores a 20 dias são consideradas muito irregulares.
O ciclo menstrual pode ser dividido em diferentes fases. A duração média de cada fase pode ser vista em baixo. As primeiras três estão relacionadas com alterações no revestimento uterino, enquanto que as três últimas estão relacionadas com processos que decorrem nos ovários:
Menstruação
A presença da menstruação, também designada por período, serve normalmente como indicador de que a mulher não se encontra grávida. Note-se, no entanto, que tal facto não pode ser encarado como garantia uma vez que existem inúmeras causas que levam a hemorragias vaginais durante a gravidez. Algumas destas causas são exclusivas do primeiro trimestre de gravidez, e alguns podem causar hemorragia obstétrica. O termo eumenorreia designa a menstruação regular e normal que ocorre durante alguns dias; normalmente 3 a 5, mas qualquer valor entre 2 e 7 dias é considerado normal. O valor de sangue perdido durante a menstruação é de cerca de 35 mililitros, sendo normal qualquer valor entre 10 e 80 ml. Em consequência da hemorragia menstrual, as mulheres são mais susceptíveis à deficiência de ferro do que os homens. Uma enzima chamada plasmina impede a coagulação do fluido menstrual.
Fase folicular
Esta fase também é designada por fase proliferativa devido à acção hormonal que provoca o crescimento, ou proliferação, do revestimento uterino durante este período. O aumento dos valores da hormona folículo-estimulante (FSH) durante os primeiros dias do ciclo estimula alguns dos folículos ovarianos. Estes folículos, presentes nos ovários desde o nascimento e em desenvolvimento constante ao longo de um ano num processo designado por foliculogénese, competem entre si pelo domínio. Através da acção de várias hormonas, todos os folículos excepto um param de crescer, que será o dominante e continuará a crescer até à maturação. Um folículo que atinja a maturidade é designado por folículo terciário, ou folículo de Graaf, e formará o óvulo.
Ovulação
Durante a fase folicular, o estradiol suprime a produção de hormonas luteinizantes (LH) na adenoipófise. À medida que o óvulo se aproxima da maturação, os níveis de estradiol alcançam um valor de referência acima do qual estimulam a produção de LH. As diferentes respostas das LH ao estradiol podem ser explicadas pela presença de dois receptores distintos de estrogénio no hipotálamo: o receptor de estrogénio alfa, responsável pelo ciclo estradiol-LH de retroalimentação negativa e o receptor de estrogénio beta, responsável pela relação estradiol-LH positiva. Num ciclo regular, a afluência de LH tem início no 12º dia e pode decorrer durante 48 horas.
Fase luteínica
A fase luteínica é também designada por fase secretora. O corpo lúteo, formado no ovário depois do óvulo ser libertado na trompa de falópio, desempenha um papel importante durante esta fase, continuando a crescer durante algum tempo após a ovulação e produzindo quantidades significativas de hormonas, sobretudo progesterona. A progesterona é fundamental ao fazer com que o endométrio se torne receptivo à nidação do blastocisto e capaz de oferecer condições para o primeiro estágio da gravidez. Como efeito secundário, aumenta também a temperatura corporal basal da mulher. Após a ovulação, as hormonas pituitárias FSH e LH fazem com que os resquícios do folículo dominante se transformem no corpo lúteo, que produz progesterona. O aumento desta hormona na glândula suprarrenal induz a produção de estrogénio. As hormonas produzidas pelo corpo lúteo também suprimem a produção de FSH e HL de que o corpo lúteo necessita. Consequentemente, os níveis de FSH e HL decrescem rapidamente, fazendo com que o corpo lúteo atrofie. A queda dos níveis de progesterona activa a menstruação e o início do ciclo seguinte. Desde a ovulação até à supressão de progesterona que dá início à menstruação, decorrem em média duas semanas, sendo considerado normal um período de 14 dias. Em cada mulher, a duração da fase folicular varia frequentemente de ciclo para ciclo. Pelo contrário, a duração da fase luteínica demonstra ser bastante coerente entre cada ciclo.
Imagem: Marcosmt1992 · BY-NC-ND · Openverse
Embora muitas pessoas acreditem que o ciclo menstrual médio dure cerca de 28 dias, um estudo que analisou mais de 30 000 ciclos em mais de 2,3 mil mulheres veio a demonstrar que a duração média do ciclo é de 29,1 dias, com um desvio padrão de 7,5 dias e um intervalo de predição de 95% entre 15 a 45 dias. No mesmo estudo, o subconjunto de dados com durações de ciclos entre 15 e 45 dias mostrava uma duração média de 28,1 dias, com um desvio padrão de 4 dias. Um estudo de menor escala, realizado em 2006 numa amostra de 140 mulheres, concluiu a existência de uma duração média de 28,9 dias. A variação da duração do ciclo menstrual é maior entre mulheres com 25 anos ou menos, e menor, ou seja, mais regular, entre os 35 e 39 anos de idade. Normalmente, as variações entre 8 e 20 dias são consideradas ciclos menstruais moderadamente irregulares. As variações de 21 ou mais dias são consideradas muito irregulares.
