Cícero
Marco Túlio Cícero foi um advogado, político, escritor, orador e filósofo da gens Túlia da República Romana eleito cônsul em 63 a.C. com Caio Antônio Híbrida. Era filho de Cícero, o Velho, com Élvia e pai de Cícero, o Jovem, cônsul em 30 a.C., e de Túlia. Cícero nasceu numa rica família municipal de Roma de ordem equestre e foi um dos maiores oradores e escritores em prosa da Roma Antiga.
Primeiros anos
Cícero nasceu em 106 a.C., em Arpino, uma cidade montanhosa a 100 quilômetros para o sudeste de Roma. Seu pai era um rico membro da ordem equestre e possuía boas relações em Roma. Porém, sendo semi-inválido, não pôde entrar na vida pública, mas estudou extensivamente para compensar. Embora pouco se saiba sobre Élvia, a mãe de Cícero, era comum que as esposas de importantes cidadãos romanos fossem responsáveis pela administração da casa. O irmão de Cícero, Quinto, escreveu em uma carta que ela era uma dona de casa muito parcimoniosa. O cognome de Cícero, seu sobrenome pessoal, vem da palavra latina para grão-de-bico, "cicer". Plutarco explica que o nome foi originalmente dado a um dos ancestrais de Cícero que tinha uma fenda na ponta de seu nariz parecido com um grão-de-bico. Porém, é mais provável que os ancestrais de Cícero tenham prosperado pelo cultivo e venda de grãos-de-bico. Os romanos geralmente escolhiam cognomes pessoais muito práticos: os famosos nomes dos Fábios, Lêntulos e Pisões também eram originários dos nomes latinos para favas, lentilhas e ervilhas. Plutarco escreve que Cícero foi orientado a mudar seu nome quando entrou na política, mas recusou, afirmando que ele iria torná-lo mais glorioso do que Escauro ("de tornozelo inchado") e Cátulo ("filhote de cão").
Família
Cícero casou-se com Terência, provavelmente aos 27 anos de idade, em 79 a.C. Segundo as tradições morais da classe superior romana da época, este foi um casamento de conveniência, mas perdurou, de forma harmoniosa, por cerca de 30 anos. A família dela era rica, provavelmente a casa nobre plebeia dos Terêncios Varrões, o que se encaixava bem com as ambições políticas de Cícero, tanto em termos econômicos quanto sociais. Ela tinha uma meia irmã chamada Fábia, que ainda criança, tornou-se uma virgem vestal, uma honra muito grande. Terência era uma mulher de vontade forte e, segundo Plutarco, "ela demonstrou mais interesse na carreira política do marido do que ela permitiu que ele interferisse nos assuntos domésticos".
Primeiros anos
Seu primeiro cargo na magistratura romana foi o de um dos vinte questores anuais, um posto de "treinamento" considerado pré-requisito para o avanço para uma posição mais séria na administração pública numa diversidade de áreas, mas com uma tradicional ênfase na administração e na contabilização rigorosa das verbas públicas sob o acompanhamento de um magistrado mais sênior ou governador provincial. Cícero serviu na Sicília, em 75 a.C., e demonstrou honestidade e integridade na lida com os seus habitantes. Como resultado, os agradecidos sicilianos pediram que Cícero processasse Caio Verres, um governador da Sicília, que havia saqueado duramente a província. O processo resultante foi um grande sucesso para Cícero. Caio Verres contratou o proeminente advogado de uma família nobre, Quinto Hortênsio Hórtalo. Depois de um longo período na Sicília coletando testemunhos e evidências e persuadindo testemunhas a se apresentarem, Cícero retornou a Roma e venceu o caso numa série de dramáticas batalhas na corte. Seu estilo único de oratória o destacou perante o extravagante Hortênsio. Depois da conclusão deste caso, Cícero passou a ser considerado o maior orador de Roma. O ponto de vista de que Cícero pode ter aceitado este caso por razões pessoais é possível. Hortênsio já era, nesta época, conhecido como o melhor advogado de Roma e derrotá-lo garantiria o sucesso e o prestígio que Cícero precisava para avançar sua carreira. A habilidade oratória de Cícero aparece de forma clara no assassinato da reputação de Verres e em várias outras técnicas de persuasão utilizadas sobre o júri. Um exemplo pode ser encontrado no discurso "In Verrem", no qual ele diz "…com os senhores neste banco, senhores, com Mânio Acílio Glabrião como vosso presidente, não compreendo o que Verres espera conseguir". A oratória era considerada a grande arte na Roma Antiga e uma importante ferramenta para a disseminação do conhecimento e a promoção pessoal nas eleições, em parte por não existirem jornais ou mídia de massa regulares. Cícero não era nem patrício e nem plebeu e sua ascensão política, apesar de sua origem relativamente humilde, tem sido tradicionalmente atribuída ao seu brilhantismo como orador.