Imagem: Zabi Jose · BY-SA · Openverse
O período mais fértil, isto é, o período com maiores probabilidades de ocorrência de uma gravidez como resultado de uma relação sexual, ocorre durante os 5 dias que antecedem a ovulação até aos 1-2 dias que lhe sucedem. Num ciclo de 28 dias com uma fase luteínica de 14 dias, isto corresponde à segunda e ao início da terceira semana. Foram desenvolvidos vários métodos para ajudar a mulher a fazer uma estimativa dos dias relativamente férteis ou inférteis durante o ciclo, designados por monitorização da fertilidade. Os métodos de monitorização que apenas têm como base os registos de duração dos ciclos designam-se por métodos rítmicos. Os métodos que requerem a observação de um ou mais dos três sinais básicos de fertilidade (temperatura corporal basal, muco do colo do útero e posição cervical) são conhecidos como métodos de avaliação de sintomas. Estão também disponíveis kits de testes de urina que detectam a afluência de HL que ocorre nas 24 a 36 horas antes da ovulação, conhecidos como kits de previsão de ovulação.
Imagem: MindZiper · CC0 · Openverse
Algumas mulheres que apresentam um quadro clínico de distúrbios ou sintomas neurológicos sentem um aumento da actividade sintomática por volta da mesma altura de cada ciclo menstrual. Por exemplo, está demonstrado que as quebras nos níveis de estrogénio são a causa directa de enxaquecas, sobretudo quando a mulher também está a tomar a pílula. Muitas mulheres com epilepsia demonstram ter um número mais frequente de ataques (epilepsia catamenial) segundo um padrão relacionado com o ciclo menstrual. Parecem existir diferentes padrões, tais como ataques coincidentes com a menstruação ou com a ovulação, mas a frequência a que ocorrem ainda não foi alvo de conclusões sólidas. Recorrendo a uma definição própria, um grupo de investigadores descobriu que cerca de um terço das mulheres com epilepsia parcial intratável demonstram igualmente epilepsia catamenial. Tem sido sugerido que tal se possa dever ao efeito das hormonas, em que a quebra da progesterona e o aumento de estrogénio espoletariam os ataques. Mais recentemente, os estudos têm demonstrado que doses elevadas de estrogénio podem causar ou piorar os ataques, enquanto que doses elevadas de progesterona podem agir como uma droga antiepiléptica. Alguns estudos levados a cabo por publicações médicas revelaram que as mulheres durante a menstruação são 1,68 vezes mais susceptíveis de cometer suicídio.
Imagem: telly negotrópica · BY-NC · Openverse
A ovulação irregular ou pouco frequente designa-se por oligo-ovulação. A ausência de ovulação designa-se por anovulação. Mesmo que não se processe a ovulação, a hemorragia menstrual pode decorrer normalmente, fenómeno que se designa por ciclo anovulatório. Nalguns ciclos, os folículos podem começar o processo de maturação, mas esse processo nunca chegar a ser completo; no entanto, o estrogénio continua a estimular a formação do revestimento da parede do útero. Níveis elevados, contínuos e prolongados de estrogénio que provocam um endométrio bastante espesso, podem levar à ocorrência de hemorragias menstruais anovulatórias fora do período normal de menstruação. A hemorragia anovulatória espoletada por uma queda súbita dos níveis de estrogénio é designada por hemorragia de privação. Os ciclos anovulatórios ocorrem normalmente antes da menopausa e em mulheres com síndrome do ovário policístico.
Contracepção hormonal
Enquanto que algumas formas de planeamento familiar não afectam o ciclo menstrual, os contraceptivos hormonais actuam através da sua interrupção. A retroalimentação negativa da progesterona diminui a frequência de libertação da hormona libertadora de gonadotrofina (GnRH) pelo hipotálamo, o que diminui a libertação de hormona folículo-estimulante (FSH) e hormona luteinizante (LH) pela adenoipófise. Os baixos níveis de FSH inibem o desenvolvimento folicular, impedindo o aumento dos níveis de estradiol. A retroalimentação negativa da progesterona e a ausência de retroalimentação positiva de estrogénio na libertação de LH impedem uma afluência de LH a meio do ciclo. Por sua vez, a inibição do desenvolvimento folicular e a ausência da afluência de LH impedem a ovulação.
Método de amenorreia lactacional
A amamentação faz com que haja realimentação negativa nas secreções de hormona libertadora de gonadotrofina (GnRH) e hormona luteinizante (LH). Dependendo da intensidade desta realimentação negativa, pode dar-se o caso da suspensão completa do desenvolvimento folicular, ou desenvolvimento folicular em ovulação, ou então o retomar do ciclo menstrual normal. A supressão da ovulação é mais provável nos casos em que a amamentação seja mais frequente. A produção de prolactina é importante para manter a amenorreia lactacional. As mulheres que amamentam os filhos a tempo inteiro cujos filhos mamam frequentemente observam, em média, um regresso da menstruação catorze meses e meio após o parto. No entanto, existe uma grande variedade na resposta entre mulheres, entre o regresso da menstruação apenas dois meses após o parto até casos de amenorreia até 42 meses pós-parto.
Imagem: orgazmika · BY · Openverse
O ciclo menstrual, além de seu aspecto fisiológico, também pode ser compreendido através de uma perspectiva psicológica e arquetipica, como proposto por seguidores da psicologia analítica de Carl Gustav Jung. Esta visão integrada relaciona as fases do ciclo menstrual com diferentes expressões da energia feminina, representadas por arquétipos específicos que se manifestam ciclicamente. Jung definiu arquétipos como padrões universais presentes no inconsciente coletivo que se expressam através de símbolos e imagens recorrentes em mitos, sonhos e manifestações culturais em diferentes sociedades. Os arquétipos funcionam como estruturas fundamentais do imaginário humano, transcendendo culturas e períodos históricos. Na análise da ciclicidade feminina, quatro principais arquêtipos são frequentemente associados às fases do ciclo menstrual, criando um paralelo entre os processos biológicos e as expressões psicológicas e energéticas.
Imagem: orgazmika · BY · Openverse
A compreensão dos arquétipos femininos transcende a aplicação ao ciclo menstrual, expandindo-se para processos criativos e de autoconhecimento. Alguns pesquisadores investigam como estes arquétipos femininos contribuem para o processo criativo como construção de um processo de individuação, utilizando o exemplo do universo místico de Santa Sara Káli, padroeira dos povos ciganos. A utilização consciente dos arquétipos femininos permite uma "poética do avesso", onde a expressão criativa se torna um testemunho vivo do artista, promovendo encontros afetivos, pessoais e criativos. Esta abordagem demonstra como os arquétipos podem funcionar como ferramentas de autoconhecimento e expressão autêntica, tanto no ciclo menstrual quanto em outros aspectos da experiência feminina.
Imagem: orgazmika · BY · Openverse
A Donzela (Fase Pré-Ovulatória)
Correspondente à fase folicular do ciclo, após a menstruação e antes da ovulação, este arquétipo representa renovação, crescimento e potencial. Biologicamente, é quando o folículo se desenvolve e os níveis de estrogênio aumentam, proporcionando sensação de energia, otimismo e disposição. A Donzela simboliza o início, a primavera do ciclo, caracterizada por energias extrovertidas, criatividade e abertura para novas experiências .
A Mãe (Fase Ovulatória)
Associada ao período ovulatório, quando o óvulo é liberado e há pico de fertilidade. O arquétipo da Mãe representa abundância, nutrição e capacidade de gerar vida. Nesta fase, as mulheres frequentemente experimentam aumento da libido, energia sexual e capacidade de conexão com os outros. É um momento de expressão plena, generosidade e potencial criativo, correspondendo simbolicamente ao verão do ciclo.
A Feiticeira (Fase Pré-Menstrual)
Na fase lútea, após a ovulação e antes da menstruação, manifesta-se o arquétipo da Feiticeira. Este período é marcado pelo aumento da introspecção e intuição. Biologicamente, ocorre a produção de progesterona pelo corpo lúteo, frequentemente associada a mudanças de humor e sensibilidade aumentada. A Feiticeira representa o outono do ciclo, trazendo capacidade analítica aguçada, percepção das sombras e tendência à transformação interior.
A Anciã (Fase Menstrual)
Durante o fluxo menstrual, manifesta-se o arquétipo da Anciã ou Sábia. Este período de renovação celular e energética simboliza a morte e renascimento do ciclo. A Anciã representa sabedoria profunda, conexão com o inconsciente e capacidade de se desprender do passado. É um momento propício para introspecção, descanso e acolhimento de insights significativos, correspondendo ao inverno do ciclo.