Cônsul
Cícero foi eleito cônsul para o ano de 63 a.C. com Caio Antônio Híbrida, que teve um papel secundário. Durante seu mandato, Cícero desmantelou uma conspiração cujo objetivo era assassiná-lo e derrubar a República Romana com a ajuda de forças armadas estrangeiras, liderada por Lúcio Sérgio Catilina. Cícero obteve um senatus consultum ultimum e expulsou Catilina da cidade depois de quatro veementes discursos, conhecidos como Catilinárias, que, até hoje, são considerados como exemplos máximos de seu estilo retórico. As Catilinárias listaram as chicanas de Catilina e de seus seguidores e denunciaram seus senadores simpatizantes como devedores maliciosos e teimosos que dependiam de Catilina como uma esperança final desesperada. Cícero exigiu que todos deixassem a cidade. No final de seu primeiro discurso, Catilina rapidamente deixou o Senado (que, na época, se reunia no Templo de Júpiter Estator). Em seus discursos seguintes, Cícero não endereçou diretamente Catilina. Cícero então proferiu o segundo e o terceiro discursos perante o povo e o Senado e o último, novamente, perante o Senado. Com as "Catilinárias", Cícero queria preparar o Senado para o pior caso possível e apresentou, adicionalmente, mais evidências contra Catilina.
Exílio e retorno
Em 60 a.C., Júlio César, convidou Cícero para ser o quarto membro de sua parceria com Pompeu e Crasso, uma aliança que seria finalmente chamada de Primeiro Triunvirato. Cícero recusou o convite pois suspeitava que o objetivo dos três era minar as instituições republicanas. Dois anos mais tarde, o tribuno da plebe Públio Clódio Pulcro introduziu leis ("Leges Clodiae") ameaçando com o exílio qualquer um que tenha executado um cidadão romano sem o devido processo legal. Cícero, tendo executado os membros da Segunda Conspiração de Catilina quatro anos antes sem julgamento e um adversário público de Clódio, era claramente o alvo da lei. Cícero argumentou que o senatus consultum ultimum o isentava de qualquer culpa ou punição e Cícero tentou angariar o apoio dos senadores e cônsules, especialmente de Pompeu. Quando percebeu que não conseguiria, ele próprio seguiu para o exílio. Chegando em Tessalônica em 23 de maio de 58 a.C. Este exílio fez com que Cícero caísse numa profunda depressão, como se percebe em sua correspondência com Ático: "Seus pedidos evitaram que eu cometesse o suicídio. Mas o que restou pelo qual viver? Não me culpe por reclamar. Minhas aflições superam quaisquer outras que já ouvi antes". Depois da intervenção dos recém-eleitos tribunos Tito Ânio Milão, o Senado votou a favor de reconvocar Cícero do exílio. Clódio lançou o único voto contra o decreto. Cícero retornou para a Itália em 5 de agosto de 57 a.C., desembarcando em Brundísio, onde foi recepcionado por uma multidão entusiasmada e, para seu imenso agrado, por sua querida filha, Túlia.
Guerra civil de Júlio César
O conflito entre Pompeu e Júlio César se intensificou em 50 a.C. Cícero favoreceu Pompeu, pois via-o como um defensor do Senado Romano e da tradição republicana, mas, na época, já evitava confrontar publicamente César. Quando ele invadiu a Itália, em 49 a.C., Cícero, assim como muitos outros senadores romanos, deixou a capital. César, tentando conseguir alguma legitimidade pelo endosso de um senador sênior, tentou agraciar Cícero, mas, ainda assim, ele conseguiu chegar em Dirráquio, na Ilíria, onde estava o grupo de Pompeu. Cícero viajou com as forças pompeianas até Farsalos, em 48 a.C., mesmo tendo rapidamente perdido a fé na competência e na justiça da causa dos pompeianos. Finalmente, Cícero conseguiu irritar seu colega Catão, o Jovem, que afirmou-lhe que ele teria sido mais útil à causa dos optimates se tivesse ficado em Roma. Depois da vitória de César na Batalha de Farsalos, Cícero voltou para Roma muito cautelosamente. César perdoou-o e Cícero tentou ajustar-se à situação e manter seu trabalho político, esperando que César revivesse a República e suas instituições.
Oposição a Marco Antônio e morte
Cícero e Antônio tornaram-se os dois principais políticos em Roma — Cícero na posição de voz do Senado; Antônio como cônsul, líder dos cesarianos e executor não oficial do testamento público de César. As relações entre os dois, jamais amigáveis, pioraram depois que Cícero ter acusado Antônio de estar tomando certas liberdades indevidas na interpretação dos desejos e intenções de César. Otaviano era o filho adotivo de César e seu herdeiro; depois que ele retornou para a Itália, Cícero tentou jogá-lo contra Antônio. Ele elogiava Otaviano, declarando que ele cometeria os mesmos erros de seu pai. Ele atacou Antônio numa série de discursos conhecidos como "Filípicas" (em latim: "Philippicae"), uma referência às denúncias de Demóstenes, considerado o maior orador da antiguidade, contra Filipe II da Macedônia. Na época, a popularidade de Cícero não tinha rivais entre o povo romano.
Tradicionalmente, Cícero é considerado o mestre da prosa latina. Quintiliano declarou que Cícero "não era o nome de um homem, mas da própria eloquência". Atribui-se a ele a transformação do latim, de uma língua modesta utilitária em um meio literário versátil capaz de expressar pensamentos complicados e abstratos com clareza. Júlio César elogiou as conquistas de Cícero dizendo que "é mais importante ter expandido muito as fronteiras do espírito ('ingenium') romano do que as fronteiras do Império Romano". Segundo John William Mackail, "a glória única e imortal de Cícero é que ele criou a língua do mundo civilizado e utilizou esta língua para criar um estilo que, por dezenove séculos, não foi substituído e, em alguns aspectos, sequer foi alterado". Cícero foi também um escritor energético com um interesse em uma ampla variedade de temas, sempre em linha com as tradições filosóficas e retóricas helenísticas na qual ele fora treinado. A qualidade e o fácil acesso aos textos de Cícero ajudaram na distribuição ampla de sua obra e a inclusão dela nos currículos escolares, como revela um divertido graffiti em Pompeia, que admoesta: "Gostarás de Cícero ou serás castigado". Cícero era muito admirado também pelos Padres da Igreja, como Santo Agostinho, que creditou à obra perdida "Hortênsio" a sua conversão final ao cristianismo e São Jerônimo, que teve uma fervorosa visão na qual ele era acusado de ser "seguidor de Cícero e não de Cristo" perante um juízo.
Cícero foi declarado um pagão justo pela Igreja antiga e, por isso, suas obras foram consideradas dignas de serem preservadas. Os bogomilos consideravam-no como um dos poucos santos pagãos. Escritores cristãos romanos e medievais citaram sem ressalvas "De re publica" e "De Legibus" e muitas de suas obras foram recriadas a partir destas citações fragmentárias. Cícero articulou também uma primeira conceituação de direitos, primitiva e abstrata, baseada nas leis e nos costumes antigos. Das obras de Cícero, seis sobre retórica sobreviveram, além de partes de outras oito em filosofia. De seus discursos, 88 foram citados, mas sobreviveram apenas 58.
Cartas
As Cartas de Cícero, trocadas com uma variedade enorme de figuras públicas e privadas, são consideradas como uma das mais confiáveis fontes de informação sobre pessoas e eventos relacionados à queda da República Romana. Apesar de trinta e sete livros de cartas de Cícero terem sobrevivido, outros trinta e cinco foram citados em fontes históricas e são considerados "perdidos" atualmente. Entre estes, cartas a César, Pompeu, Otaviano e a Marco, seu filho.
Cícero aparece como um personagem menor na peça "Júlio César" de William Shakespeare. No cinema, Cícero foi representado pelo ator britânico Alan Napier no filme de 1953 "Julius Caesar", baseado nesta mesma peça. Diversos outros famosos atores, como Michael Hordern (em "Cleopatra", de 1963) e André Morell (em "Julius Caesar", de 1970). Mais recentemente, Cícero foi interpretado por David Bamber na série televisiva Roma (2005–2007), da HBO, aparecendo em todas as temporadas.


